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18.4.12

Entrevista para a revista seLecT

Em fevereiro fui procurado pela colega jornalista Nina Gazire, repórter da revista dedicada a temas como arte, design, cultura contemporânea e tecnologia seLecT, da Editora Três. O assunto de nossa conversa foi bem instigante: ela procurava fontes para uma matéria sobre o assunto principal da publicação para o bimestre de abril/maio, uma edição com um verdadeiro dossiê sobre a água. Especificamente, Nina estava preparando uma reportagem sobre o ponto de vista da ficção científica, como escritores daquele gênero haviam sido inspirados ao longo dos tempos, desde o pioneirismo de Jules Verne e suas 20 mil léguas submarinas, pelo principal fator ligado à vida em nosso planeta.

A matéria acabou de sair, fazendo parte do material chamado Código Água na capa da revista. A pauta sobre o legado da FC na área ficou particularmente ótima, contando com a contribuição sempre erudita e pop de Fábio Fernandes, que ajudou Nina em um completo levantamento do que de mais importante saiu da cabeça de uma infinidade de escritores com a inspiração aquática. Quero aproveitar a oportunidade para registrar aqui no blog a entrevista completa que dei à seLecT.





É possível dizer que o gênero Steampunk é um gênero embebido de um apelo estético maior do que os outros gêneros de ficção científica? Digo isso, pela especificidade imagética e que ele provoca ou idealiza na suas narrativas ao mesclar estilos históricos visuais com certo anacronismo.

Apesar de haver outros gêneros com forte pendor estético, como o cyberpunk, com suas roupas de couro e óculos espelhados, acredito que, sim, o steampunk é mesmo uma parte da ficção científica em que essa questão aparece com mais força. Tanto que existem muitas pessoas que se definem como sendo steamers (ou steampunkers) mesmo sem conhecer muito da produção literária do gênero, apenas pelo gosto de usar roupas de época reinventadas ou mesmo de customizar objetos, como fazer um computador parecer peça antiga, por exemplo. Existem no mundo e mesmo no Brasil estilistas que cuidam de lançar roupas, como corpetes e capas, indumentárias completas, com uma inspiração neovitoriana. Lili Angélika, estilista residente em São Paulo, é um bom exemplo disso, já tive a oportunidade de conferir dois desfiles promovidos por ela na capital paulista.



Dentro deste gênero, existe algum romance ou produção que envolva questões ligadas à ecologia ou catástrofes ambientais? Penso que por ser um gênero surgido a partir dos anos 1980 ao mesmo tempo que as questões sobre o meio ambiente começam ocupar a agenda política com maior ênfase, talvez algum autor tenha trabalhado isso dentro do gênero. Isso é possível? Se sim, quais autores trabalham essas questões?

Essa preocupação já apareceu logo no primeiro romance do gênero, escrito por Bruce Sterling e William Gibson em 1990 (e que vai ser finalmente publicado no Brasil agora em 2012), A Máquina Diferencial. Naquela obra a dupla de autores especulava o que poderia ter acontecido caso a máquina de cálculos complexos (uma espécie de antepassado do nosso computador) projetado por Charles Babage realmente fosse construído no séc XIX. No livro, vemos entre as consequências disso uma espécie de superpotência britânica e o aumento da poluição representada por uma espécie de fog criado pelo homem, envolvendo a ilha. Outro exemplo, publicado no Brasil, é uma história protagonizada por Sherlock Holmes escrita pelo inglês John Gribbin e publicada por aqui na Isaac Asimov Magazine 18. Em português, o conto levou o nome de "O caso do ácido carbônico", no original "The carbon papers". O famoso detetive investiga um caso que é considerado sigiloso pela sua implicação: ele descobriria evidências de que a Revolução Industrial em vigor em sua época iria acabar provocando desastres ambientais em um futuro não muito distante (ou seja, nosso presente).

Mas devo dizer que existe todo um subgênero influenciado pelo steampunk, mas à parte, em que as questões ambientais são o cerne: o greenpunk. A ideia é levar a sério o bordão punk do "faça você mesmo" e buscar soluções para os problemas ambientais. O Brasil vai ter uma coletânea baseada nessas ideias e ideais a ser publicada este ano pela editora Draco. O nome do livro será Solarpunk e sua organização ficou de responsabilidade do escritor carioca Gerson Lodi-Ribeiro (o mesmo que organizou duas outras coletâneas para a editora, Vaporpunk e Dieselpunk). Enviei um conto para concorrer a uma vaga nesse livro, ambientado na maior estufa do mundo, que trata de questões como manipulação genética para se fabricar armamentos e uso alguma tecnologia baseada em painéis solares.


A água sempre esteve presente na literatura fantástica ou de ficção científica de alguma maneira. Ou como histórias passadas em oceanos, ilhas ou os mares de planetas imaginários. Seja no livro de Jules Verne em Vinte mil léguas submarinas ou nos livros de Frederik Pohl e Jack Williamson, o oceano é algo tão inexplorado e perigoso quanto o espaço sideral. A ideia de navegação é usada para esses dois ambientes, que envolvem um imaginário que já foi metáfora para ideologias colonizadoras e etnocêntricas. É possível pensar em uma oposição entre esses dois “lugares” dentro da ficção científica? Essa questão acima não procede no âmbito do Steampunk ?

No livro Deus Ex Machina - Anjos e demônios na Era do Vapor, lançado pela editora mineira Estronho em 2011, tenho um conto steampunk chamado "A Conquista dos Mares". Eu tento explorar algumas metáforas possíveis para o papel dos oceanos em duas facções em guerra nele. Um outro autor que explorou o tema, remetendo diretamente ao caso do livro de Jules Verne que você citou, é o mineiro Flávio Medeiros Jr. na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. No conto "Por um fio" ele também enfatiza a importância dos mares, um território em disputa em uma guerra de duas potências imperialistas.

Existe alguma produção dentro do gênero que tenha alguma questão ligada a água ou tenha ambientes aquáticos como cenário? É possível falar de uma produção dentro do gênero ligada a este âmbito?

Fora esses exemplos que dei enquanto respondia as perguntas acima, não me ocorre nada tão específico assim. Talvez o Gerson Lodi-Ribeiro esteja recebendo contos em que a água tenha uma importância tão central assim, já que as questões ambientais são o centro da antologia que ele está organizando.

12.4.12

Expandindo o círculo

No post anterior, falei sobre o projeto que Fábio Fernandes está capitaneando com a revista (e não editora, como a chamei) The Future Fire para uma coletânea internacional a respeito do Colonialismo, a partir do ponto de vista dos povos oprimidos. Agora vamos ter a oportunidade de conhecer em mais detalhes este e outros projetos dessa parceria na entrevista a seguir, com o próprio brasileiro, nosso conhecido, e com Djibril al-Ayad, o editor dessa engajada publicação.


Quais os objetivos e como está estruturada sua revista?

Djibril al-Ayad: The Future Fire é uma revista de ficção especulativa social e política, o que significa que estamos interessados em histórias *ao mesmo tempo* contem uma história bem, com uma bela linguagem e bastante ação ou uma trama cativante, *e* tenham uma consciência social explícita. Temos um foco particularmente voltado para histórias com conteúdo feminista, queer, racial ou ambiental, pós-apocalíptico ou de distopia política e assim por diante. Tentamos nos manter envolvidos com diversas comunidades online nessas áreas: os seminários #FeministSF no Twitter, o grupo de defesa por uma ficção especulativa queer The Outer Alliance, etc.

A revista é pequena e não foi criada para dar lucro. Temos uma equipe editorial pequena e informal, com membros que mudam periodicamente, e eu sou o editor-geral desde a fundação do zine em 2005. A TFF publica uma media de quarto edições online por ano, que estão disponíveis para leitura online free ou em PDF baixável ou formatos de -book.

Que outros projetos já foram desenvolvidos e ainda estão em aberto pela TFF?

DA: Além do lançamento periódico constante da revista gratuita, estamos atualmente lendo histórias para outra antologia temática, que será publicada em julho, intitulada Outlaw Bodes [Corpos Fora-da-Lei], que pode combinar temas cyberpunk, queer, trans e deficiências, bem como uma série de outros temas de políticas do corpo. Estou ansioso para ver como será a experiência de publicar essas antologias (incluindo a versões de edições limitadas de ebook e impressas para venda), e espero poder fazer mais disso no futuro.

 No caso da coletânea sobre Colonialismo, como se deu a aproximação entre Fábio Fernandes e a revista? De quem partiu a ideia para essa antologia temática?

DA: Esta pergunta na verdade é mais para o Fábio, que respondeu um anúncio que publicamos no ano passado solicitando temas para uma antologia, e enviou um dos dois tópicos que selecionamos (além do de Outlaw Bodies que acabei de mencionar). O tema de colonialismo era bem a nossa área de atividade, era uma proposta ponderosa, e Fábio estava obviamente muito entusiasmado e era bem qualificado para organizar e co-editar uma antologia sobre esse tema. Ele pode nos contar mais de onde veio essa ideia.

Fábio Fernandes: Essa ideia já estava na minha cabeça havia algum tempo, e bastou ler o anúncio da TFF para que a semente germinasse. O que eu sempre quis, desde o tempo em que só escrevia FC em português, era reunir vários nomes de qualidade para fazer um trabalho representativo da cultura brasileira, latina e ir aumentando o círculo. O anúncio me fez ver que havia chegado a hora de expandir esse círculo de uma vez. Para uma revista em inglês, não faz sentido pensar pequeno: é o mundo inteiro ou nada. Então vamos apostar no mundo. Vamos falar de colonialismo do ponto de vista do oprimido, ou no mínimo de quem teve ou tem a experiência cotidiana de viver num país que não vive dentro da esfera econômica anglo-americana, mas sofreu ou ainda sofre forte influência de sua cultura.

