19.8.10

Pode ser o último mesmo



Para começar, vamos lembrar que o filme deveria se chamar Avatar, do mesmo modo que a obra que lhe inspirou, a animação criada por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko no meio da década para o canal Nickelodeon. Isso só não aconteceu para evitar qualquer tipo de confusão com o megahype cinematográfico do ano passado. A opção foi transformar o que era subtítulo, The last Airbender, em título, ou, na adaptação brasileira, O último Mestre do Ar. Foi algo meramente burocrático, como podemos ver, mas essa mudança de nome acabou ganhando um caráter quase profético até mesmo para separar duas realidades tão distintas quanto são a daquela série animada televisiva e a deste lançamento da Paramount que chega aos cinemas a partir desta sexta-feira, dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan. Pois, se for para comparar, a nova versão, muito mais cara e tecnologicamente apurada que o original, não faz a menor justiça ao trabalho de DiMartino e Konietzko.

O que aquela dupla fez a partir de 2005 foi a mais memorável animação desde, pelo menos, que Bruce Timm produziu Batman - The animated series para a Warner na década anterior. A dupla criou um universo de fantasia extremamente coeso, num tempo e num mundo indeterminados, em que quatro grupos de pessoas capazes de dominar os elementos – em uma mistura de coreografia marcial e telecinese – se dividem pela geografia de um planeta muito semelhante à Terra, tudo inspirado em países e culturas de povos asiáticos. A Nação do Fogo é uma espécie de Japão Imperialista, dotada de armas e de equipamentos que remetem à nossa conhecida estética steampunk; o Reino da Terra, cuja capital é cercada por uma muralha de pedra, faz às vezes da China; os Nômades do Ar reúnem monges numa clara citação aos tibetanos; e as Tribos da Água são formadas por habitantes dos círculos polares ao Norte e ao Sul do planeta. A cada geração, um escolhido, o Avatar do título original, reencarna em um desses grupos com a capacidade de dominar todos os elementos e a missão de harmonizar aquele mundo em termos espirituais, garantindo assim a paz de todos.

A primeira temporada do desenho – “Livro 1 – Água” – começava justamente com esse equilíbrio alcançado em um infindável ciclo de reencarnações desfeito. Com o último Avatar desaparecido ainda criança, a Nação do Fogo iniciou um processo de conquista de territórios e de aniquilação dos demais dominadores de elementos. A começar pelo povo no qual o escolhido surgiu pela última vez, os Nômades do Ar, aquele império foi mirando seus tanques e navios a vapor contra todos, restando pouca resistência após um século sem a presença do protetor mítico. A esperança ressurge quando um casal de irmãos adolescentes – ela, Katara, uma ainda inexperiente dominadora da Água, e ele, Sokka, um caçador sem poderes especiais – encontra um criança presa num bloco de gelo nas proximidades do Polo Sul. Logo descobrem que a criança é Aang, o Avatar desaparecido, que por ter ficado cem anos hibernando, travou o ciclo de renascimentos e deixou o mundo no caos em que se encontra. Ele nem mesmo teve tempo de iniciar o treinamento com os demais elementos para tentar resolver a questão. Agora o garoto não apenas é a última pessoa com capacidade para dominar os ventos, como é o único sobrevivente de seu povo, sendo caçado por vários inimigos, entre eles Zuko, um príncipe exilado da Nação do Fogo.

É a partir deste ponto que se inicia o material adaptado por Shyamalan. A tarefa é complexa, pois o que se pode perceber é que o filme foi concebido para ser o primeiro de uma trilogia baseada nas três temporadas de Avatar. É complexa porque cada uma delas tem 20 episódios, somando meio milhar de minutos, a serem compactados em menos de duas horas de cinema a cada vez. Ou seja, cada temporada, ou “Livro” – sendo o segundo “Terra” e o último “Fogo” – , renderia por si sua própria trilogia, em termos de quantidade de material à disposição. E é mais complicada ainda porque, a julgar por este O último Mestre do Ar, o projeto pode muito bem ser abortado no início e o primeiro filme pode mesmo ser o derradeiro como aparece no título. Tamanha é a sucessão de erros cometidos pelo cineasta, não seria surpresa alguma se isso ocorresse. E talvez até fosse melhor mesmo a franquia entrar, no mínimo, em hibernação. Assim como a carreira do diretor, que começou em termos mundiais tão bem, com Sexto sentido, de 1999, prosseguiu em alta com Corpo fechado e, daí em frente, atingiu um declínio cada vez mais evidente até agora, o momento em que quicou de vez no fundo do poço.

