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14.1.12

O maior dos problemas

O ano em que mais vai se lançar material steampunk no Brasil não poderia começar melhor do que com a exibição da segunda aventura sherlockeana dirigida por Guy Ritchie; Se na época do primeiro filme, resenhado aqui, houve quem pusesse em dúvida se se tratava mesmo de um filme do gênero (ignorando, essas pessoas, a clara retrotecnologia que aparecia na obra), nesta segunda produção os personagens principais, vividos por Robert Downey Jr. e Jude Law, até mesmo usam em certo momento googles, aqueles óculos protetores que são verdadeiros ícones do estilo. Sherlock Holmes - O jogo de sombras apresenta ainda mais invenções tecnológicas a frente do tempo em que se passa a história (1891), ao mostrar a tentativa do Grande Detetive vitoriano de desbaratar os planos de seu nêmesis, o Napoleão do Crime, para antecipar a Primeira Guerra Mundial em uma geração.

O filme nada mais é que uma versão estendida e muito mais explosiva daquele conto que deveria ser o último que Arthur Conan Doyle escreveria sobre seu maior personagem. "O problema final" ao mesmo tempo introduzia o professor Moriarty como o único vilão a se ombrear com Holmes nos dotes intelectuais e mostrava a morte da dupla de opositores, despencando do alto de uma catarata suíça, para livrar o escritor do ônus de ser eclipsado por sua criação. Como todos sabemos, a reação do público e dos editores foi tamanha que não restou alternativa a não ser promover a volta do detetive consultor às páginas das revistas de contos e dos livros. Esta é a base da narrativa escolhida pelo diretor britânico para voltar a se aventurar em sua recriação do maior dos mitos da Era Vitoriana nas telas de cinema.

A escolha do antagonista, que aparecia apenas parcialmente no primeiro filme, depois de muita especulação acabou recaindo em Jarred Harris, ator conhecido por seu papel no seriado de TV Mad Men, e que consegue ficar à altura de contracenar com Downey Jr. inspirado como sempre. A interação da dupla só não é mesmo maior que a existente entre o protagonista e seu coadjuvante de luxo. Jude Law revive seu John H. Watson (agora homem casado e com o enigmático significado da inicial do meio revelado) com a química perfeita com seu colega de cena. Nas cenas que se passam em um trem metralhado, a quantidade de alusões homoeróticas entre os dois parceiros é tão grande quanto as que haviam entre Batman e Robin nos gibis pré-Era de Prata do Morcego, no típico humor escrachado das produções de Guy Ritchie.

Aquele recurso unindo flashbacks e flashfowards que tenta reproduzir a velocidade das deduções de Holmes - e agora também de Moriarty - a que chamei de thought time na resenha anterior, está de volta em grande estilo. Assim como uma versão atualizada de seu ancestral, o bullet time visto pela primeira vez na trilogia Matrix. Na sequência em que Holmes, Watson e seus informantes ciganos são alvejados em uma floresta, a equipe do filme empregou novas câmeras capazes de captar movimentos com uma precisão de experimento científico. O resultado é bem operístico, assim como o filme como um todo. Um filme ainda melhor que o primeiro e que já prenuncia um terceiro que deverá formar a melhor trilogia steamer a chegar aos cinemas.



19.10.11

Muito além dos mosquetes

Antes de mais nada, devo dizer que meu contato inicial com a obra de Alexandre Dumas - e uma de minhas memórias televisivas mais antigas - foi com uma animação do início dos anos 80 na qual D'Artagnan, Athos, Portos e Aramis eram cães de diferentes raças. Então, apesar de muito gostar da prosa do autor francês não tenho o mesmo apego purista que o de vários outros de seus fãs. Sendo assim, a mais nova superprodução a levar Os três Mosqueteiros ao cinema repleta de liberdades e modernizações, não me desagradou a princípio. E depois de ver o filme, em que parece que a intenção foi fazer um mashup com o outro escritor gaulês a concorrer em termos de popularidade com Dumas, Jules Verne, devo dizer que sai bem mais satisfeito da sala escura do que esperava. Gostei bastante da reinterpretação retrofuturista feita pelo diretor Paul W. S. Anderson e encabeçada pelos atores Logan Lerman, Milla Jovovich, Matthew Macfadyen, Ray Stevenson, Luke Evans, Mads Mikkelsen, James Corden, Juno Temple, Orlando Bloom, Christoph Waltz.



Só pela listagem dos profissionais envolvidos já dá para se ter uma ideia de quais as intenções por trás de mais esta transposição cinematográfica do clássico da ficção histórica. Com tanta gente vinda de franquias estabelecidas (ou que tentaram se estabelecer) como Resident Evil, Percy Jackson, 007, Piratas do Caribe, Besouro Verde é bastante evidente que a aposta é dar início a uma nova série de filmes unindo ação, aventura, humor, romance para toda a família. E como aconteceu com o recente Sherlock Holmes de Guy Ritchie, tal aposta passa por um investimento no tema que é mais caro a este blog: invenções tecnologicamente avançadas no passado que dão novos rumos à vida de personagens conhecidos. No caso deste filme, a retrotecnologia remete diretamente à quintessência do clockpunk, pois aquele dirigível já visto por todos nos trailers parte de ideias resgatadas dos arquivos de Leonardo da Vinci. A sequência inicial é justamente em Veneza, na ocasião em que os Mosqueteiros, então ainda em número de três, tentam chegar aos projetos do mestre renascentista em nome da França antes que o Duque de Buckingham o faça pela bandeira da rival Inglaterra.

Quando mais tarde o jovem gascão D'Artagnan se reunir ao grupo os acontecimentos já estarão alterados por essa corrida armamentista encabeçada pelos coroados Luis XIII e Jaime. Tanto que da obra literária original pouco resta, apenas alguma semelhança na sequência em que o novato interiorano chega a Paris e logo vai desafiando um a um os Mosqueteiros, sem saber quem de fato eram, para duelos no mesmo dia. A recriação, portanto, é bem radical, devendo afastar os mais fieis ao texto de Dumas, mas talvez com potencial para agradar novas audiências para um filme que se pretende explicitamente ser apenas o primeiro de uma série. Mais não fosse pela dica do diretor e do elenco, a cena final é bem clara a respeito disso. E essa ânsia acaba cobrando um preço no ritmo do primeiro filme que não apresenta por completo todos os personagens que são nominalmente protagonistas (apenas Athos e D'Artagnan têm algum destaque). Na verdade, os vilões recebem bem mais destaque na trama escrita por Andrew Davies e Alex Litvak, sendo que eles são bem numerosos, um para cada membro do quarteto dos mosquetes.

Outro problema básico no roteiro da dupla acontece em uma das batalhas aéreas. Difícil de acreditar que soldados experientes não desconfiem que, em relação ao citado dirigível, basicamente um navio de madeira elevado aos céus por um balão, o alvo principal da artilharia deve ser justamente aquele que também é o mais fácil de acertar. Ou seja, mirem os canhões no frágil, desprotegido, inflamável e enorme balão, meus caros.

Sendo vendido já no título pelo uso da tecnologia 3d, esta nova produção tem um capricho maior que o da maioria dos filmes com atores que utilizaram o recurso desde o lançamento de Avatar por James Cameron. Não que Anderson ouse muito neste aspecto, pois novamente a tridimensionalidade se resume aos objetos jogados na direção do público. Porém, o problema com a iluminação, grande alvo de crítica em relação a esse modismo, parece ter sido resolvido. Nada de imagens escuras aqui, ao contrário. Há exuberância nos detalhes das roupas e da recriação arquitetônica nos cenários que estão tão nítidos para os olhos de todos que dificilmente a Academia deixará de premiar a obra com alguns Oscar técnicos em categorias como figurino e desenho de produção.

19.9.11

Conan, Espada & Magia

Bem, meu tempo disponível para o blog ainda está curto em setembro. Queria fazer uma resenha do recente filme de Conan, mas nem a produção me empolgou muito para escrever a respeito, nem sobra muito espaço entre um compromisso e outro para desenvolver algo decente sobre o que achei do filme (resumo: o protagonista nem é tão ruim, mas os coadjuvantes são péssimos; o roteiro é fraco; é razoavelmente bom na parte da Espada, mas muito ruim na de Magia; o 3d é acima da média; o começo é bom, o final é constrangedor). Para não deixar passar a oportunidade de pelo menos citar um de meus personagens favoritos, resolvi resgatar alguns textos antigos para quem se interessar pelo que eu tenho a dizer sobre o assunto de forma mais geral.