O projeto que está levantando recursos em sistema de crowdfunding já conta com o apoio de personalidades da FC mundial como o inglês China Miéville, o grande nome da weird fiction mundial, entre outros. Vocês esperam mobilizar também colaboradores com esse nível de experiência entre os autores a enviar textos?

FF: Certamente. Não esperamos que o próprio China colabore, pois um autor do calibre dele é extremamente ocupado (mas se ele pudesse, eu não recusaria, hehehe). Mas alguns autores já começam a se oferecer de forma muito generosa para colaborar. Paul Graham Raven, editor-chefe da Futurismic.com, se ofereceu para fazer o copy da edição, o que nos deixou maravilhados, pois ele é competentíssimo e muito ocupado. Temos também recebido e-mails de autores para tirar dúvidas sobre que tipos de histórias estaríamos procurando, mas isso ainda vamos explicar melhor daqui a pouco tempo em nosso call for submissions, e não temos dúvida de que muita gente boa (conhecida ou não) vai aparecer com ótimas histórias.

Como vocês avaliam a participação do mundo não-anglófono na ficção científica produzida hoje em dia? Em termos de qualidade, quantidade, relevância e consumo, há motivos para se comemorar ou ainda temos muito caminho a percorrer?

FF: Eu vejo essa participação com muito otimismo. O continente africano tem começado a aparecer cada vez mais com nomes como Jonathan Dotse e Lauren Beukes e projetos como a revista Jungle Jim [Jim das Selvas], cujo próprio nome é uma brincadeira e uma crítica ao imperialismo. O oriente, como China, Japão e Filipinas especialmente, sempre produziu muito em termos de quantidade, embora o mercado seja, assim como o brasileiro, mais fechado (o caso do Japão é diferente por causa da invasão dos animes e dos mangás, e nos EUA a editoria Haikasoru começou a traduzir, nos últimos anos, muitos livros de FC bem interessantes). Mas ainda há muito que avançar: nós brasileiros, e a América Latina em geral, somos muito isolacionistas, eu diria até mesmo elitistas, e está mais do que na hora de isso acabar. Eu gostaria muito de ver contos brasileiros e de outros países da América Latina entre as submissões desta edição.

7.11.11

Steampunk: o presente visita o passado - A entrevista

Como prometido no post anterior, vou publicar aqui as perguntas enviadas pela jornalista Luma Pereira, no dia 6 de setembro, e as respostas que eu lhe dei para a produção da matéria do site da Saraiva.


1. Nome completo, idade, profissão/formação.

Romeu Manoel Coelho Martins, 35 anos, jornalista, especializado em divulgação científica.

2. Desde quando (que ano) você é membro do SteamPunk?

Eu me interesso por steampunk há bastante tempo, desde antes de conhecer o termo, principalmente pela leitura de quadrinhos do estilo. Isso desde o final dos anos 90. Mas podemos dizer que entrei para o movimento a partir de 2008.

3. Por que você decidiu fazer parte do movimento?

Eu frequentava muitos fóruns de ficção científica em uma antiga rede social chamada orkut, alguns de seus leitores talvez se lembrem dela. Por lá eu conheci a iniciativa de pessoas como o Bruno Accioly e o Raul Cândido de criar um Conselho Steampunk no Brasil. Frequentando essas comunidades, fui convidado, no final de 2008, para fazer parte da primeira coletânea nacional do gênero, a Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, da Tarja Editorial. O livro saiu no meio do ano seguinte, em julho de 2009. Naquele mesmo ano, inaugurei o meu blog dedicado ao assunto, o www.cidadephantastica.com.br

4. Quais são suas obras SteamPunk preferidas?

A mais marcante é uma minissérie em quadrinhos lançada no final dos anos 90: A Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O'Neil. Perdi a conta de quantas vezes reli o material nos anos seguintes, bem como suas continuações. Em termos de literatura, tenho todas as coletâneas nacionais que já foram publicadas, desde aquela com meu conto, da Tarja Editorial, até Vaporpunk (de 2010), da Editora Draco; e os lançamentos deste ano, pela Editora Estronho: Deus Ex Machina e Steampink.

5. Como são os encontros?

Aqui em Santa Catarina, existe uma parceria muito forte entre a Loja local do Conselho Steampunk e um grupo chamado Sociedade Histórica Desterrense. São realizados encontros desde agosto de 2010, já tivemos um piquenique e temos um café colonial marcado para dia 10 de setembro, o próximo sábado. Sem falar em algumas palestras que já demos em eventos de quadrinhos e ligados à cultura japonesa. São sempre encontros divertidos, com pessoas com interesses culturais semelhantes sobre a história do Brasil e do mundo, no século XIX, principalmente. Sem falar em gostos semelhantes por literatura, filmes, quadrinhos, animações.

6. Você se caracteriza para ir a todos os lugares? (Figurino de época).

Nesses encontros, sim. Mas nada muito produzido, se comparado com amigas minhas, como Pauline Kisner e Carolina Silva, da Sociedade Histórica Desterrense, que compõem figurinos completos de acordo com vestidos realmente utilizados séculos atrás. Minhas roupas são garimpadas em brechós mesmo.

7. Conte algum momento marcante que você vivenciou nas reuniões dos
membros, ou mesmo na rua (caso você saia de casa sempre com roupas no
estilo SteamPunk).

Não, fora o período de algum encontro ou evento - como uma palestra - eu não uso roupas de época. Acho que o momento mais marcante foi justamente uma palestra sobre o assunto, agora em agosto, que dei ao lado do escritor, professor e tradutor Fábio Fernandes, durante a HQCon, o maior evento de cultura pop de Santa Catarina. Ao final, recebi uma toy art reproduzindo o personagem principal de um dos meus contos. Antes disso, no final de abril, em São Paulo, em um evento de lançamento do livro Mortal Engines, do inglês Philip Reeve, recebi uma comenda do Conselho Steampunk, das mãos de Bruno Accioly e de Raul Cândido. Foi a maior condecoração que aquele grupo já deu a algum escritor e divulgador do gênero. São dois troféus que eu guardo com muito carinho e foram os momentos mais marcantes de todos, desde que entrei para o movimento.

8. Você costuma customizar algum/alguns objeto(s) seu(s) no estilo
SteamPunk? Descreva quais e como foi a modificação, por favor.

Não, eu não sou alguém com habilidades manuais para tanto. O máximo de acessório que eu uso é um relógio de bolso que ganhei de uma ex-namorada quando participamos de nosso primeiro encontro do tipo, no final de 2009, em São Paulo. Minha participação e contribuição é mais escrevendo contos e divulgando a produção nacional em meu blog, mas admiro muito quem faça customização de objetos, roupas, joias e afins.

9. Tem no SteamPunk alguma curiosidade que você gostaria de mencionar?

Bem, eu participo de outros grupos e vejo a situação dos escritores e de pessoas interessadas em literatura de gênero, principalmente de ficção científica, no geral. E posso dizer que nenhum grupo é mais unido, mais interessado e participativo quanto os fãs do steampunk.



10. Quais são seus autores favoritos de literatura SteamPunk?
(Nacionais e internacionais).

No Brasil, o citado Fábio Fernandes, Flávio Medeiros Jr., Carlos Orsi, Gerson Lodi-Ribeiro, Octavio Aragão, Nikelen Witter, Alliah entre outros. Internacionais, não podeira deixar de citar Alan Moore, seu conterrâneo Kim Newman, Philip Reeve, os americanos Bruce Sterling e William Gibson, os portugueses Jorge Candeias e Yves Robert. É uma longa lista.

11. Quais são seus filmes favoritos no estilo SteamPunk? Por quê?

Não são muitos filmes que sejam realmente steampunk dos quais eu goste. Acho que ainda não se encontrou direito o tom no cinema, mesmo em adaptações de obras que eu gosto. O filme da Liga Extraordinária, por exemplo, é muito ruim, assim como a adaptação que M. Night Shyamalan fez do excelente desenho animado Avatar - A lenda de Aang (no cinema, o Último Mestre do Ar), ou ainda As Loucas Aventuras de James West, com Will Smith, que é baseado em um seriado dos anos 60. Gostei da versão do Guy Ritchie para Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr., que tem uns bons toques do gênero. E gosto muito do anime Steamboy, de Katsuhiro Otomo, que foi feito originalmente como um longa-metragem para o cinema.

12. Existe algum outro costume SteamPunk, além do interesse por obras
desse estilo, dos objetos e das vestimentas?

O steampunk é uma verdadeira cultura. Existem grupos, como Abney Park, que fazem música se identificando com o gênero, há games, quadrinhos, tatuagens. Um livro lançado nos EUA este ano faz um levantamento de todas essas vertentes culturais: a Steampunk Bible, editado por Jeff VanderMeer e S.J. Chambers. Eles fizeram uma pesquisa sobre tudo o que rola no mundo a respeito, incluindo, no Brasil.

13. Por que "Frankenstein", de Mary Shelley é considerada uma das
principais obras SteamPunk?

Bem, aqui temos uma divergência. Eu sou de uma corrente que acredita no seguinte: obras escritas no século XIX, como Frankenstein ou 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne, ou A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, não podem ser consideradas steampunk. São livros do seu tempo, pioneiros da ficção científica. Só é steampunk se for um olhar de alguém em relação ao passado. Dessa forma, Fábio Fernandes que revisitou a obra de Mary Shelley em "Breve História da Maquinidade", naquela coletânea da Tarja Editorial, escreveu algo steampunk. Mas a escritora, em seu tempo, estava fazendo literatura de seu tempo, e não algo retrofuturista, que é o que define o gênero steampunk. Esta é minha opinião sobre o assunto, outras pessoas defendem posições diferentes.

14. Qual a importância desse movimento na sociedade atual?

O steampunk é uma excelente maneira de se rever o passado nem tão remoto e repensar possibilidades. Levar em consideração como os fatos poderiam ter acontecido de maneira diferente, dando origem a um mundo totalmente diferente. É um excelente exercício de imaginação. Para quem escreve ficção científica é uma libertação daquele chavão que diz ser este gênero algo somente sobre o futuro. O steampunk prova que também pode ser sobre o passado e sobre um futuro que deixou de acontecer. Para o bem ou para o mal.