Os erros já começam nos minutos iniciais, com uma sequência inacreditavelmente preguiçosa que mostra o Avatar finalmente sendo localizado. A escolha de atores brancos para interpretar o trio de protagonistas já é uma decisão polêmica, com Noah Ringer como Aang e Nicola Peltz e Jackson Rathbone como seus salvadores. Poderia até haver alguma razão artística para tal escolha, mas a verdade é que se houve, ela não ficou visível na tela. Todos os três são muito ruins, principalmente o garotinho no papel principal, que, como ator, é um excelente - mesmo! - artista marcial. Menos arriscada, pelo menos, foi a escolha de Dev Patel como Zuko. Mesmo não sendo, como seria mais de acordo com a lógica da série, japonês, o jovem ator conterrâneo dos antepassados do diretor já mostrou em Quem quer ser um milionário? que é bom no que faz e talvez dê conta de segurar um papel que, ao longo das três temporadas, se revelou um personagem dos mais bem construídos da história das animações.

Se não fosse esse fator humano, pelo menos daria para se elogiar a fidelidade na questão visual da película que respeitou bastante o design de cenários e da estranha fauna daquele planeta apresentados na animação. Destaque para os impressionantes navios de guerra da Nação do Fogo, blindados e com suas enormes caldeiras e canhões lançadores de chamas. Apesar de não mostrar muito do seu funcionamento, é nesses momentos que o lado steampunk desta fantasia se mostra presente. Seria até o caso de reclamar a ausência na tela de uma cena muito interessante dos primeiros episódios da série: a que mostra uma engenhosa porta metálica com múltiplas engrenagens, num exemplo perfeito da melhor engenharia especulativa steamer - mas a verdade é que a obra tem tantos defeitos que reclarmar disso seria perfeccionismo demais.

De volta aos personagens, desde a apresentação deles já é possível intuir que o filme não daria mesmo certo. Sokka, por exemplo, é mostrado desde o início como um alívio cômico da série animada, com múltiplas caretas, atuações atrapalhadas e vários jogos de palavras. É só comparar com sua adaptacão, vivida por Rathbone, que atuou na cinessérie Crepúsculo: sem humor de forma alguma, com aparente paralisia facial e falas burocráticas. Vale o mesmo para o tio de Zuko, outro personagem que teve seu humor bonachão deletado na transposição de mídias. O pior é que essas características eram apenas uma das facetas deles, que ao viverem seus momentos dramáticos ao longo dos episódios, demonstraram ser - ironicamente - muito mais tridimensionais que essa versão 3d dos cinemas. Não houve essa mudança de tom no filme, Zukko e o tio Iroh continuaram basicamente os mesmos do início ao fim: rasos, unidimensionais, chatos. Nem eles nem nenhum outro personagem em cena consegue extrair um mínimo de empatia com o público.

Tudo isso aconteceu por conta dos cortes necessários na trama para fazer cumprir os limites de tempo do cinema, claro. Então, não teve jeito, o que a direção e o roteiro de Shyamalan adotaram como solução foi um resumo drástico daqueles já comentados quase 500 minutos do original, muitos diálogos explicativos - com enquadramentos de close no rosto dos atores que parecem ser ainda mais televisivos que os do próprio desenho animado - e cortes no que ele deve ter considerado supérfluo, porém que, muitas vezes, era justamente a garantia de sucesso de Avatar. Sacrificou-se assim muito não só das personalidades e da coerência daquele universo, como também de vários elementos que, talvez, terão que ser inseridos em um espaço ainda mais apertado depois, caso a franquia tenha mesmo a almejada continuidade.

Há ainda problemas sérios na parte técnica. Aparentemente, o efeito 3d adotado, para seguir a tendência aberta por aquele outro filme, o homônimo do seriado, trouxe os prejuízos que podem ser percebidos no controle de luz e no contraste das cores vistas no cinema. Se ao menos em contrapartida os efeitos valessem a pena e compensassem a perda geral na qualidade da imagem... Nem isso. De todo o filme, apenas algumas rajadas de água e de fogo, além do recorte dos navios de guerra, receberam o tal tratamento especial. Algo perfeitamente dispensável no contexto geral. Mas acredito que nem essa explicação sirva para algo que realmente me impressionou no filme: o diretor, acreditem, perdeu o foco em simples travelings, aquele passeio da câmera. Não apenas uma, mas duas vezes! Não entendo como algo assim, que deve dar demissão por justa causa até mesmo em novela da Record, foi mantido na montagem final. Do mesmo modo como não entendo como o plano sequência que mostra pela primeira vez dominadores de Terra tenha sido filmado de forma tão desanimada, com uma coreografia tão pobre. Não à toa que, para o trailer, escolheram uma outra cena de luta, bem mais impressionante que aquela, pobrezinha.