O Crônicas da Ciméria é um portal muito bacana, que reúne material produzido pelo criador do bárbaro, o texano Robert E. Howard, e muitos textos analisando o legado do personagem. Lá é possível ler algumas matérias minhas. Por exemplo, esta sobre quando houve a última tentativa de resgate da popularidade do cimério nos quadrinhos:

Conan ganha mais uma chance de fazer sucesso nos quadrinhos

Nem Homem-Aranha, nem Batman, nem os X-Men, nem Super-Homem. No Brasil, o personagem recordista em números de revistas em quadrinhos regulares batizadas com seu nome é um certo bárbaro que foi criado originalmente para figurar em livrinhos de pulp fiction. Agora, chega às bancas uma nova integrante para a lista que inclui Espada Selvagem de Conan; Conan em Cores; Conan, o Bárbaro; Conan Rei; Rei Conan; Conan Saga; Conan, o Aventureiro... (isso tudo fora almanaques especiais, revistas-pôsteres, quadrinizações dos filmes, graphic novels e até as seis edições pré-históricas que rebatizaram o personagem como Harthan, o Selvagem [!]). Conan, a Lenda é um prelúdio, um número zero, que a Mythos Editora lança no Brasil apenas quatro meses depois de sua publicação nos EUA, onde bateu recordes de vendas. A revista, de apenas 20 páginas, serve por sua vez de aperitivo para Conan, o Cimério, a publicação que a partir de abril passará a limpo, todos os meses, a carreira da maior criação de Robert E. Howard (1906-1936).

Tem também esta entrevista que fiz com alguns dos responsáveis pela iniciativa do portal, em que falamos sobre a expectativa de um possível novo filme:

Existe um endereço que é a referência nacional a tudo o que diga respeito a Conan e a Era Hiboriana: (...) Crônicas da Ciméria. Mantido há três anos por Osvaldo Magalhães e mais recentemente em parceria com Alessandro Nunes, que reformulou totalmente o site, o portal antigamente era vizinho d´ O Malaco (o site antecessor do marca Diabo) na HPG. Em seu novo endereço, a home page dedicada ao personagem ganhou contornos profissionais e aumentou o conteúdo aos seus usuários, chamados de Discípulos do Aço entre eles.

Para saber o que esses especialistas em Conan estão achando das novidades a respeito do bárbaro, como sua nova revista e os boatos em torno de um terceiro filme, o Marca Diabo acionou por e-mail o cronista Osvaldo Magalhães e o discípulo Douglas Oliveira Donin. Em suas identidades civis, ambos são bancários e ávidos colecionadores de praticamente tudo o que leva a marca Conan - Donin há 10 anos e Magalhães desde 1987.

E, por último, a resenha da primeira edição daquela revista anunciada anteriormente, Conan, o Cimério:

Quando, em março, escrevi sobre Conan, A Lenda, espécie de número zero da nova publicação mensal do mais famoso bárbaro dos quadrinhos, esperava voltar ao assunto dali a algumas semanas, dessa vez resenhando a aguardada versão atualizada do personagem produzida pela Dark Horse. Mas o tempo passou, o que era para ser algumas semanas virou uma espera de meses, tudo porque o pessoal que vai trabalhar com o material no Brasil, a Mythos Editora, não avisou a seus leitores que a nova revista não chegaria ao mesmo tempo em todo o país. Primeiro foram servidas as bancas do famoso eixo Rio-São Paulo, para só depois o que sobrasse seguir viagem para além da Via Dutra. Tal decisão provocou ira na pequena, mas fiel, torcida do personagem criado por Robert E. Howard. Se alguém acha que estou exagerando, é porque não viu as mensagens furiosas em fóruns e listas de discussões dedicados ao seguidor do melancólico deus Crom. Finalmente, no início de julho, a revista Conan, O Cimério (pelo menos é assim que ela é chamada no expediente, mas na capa o nome do bárbaro aparecesozinho, sem adjetivos) ganhou a tão ansiada distribuição nacional.
Boas leituras!

10.8.11

Comic strip

Florianópolis já foi chamada, com muita justiça, de túmulo do cinema pela Folha de S. Paulo, não apenas pela baixíssima produção local de filmes, mas também pela ausência de boas salas de projeção na cidade. Principalmente as que se dediquem a exibir obras fora do grande circuito comercial de lançamentos. A situação estava ainda mais crítica nos últimos muitos meses, com as reformas inacabáveis do Centro Integrado de Cultura e com o fechamento do Cine York, na cidade ao lado, onde eu moro, São José. Felizmente as coisas começaram a melhorar com a volta de um espaço cinematográfico no shopping mais tradicional da capital catarinense, o Beiramar, ainda mais porque o empreendimento do CinEspaço, da rede Espaço Unibanco, garante presença permanente de salas dedicadas aos tais filmes cult. Caso da produção que estreia nesta sexta-feira, Gainsbourg – o homem que amava as mulheres, cinebiografia do músico popstar francês dos anos 60, e baseado em uma graphic novel escrita e ilustrada pelo mesmo artista que dirige e roteiriza filme, Joann Sfarr. Lançado internacionalmente ano passado, o longa só chega por aqui agora, quando se relembra os vinte anos da morte do homenageado, por conta deste novo empreendimento, do contrário, seria algo a se ver apenas na tela pequena da TV ou do computador.

Ser um filme de quadrinista deixa marcas bem visíveis na obra, a começar bela ótima animação que abre a película, quando Serge Gainsbourg (1928-1991) ainda era Lucien Ginzburg, uma criança judia vivendo numa França ocupada pelos nazistas, dividido entre o interesse pela pintura e pela música. Desde então, a escolha do diretor e roteirista foi fazer o garoto ser acompanhado por uma espécie de alter ego, amigo invisível, consciência falante. Em uma mistura de efeitos mecânicos e digitais (ou numériques, como preferem os gauleses), tal ser assume a forma de uma caricatura dele próprio, com as orelhas de abano e o grande nariz ainda mais proeminentes que os nada modestos atributos físicos do cantor (e também do ótimo ator que o interpreta, Eric Elmosnino, justamente premiado com o César por este trabalho). Uma forma inteligente que o quadrinista e cineasta encontrou de ser fiel às mentiras de seu ídolo (objetivo declarado ao final do filme) e que dá um ar ao mesmo tempo cartunesco e fabuloso à sua recriação. Não pude deixar de pensar no truque semelhante levado ao cinema por Spike Jonze ao adaptar o livro infantil de Maurice Sendak em Onde vivem os monstros. Como naquele filme de 2009, o "monstro" filmado por Sfarr revela sentimentos e emoções que seriam invisíveis para a câmera de outro modo. São os balões de pensamento de uma história em quadrinhos ganhando vida própria em grande e inusitado estilo.

Para leitores de quadrinhos da minha geração, Gainsbourg – o homem que amava as mulheres também pode trazer a lembrança outros exemplos da nona arte. Já que comecei o texto falando na Folha, quem conhece Angeli apenas pelas tirinhas e charges do jornal deixou de acompanhar seu projeto mais autoral: a revista Chiclete com Banana, dos anos 80, quando o quadrinista era influenciado em igual medida por Gainsbourg e pelo cartunista americano Robert Crumb. O filme-quadrinístico de Joann Sfarr com sua atmosfera de clubes de jazz, boemia francesa, mulheres lindíssimas, pequenas contravenções é uma transposição de tudo o que eu gostava daquela revista brasileira e de seu suplemento anárquico JAM. Prova de que a influência de Serge é tamanha a ponto de marcar tanto seu compatriota quanto aquele paulistano em mídias tão diferentes da música e entre si quanto os quadrinhos e o cinema.