5.10.11

Anunciados os Consulados do Conselho Steampunk

Como já é tradição, periodicamente a Tor dot Com dedica semanas no ano à cultura steamer. E também já está ficando tradicional a participação de Fábio Fernandes falando do cenário brasileiro em tais ocasiões. Nesta terça-feira, o escritor e tradutor carioca entrevistou seu conterrâneo, o empresário e agitador cultural Bruno Accioly para falar das novidades do Conselho Steampunk nacional. Na conversa, além da divulgação das novidades em relação à nossa produção literária, foi anunciada uma informação em primeira mão e que deverá estender ainda mais a influência do Brazilian Steampunk pelo mundo ao mesmo tempo em que os entusiastas locais do gênero poderão ser ainda mais favorecidos com um maior intercâmbio cultural internacional. Segue a tradução do trecho em que são mencionados os futuros Consulados Steampunk:


Para onde você vê o steampunk indo por sua comunidade? Até onde vocês pretendem ir?
O Conselho Steampunk juntou-se à Sociedade Retrofuturista que usará o mesmo modelo adotado por nós para promover outros gêneros, como Dieselpunk e Cyberpunk. Acreditamos que este processo é importante para um intercâmbio entre os gêneros e que todos podem se beneficiar do formato de sucesso que fomos fortuitos o suficiente em desenvolver.
Mas, em relação ao steampunk propriamente, a notícia é promissora, e vemos o futuro de forma ambiciosa.
Nós, obviamente, esperamos ver uma Loja em cada estado do nosso país, mas recebemos comentários de colegas americanos e europeus sobre como seria possível exportar o Conselho Steampunk.
Recentemente, houve um interesse vindo do exterior em, de alguma forma, importar o nosso modelo de expansão. Isso acabou nos ajudando a criar um conceito interessante que, acredito, pode beneficiar muito o steampunk no Brasil e talvez em todo o mundo.
Nossa visão é que forçar a entrada de uma organização essencialmente brasileira em outro país é algo intrusivo demais para realmente beneficiar o movimento steampunk. É por isso que, depois de algumas discussões, chegamos a uma solução enriquecedora para expandir a nossa influência de uma forma que pode interessar outras organizações de cultura steamer.
Atualmente, estamos trabalhando para a fundação do primeiro Consulado do Conselho Steampunk, cuja função será exatamente o intercâmbio de informações sobre a produção da cultura steamer nos países em que estaremos presentes. O papel de um Consulado será o de oferecer naquele local informações sobre a produção brasileira e o de transmitir para o Brasil informações sobre a produção daquele país. O Consulado também irá funcionar como um meio de troca de informações históricas do século XIX do país em que serão alojados e sobre a história recente brasileira, que, acreditamos, irá enriquecer consideravelmente a qualidade da informação disponível sobre o período.
Esta ainda é uma ideia nova, e nós estamos estabelecendo as bases teóricas de tudo, mas o primeiro Consulado será fundada no país cuja tecnologia naval foi responsável pela nossa descoberta: Portugal.

17.9.11

Le Steampunk Brésilien

A coautora da Steampunk Bible, Selena Chambers, está promovendo o tour europeu de lançamento e divulgação daquela obra de referência para toda a cultura steamer. Em terras gaulesas, ela deu uma entrevista ao site French Steampunk, que se anuncia como o noticiário da comunidade steamer, dieselpunk e retrofuturista francófona. Naquela conversa, a especialista em Edgar Allan Poe chamou a atenção para "le Steampunk Brésilien" citando nominalmente a Fábio Fernandes e a mim. Abaixo, vou fazer minha tentativa canhestra de traduzir trechos da entrevista que pode ser lida na íntegra aqui:

Perguntada sobre o porquê de não haver tantos trabalhos não-ocidentais no gênero, ela dá exemplos de material fora da esfera anglo-americana, como o do artista chinês James Ng e cita um muçulmano que também se inspira na temática. "Voltando ao lado ocidental", responde Chambers, "há o steampunk brasileiro com Fábio Fernandes e Romeu Martins, que não apenas deixam a marca do steampunk na escrita do país, como também são interessados nos operários e nos heróis esquecidos do século XIX".  Mais à frente, quando pedem que comente sobre o futuro dessa subcultura, ela volta a citar o Brasil:

Na minha opinião, o futuro do steampunk é baseado em duas coisas. Primeiro há todos esses movimentos internacionais, como o steampunk francês e brasileiro, que respiram vida e novas ideias em movimento. A segunda coisa é a ética do "Faça você mesmo", que nunca abandonou o steampunk graças a pessoas como Margaret Kiljoy, culminando com o Green Punk com o qual ela promove no estilo de vida para uma existência mais autossuficiente. Mas não importa em que direção vá o steampunk, tenho certeza de que terá um futuro brilhante pela frente. Acho que estamos apenas começando a ver o seu potencial e há muitas outras coisas por vir.

16.9.11

Faça você mesmo

O título acima é o mesmo que o jornalista especializado nos anos 80 Guilherme Bryan deu a uma matéria que escreveu para a Revista do Brasil sobre os 40 anos do movimento punk. Tive o prazer de ser um dos entrevistados para a produção do texto, ao lado de alguns caras que eu ouvia muito durante minha adolescência, como o Clemente, da banda Inocentes. Falei, como não podia deixar de ser, sobre o controverso lado punk da cultura steamer. Seguem trechos, a íntegra pode ser lida aqui:


Essa maneira de produção cultural influenciou outras artes, caso da literatura de ficção científica. O jornalista Romeu Martins é especialista na área e autor de contos publicados em 2009 na coletânea Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, que acaba de ganhar edição [parcial, na Steampunk Bible] em inglês. “Tudo começou no cyberpunk, na segunda metade dos anos 1980. O movimento liderado por William Gibson e Bruce Sterling levou a ideologia punk ao mundo da ficção científica, ajudando a dar maior relevância aos verdadeiros produtores do gênero – os escritores – e incluindo uma temática muito mais politizada e não conformista”, explica Romeu. “Quando o escritor K.W. Jeter escreveu uma carta em 1987 para a revista Locus batizando o steampunk, ele apenas fazia uma analogia com o cyberpunk, mas o sentido original, de vagabundo, marginal, começava a se perder”, relata.

“O modo punk de ver o mundo deu maior relevância aos verdadeiros produtores culturais, em todas as vertentes em que se manifestou. Acredito que, mesmo antes da música, já se podia ver isso nos quadrinhos, a partir do momento em que Robert Crumb passou a editar ele mesmo suas revistas e a vendê-las em um carrinho de bebê nas esquinas de São Francisco, na metade dos anos 1960. Esse foi o espírito do jornalista Legs McNeil ao resgatar aquela palavra, que já aparecia nas peças de William Shakespeare, há quase meio milênio, e batizar um fanzine com ela, fazendo com que o termo punk entrasse definitivamente para o vocabulário da contracultura”, acrescenta.

27.8.11

A questão do punk

Comentei no twitter a respeito de uma ferramenta que lamento muito não existir de forma funcional nem no próprio site nem nos clientes dele que costumo utilizar, como o Ginga e o Hootsuite. Seria um campo de busca limitado a nossos contatos por lá, algo que seria bastante útil para nos mantermos atualizados de maneira rápida e simples sobre o que falam nossos followers a respeito de determinado termo ou expressão. No caso do assunto que é o principal deste blog, por exemplo, eu teria como saber com muito mais presteza sobre que tipo de discussão a respeito do steampunk as pessoas que sigo estão fazendo. Seria útil no dia a dia e mais ainda em períodos como o atual, em que ocupações ligadas a eventos, trabalho e saúde têm diminuído o tempo e a atenção que posso prestar àquela rede.

O prólogo/nariz de cera é em virtude de um artigo que uma dessas pessoas que sigo postou na última quarta-feira, dia 24, pondo em questão um dos pontos mais polêmicos a respeito do próprio termo steampunk e seus aparentados: o sufixo punk que teima em se agarrar a todo e qualquer exemplo do retrofuturismo que se invente. O autor do artigo é Alexandre Mandarino, escritor, tradutor, meu editor na edição de estreia da revista digital Hyperpulp e meu futuro colega em uma coletânea dedicada a Sherlock Holmes. E o artigo em questão é "Colocando o 'punk'  em 'steampunk'" que pode ser lido no blog Hypervoid. Como falta a tal ferramenta no twitter e o tempo e o número de pessoas que sigo por lá não me permitem ler tudo o que se posta no site de microblogs, só fiquei sabendo do texto nesta sexta-feira, dia 26, e só hoje pude escrever este post para complementar o debate por aqui.

O texto de Mandarino, muito bem embasado na história do movimento punk para além da literatura, chegando a esferas como música e comportamento, tem trechos como o que segue:

Uma coisa sempre me incomodou no termo steampunk e em todos os demais coloque-sua-fonte-de-energia-aqui-punk que se seguiram: o termo “punk”, nestes casos, é usado de forma quase inversa à de seu uso em "cyberpunk”. Explico – e para isso voltamos aos anos 80. Aquela época onde a maquiagem de Robert Smith e os teclados de Daryl Hall e John Oates ainda eram excludentes, quando os diferentes mundos oitentistas ainda não haviam sido reabilitados por figuras como o sensacional Chromeo. Onde o Atari 2600 consolidava o seu reinado de 8 bits e quadrinistas como Frank Miller e Bill Sienkiewicz estavam ainda em seus primeiros e mais importantes passos. É nesse cenário que um canadense chamado William Gibson superou todas as suas dificuldades tecnológicas oriundas do fato de sequer possuir um computador, mixou beatniks e termos de fanzines phone phreaks e o resto é história. Mas atenção: foi o termo “punk” que foi acrescentado ao termo “cyber”, não o contrário. E isso faz toda a diferença (...)