E foi isso o que Shyamalan fez com a obra de DiMartino e de Konietzko em sua adaptação live action e cinematográfica de um dos melhores seriados animados que já vi na televisão. Num mundo ideal, talvez os 150 milhões de dólares investidos em O último Mestre do Ar tivessem melhor destino, chamando os criadores originais, que mostraram entender, afinal de contas, de audiovisual, para tocar este projeto. Ou mesmo para que a dupla criasse algo completamente novo para os cinemas, uma nova franquia de animação para competir com Toy Story e Shrek, por exemplo. Enfim, qualquer coisa poderia ter acontecido em um mundo perfeito, menos a produção deste filme da maneira como ela foi cometida.

8 comentários:

Maria Claudia Müller disse...

Não poderia concordar mais. Assisti o filme inteiro com cara de Oh My God cat. Esfregando o rosto, inconformada.

Pior que isso, vi vários reviews de pessoas criticando até mesmo a série original, sem conhecê-las. Os críticos não conseguem acreditar que é só o filme que é tão ruim e confuso.

The Last Airbender está em segundo lugar de minha lista de Piores Filmes do Mundo.

Douglas MCT disse...

Muito boa a resenha, Romeu.
Ainda vou assistir ao filme antes de ter minhas impressões -- mas creio que este tenha sofrido do mesmo mal que "A Bússola de Ouro". Não é ruim, tem bom CG, mas perde muito em essência com o original. Enfim.

Já viu esse blog?
http://www.mundoavatar.com.br/
Eu postei algumas vezes no Twitter. Aí tem entrevista com os criadores sobre o spinoff da animação que estreia ano que vem, com uma nova Avatar, Korra, que tem como guia o filho de Aang e Katara, Tenzin.
A trama se passará numa cidade steampunk - acho que você, particularmente, vai pirar ainda mais com essa novidade.

Abraços!

Romeu Martins disse...

Olá, Maria Claudia ;-)

Espero, mesmo, de verdade, que as pessoas não julguem a animação pelo filme antes de dar uma chance a ela. Se toda a publicidade em torno da adaptação servir para atrair mais interessados pelo trabalho original e por futuros trabalhos daquela dupla de criadores, já seria ótimo!

Opa, Douglas ;-)

Pois é, no caso da Bússola eu não cheguei a terminar de ler a trilogia. Com as obras aqui de casa, acabei ficando isolado dos livros... Mas parece que a franquia cinematográfica empacou, né? Não fizeram mais nada além do primeiro filme (do qual eu até gosto, mesmo não podendo comparar com o original).

Estou ansioso para ver esse novo projeto de animação! Com a qualidade demonstrada em Avatar e ainda mais steampunk, certamente vai ser o meu número ;-) Valeu pela dica do blog e pela leitura e comentário!

Abraços

Hélder disse...

Boa resenha... foi ao fundo, considerando vários pontos...
A série, foi de fato um marco para a animação, mas quanto ao filme, vou preferir (ainda assim) assistir antes de concordar.
Abraços!

Romeu Martins disse...

Hehe, obrigado, Hélder, e, sim, recomendo que nunca se leve tão a sério uma resenha a ponto de substituir a própria visão de uma obra. Abraços!

bibs disse...

eu tinha desistido de ir pra cidade vizinha assistir em 3D por conta das suas impressões.
mas aí, fui ler outra resenha no Ambrosia, e desisti de pagar pra ver no cinema ruim daqui. só vejo se Ulisses baixar...sei lá, já não acompanhei a série direito, e ver um filme mal feito... quero não =x

Romeu Martins disse...

Ah, não deixe de assistir aos episódios da série... Te garanto que é apaixonante, pela magnífica construção dos personagens, pela dosagem de filosofia e ação, pelo humor... por tudo o que foi desperdiçado neste filme.

Leonardo Peixoto disse...

É lamentável que O Último do Ar seja um filme tão ruim , já que a animação que o originou seja tão boa !
Falando nela , sua continuação A Lenda De Korra foi excelente e com certeza merecia ser falada aqui , caso o blog volte a ativa ... tomara que volte !