Outro momento memorável do filme remete às HQs, quando o protagonista se sai bem em uma das várias conquistas que justificam o subtítulo cafajeste nacional (o original é vie héroïque, ou seja, um ufanista "vida heróica"). Apesar de sua feiúra incontestável, o homem realmente amava mulheres, e que mulheres! Brigitte Bardot entre elas, a eterna musa francesa. Em homenagem a ela, nosso herói a imaginou como uma protagonista das tiras de quadrinhos quando compôs a onomatopéica música que empresta nome a esta resenha (Viens petite fille dans mon comic strip/ Viens faire des bull's, viens faire des WIP !/Des CLIP ! CRAP ! des BANG ! des VLOP ! et/des ZIP !/SHEBAM ! POW ! BLOP ! WIZZ !), situação que rendeu uma das sequências mais divertidas daquele excelente filme, com a impecável Letitia Casta se saindo muito bem vivendo na tela o mito BB. Tão bem, tão hipnoticamente bem, que acaba ofuscando um tanto as demais aventuras amorosas presentes na película - como Jane Birkin e Juliette Grecco. Mas o filme conta com grandes cenas do início ao fim, seja com o jovem Lucien testando seus dotes de sedução para convencer modelos bem mais velhas a posarem nuas para ele ou com o já veterano Serge ainda provocador fazendo uma polêmica versão reggae para "Le Marsellaise".


28.7.11

Touro Indomável

Com este nome aliterado de personagem Marvel, devo ao diretor Joe Johnston meus agradecimentos por ajudar a ilustrar com exemplos dois subgêneros retrofuturistas muito semelhantes entre si e que costumam causar bastante confusão. Em 1991, ele dirigiu a adaptação cinematográfica  The Rocketeer, personagem das HQs criado pelo escritor e desenhista Dave Stevens que com sua mochila voadora nas costas em plena II Guerra Mundial é um ótimo exemplo de diselpunk. Passados inacreditáveis 20 anos, JJ agora dirige Capitão América - O primeiro vingador, que estreia amanhã nos cinemas brasileiros, um filme também baseado em personagem dos quadrinhos, criado em 1941 pelo escritor Joe Simon e pelo lendário desenhista Jack Kirby, que apesar de se passar na mesma época tem sua estética predominantemente baseada na estética alemã do períoso, sendo, portanto, uma obra mais bem classificada como nazipunk. Uma curiosa manifestação que, em tempos complexos como os nossos - com impensáveis ataques terroristas de extrema-direita na Noruega - aborda tal estética omitindo a presença da suástica em qualquer parte da produção ou de seu material de divulgação; mas ainda assim, nazipunk.


É exatamente na Noruega que começa a parte de época do filme - antes cortar para os anos 40, há uma breve cena nos dias presentes em que uma nave é localizada na neve, em território americano, com segredos guardados há quase 70 anos.  Mas é naquela década de guerra que vemos o oficial Johann Schmidt, comandante de um grupo chamado Hidra que trocou a suástica pela insígnia prateada de um crânio rodeado por tentáculos, buscar no país escandinavo possíveis vestígios dos antigos deuses nórdicos. Naquele momento, podemos vislumbrar parte dos equipamentos avançados que preencherão a maior parte do filme, tanques gigantescos, motos supervelozes, aviões com estranhas hélices, submarinos para um único passageiro, armaduras para soldados, todos com o visual que ao mesmo tempo remete às soluções de engenharia e de design daquele imaginário e deixa evidente que se tratam de apetrechos de um futuro do pretérito. Ideais tanto para vender itens para colecionadores no decorrer da divulgação do filme quanto, no caso dos soldados por baixo dos metais que escondem todo o corpo, incluindo o rosto, para serem desumanizados o suficiente e não despertar pena quando os vilões forem metralhados, explodidos e esfaqueados pelos mocinhos da história.


Falando neles, um novo corte, agora de espaço, para Nova Iorque, onde conheceremos Steve Rogers, um garoto que, apesar da óbvia inadequação física - baixote, magro às portas da inanição e com histórico exaustivo de doenças - tenta obsessivamente se alistar nas forças armadas que combatem na Europa.  Tanto insiste, mesmo correndo risco de ser preso por mentir nos formulários de alistamento, que acaba ganhando a chance de participar de um grupo especial do exército americano que tem a nada modesta intenção de criar uma geração de supersoldados. Além do treinamento à moda antiga, teremos nestas sequências novas oportunidades de conferir retrotecnologia das indústrias Stark, com todos os mostradores de ponteiros, chaves de contato, fios e válvulas que vão ajudar a transformar o rapazote frágil no personagem heróico que dá nome ao filme: o marombado Capitão América. 


É interessante lembrar ser de fato a tecnologia que está por trás de tal transformação, mas não aquela retrô, dos anos 40, e sim a digital que já havia sido posta à prova em filmes como X-Men 3 (lembram-se dos  jovens Charles Xavier e Magneto dos minutos iniciais?) e em O curioso caso de Benjamin Button (no qual Brad Pitt nasce idoso e morre como um bebê).  Pois trata-se do mesmo ator a interpretar Rogers nas duas fases de sua vida, a de rejeitado pelo serviço militar e a de herói de guerra. Chris Evans, que já havia tido a oportunidade de viver um personagem das HQs Marvel nas telas, como o Tocha Humana da fracassada franquia do Quarteto Fantástico, repetindo assim, de forma, digamos, artificial, o feito Robert De Niro realizado de modo natural em 1980, em Touro Indomável. Para viver o pugilista Jake LaMotta do auge à decadência, o ator ítalo-americano ganhou no período de produção pelo menos trinta quilos que lhe renderam o posto de mito do cinema e um Oscar.


Sem as mesmas pretensões artísticas daquele marco cultural dirigido por Martin Scorsese, o longa de Joe Johnston é uma garantia de diversão para quem gosta da sequência de super-heróis que está sendo apresentada no cinema nos últimos anos.  No filme evento anunciado para março de 2012, Os Vingadores, veremos, além do Capitão América, Hulk, Homem de Ferro e Thor, em uma reunião de estrelas como não tínhamos desde os tempos dos Monstros da Universal, com seus vampiros, lobisomens, frankensteins, múmias e afins. Essa necessidade de servir como prólogos de luxo para o blockbuster do grupo acaba prejudicando um pouco o andamento de alguns dos filmes solo. Capitão América - O primeiro vingador se sai muitíssimo melhor neste quesito que o recente Thor,  e no mesmo nível que os dois Homem de Ferro (Hulk, com suas inconstâncias de tom e na permanência dos atores principais nos dois filmes já feitos, segue como o pato manco e feio do cast). Mas não deixa de ser promissor perceber alguns ganchos neste filme de agora que permitem alguma esperança de evolução do personagem e de suas tramas quando o compromisso duplo de apresentação de seu universo e de dar coerência ao filme comunitário passar.


Pois mesmo com suas limitações impostas pelo compromisso com a continuidade compartilhada, Capitão América funciona muito bem e para em pé por si mesmo. Tivesse um protagonista tão carismático quanto Robert Downey Jr. seria o grande achado da Marvel nos cinemas. Mas, apesar de estar bem melhor em cena como o herói de guerra do que como o pós-adolescente inflamável do Quarteto Fantástico, Ewans não tem a mesma tarimba do homem que vive o Tony Stark definitivo. O melhor de sua participação como um novo personagem da editora é a certeza de que a franquia do Quarteto está definitivamente enterrada, pronta para um reboot. O vilão, vivido com gosto por Hugo Weaving, garante ainda mais qualidade final ao projeto: o ator rouba as cenas principalmente quando desencarna o rosto e adota a identidade de Caveira Vermelha, o supersoldado alemão. Weaving, revelado como Agente Smith na trilogia Matrix (update: ao menos em termos de filmes mais ligados à estética super-heroística, pois, como comentou Nikelen Witter, não devemos esquecer de seu trabalho anterior em Priscila, a rainha do deserto), está ocupando um espaço que já foi de Gary Oldman antes que este virasse o policial honesto dos filmes do Batman - aquele intérprete que não tem medo de aparecer mesmo com pesada maquiagem e efeitos especiais tapando seu rosto na maior parte da participação em cena.