Curiosamente esse mesmo assunto tem sido um dos temas em que mais tenho discutido neste mês. Ele já foi tocado de passagem em dois posts deste blog que acabaram de comemorar seu primeiro aniversário, chamados apropriadamente de Festival Punk e Festival Punk 2. Os mesmos posts, um ano depois, serviram de base para a palestra que Fábio Fernandes e eu demos em um evento de quadrinhos florianopolitano no final de semana de 13 e 14 de agosto. Por sua vez, em uma versão resumida daquela mesma palestra, voltei a tocar no assunto no final de semana seguinte, em outro evento, agora ligado mais à cultura japonesa. E, para o cúmulo da coincidência, na véspera da postagem de Alexandre Mandarino, ou seja, na terça-feira, dia 23 de agosto, voltei a tocar na mesma tecla. Esta última ocasião, foi respondendo a uma entrevista por email que me foi enviada por Guilherme Bryan, jornalista especializado na cultura brasileira dos anos 80, que conheci naquele primeiro evento de quadrinhos em Florianópolis, e estava preparando uma matéria a respeito do movimento punk para a Revista do Brasil.


Vou tomar a liberdade de reproduzir a pergunta de Bryan e a resposta que lhe dei, acho que resumem minha opinião a respeito da controvérsia sobre aquelas quatro letras e o que ela tem a ver com a imagem abaixo:




2 - De que modo o punk se manifesta tanto no steampunk quanto no cyberpunk?
Tudo começou no cyberpunk, na segunda metade dos anos 80, quando o prefixo realmente manteve seu sentido original. O movimento liderado por William Gibson e Bruce Sterling levou a ideologia punk ao mundo da FC, ajudando a dar muito mais relevância aos verdadeiros produtores do gênero - os escritores - e incluindo uma temática muito mais politizada e não-conformista a um mundo que não poderia ficar apenas na mão dos velhos padrões. Quando o escritor K. W. Jeter escreveu uma carta em 1987 para a revista Locus batizando o steampunk, ele apenas fazia uma analogia com o cyberpunk, o sentido original, de vagabundo, marginal, começava a se perder, pois a cultura steamer não carrega o mesmo ethos "revolucionário" do cyberpunk.
Isso foi ficando ainda mais evidente quando novos subgêneros de ficção ambientada no passado começaram a ser propostos, como o dieselpunk, a princípio um cenário pensado para os games em que a ação é nos anos entre as guerras do século XX, e também o sandalpunk (período greco-romano), o clockpunk (Renascença) e muitos outros. O prefixo continua a aparecer, mas houve um verdadeiro sequestro semântico: deixou de significar aquilo que vinha desde os tempos shakespereanos, passando pela contracultura de McNeil, para ser sinônimo de anacronismo ficcional. Mais ou menos como o X dos sanduíches vendidos no Brasil veio do cheeseburger americano, deixando o sentido de origem de lado e servindo até para batizar um X-queijo. O punk só era mesmo punk no cyberpunk, do steampunk em diante foi perdendo sua característica inicial.
É isso. Se dependesse apenas de mim, garanto que o tal sufixo seria abandonado de vez pois ele tem a tendência de trazer mais calor que luz para um debate que faz tanto sentido quanto perguntar aos Ramones o porquê de eles não usarem cabelo moicano. Por falar nisso, encerro com outro comentário que fiz lá pelo twitter naquela mesma terça-feira, 23 de agosto: "O moicano é o novo mullet". Até a próxima.




11.8.11

Sherlock Holmes no rádio

Demorou, mas saiu! Marcelo Fernandes, o repórter que me entrevistou na Rádio Guarujá sobre o personagem mais famoso de Arthur Conan Doyle postou o material em seu canal no YouTube. Na oportunidade, falei sobre um evento promovido pela Sociedade História Desterrense, sobre curiosidades a respeito da criação do detetive símbolo da Era Vitoriana e também antecipei a divulgação de Sherlock Holmes - Aventuras Secretas, a coletânea que será publicada ainda este ano pela Editora Draco reunindo contos nacionais, incluindo o meu "O Caso do Desconhecido Íntimo". Ficam os links para a conversa, que foi bastante agradável: a primeira e a segunda parte.

6.7.11

Semana Sherlockiana - Parte IV: A entrevista

E atenção: notícia urgente! Era assim, nos meus tempos de bolsista do programa Universidade Aberta, que começávamos alguma nota de última hora na programação radiofônica que produzíamos diariamente ainda como estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Deu vontade de reviver esse tempo com a notícia que recebi agora há pouco de Jessé Fialho, um dos colegas de diretoria da Sociedade Histórica Desterrense: fui convidado para dar uma entrevista a uma das rádios mais populares do estado sobre o tema desta semana temática do blog. Isso mesmo, Sherlock Holmes na programação de Amplitude Modulada de Florianópolis!

Nesta quinta-feira, 7 de julho, a partir das 13h30min, estarei na Rádio Guarujá, para uma conversa sobre o Círculo Literário Cruz e Sousa e o evento que vamos promover em parecia com a Livrarias Catarinense no próximo sábado, às 14h: o bate-papo sobre Um estudo em vermelho, o primeiro romance sherlockiano de Conan Doyle. Meu objetivo é também falar sobre a SHD e o livro de contos Sherlock Holmes - Aventuras Secretas que a Editora Draco vai lançar ainda este ano com um texto meu. Se puderem, sintonizem seus browsers no link que aparece neste post. Upgrade: o programa foi gravado hoje, dois blocos de uns nove minutos cada um, e vai ao ar nesta sexta-feira. O material vai ficar postado também neste canal do Youtube.

27.6.11

Dieselpunk - Capa e Capista

No dia 5 de agosto do ano passado, tive o prazer de publicar neste blog uma entrevista com o editor e a primeira amostra da capa de um projeto que se mostrou vencedor em nosso mercado literário: a coletânea Vaporpunk. Quase um ano depois, vou novamente entrevistar o capista e editor Erick Santos (que assina trabalhos gráficos como Erick Sama) a respeito de uma obra que dá prosseguimento àquela aposta da editora Draco na ficção retrofuturista lusobrasileira. A nova coletânea Dieselpunk teve sua capa divulgada esta manhã gelada de segunda-feira e, enquanto digito esta introdução, já havia sido vista nada menos que 1.026 vezes. Nesta conversa, vocês poderão saber um pouco mais sobre o processo de criação dela e ainda, pela primeira vez, ver com mais detalhe como será o livro com a capa aberta (cliquem na imagem abaixo para ampliar; ainda faltam os textos de apresentação da contracapa e das orelhas, como poderão notar). Vamos à entrevista:


Esta capa ao mesmo tempo remete à da coletânea anterior, com uma nova cena retrofuturista emoldurada por um painel, ao mesmo tempo que mantém uma identidade própria e condizente com o que podemos esperar de uma obra dieselpunk. Quais foram as suas fontes de inspiração para o trabalho?

Enquanto em Vaporpunk busquei retratar a tecnologia tão presente na estética steampunk, em Dieselpunk quis enfatizar a vida nas cidades e por isso a escolha de um prédio estilo art decó, estilo que representa a época da euforia com o progresso no começo do século XX. Além disso, quando penso em Dieselpunk, penso nos holofotes e luzes que dão vida às cidades, e para o contexto retrofuturista pus uma polícia aérea que monitora a cidade vibrante que nunca dorme, uma linha de trem-bala que atravessa os arranha-céus que cobrem toda a paisagem.

Referências óbvias estão nos desenhos do movimento artístico futurista, cartazes como os do filme Metrópolis, de Fritz Lang (e mesmo o filme de animação homônimo a partir do trabalho de Osamu Tezuka), e os cartazes e quadros modernistas. Abri mão de referências consagradas como a Bauhaus ou a estética Nazista, ficando focado nas representações da época pelo cinema e cultura pop, com pequenas visitas às artes plásticas, além, é claro, das próprias criações de artistas contemporâneos que se dizem inspirados pelo dieselpunk. Diante de um repertório imagético tão grande fica fácil se perder, por isso busquei ter cuidado na distribuição de elementos, optei por poucas cores na moldura para representar o concreto e dar vida à imagem da cidade de São Paulo reimaginada sem torná-la poluída.


Na entrevista anterior para este blog, exatamente sobre a capa da Vaporpunk, você me disse que ela havia consumido cerca de 20 horas de trabalho. Quanto o cronômetro marcou desta vez? Foi um processo mais simples, pela experiência acumulada, ou foi como começar do zero, com outros tipos de programas?

Foram cerca de 30 horas de trabalho. Isso contando desde a concepção, montagem da imagem de São Paulo, criação das formas e planejamento da composição em 2D, modelagem em 3D, texturização e por último, o que tomou muito tempo -- cerca de 10 horas entre tentativas e erros --, os testes de iluminação e renderização para criar a atmosfera pretendida. Os programas utilizados foram exatamente os mesmos, mas antes de chegar ao 3D passei muito mais tempo no 2D criando as formas adequadas que levariam as extrusões e texturas. O processo foi muito mais simples e consciente graças justamente à experiência anterior, mas por outro lado as minhas exigências pessoais eram muito mais altas para tentar superar o resultado de Vaporpunk e atingir uma evolução real como artista.



Primeiro Vaporpunk, agora Dieselpunk, o organizador das coletâneas, Gerson Lodi-Ribeiro, já mencionou uma terceira a se chamar, pelo menos provisoriamente, de Solarpunk. Será uma trilogia ou ainda haverá mais apostas nessa área?

Solarpunk, que terá sua guia anunciada oficialmente no Fantasticon 2011 pelo próprio Gerson Lodi-Ribeiro, fecha a Trilogia Punk da Draco, mas nada impede de explorarmos ambientes tradicionais e conhecidos dos fãs de ficção científica como o Cyberpunk ou outros subgêneros de retrofuturismo ou futurismo. O mais importante dentro de nosso próprio trabalho é que essa coleção Punk inspirou iniciativas que vieram a nós depois como a Space Opera, por exemplo, grande sucesso que terá continuação, e é motivo de orgulho como realização de antologia temática trabalhada desde as regras do organizador até a sua apresentação gráfica, um projeto editorial que busca ter solidez e sustentação neste nosso mercado tão carente de títulos e que ainda precisa de muita divulgação e distribuição para ter representatividade efetiva nas livrarias e no público fora do fandom.




Novamente voltando a nossa primeira conversa, você me disse: "Quero trabalhar pelo dia em que o Brasil inverterá a situação e oferecerá as tendências a serem seguidas pela literatura estrangeira". Esta coletânea é uma obra desbravadora, pois não tenho notícias de uma outra antologia dedicada exclusivamente ao dieselpunk em nenhuma parte do mundo. Também tivemos recentemente a notícia de que um livro lançado por sua editora, A Corrente, do escritor e quadrinista Estevão Ribeiro, receberá versão para o mercado italiano. Este é o caminho que a Draco planeja seguir?

Sobre a escolha do tema, pensei em primeiro lugar na evolução natural da estética steampunk e nas possibilidades estéticas e visuais, como desenhista que sou. As ótimas oportunidades imaginativas que o gênero apresentou no cinema, como nos filmes Captain Sky e Rockteer, e nos games como Bioshock e a série de RPGs Fallout, que não é estritamente Dieselpunk, mas trata do contexto do sonho americano com um futurismo pessimista. Ora, Brasil e Portugal têm histórias riquíssimas e imaginar aventuras que pudessem remeter ao noir, ao clima progressista e otimista da Belle Époque, às contestações modernistas e aos regimes nacionalistas e toda a euforia da civilização de toda a primeira metade do século XX são o suficiente para ousarmos dar esse passo. Como material para criação narrativa os potenciais são imensos e por ter à frente do projeto um especialista em História Alternativa como o Gerson Lodi-RIbeiro me deixou bem respaldado para saber que a especulação seria tratada com a seriedade e o cuidado que a obra merecia. Se a antologia é desbravadora, fico contente, mas o ideal era dar continuidade a um trabalho que funcionou muito bem com Vaporpunk e espero poder levar esse projeto a ser conhecido fora do Brasil, não por um catáter de pioneirismo, mas por ser um projeto sólido e relevante dentro do subgênero retrofuturista.

A publicação na Itália é uma realização muito importante e nos mostra que é nessa junção do trabalho do autor com o editorial que poderemos ter produtos atrativos. Nessa negociação feita pelo próprio Estevão Ribeiro foi muito satisfatório entender que A Corrente estava sendo licenciado como projeto editorial, não apenas pelo seu título como romance. E é esse trabalho que a Draco busca, fazer dos livros projetos coerentes e sedutores, complementar o texto através do desenho gráfico e que após o contato com as capas o público possa ter a melhor experiência com o seu conteúdo, sendo elas o começo e o fim desse passeio do leitor, não somente uma ferramenta para impulsionar vendas.



Diante do belo trabalho gráfico destas capas e de outros lançamentos com o selo do dragão, pergunto: Erick Santos não tem vontade de lançar sua própria graphic novel?

Agradeço muito a avaliação que faz do nosso trabalho. A linha de HQs da Draco vem esse ano com o álbum Para tudo se acabar na Quarta-feira, baseado no conto de Octavio Aragão, arte de Manoel Ricardo. É um trabalho que tem levado muito tempo para um resultado satisfatório e como trabalhei com edição de arte em quadrinhos por vários anos, sei das enormes dificuldades em se fazer bem feito. O trabalho de quadrinistas é duro e muito extenso, portanto não teria condições de me dedicar a isso se não fosse em caráter exclusivo, portanto prefiro editar bons artistas que queiram lançar seus álbuns, de preferência romances gráficos, para termos mais uma linha dentro da editora para realizar e levar às livrarias coisas interessantes.

12.6.11

"Isso realmente me interessa"

Bruce Sterling é a única personalidade viva para quem dediquei uma tag neste blog. Clicando aqui, os leitores podem ver os motivos para essa minha homenagem pessoal a ele, tantas foram as citações que o escritor, uma força fundamental pra o steampunk literário no mundo, fez a respeito da produção brasileira no gênero. Um tanto atrasado, constato que em uma entrevista concedida no final de 2010, o texano havia manifestado um interesse ainda maior no Brazilian Steampunk do que já demonstrara anteriormente. Foi no dia 17 de dezembro, em uma entrevista concedida a Tiffany Lee Brown, do site Eureka Idea Lab. Abaixo, seguem a foto que ilustrou a convesa, a introdução da entrevista, a pergunta e a resposta em que são citados o retrofuturismo e o Brasil traduzidas para o português:



Mais conhecido por seus dez romances de ficção científica, incluindo o vencedor do Clarke Award do ano 2000, Distratiction, o vencedor do Campbel Award de 1989, Piratas de dados e o vencedor do Hugo Award de 1999, Taklamkan, Bruce Sterling também é famoso por sua inteligência, pelo pensamento original e pela clareza com que ele o apresenta (Upgrade: Fábio Fernandes me avisou que, na verdade, Taklamkan recebeu o Hugo de 1999 na categoria conto e Distraction, no mesmo ano, o de romance). É por isso que você pode vê-lo no Nightline da ABC, na  BBC, no The Late Show e na MTV, ou ler as suas palavras na Time, no Wall Street Journal, na ID ou na Nature.

Editor contribuinte da revista Wired, ele também escreve contos, resenhas de livros, crítica de design e muito mais. Suas obras incluem a não-ficção The Hacker Crackdown, Tomorrow Now: Envisioning the Next Fifty Years e Shaping Things. Recentemente, foi o curador convidado para o Share Festival of Digital Art and Culture em Torino, na Itália, e o visionário residente no Sandberg Instituut, de Amsterdã.

Uma vez que, aqui no Eureka Idea Lab, realmente gostamos de falar com pessoas que são muito mais espertas do que nós, achamos que Bruce deveria ser a nossa próxima vítima para uma entrevista (...)

Você está creditado, juntamente com o seu coautor William Gibson, por ter dado o pontapé inicial na tendência steampunk, em 1990, com o fabuloso  romance The Difference Engine. Por que as pessoas têm esta fascinação com tecnologias das eras Vitoriana e Eduardiana? Qual é o apelo que existe para você, pessoalmente?

Steampunk é um grande tema, e suas origens e desenvolvimento são complexos. O apelo pessoal que encontro no steampunk está em assistir a algo feito por um punhado de escritores de ficção científica, tendo raízes em lugares como Polônia e Brasil. Isso realmente me interessa. O cyberpunk brasileiro é surpreendentemente persistente e popular - mas o steampunk brasileiro é muito mais. Então, minha pergunta pessoal é esta: o que isso demonstra sobre o Brasil? Uma vez que entendo muito bem o gênero, estudar o steampunk brasileiro é como ter um pé-de-cabra pessoal para abrir a cultura brasileira.

7.5.11

Na revista do Overmundo

O meu primeiro contato com alguns dos melhores escritores de ficção científica do Brasil foi como resenhista e entrevistador de um projeto que chamei de Ponto de Convergência. Foi uma série programada para focar em dez livros, de dez autores diferentes, publicados por dez editoras distintas nos dez primeiros anos do século XXI. O material foi integralmente publicado no portal cultural e colaborativo Overmundo, onde ainda está disponível em meu perfil por lá. Uma das entrevistas feitas para aquele projeto vai estar presente em um novo produto derivado daquele portal: uma revista eletrônica gratuita que poderá ser lida a cada dois meses em diferentes mídias. O editor desta nova inciativa, Viktor Chagas, entrou em contato comigo para publicar nestas páginas virtuais a conversa que tive com Fábio Fernandes, por ocasião da minha resenha de seu ebook Interface com o vampiro. Abaixo, seguem o convite e o release do lançamento da revista, que vai acontecer na cidade do Rio de Janeiro, na próxima semana.



Revista Digital Overmundo
A espera foi recompensada. Na próxima segunda-feira, 9 de maio, às 19h, na Sala Multiuso do Espaço SESC Copacabana (Rio de Janeiro, RJ), o Overmundo lança enfim sua revista em versão digital, em dois formatos iniciais: como um aplicativo para iPad/iPhone/iTouch e em PDF para outros leitores eletrônicos. Resultado do Prêmio Sesc Rio de Fomento à Cultura, na categoria novas mídias 2010, a Revista Overmundo terá distribuição gratuita, e periodicidade bimensal. Esperamos você lá!

3.2.11

Damas e cavalheiros: a Vapor Marginal - Entrevista

Como eu já havia postado antes por aqui o trecho do conto "Modelo B" que foi publicado na revista Vapor Marginal, farei o mesmo neste e no próximo post com minhas duas outras participações na revista do Conselho Steampunk. Começando com a entrevista que Cândido Ruiz fez comigo, via Gtalk, sobre este blog, a noveleta homônima e diversos outros assuntos. Abaixo, seguem alguns trechos, a íntegra pode ser lida na revista:

Vapor Marginal: Bem, falemos um pouco então sobre "Cidade Phantástica". A Noveleta e o universo que a permeia. Inspiração?

Romeu Martins: Foi tudo planejado a partir do convite para escrever na coletânea. Eu nunca tinha pensado a sério em escrever algo no gênero, apesar de que em um conto dos terroristas, "Espírito animal", já dava uma brecha para algo assim. Na época do convite, feito por Gian Celli, estava comprando uma série de revistas de uma coleção da História Viva sobre as estradas de ferro no Brasil. Numa das edições, a primeira, eles relembravam que o Barão de Mauá era citado no livro Da Terra à Lua de Jules Verne. Esse foi o embrião de tudo. (...)