O acerto de Capitão América é o de não ter medo de atacar os dois lados que a vertente do realismo permite quando se trata de dar um olhar maduro aos super-heróis. Em um primeiro momento, quando o recém transformado Rogers vira, literalmente, porta-bandeira dos EUA no esforço de propaganda para arrecadar recursos em tempos de guerra, o tom é o do humor, do sarcasmo, com a recepção cínica que os soldados dão àquele sujeito fantasiado que tenta elevar o ânimo das tropas. O oficial vivido por Tommy Lee Jones é certeiro quando dá voz ao que pensam dele os homens de armas - o garoto não passa de uma corista, com seu escudo carnavalesco, uniforme inspirado na bandeira das estrelas e listras e botas de bucaneiro. Quando finalmente entra em ação, o olhar realista se aproxima mais das reinterpretações cinematográficas recentes para estes personagens originalmente feitos para agradar um público de 12 anos (outra fala explícita do filme). Acertar este tom, algo considerado indispensável pelos fãs hoje em dia, é o que Joe Johnston e equipe conseguiram.

1.6.11

A ameaça fantasma

Para começar esta resenha, vamos logo tirar uma questão de definições de gênero da frente. Naquele meu post sobre as diversas nomenclaturas para retrofuturismo, temos uma que se encaixa perfeitamente em X-Men - Primeira Classe, filme que estreia na próxima sexta-feira nos cinemas brasileiros e que pude ver na cabine de imprensa promovida pela rede Cinesystem, no Shopping Iguatemi de Florianópolis:

Transistorpunk. Continuando com a lista de Remy, temos esse subgênero que diz respeito a “uma exagerada e glamourizada sociedade da era da Guerra Fria”. Influenciado pelos ideais e modismos da década de 1960, o Transistorpunk também pode ser chamado de "Psychedelipunk" ou "Weedpunk", quando enfatiza elementos psicodélicos ou “tecnologias à base de cânhamo”.

Tendo uma versão bastante particular da Crise dos Mísseis em Cuba (ocorrida em outubro de 1962) como pano de fundo, o filme é sem a menor dúvida influenciado pelos ideais - o embate entre comunismo e capitalismo da Guerra Fria - e pelos modismos - o cafoníssimo visual sessentista - daquela década, além de contar com boa dose de uma tecnologia avançada demais para ter existido de fato meio século atrás. Felizmente, ninguém precisa decorar termos como transistorpunk, psychedelipunk, weedpunk ou quetais para se divertir com a obra dirigida por Matthew Vaughn, que já tinha no currículo adaptações da HQ Kick-Ass, de Mark Millar, e do livro ilustrado Stardust, de Neil Gaiman. Agora, este londrino se dedicou a contar a origem dos mutantes mais populares dos quadrinhos, com tal ambientação que, certamente não por acaso, coincide com a data da criação desses personagens pela mitológica dupla Stan Lee e Jack Kirby para a editora Marvel.

Falando nisso, não custa lembrar que este não é um dos vários filmes cuja criação é assumida inteiramente por aquela editora, caso dos longas recentes Hulk, Homem de Ferro, Thor e dos futuros Capitão América e Vingadores. Os X-Men, assim como Homem-Aranha, estão licenciados para a Fox, o que faz este lançamento ter um compromisso maior com a continuidade estabelecida na trilogia cinematográfica iniciada no ano 2000 por X-Men, o filme do que com o material que rende uma infinidade de gibis todos os meses. A intenção declarada desta nova produção remete diretamente à estratégia adotada por George Lucas em Star Wars: Primeira Classe é apresentado como sendo a parte um de uma nova série de três filmes que atencede a trilogia que o precedeu... Isso mesmo, pensei que nunca mais veria um projeto com essa proposta, mas aconteceu de novo. Sendo assim, o que chegará às salas de cinema nesta semana é algo como A Ameaça Fantasma da saga X-Men, com a vantagem de ser bem melhor que aquele filme de 1999.

Tal ligação com os três filmes que o precederam nos cinemas mas que o sucedem cronologicamente fica clara desde os minutos iniciais. Vaughn optou por reproduzir a sequência em que o garoto que um dia se tornaria Magneto manifesta pela primeira vez seus poderes ao ser violentamente separado dos pais em um campo de concentração nazista, em 1944; exatamente a mesma que abriu o filme de Bryan Singer, uma década atrás (esse cineasta, aliás, aparece nos créditos como produtor do novo longa e, não, não há nenhuma cena legal no pós-crédito, pode sair da sala quando começarem a acender as luzes). Paralelamente também vemos como estaria Charles Xavier naquele mesmo ano, vivendo na mansão de sua família no condado de Westchester, NY, e seu encontro com Mística, a primeira mutante além de ele próprio que o futuro geneticista conhece. E em paralelo seguimos adiante, avançando 18 anos no futuro, quando o sobrevivente inicia sua busca por vingança atravessando países como Suíça e Argentina; bem como o pacifista vai até a Inglaterra aprofundar seus estudos sobre o fenômeno da mutação. Neste momento, conhecemos a dupla que tem a missão de defender personagens que foram brilhantemente interpretados por Patrick Stewart e sir Ian McKellen, respectivamente os jovens James McAvoy e Michael Fassbander, que cumprem a tarefa com êxito, principalmente este último.

A convergência ocorre nos Estados Unidos, quando um inimigo em comum força uma parceria entre os dois mutantes e um braço operativo da CIA: Sebastian Shaw, o líder de um grupo de conspiradores chamado Clube do Inferno (sobre o qual já falei aqui), interpretado por Kevin Bacon, o ator mais experiente da película e, dos que estão em atividade, talvez o que tenha mais a cara dos anos 60. O restante do elenco principal é composto por jovens com pouca experiência, mas quase todos dando conta do recado. É assim com os mutantes que fazem parte da tal "primeira classe" do título, uma formação bastante diferente daquela vista nas HQs, com Ciclope, Garota Marvel, Anjo, Homem de Gelo e Fera. Na versão do cinema, apenas este último (responsável pela criação das tecnologias avançadas que vemos no filme), se mantém; os demais são alguns personagens obscuros até mesmo para um leitor moderado das revistas: Banshee, Angel, Destrutor e Darwin. Uma ousadia e tanto, garantir o filme mais nos alicerces das obras anteriores que em personagens carismáticos e de apelo popular. Sendo que alguns deles podem até mesmo confundir o público que precisa estar atento para entender, por exemplo, que aquele demônio vermelho que se teleporta (Azazel) não é o mesmo demônio azul que se teleportava (Noturno) de X-Men 2 (também dirigido por Bryan Singer, em 2003).

Só posso torcer para que essa ousadia não espante o público e garanta a continuação da trilogia de prequels programada pela Fox. Nem essa nem as demais, como o fato de ser um filme poliglota, com diversos diálogos sendo falados, pela ordem, em alemão, francês, espanhol e russo. Bem como o já citado visual sessentista e a trama de espionagem internacional que lembram mais os episódios iniciais da cinessérie 007 do que uma adaptação típica de super-heróis. Caso a audiência média americana e do restante do mundo supere   tais estranhamentos, ela poderá aproveitar uma obra muito mais interessante que o filme solo dedicado ao popstar do grupo (X-Men Origens: Wolverine, de 2009) e dar a chance para que essa experiência continue em frente. Pois com seu roteiro complexo - e às vezes confuso, sim - X-Men - Primeira Classe consegue dar coerência a muitos dos elementos vistos anteriormentes na franquia. Mas também abriu novas pontas que poderiam ser mais bem exploradas nos dois próximos filmes, cobrindo 50 anos de história. E novas formas de retrofuturismo seriam vistas na tela grande, o que seria uma ótima notícia.

18.5.11

Os neotemplários

Nesta quarta-feira passei por uma experiência inédita: fui ver um filme que adapta quadrinhos que nunca li. No caso, a produção O Padre, baseada em Priest,  manhwa escrito e desenhado por Hyung Min-Woo (os quadrinhos sul-coreanos, muito semelhantes aos mangás japoneses mas com sentido de leitura igual ao do ocidente). Não posso falar nada, portanto, da capacidade do diretor Scott Charles Stewart em se manter ou não fiel à obra original, mas acho que vale a pena comentar alguma coisa aqui no blog, afinal, o filme remete inteiramente ao faroeste fantástico, com direito a motos supervelozes fazendo às vezes de cavalos percorrendo as pradarias e com vampiros monstruosos no lugar dos pele-vermelhas. A produção segue aquele mesmo padrão que comentei na resenha de Mortal Engines, a de um futuro retrô, no qual a sociedade acaba retomando a estética e as soluções tecnológicas de algum período histórico. Neste caso, a escolha fez de O Padre mais um lançamento weird west em nossos cinemas.

O cenário básico deste mundo é explicado logo no início com uma breve animação que faz lembrar a primeira parte de Kill Bill, de Quentin Tarantino. A humanidade sempre travou violentos combates contra os vampiros, até que em algum momento os ataques dos monstros passaram a ser tão bem sucedidos que algo precisava ser feito. Boa parte da população sobrevivente passou a se abrigar em cidades-fortificadas que, em última análise, não passavam enormes igrejas. A força policial estava nas mãos de padres guerreiros, que não usam nada com pólvora, mas contam com um arsenal de armas brancas com motivos de crucifixos: espadas, facas,  sais, shurikens... Após muita luta, aparentemente se chegou a um equilíbrio de forças, com vampiros vivendo em suas colméias em áreas isoladas e a maioria das pessoas nas tais cidades-igrejas. De uma hora para outra, como ocorreu com os Cavaleiros Templários dos tempos das Cruzadas, o Clero passou a considerar a casta de guerreiros como um embaraço a ser revisto. Com a perda de privilégios, os antigos caçadores de vampiros agora ocupam uma posição de párias em suas comunidades, marcados com tatuagens de cruz do alto da testa até o meio do nariz.

Então, acaba o desenho e somos apresentados a atores não tão animados assim. O inglês Paul Bettany é o protagonista do título; o americano Cam Gigandet, um xerife de povoado que vem lhe avisar que sua sobrinha foi raptada após um inesperado ataque dos monstros;  a americana com jeito de asiática (ela é do Hawaii) Maggie Q interpreta uma sensual... hã, como traduzir Priestess? Padreza? Madre? Este é o trio que troca tiros (no caso do xerife) e golpes de kung fu (da parte dos religiosos lutadores) contra as criaturas de CGI comandadas pelo neo-zelandês Karl Urban, que faz um vilão bem pouco aproveitado. É uma boa obra de ação, descontado alguns clichês e interpretações canastronas, que deixa antever um cenário ainda mais interessante que o filme em si. Me deu vontade de conhecer os quadrinhos e de torcer para que as possíveis continuações sejam melhores.



25.3.11

Palpitando sobre cinema 2

Mais uma vez, fui convidado pelo jornalista Felipe Alves para comentar um filme para o blog do qual ele é um dos titulares, o Sala de Cinema, do grupo RBS. Se minha primeira participação foi para comentar um terror psicológico, esta sessão de palpitaria foi dedicada a um musical: o primeiro filme a usar recursos tridimensionais em uma produção live action, na verdade. U2-3D, originalmente lançado em 2008, reestreia esta semana nas salas de cinema brasileiras como um esquenta para a turnê que os missionários irlandeses vão trazer ao nosso país este ano. Quem quiser conferir os comentários, meus, de Felipe e do colega Renê Müller, o vídeo está disponível aqui.

10.3.11

Weird Westerns from Brazil

O título acima é o mesmo dado pelo escritor e quadrinista britânico Paul Green ao post em que ele anuncia a seus leitores a coletânea Cursed City - Onde as almas não têm valor, da editora Estronho. Falei de Green e de sua Enciclopédia temática de Weird West ontem, ao fazer uma nota sobre a resenha do livro escrita por Marcelo Augusto Galvão. O enciclopedista ficou sabendo da resenha e se interessou pela atual movimentação brasileira em torno do gênero. O primeiro resultado foi este post publicado no blog que complementa aquela sua obra de referência. Nele, além de mostrar a bela capa da coletânea brasileira ainda a ser lançada, ele traduz para o inglês a descrição do projeto que vai trazer meu conto "Domingo, Estranho Domingo".



Vale notar outra coincidência no mesmo blog de Mister Green. Em um post anterior, ele também se pergunta se a animação Rango, resenhada por aqui ontem, não seria um representante do gênero. Recorrendo as informações de Robert W. Butler, do McClatchy Newspaper, ele chega a conclusão de que é, sim, como afirmei por aqui. Cita dois exemplos de esquisitices naquele filme, uma sobrenatural e outra ligada à FC (e que tinha me escapado). Vale a pena ler, apesar dos spoilers para quem ainda não viu essa excelente produção.

9.3.11

Banzé no Weird West

Sujeito desastrado vai parar em cidadezinha do oeste, conta algumas mentiras fazendo-se passar por um cara durão, vira xerife e, após algumas confusões, acaba mesmo salvando o dia. Alguma novidade nesta trama? Não, nenhuma; ela já foi vista muitas vezes. O título desta resenha por exemplo faz referência a uma delas, no famoso filme de Mel Brooks chamado Blazing Saddles no original. O que torna a animação Rango um produto bem acima da média mesmo utilizando essas mesmas ideias são os vários toques weird que ela esbanja, tanto no visual quanto em seu roteiro. A começar pelo fato de que o tal sujeito desastrado da vez é um camaleão com pendores artísticos para o teatro, dublado  - na versão original (raríssima em nossos cinemas) - por Johnny Depp. Ele e todos os demais personagens são mostrados em caracterizações realísticas que não poupam detalhes sujos nos pelos, penas, escamas e verrugas de ratos, toupeiras, corvos, águias, sapos e cobras entre outros exemplares de uma fauna que em nada lembra bichinhos fofos. A trama também não foi feita apenas para crianças de modo algum, com referências bastante inusitadas do universo cultural (aparece até mesmo, de relance, em uma estrada, o falecido jornalista gonzo Hunther S. Thompson, que foi interpretado por Depp em uma película nada recomendada para os menores).



O diretor Gore Verbinski é o grande responsável pelo resultado final, já que assina ainda colaboração no roteiro e na produção desta animação da Paramount em parceria com a Nickelodeon. Ele já vem de uma longa relação com seu protagonista, uma vez que é também o encarregado da franquia Piratas do Caribe. Tal como naquela trilogia, que misturou comédia e terror com os velhos corsários, Rango igualmente funciona bem por incorporar novos elementos em uma história já conhecida. Mais do que saber que o camaleão vai salvar o dia na cidade de Poeira - um anacrônico lugarejo no deserto de Mojave, quase tão seco quanto o planeta Arrakis de Duna - o que importa mesmo é acompanhar sua jornada e descobrir como ele vai fazer isso. No caminho, ao coro do quarteto de corujas mariachis, muitas perseguições aéreas com morcegos, dignas de Star Wars e de Apocalipse Now; alguns duelos nas ruas poeirentas e várias cavalgadas nas planícies. Além de uma participação mais do que inesperada e bem-vinda à certa altura dos acontecimentos. Imperdível para quem gosta de animação, de westerns e de esquisitices.

18.2.11

Palpitando sobre cinema

Uma pausa para um reclame rápido. Está no ar, no blog Sala de Cinema, do grupo RBS, um vídeo com participação minha. Fui convidado, ao lado do meu colega de antigas malaquices Fabrício Rodrigues, pelo titular do programa, Felipe Alves, para comentar o filme recém-lançado em nossos cinemas O Ritual, com sir Anthony Hopkins e nossa compatriota Alice Braga. Para assistir nossa opinião sobre essa produção de horror psicológico baseada em fatos reais basta clicar aqui.

15.11.10

Daguerreótipos em movimento

Ainda no clima do feriadão, com tempo sobrando para um bom filme? A escritora Cristina Lasaitis fez uma lista interessante de filmes de época, bastante apropriados para quem gosta da atmosfera carregada de vapor.