Vapor Marginal: Este resgate da cultura brasileira por meio de personagens históricos e oriundos de telenovelas foi planejado? Acredita que este seja um papel importante da literatura nacional?

Romeu Martins: Eu não gosto de levantar bandeiras, nem de pregar algo tão controverso quanto o nacionalismo. Mas não vou negar que a ideia de fazer um resgate do tipo me agrada. Veja, as inspirações iniciais daquele texto foram o romance de um francês, Jules Verne, e o conto de um inglês, Artur Conan Doyle.

Mas eu queria que a história tivesse algo de nacional, para não simplesmente se passar no Brasil. Então, pensei num personagem, em domínio público, como os outros, que é também o mais famoso vilão da ficção brasileira. Achei isso simplesmente irresistível usá-lo na noveleta. O romance de onde ele veio foi escrito no século XIX e também foi adaptado em telenovelas de muito sucesso. A telenovela é nosso folhetim, nossa literatura pulp em forma eletrônica. Acho que é uma homenagem justa algo assim estar ao lado de Verne e de Doyle. Mas há mais um pouco de literatura brasileira em “Cidade Phantástica”. Ela se encerra com uma citação a Machado de Assis, mas usada numa brincadeira com histórias em quadrinhos. Esse é um dos grandes baratos do steampunk. Podemos nos apropriar de coisas que marcaram a vida de gerações anteriores e usar para algo nosso. E uma das coisas mais complicadas da noveleta foi mexer com tantos elementos díspares.

Eu uso nela personagens de Verne entre uma página e outra de um mesmo livro. No caso do conto do Doyle, a história se passa anos antes de quando os personagens em questão foram criados, quando eles ainda eram jovens. E no caso do livro brasileiro, a noveleta é situada quase dez anos depois do período em que ela se passa. Harmonizar tudo isso foi um desafio muito legal, teve uma boa dose de pesquisa ali.

Vapor Marginal: Dois elementos bastante peculiares na noveleta que gostaria que comentasse, são a presença do Gun Club e existência de uma Malta tão peculiar.


Romeu Martins: O Gun Club é uma criação maravilhosa de Verne. Engenheiros bélicos americanos querendo um uso pacífico para seus conhecimentos. A gênese da NASA!

Claro que o sonho de Impey Barbicane não poderia agradar a todos e foi um prazer caçar um descontente no meio daquele grupo ;) A Malta foi uma interação muito legal com meus beta readers. No início eu queria brincar com as expressões que Alan Moore usa em sua série Liga Extraordinária. O nome da gangue de assaltantes de trens seria Vagabundos Vaporosos. Uma beta gostou, outros dois odiaram. Daí mudei pra Malta do Vapor. Veja que a ideia era brincar com a questão da tradução mal feita, como fizemos naquele site, O Malaco.

Na mesma frequência de usar personagens brasileiros no meio de criações estrangeiras. Pelo mesmo motivo que João Fumaça vira John Steam quando os americanos falam com ele.

Então Malta do Vapor é igual a Vagabundos Vaporosos que é igual a... SteamPunk ;)


Vapor Marginal: O Web-site surgiu para divulgar a noveleta e acabou se transformando em um folhetim steampunk bastante popular. Como foi esta transformação?

Romeu Martins: Pois é, aquele era pra ser um blog totalmente descartável. A ideia era apresentar o universo e interagir com os comentaristas, para me ajudar a fazer algo que nunca tinha feito: um texto ficcional maior que um conto.

Mas eu gosto de, sempre que possível, tentar agregar mais gente, interagir mais com mais autores. Então, ao longo dos meses, a coisa passou a ser um blog sobre o projeto de outras pessoas também.

Acho que começou com uma resenha de uma flash fiction que o Fábio Fernandes publicou no site Everyday Weirdness. Que na época eu nem sabia, mas, foi a base do conto que ele publicou também na coletânea SteamPunk, da Tarja.

Dai pra frente, comecei a ver o que estava acontecendo no país em termos de produção nacional no gênero e tudo o que fiquei sabendo fui publicando por lá. Começou como uma ferramenta auxiliar pra noveleta, passou a ser o espaço da clipagem das resenhas do livro e uma fonte de informação sobre o steampunk no Brasil.

14.1.11

Gerson Lodi-Ribeiro fala sobre Vaporpunk

Como eu tinha dito nos posts recentes sobre as novidades da editora Draco, nesta quinta-feira aconteceu um evento na livraria carioca Blooks para marcar o lançamento naquela cidade dos livros Vaporpunk e Xochiquetzal. O escritor e organizador Gerson Lodi-Ribeiro foi uma das presenças naquele encontro e foi entrevistado pela equipe do site da livraria para, entre outros assuntos, falar sobre a coletânea steampunk da editora Draco. Segue o trecho:





Os ventos do Spaceblooks sopram mais uma vez na Blooks, com a antologia Vapor Punk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luis Felipe Filho e do romance de história alternativa Xochiquetzal – uma princesa asteca entre os incas, também do Gerson; ambos da Editora Draco. Aproveitamos o lançamento dos dois livros na blooks e conversamos com o Gerson Lodi-Ribeiro. Aqui vai a breve, mas muito interessante, entrevista com o Gerson.

Gerson, tivemos o lançamento da antologia Vapor Punk, editada pela Draco, com organização sua e do Luis Felipe Filho… Você poderia falar um pouco sobre a edição? Como foi prepará-la?

Gerson Lodi-Ribeiro: Levamos quase um ano e meio preparando a antologia, desde a ideia inicial em outubro de 2008 até o fechamento da edição, lá por março ou abril do ano passado. Deu certo trabalho prepará-la. Em primeiro lugar, convencer os autores a escrever algo legal dentro da temática steampunk. Em segundo lugar, peneirar os trabalhos para aprovar os melhores.

Às vezes publicações como Vapor Punk parecem destinadas a um público bem específico. sabemos que isso não é de todo verdade. como o público em geral pode se interessar por esse tipo de temática?

Gerson Lodi-Ribeiro: Por sua própria natureza, a temática steampunk que permeia toda a antologia Vaporpunk transcende os gêneros da ficçãocientífica e da história alternativa. Neste sentido, creio que a Vaporpunk possui potencial de fascinar todos os leitoresinteressados em inovações tecnológicas, na perspectiva de avanços técnicos precoces e na possibilidade da história da civilização ocidental ter ocorrido de forma diferente e um pouco mais “punk” do que de fato aconteceu. No fundo, é um universo de leitores mais amplo do que os públicos cativos da FC e da história alternativa.

Continua

Upgrade: Em seu blog, o escritor e editor dá mais detalhes sobre o evento. 

13.1.11

Steampunk na sala de aula

Como eu comentei uns posts atrás, fiquei alguns dias sem computador e por isso estava meio desatualizado com o que andava acontecendo nos meandros steampunks. Por isso, assim que meu PC foi consertado, voltei a fazer algo após um longo tempo de abstinência: consultei o oráculo atrás de novidades na área. Foi assim que encontrei a coluna de Hermano Vianna citada no post anterior e que acabo de encontrar um blog que não é tão novidade assim, já que foi criado em agosto do ano que acabou de acabar. Mas mesmo assim, vale a pena registrar, pois trata-se de um trabalho de alunos de uma escola paulista, a Nova Lourenço Castanho, que pesquisaram como tema de alguma disciplina justamente a cultura steamer.

O resultado foi parar neste endereço, no qual os estudantes reuniram informações e links sobre várias vertentes do subgênero, da literatura ao cinema, passando por moda, customização, eventos. No blog eles também postaram entrevistas que fizeram com participantes do RPG Con, realizado em julho na capital paulista. Entre os entrevistados, meu caro confrade Cândido Ruiz, do Conselho Paulista, cuja fala foi parcialmente transcrita naquela página. E para minha honra, faz uma citação bastante inesperada a este blogueiro na sexta e última pergunta:

6- Você tem algum ídolo do gênero? Quem?

Dentro da literatura o autor Romeu Martins tem produzido diversos contos nos últimos dois anos. Já com produção de Gadgets Jack von Slatt autor do blog Steampunk Workshop (http://www.steampunk.com.br/registro-steampunk/) me faz acreditar em realidades steampunk's.


 Uau! Ser citado como ídolo ao lado do Van Slatt! Só posso agradecer a meu camarada pelo exagero, além de torcer para que a garotada tenha levado uma boa nota (apesar de citarem Jules Verne como um autor steampunk, algo de que discordo).

22.11.10

Entrevista para a Cásper Líbero

Conforme comentei no post anterior, vou publicar aqui a íntegra da entrevista que fizeram comigo para a revista Esquinas, do curso de Jornalismo da Cásper Líbero. As perguntas foram feitas por Roberto Francisco Causo.




Como você começou a fazer parte do movimento steampunk no Brasil?


Comecei a me interessar pela produção brasileira de ficção científica em geral em 2007, quando conheci o site de fanfics www.hyperfan.com.br e descobri que entre os autores havia contistas, romancistas e dramaturgos do porte de Fábio Fernandes, Octavio Aragão, Carlos Orsi, entre outros. Até então, eu já apreciava bastante FC estrangeira, porém o que eu conhecia do gênero no país se restringia aos textos de escritores de gerações anteriores, como JJ Veiga e Ignácio de Loyola Brandão. Então fui procurar o que esse pessoal totalmente novo para mim estava produzindo, além dos contos disponíveis naquela página, e vim a encontrar as comunidades do Orkut em que eles se reuniam. Logo, passei a ler e a resenhar as obras desse pessoal para o portal www.overmundo.com.br, o que fiz durante todo o ano de 2008. No finalzinho daquele mesmo ano, entrei em outras comunidades, justamente as que faziam parte da iniciativa de divulgação da cultura steamer do Conselho Steampunk.


Como foi fazer parte da coletânea Steampunk? O que lhe fez começar a escrever steampunk?