Espartilhos, leques, perucas, cachinhos, brocados, babados, rendas, veludos, rococós, borlas, filigranas, carruagens, castiçais, duques, condes, princesas, cortesãos, reis, ópera, pó de arroz, clavicórdios, violinos…
Para você que também é fascinado pela estética renascentista, ou simplesmente gosta de história, ou simplesmente sonha com a Madonna cantando Vogue de Maria Antonieta, ou pra você que gosta de desfrutar das mordomias audiovisuais da modernidade, elaborei esta lista top 9 de filmes da renascença:
Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988)
Direção: Stephen Frears
Baseado na obra Les Liaisons Dangereuses, de Pierre Choderlos, a versão cinematográfica com atuação brilhante de John Malkovich e Glenn Close traz uma bonita reconstrução da vida ociosa e frívola da nobreza francesa. Apresenta um duelo de sabotagem e sedução entre a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, que não medem esforços em suas vinganças e conquistas. Um filme visualmente atraente, uma trama engenhosa e repleta de sutilezas.
*
 Continua

7.10.10

Corujas noturnas

Zack Snyder é um diretor conhecido por suas adaptações de quadrinhos consagrados, primeiramente 300, de Frank Miller, e mais recentemente Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. No filme que vai chegar aos cinemas brasileiros esta semana, o americano volta a a dirigir uma adaptação, mas desta vez a fonte original vem da literatura e o resultado é sua primeira animação. A lenda dos Guardiões é a versão em 3d da série de livros juvenis da escritora Kathryn Lasky (publicados no Brasil pela editora Fundamento) que encontrou personagens sui genreris para protagonizar sua história de fantasia. Ela usa uma rica diversidade de corujas de todas as espécies, das mais imponentes às menores, graças à pesquisa elaborada para o que, um dia, cogitou trabalhar na forma de obras de não-ficção. Com essa parceria, a Warner Brothers disputa um filão dominado por Disney e DreamWorks, o dos longas de animação. Aliás, o curta que antecede a atração principal parece estar lá para lembrar que, apesar de não ter seu nome muito associado a iniciativas do tipo nos cinemas, o estúdio tem longa tradição em outras mídias. Na tela grande, encarnações tridimensionais de Wile E. Coyote e do Papa-Léguas se enfrentam exatamente do mesmo modo que já cansaram de fazer em nossas TVs.



Diretor, escritora e estúdio podem se orgulhar do material que produziram e que deve ser apenas o primeiro de uma nova franquia cinematográfica, já que ainda há mais livros a serem adaptados e a estreia é bem promissora. Antes de mais nada, é preciso dizer o quanto faz diferença quando um projeto assim é planejado de fato para ser 3d e não apenas se dá um jeitinho na pós-produção. A riqueza dos detalhes do filme valorizam muito as cenas naquele mundo habitado por corujas inteligentes e que dominam tecnologia de metalurgia (vou tentar evitar aqui a piada que fiz no twitter classificando a obra como owlpunk, certo?). As texturas das penas daquelas aves, por exemplo, são um deslumbre à parte, uma demonstração de que a WB reuniu um ótimo time de animadores a seu serviço. E se desde Avatar, passando por Como treinar seu dragão, tomadas aéreas paracem ser um dos grandes atrativos da moda do 3d nas películas - aliás, será interessante ver o mesmo Snyder usar esses recursos no próximo filme do Superman, pelo mesmo estúdio - A lenda dos Guardiões não decepciona. Cada voo das corujas é um verdadeiro espetáculo, tanto em longas travessias entre tempestades quanto nas cenas de combate.

Boa parte da graça do filme está justamente baseada no realismo empregado para retratar seus atores, sejam os protagonistas, sejam os coadjuvantes. Os irmãos Soren e Kludd, capturados por um beligerante grupo autodenominado Puros; os aliados Gyfie, Digger, Crepúsculo; os míticos Guardiões que dão título ao filme; todos eles foram recriados mais baseados em suas contrapartes reais do que em uma antropomorfização caricata. Isso exige um grau maior de sutilezas dos responsáveis pela animação, pois não é tarefa das mais fáceis emprestar ao elenco expressões faciais dignas dos sentimentos despertados durante a história e com isso garantir a empatia dos espectadores. A tarefa é mais simples em alguns casos, como na reinterpretação do principal vilão da trama, chamado de Bico de Ferro na tradução brasileira, que com seu capacete sinistro se torna uma espécie de Darth Vader emplumado. Mas na maioria das vezes, são pequenos detalhes nos olhos tudo o que eles têm - e precisam - para passar a mensagem.

Com tanto requinte, a imagem que eu faço do filme é meio têxtil: o tecido é da maior qualidade, poderia dar uma traje e tanto, só pecou nas costuras. A história é bastante tensa e forte, com temas complicados de se lidar em relação a crianças menores, como sequestros, escravismo, crueza no campo de batalha... Elementos que poderiam dar leveza e unidade ao conjunto são exatamente os pontos fracos neste trabalho de Snyder. Trechos de virada do roteiro, como os alívios cômicos, o momento da profecia, a revelação da arma secreta ou mesmo o do interesse romântico, acabaram não sendo tão eficazes quanto poderiam. O resultado: para o público muito jovem e para quem não conhece a saga criada por Kathryn Lasky é a sensação de não poder aproveitar tanto quanto ocorreria se esses pontos fossem mais bem acertados. De qualquer forma, é excelente ver um novo jogador dando cartas neste circuito fechado das animações, ainda mais um que já venha para a mesa com a tradição de uma Warner.

30.9.10

A grande corrida chega ao fim

Abrir o twitter hoje me deu uma má notícia ao me informar da morte de um dos grandes atores de todos os tempos, o americano Bernard Schwartz, aliás, Tony Curtis (1925-2010). Intérprete de inúmeros sucessos da metade do século XX, como Quanto mais quente melhor, ele também é uma citação obrigatória neste blog por um detalhe lembrado naquele mesmo site por Alexandre Lancaster. Tony Curtis foi o protagonista de um dos filmes steampunk mais influentes e bem sucedidos da história, A corrida do século (The great race), de 1965, dirigido por Blake Edwards.




Mais lembrado por ter sido a inspiração do desenho animado A corrida maluca, com seus carros retrofuturistas insanos, o que muita gente não sabe é que o filme foi baseado em um evento real, ocorrido em 1908. Relembro aqui uma matéria de Henrique Koifman, do blog Rebimboca, hospedado no portal de O Globo, como minha homenagem ao filme e ao ator que acabamos de perder.


Há quase exatos cem anos, na manhã gelada de 12 de fevereiro de 1908, em Nova Yorque, uma seleção de bólidos alinhou para a largada daquela que seria a maior corrida de automóveis de todos os tempos. Saindo da Ilha de Manhathan, os carros seguiriam rumo à Paris, indo pelo Oeste – ou seja, cruzando todos os EUA, parte do Alasca, norte da Ásia e quase toda a Europa –, percorrendo um total de 22 mil milhas (ou pouco mais de 35 mil km). Quase uma volta ao mundo, num tremendo feito para a época – e respeitável, ainda hoje. A competição deu origem a uma série de filmes – como o antológico “A Corrida do Século”, de 1965, com Tony Curtis. Falo, a seguir, resumidamente, sobre esse fantástico grande prêmio. Quem quiser saber mais detalhes, vá até o site do New York Times, que, aliás, foi patrocinador da tal prova e também a fonte de muito do que publico aqui. No mapa, o trajeto da corrida está em vermelho.

Continua

19.8.10

Pode ser o último mesmo



Para começar, vamos lembrar que o filme deveria se chamar Avatar, do mesmo modo que a obra que lhe inspirou, a animação criada por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko no meio da década para o canal Nickelodeon. Isso só não aconteceu para evitar qualquer tipo de confusão com o megahype cinematográfico do ano passado. A opção foi transformar o que era subtítulo, The last Airbender, em título, ou, na adaptação brasileira, O último Mestre do Ar. Foi algo meramente burocrático, como podemos ver, mas essa mudança de nome acabou ganhando um caráter quase profético até mesmo para separar duas realidades tão distintas quanto são a daquela série animada televisiva e a deste lançamento da Paramount que chega aos cinemas a partir desta sexta-feira, dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan. Pois, se for para comparar, a nova versão, muito mais cara e tecnologicamente apurada que o original, não faz a menor justiça ao trabalho de DiMartino e Konietzko.

O que aquela dupla fez a partir de 2005 foi a mais memorável animação desde, pelo menos, que Bruce Timm produziu Batman - The animated series para a Warner na década anterior. A dupla criou um universo de fantasia extremamente coeso, num tempo e num mundo indeterminados, em que quatro grupos de pessoas capazes de dominar os elementos – em uma mistura de coreografia marcial e telecinese – se dividem pela geografia de um planeta muito semelhante à Terra, tudo inspirado em países e culturas de povos asiáticos. A Nação do Fogo é uma espécie de Japão Imperialista, dotada de armas e de equipamentos que remetem à nossa conhecida estética steampunk; o Reino da Terra, cuja capital é cercada por uma muralha de pedra, faz às vezes da China; os Nômades do Ar reúnem monges numa clara citação aos tibetanos; e as Tribos da Água são formadas por habitantes dos círculos polares ao Norte e ao Sul do planeta. A cada geração, um escolhido, o Avatar do título original, reencarna em um desses grupos com a capacidade de dominar todos os elementos e a missão de harmonizar aquele mundo em termos espirituais, garantindo assim a paz de todos.

A primeira temporada do desenho – “Livro 1 – Água” – começava justamente com esse equilíbrio alcançado em um infindável ciclo de reencarnações desfeito. Com o último Avatar desaparecido ainda criança, a Nação do Fogo iniciou um processo de conquista de territórios e de aniquilação dos demais dominadores de elementos. A começar pelo povo no qual o escolhido surgiu pela última vez, os Nômades do Ar, aquele império foi mirando seus tanques e navios a vapor contra todos, restando pouca resistência após um século sem a presença do protetor mítico. A esperança ressurge quando um casal de irmãos adolescentes – ela, Katara, uma ainda inexperiente dominadora da Água, e ele, Sokka, um caçador sem poderes especiais – encontra um criança presa num bloco de gelo nas proximidades do Polo Sul. Logo descobrem que a criança é Aang, o Avatar desaparecido, que por ter ficado cem anos hibernando, travou o ciclo de renascimentos e deixou o mundo no caos em que se encontra. Ele nem mesmo teve tempo de iniciar o treinamento com os demais elementos para tentar resolver a questão. Agora o garoto não apenas é a última pessoa com capacidade para dominar os ventos, como é o único sobrevivente de seu povo, sendo caçado por vários inimigos, entre eles Zuko, um príncipe exilado da Nação do Fogo.

É a partir deste ponto que se inicia o material adaptado por Shyamalan. A tarefa é complexa, pois o que se pode perceber é que o filme foi concebido para ser o primeiro de uma trilogia baseada nas três temporadas de Avatar. É complexa porque cada uma delas tem 20 episódios, somando meio milhar de minutos, a serem compactados em menos de duas horas de cinema a cada vez. Ou seja, cada temporada, ou “Livro” – sendo o segundo “Terra” e o último “Fogo” – , renderia por si sua própria trilogia, em termos de quantidade de material à disposição. E é mais complicada ainda porque, a julgar por este O último Mestre do Ar, o projeto pode muito bem ser abortado no início e o primeiro filme pode mesmo ser o derradeiro como aparece no título. Tamanha é a sucessão de erros cometidos pelo cineasta, não seria surpresa alguma se isso ocorresse. E talvez até fosse melhor mesmo a franquia entrar, no mínimo, em hibernação. Assim como a carreira do diretor, que começou em termos mundiais tão bem, com Sexto sentido, de 1999, prosseguiu em alta com Corpo fechado e, daí em frente, atingiu um declínio cada vez mais evidente até agora, o momento em que quicou de vez no fundo do poço.

Os erros já começam nos minutos iniciais, com uma sequência inacreditavelmente preguiçosa que mostra o Avatar finalmente sendo localizado. A escolha de atores brancos para interpretar o trio de protagonistas já é uma decisão polêmica, com Noah Ringer como Aang e Nicola Peltz e Jackson Rathbone como seus salvadores. Poderia até haver alguma razão artística para tal escolha, mas a verdade é que se houve, ela não ficou visível na tela. Todos os três são muito ruins, principalmente o garotinho no papel principal, que, como ator, é um excelente - mesmo! - artista marcial. Menos arriscada, pelo menos, foi a escolha de Dev Patel como Zuko. Mesmo não sendo, como seria mais de acordo com a lógica da série, japonês, o jovem ator conterrâneo dos antepassados do diretor já mostrou em Quem quer ser um milionário? que é bom no que faz e talvez dê conta de segurar um papel que, ao longo das três temporadas, se revelou um personagem dos mais bem construídos da história das animações.

Se não fosse esse fator humano, pelo menos daria para se elogiar a fidelidade na questão visual da película que respeitou bastante o design de cenários e da estranha fauna daquele planeta apresentados na animação. Destaque para os impressionantes navios de guerra da Nação do Fogo, blindados e com suas enormes caldeiras e canhões lançadores de chamas. Apesar de não mostrar muito do seu funcionamento, é nesses momentos que o lado steampunk desta fantasia se mostra presente. Seria até o caso de reclamar a ausência na tela de uma cena muito interessante dos primeiros episódios da série: a que mostra uma engenhosa porta metálica com múltiplas engrenagens, num exemplo perfeito da melhor engenharia especulativa steamer - mas a verdade é que a obra tem tantos defeitos que reclarmar disso seria perfeccionismo demais.

De volta aos personagens, desde a apresentação deles já é possível intuir que o filme não daria mesmo certo. Sokka, por exemplo, é mostrado desde o início como um alívio cômico da série animada, com múltiplas caretas, atuações atrapalhadas e vários jogos de palavras. É só comparar com sua adaptacão, vivida por Rathbone, que atuou na cinessérie Crepúsculo: sem humor de forma alguma, com aparente paralisia facial e falas burocráticas. Vale o mesmo para o tio de Zuko, outro personagem que teve seu humor bonachão deletado na transposição de mídias. O pior é que essas características eram apenas uma das facetas deles, que ao viverem seus momentos dramáticos ao longo dos episódios, demonstraram ser - ironicamente - muito mais tridimensionais que essa versão 3d dos cinemas. Não houve essa mudança de tom no filme, Zukko e o tio Iroh continuaram basicamente os mesmos do início ao fim: rasos, unidimensionais, chatos. Nem eles nem nenhum outro personagem em cena consegue extrair um mínimo de empatia com o público.

Tudo isso aconteceu por conta dos cortes necessários na trama para fazer cumprir os limites de tempo do cinema, claro. Então, não teve jeito, o que a direção e o roteiro de Shyamalan adotaram como solução foi um resumo drástico daqueles já comentados quase 500 minutos do original, muitos diálogos explicativos - com enquadramentos de close no rosto dos atores que parecem ser ainda mais televisivos que os do próprio desenho animado - e cortes no que ele deve ter considerado supérfluo, porém que, muitas vezes, era justamente a garantia de sucesso de Avatar. Sacrificou-se assim muito não só das personalidades e da coerência daquele universo, como também de vários elementos que, talvez, terão que ser inseridos em um espaço ainda mais apertado depois, caso a franquia tenha mesmo a almejada continuidade.

Há ainda problemas sérios na parte técnica. Aparentemente, o efeito 3d adotado, para seguir a tendência aberta por aquele outro filme, o homônimo do seriado, trouxe os prejuízos que podem ser percebidos no controle de luz e no contraste das cores vistas no cinema. Se ao menos em contrapartida os efeitos valessem a pena e compensassem a perda geral na qualidade da imagem... Nem isso. De todo o filme, apenas algumas rajadas de água e de fogo, além do recorte dos navios de guerra, receberam o tal tratamento especial. Algo perfeitamente dispensável no contexto geral. Mas acredito que nem essa explicação sirva para algo que realmente me impressionou no filme: o diretor, acreditem, perdeu o foco em simples travelings, aquele passeio da câmera. Não apenas uma, mas duas vezes! Não entendo como algo assim, que deve dar demissão por justa causa até mesmo em novela da Record, foi mantido na montagem final. Do mesmo modo como não entendo como o plano sequência que mostra pela primeira vez dominadores de Terra tenha sido filmado de forma tão desanimada, com uma coreografia tão pobre. Não à toa que, para o trailer, escolheram uma outra cena de luta, bem mais impressionante que aquela, pobrezinha.

E foi isso o que Shyamalan fez com a obra de DiMartino e de Konietzko em sua adaptação live action e cinematográfica de um dos melhores seriados animados que já vi na televisão. Num mundo ideal, talvez os 150 milhões de dólares investidos em O último Mestre do Ar tivessem melhor destino, chamando os criadores originais, que mostraram entender, afinal de contas, de audiovisual, para tocar este projeto. Ou mesmo para que a dupla criasse algo completamente novo para os cinemas, uma nova franquia de animação para competir com Toy Story e Shrek, por exemplo. Enfim, qualquer coisa poderia ter acontecido em um mundo perfeito, menos a produção deste filme da maneira como ela foi cometida.