FC tem uma capacidade de contaminação terrível, é um típico vírus memético: quem começa a ler muito, acaba querendo escrever também. Eu já havia escrito sobre FC, naquela série de resenhas que foram republicadas em meu blog www.romeumartins.blogspot.com, mas acabei também escrevendo FC de fato em algumas experiências com contos feitos despretensiosamente para outra página minha, a www.terrorcon.blogspot.com. O primeiro desses contos acabou sendo publicado na edição de estreia de um projeto de coletâneas sem temática fixa da Tarja Editorial, a coleção Paradigmas. Foi minha introdução formal nesse mundo dos escritores de ficção científica, com um conto que pode ser classificado como nowpunk, “A teoria na prática”, em 2009, menos de um semestre depois de eu ter começado a escrever ficção.

Acabou que um dos sócios daquela mesma editora, Gianpaolo Celli, entrou numa daquelas comunidades steampunk e perguntou quem ali escrevia algo do gênero. Fui dos que respondeu dizendo ter algumas ideias a respeito, apesar de não ter escrito na época ainda nada formalmente dentro do estilo. Mesmo assim, ele me convidou poucas semanas depois, bem no finalzinho de 2008, para fazer parte daquela que veio a ser coletânea pioneira do país: Steampunk – Histórias de um passado extraordinário. Receber esse convite foi uma surpresa e tanto, sem dúvida um desafio para um cara que mal tinha começado a se dar conta de que estava escrevendo textos ficcionais ter a possibilidade de ser publicado ao lado de gente consagrada, incluindo um daqueles autores que descobri via Hyperfan, o Fábio Fernandes. Para minha sorte, o processo inteiro foi muito profissional por parte da editora e do organizador e pude ainda contar com beta readers que me ajudaram bastante nesse desafio. Terminei o texto em fevereiro e em julho de 2009 o livro já estava sendo lançado.

Como entrou em contato pela primeira vez, com o steampunk?

Foi pelos quadrinhos. A primeira vez que tive a sensação de uau lendo algo a respeito foi pelas páginas da primeira edição da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O’Neill, quando eles mostram sua versão de uma Londres Vitoriana retrofuturista. Isso foi pelas edições importadas, via Amazon, em 1999, quando havia uma saudável paridade do real com o dólar facilitando aquisições de material importado. Aquilo mexeu muito comigo, a ponto de até hoje a Liga Extraordinária estar entre os trabalhos do Moore dos quais mais gosto. E em termos nacionais, a primeira obra do tipo que li foi uma descoberta que fiz naquele citado site de fanfics, o Hypefan, e que acabou virando um romance: A mão que cria, de Octavio Aragão. Livro com fortes elementos steampunk, ele foi o primeiro da FC nacional que resenhei, na época para o site www.omelete.com.br. 

Quais você acha, que são as maiores dificuldades que tal movimento enfrenta no Brasil, atualmente, especialmente em termos de distribuição, etc?

Bem, acho que comparativamente com outros subgêneros ligados à FC o steampunk até que está bem no contexto geral. Afinal, aquela primeira coletânea não só é relativamente fácil de se encontrar em boa parte do país, pela rede de livrarias Cultura e Saraiva, incluindo suas lojas on-line, como esgotou a primeira edição em menos de um ano. Na minha opinião, a maior dificuldade está em alcançar um público ainda maior por sofrer da mesma falta de divulgação entre grandes veículos de imprensa nacionais, jornais, revistas, programas de TV, e mesmo de portais voltados ao entretenimento, como o já mencionado Omelete, que qualquer outro tipo de ficção científica feita por brasileiros.

A coletânea Steampunk recebeu uma divulgação imensa entre seus leitores que procurei registrar em um blog que tem o mesmo título de minha noveleta publicada naquele livro o www.cidadephantastica.blogspot.com. Foram dezenas de citações que saíram em páginas pessoais, redes sociais e podcasts, de forma espontânea, e resenhas feitas no exterior, por críticos do porte do americano Larry Nolen e da portuguesa Cristina Alves; além de menções no blog do escritor americano Bruce Sterling - no portal da Wired - e no blog e na versão impresa da Locus Magazine. Foi um autêntico fenômeno, comparado a qualquer outro livro de FC publicado recentemente no país. Mesmo assim, não houve espaço similar em jornais e em revistas nacionais. Em relação à TV, quando surgem matérias em programas de auditório, estão mais interessados em discutir o tipo de roupa que os fãs do gênero costumam usar em encontros do que a literatura envolvida. Acho que virar pauta na imprensa é uma das maiores dificuldades não só do steampunk, mas da literatura de ficção científica em geral. Talvez isso ocorra quando novas gerações de jornalistas, que hoje estão cursando a faculdade, cheguarem às redações.


Em contraponto, à pergunta anterior, por que acha que o movimento Steampunk está indo tão bem no Brasil e no mundo atualmente?

Naquele meu blog, eu também costumo publicar reflexões de pessoas que procuram entender esse fato. Em geral, concordo com a abordagem que no mundo hipertecnológico em que vivemos é irresistível reimaginar um tempo em que os apetrechos eram mais compreensíveis aos mortais comuns, quando engrenagens aparentes faziam acontecer a mágica que hoje se dá de modo invisível em chips. Além do que, há um charme todo especial na estética do gênero que pode ser apreciado mesmo por quem nem mesmo faz ideia de que há literatura por trás daquilo.

No mundo e em termos literários, a atual onda começou com uma coletânea organizada por Jeff VanderMeer chamada apenas de Steampunk, e foi reconquistando um espaço que parecia ter perdido entre os fãs. Isso deu fôlego para novos livros, novos filmes. No Brasil, a onda finalmente chegou para valer e encontrou uma diversidade de escritores interessados no gênero, como os reunidos na coletânea Steampunk, na mais recente Vaporpunk – da editora Draco, que traz também portugueses – e vários outros que preparam seus projetos para os próximos meses. Aconteceu então um fato muito raro: algo produzido por aqui em termos de FC encontrou ressonância com o que estava sendo consumido lá fora.

Tanto isso é verdade que as duas ondas acabaram se topando e nos dois próximos projetos de VanderMeer ligados ao gênero vai haver a presença de brasileiros que foram publicados na Histórias de um passado extraordinário. Na nova coletânea Steampunk Reloaded, ele vai apresentar aos leitores anglófonos trechos em inglês das noveletas “Breve história da Maquinidade”, do carioca radicado em São Paulo Fábio Fernandes, e “Uma vida possível atrás das barricadas”, do pernambucano Jacques Barcia. E no segundo projeto – um livro de arte que deve ser referência sobre o assunto quando for publicado em maio de 2011, a Steampunk Bible – além de entrevistas com esses dois, haverá um trecho da noveleta deste catarinense rebatizada como “Phantastic City”, em uma tradução de primeira providenciada por Fábio Fernandes. Uma honra mais do que inesperada, devo dizer.

Quais são suas maiores influências Steampunk?

Como não poderia deixa de ser, Alan Moore, em primeiro lugar. Fora do mundo das HQs, a influência vem dos diversos escritores que cito explicitamente na noveleta “Cidade Phantástica”, ou seja, o francês Jules Verne, o inglês Conan Doyle, o americano Philip José Farmer e os cariocas Octavio Aragão e Gerson Lodi-Ribeiro.

Planos para o futuro? Quais?

Tenho algumas outras histórias escritas naquele mesmo universo. O miniconto “Uderground Amazon” já foi publicado no blog de um artista plástico steamer californiano e deve ser republicado, em nova versão, em um zine. Um conto ilustrado chamado “Modelo B” deve sair numa revista on-line que está sendo preparada pelo Conselho Steampunk. E uma segunda noveleta, “Tridente de Cristo”, foi encomendada para uma nova coletânea que deve sair em 2011. Ainda no gênero, estou tentando viabilizar uma versão em quadrinhos da história que deu origem a isso tudo, a noveleta “Cidade Phantástica”, também para o próximo ano. Recebi, mais recentemente, um convite inusitado para mais uma coletânea que deve misturar steampunk com elementos de fantasia e estou, neste momento, trabalhando no texto. Fora desse mundo a vapor, há alguns outros texto ficcionais que estão sendo avaliados para outras duas coletâneas, de gêneros distintos, além de um novo livro de não-ficção sobre inovação tecnológica. 

Por favor, um pequeno currículo com seu nome completo, idade, formação, profissão e se possível, uma foto em alta resolução, por favor.

Meu nome é Romeu Manoel Coelho Martins, tenho 34 anos, sou jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Minha especialidade é a área de ciência e tecnologia sobre a qual já publiquei um livro chamado Conhecimento & Riqueza, em coautoria com Roberto Pacheco, principal desenvolvedor da Plataforma Lattes, pela editora Instituto Stela. Na ficção, tenho contos publicados nos livros Paradigmas 1, Steampunk – Histórias de um passado extraordinário, da Tarja Editorial, e vou ser um dos brasileiros presentes na Steampunk Bible da Abrams Image.

17.10.10

Torre de Vigia 34

Falei sobre o seminário Science'N'Fiction em um post anterior, destacando o debate que se fará nele a respeito do tema deste blog. Antecipando o debate, a página do evento entrevistou o representante da cultura steamer naquela iniciativa,  Carlos Eduardo Pereira Felippe, mais conhecido pelos apreciadores de seus artigos no site da Loja São Paulo do Conselho Steampunk - entre os quais eu me incluo - como Karl Felippe. Na conversa, o futuro debatedor fez uma análise interessante dos motivos do sucesso do gênero em nosso país e citou entre suas leituras as coletâneas nacionais lançadas respectivamente pela Tarja e pela Draco, Steampunk - Histórias de um passado extraordinário e Vaporpunk. Abaixo, segue uma seleção da entrevista que pode ser lida na íntegra aqui.


Por que você acha que o Steampunk deu tão certo no Brasil?
Ressonância morfogenética (risos). Certo, falando sério: acho que o motivo foi simplesmente timming. Fora do Brasil, a “cena” steampunk, por assim dizer, já estava crescendo exponencialmente (a chamada segunda onda steampunk), mas agora não apenas nos livros, mas também como subcultura, se espalhando para outras formas de arte -  pintura, escultura, modelagem, moda, constumização, musica e assim por diante. Era natural que algo assim chegasse aqui, calhou apenas de não ser com um atraso muito grande.
Talvez a identificação com o steampunk deva-se ao fato de que, aqui no Brasil, não houve uma grande explosão tecnológica no século XIX, como em outro países, mas houve uma grande produção cultural (literária). Isso pode-se perceber na ênfase dada às obras produzidas aqui e, mesmo na vitalidade diferente das histórias steampunk produzidas no Brasil, que costumam se desviar um pouco do otimismo “a ciência nos salvará!” de outras histórias, assumindo uma postura mais para “a ciência nos salvará?” de um modo bem parecido com as primeiras histórias steampunk escritas no início dos anos 1980. (...)

Quais são seus autores de referência?
Poderia citar James Blaylock, K. W. Jeter e Michael Moorcock porque li mais de dois livros de cada um que se encaixassem no gênero. E alguns livros que valem a pena mencionar são The Difference Engine, do William Gibson e do Bruce Sterling, Anti-Ice do Stephen Baxter, a antologia Extraordinary Engines de Nick Gevers, bem como a antologia Steampunk de Jeff e Ann Vardermeer. Mainspring do Jay Lake (que não é exatamente steampunk, mas dane-se), os dois primeiros volumes da Liga Extraordinária do Alan Moore, e mais recentes como o Boneshaker, da Cherie Priest, Leviathan do Scott Westerfield, Clockwork Heart da Dru Pagliassotti,  Whitechapel Gods do S.M. Peters, e bem, temos duas antologias nacionais no gênero que são realmente muito boas: uma da editora Tarja e outra da Draco.

12.9.10

Torre de Vigia 33

Sempre citado por aqui, Cândido Ruiz um dos mais ativos membros do Conselho Steampunk de São Paulo acaba de ser entrevistado pelo blog Ofício Literário. Entre as perguntas e respostas, ele acabou por citar a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, a vindoura Steampunk Bible, de Jeff VanderMeer e este blogueiro que vos escreve. Para ler o material na íntegra, vá a este endereço, abaixo, temos um apanhado da conversa.


No Brasil, a literatura steampunk é representada por quais escritores e obras?
RESP:
Entre as obras nacionais estão a coletânea SteamPunk (Editora Tarja), a Vaporpunk (coletânea Luso-Brasileira da Editora Draco) e a obra Bilac vê estrelas. Autores nacionais como Gerson Lodi-Ribeiro, Romeu Martins, Fábio Fernandes, Antônio Luiz M. C. Costa, Alexandre Lancaster entre outros. (...)

steampunk - steampunk

O Steampunk internacional tem mais seguidores e visibilidade do que o nacional? Caso sim, a que você atribui esse fato?
RESP: Na verdade, no momento, o Steampunk nacional possui grande visibilidade, até mesmo fora do país. Jeff Vander Meer, escritor e editor americano, organizador de coletâneas de repercussão internacional sobre Steampunk e New Weird, acaba de mostrar ao público as provas de seu mais novo projeto, um autêntico e luxuoso livro de arte. E, entre as páginas do livro dele, terão o seu quinhão três autores nacionais Fábio Fernandes, Jacques Barcia e Romeu Martins que compartilharão as páginas com criadores do porte de Jess Nevins, Libby Bulloff, Bruce Sterling, Desirina Boskovich, Jake von Slatt, Rick Klaw entre muitos outros.

3.9.10

A musa e o porta-voz

Ela foi declarada a musa do steampunk por este blog; ele foi considerado o porta-voz para a subcultura steampunk brasileira pela Steampunk Magazine. Ambos se encontraram agora em uma entrevista publicada no site do Conselho Steampunk. O material faz parte de uma matéria que está sendo produzida para uma publicação experimental da faculdade de jornalismo da Cásper Líbero. Também acabo de ser entrevistado e assim que souber de novidades, aviso por aqui. Mas antes, fiquem com trechos da conversa entre Lidia Zuin e Bruno Accioly, lembrando que para ter acesso à íntegra, basta clicar aqui:



Por que o Steampunk está dando tão certo hoje, tanto no Brasil quanto no mundo?

O SteamPunk parecia fenecer em todo mundo, como qualquer gênero/movimento que alcança em dado momento um ápice de popularidade e cujos únicos remanescentes acabam sendo os verdadeiros entusiastas que apreciam-no para além das tendências e da moda. De dois anos para cá, o fascínio exercido pelo SteamPunk pareceu ganhar fôlego, talvez devido ao gênero estar alcançando uma maturidade e se estabelecendo como algo que veio para ficar.

Há muitos aspectos do SteamPunk que podem estar contribuindo para isso, mas cito aqui apenas cinco que considero mais importantes.

a) Fascínio – O fascínio exercido pela ficção científica em crianças, jovens e adultos é um fenômeno bastante conhecido. Isso se dá graças ao componente fantástico presente no gênero e no devir de explicação que viabiliza esta fantasia através ciência e tecnologia.

O SteamPunk revisita os primórdios da ficção científica e tenta, através de seus meios e sua proposta estilística, produzir FC, hoje, nos moldes da FC do Século XIX, enriquecendo dramaturgicamente seu teor e transportando o público para uma época que jamais existiu;

b) Semelhança – A obra legitimamente SteamPunk literária, cinematográfica ou de qualquer outra forma de expressão costuma permanecer em dois grandes subgrupos: o SteamPunk Nostálgico e o SteamPunk Melancólico. O primeiro traz uma visão otimista e entusiasmada das conquistas científico-tecnológicas e o segundo uma abordagem crítica acerca de um Século XIX onde a utilização indiscriminada de recursos naturais, a desigualdade social e a relatividade moral representavam um grande problema. Ambas as abordagens remetem diretamente ao mundo em que estamos vivendo, de grande evolução tecnológica e degradação da ética e do moral.

c) Marginalidade – O termo que aplico aqui tem relação com a porção Punk que coincidentemente se imiscuiu na etimologia da palavra e que acabou fazendo sentido por força de quem é entusiasta do gênero.

De alguma forma, o SteamPunk herdou – juntamente com estas últimas quatro letras – alguma porção da rebeldia presente no CyberPunk, este intencionalmente marginal. A marginalidade do SteamPunk está presente, creio, na ausência de um produto ao qual atrelar o gênero (como é o caso de Star Wars ou Star Trek, quando falamos do gênero space opera). O SteamPunk não tem dono e não é uma franquia, mas está presente também na produção individual de moda, acessórios e cultura através de seus entusiastas, que preferem fazer a comprar aquilo que usam – fazendo referência ao movimento político conhecido como Anarquismo, o qual acaba sendo objetivamente tão pouco conhecido pelo cidadão comum.

d) Cultura – Por ser um movimento originado em um subgênero literário, o SteamPunk já traz a reboque todo um zeitgeist, todo o espírito marginal, fascinante e familiar de uma era na qual muitos pressentem que algo está errado e que é preciso buscar no passado os erros que talvez tenhamos cometido e, de alguma forma corrigi-los ou denunciá-los.

Sob este aspecto, o SteamPunk tem o potencial de ferramenta pedagógica e mesmo o de transportar através do tempo o interesse de quem normalmente se interessa pouco por cultura e história, fazendo com que estes resgatem as raízes da história recente através de uma janela para o Século XIX e para um mundo ficcional que torna lúdica esta viagem.

e) Organizações – O Conselho SteamPunk, a SteamPunk Magazine, o ClockWorker.de e todas as manifestações culturais, seja através de grupos, revistas ou websites acabam por dar forma palpável à esta ficção e resignificar tudo o que vem sendo produzido.

11.8.10

In English now

Eric Novello criou um novo espaço para a divulgação e o debate de ideias, desta vez, aproveitando uma outra faceta de suas atividades, ele que é tradutor, além de escritor, copidesque, roteirista e etcetera, o fez em inglês. Exorcisms After Midnight é o nome do novo blog sob seus cuidados. Tive o prazer de ser traduzido lá, naquela entrevista com Gerson Lodi-Ribeiro, a respeito da coletânea Vaporpunk, publicada neste blog. Para conferir o resultado da versão anglófona, clique aqui. Abaixo, uma amostra:

RM: Vaporpunk Will be the second steampunk collection to be published on Brasil in a period of one year. Does this surprise you, this sudden interest of Brazilian writers, publishers and – so we hope – readers in the genre? Do you think Steampunk has the strength to fight against vampire literature as a national preference?


GL-R: These two anthologies actually stem from the same idea. Due to conflicting philosophies about the best way to edit a steampunk anthology, I decided to go my own way and Tarja followed another. As for the positive moment for steampunk in Brazil, I would say that it’s about time, as this is an instigating subgenre with various interesting themes to offer to readers. Lastly, unfortunately I don’t believe that steampunk or any other science fiction or alternative timeline subgenre has the power to encroach on the vampire literature territory.

Outro post recente daquele blog que vou destacar é a nota a respeito do Café a Vapor,organizado no final da semana passada pelos meus vizinhos paranaenses:


Part of the steampunk fun in Brazil comes from the Steampunk Councils, the main gear behind the steam engine. Divided by states, they organize events, promote literature and the steampunk culture as a whole, always dressed for the occasion. On 24th July, 2010 the First Steampunk Event of Paraná was held on Sebo e Eventos Arcadia. Winter is cold as hell this year, so the steamers were able to set up a fireplace, offer hot beverages in a customized mug and dance numbers. You can see more pictures at Steampunk Council of Paraná’s website. I’ll try to keep pace with the events, posting about them here on Exorcisms After Midinight.