12.5.10

Através do espelho

A caótica programação de filmes nas salas de cinema de Florianópolis me aprontou mais uma e me deixou sem poder ver uma das obras que eu mais aguardava nesta temporada: O mundo imaginário de Dr. Parnassus. Como o diretor Terry Gillian, ex-Monty Phyton, tem uma grande contribuição para o acervo visual do steampunk - desde que lançou em meados dos anos 80 Brazil, o filme - esse era um longa que eu planejava resenhar por aqui. Não deu para fazer isso pessoalmente, mas o escritor José Roberto Vieira, autor de Baronato de Shoah, aceitou meu convite para escrever sobre a obra. Segue o texto, com meus agradecimentos a ele.

Em uma época onde releituras, remakes, restarts e todos os demais “res” empesteiam nossos cinemas e a criatividade de Hollywood parece se esgotar a cada lançamento, surge um filme que se salva do modismo, apresentando um roteiro inédito, inteligente e capaz de conquistar o mais duro dos corações: The Imaginarium of Doctor Parnassus.

A mais nova película de Terry Gilliam é uma fantástica aventura na mente do Doutor que dá nome ao filme. Estrelado por não menos que Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrew no mesmo papel: Tony, um desmemoriado e provavelmente a figura mais carismática do filme.

Enganado pelo diabo, Parnassus tenta, de diversas formas, ser feliz e levar a vida normalmente, mesmo sendo um imortal com mais de mil anos. Acompanhado de sua bela filha Valentina; Anton, um menino de rua malabarista; e Percy, um anão, o “Mundo Imaginário do Doutor Parnassus” apresenta-se de cidade em cidade, como um circo itinerante e decadente cuja única atração é um espelho mágico, que, segundo dizem, é capaz de dar experiências incríveis àqueles que ousarem atravessá-lo.

E são essas experiências que são divididas com os espectadores, através de imagens fabulosas e um enredo totalmente bem amarrado e consistente, como só Gilliam consegue apresentar. Cada imagem, cada cor, é o símbolo de outra coisa, uma realidade existente em nosso mundo e incapaz de se revelar de outra forma – a não ser que tenha ajuda da imaginação.

Tudo, no fim das contas, é mais uma aposta feita entre Parnassus e o Diabo, que se parecem muito mais com amigos de longa data do que com rivais. Pessoas cujos pontos de vista foram alterados ao longo dos anos, e o sentido de “Bem” e “Mal” carecem de limites humanos e simples filosofia. Há certos momentos em que a plateia não sabe mais quem é quem, e se não fossem as aparências, ambos se confundiriam.

Vale lembrar, que é através do espelho, que vemos a última interpretação de Heath Ledger… e, infelizmente, nem a brilhante imaginação de Parnassus ou a astúcia macabra do Diabo são capazes de vencer a senhora da Foice.

23.4.10

Ela não mora mais aqui

Quando foi convidado para interpretar James Mathew Barrie (1860-1937) no filme Em busca da Terra do Nunca, de 2004, Johnny Depp praticamente obrigou a equipe do diretor Marc Foster a realizar um levantamento completo na vida daquele homem. O objetivo do ator era se certificar de que não estaria emprestando o rosto a um pedófilo, como sinalizavam boatos em relação ao dramaturgo escocês por conta da relação dele com as crianças que lhe inspiraram em seu trabalho mais famoso, a peça teatral Peter Pan, que ganharia fama mundial e chegou a virar desenho da Disney. Agora, Depp atua em um filme da Disney que adapta uma obra também do século XIX cercada de ainda mais suspeitas quanto ao interesse de seu autor original em relação à fonte de inspiração: Alice no País das Maravilhas.


O clássico Aventuras de Alice no País das Maravilhas e sua continuação, Através do espelho, foram obras escritas pelo professor de matemática Charles Dogson (1832-1898), mais conhecido pelo pseudônimo literário Lewis Carrol. A musa de ambos os livros foi uma menina que tinha quatro anos incompletos quando ele a conheceu, em 1856, cujo nome não por acaso é o mesmo da protagonista dos romances e do filme que acaba de estrear no Brasil fazendo uma fusão daqueles dois trabalhos. Johnny Depp está no longa e em várias imagens relacionadas a ele dando forma ao Chapeleiro Maluco. Sendo que o diretor desta vez é Tim Burton, não é supresa alguma que o ator tenha feito parte do projeto - mesmo que ainda guarde reservas pessoais quanto a trabalhar com obras ligadas a suspeitas de pedofilia em sua origem - pois a parceria dos dois é muito bem estabelecida há duas décadas, desde Edward Mãos de Tesoura, de 1990.

Curioso é que a Alice criança originalmente escrita por Carrol tenha sumido. Ao contrário da primeira vez que os estúdios Disney adaptaram aquele material, em uma animação de 1951, a opção aqui foi a de dobrar a idade da personagem-título. Ela aparece como uma mulher às vésperas de completar 20 anos, vivida pela atriz  australiana Mia Wasikowska, e de ser pedida em casamento por um nobre longe de se encaixar no perfil de príncipe encantado. Seja para se livrar de qualquer insinuação mais polêmica ou por escolha puramente artística, esse envelhecimento forçado foi uma decisão arriscada e que deixou marcas na obra. Num primeiro momento, poderia ser somente estranhamento, como ocorreu quando a Globo optou por usar uma atriz mirim para viver a personagem Emília - na ocasião em que a emissora brasileira resolveu voltar a adaptar o Sítio do Picapau Amarelo - depois de uma longa tradição em que a boneca de pano era interpretada por mulheres adultas na tela da TV. Mas é bem mais complicado que isso.

Independentemente das motivações por trás de sua criação, é inegável que Lewis Carrol produziu uma obra-prima da literatura infantil. Ao mesmo tempo em que contestou os rigores da sociedade da Era Vitoriana e apresentou brincadeiras com lógica e matemática, sua obra vem divertindo gerações de crianças há quase um século e meio e fascinando adultos com a riqueza de sua imaginação e apuro técnico. O efeito se perde muito, quase por completo, quando ao invés de uma criança entediada se deslumbrando e sendo desafiada por aquele mundo de maravilhas vemos uma pessoa adulta fugindo de suas responsabilidades interagindo com aquela sucessão de personagens enigmáticos. Mesmo que essa pessoa seja bem menos adulta em termos de personalidade do que seria de se esperar de uma mulher de sua idade naqueles tempos. O sense of wonder - sem trocadilhos com o nome do filme - acaba prejudicado com isso. Muito de Alice se perdeu no processo.

Mas ainda pior são os rumos do roteiro que troca aquela contestação um tanto anárquica da fonte primária por uma história que tenta agradar a mais parcelas do público, incluindo o masculino e adolescente, com toques épicos. Quase ao final do filme, ao ver a Alice adulta de armadura e espada na mão, enfrentando criaturas geradas por computador, tive a impressão de que alguma interferência estava acontecendo. Parecia que cenas de O senhor dos anéis, de Crônicas de Nárnia ou mesmo de Aragorn haviam sido infiltradas naquele universo meio que sem contexto, à força. E dali segue um final que, bem, é muito mais Disney que Burton, procurando amarrar tudo de um jeito tão explicadinho, tão didático que sobram sorrisos amarelos, maiores que o do famoso gato, tão pouco explorado no filme, infelizmente. Parece que o diretor acabou sendo apressado pelo Coelho Branco e convencido a acelerar o ritmo para não se atrasar.

Claro que na parte visual, como é de se esperar de  Tim Burton, o espetáculo está garantido. Em sua primeira criação com atores no atual padrão 3-d que se estabeleceu nas salas de projeção, o cineasta dá um show. Provavelmente, o filme perde muito de seu impacto se for visto sem os recursos tridimensionais. A cena da queda de Alice pelo toca do Coelho, por exemplo, deve entrar para uma antologia dos melhores momentos da carreira do diretor. Contudo, ao contrário do que aconteceu com Avatar, aqui as legendas atrapalharam um tanto o processo. Se no filme de James Cameron elas ocupavam um plano à parte, sem interferir com o restante, em Alice no País das Maravilhas as letras em alguns momentos, como na cena do chá, acabam se fundindo ora com um elemento, ora com outro, confundindo o efeito de profundidade. Para quem conseguir abstrair esses momentos - que não são tantos - há muito o que se deslumbrar com essa Era Vitoriana fantástica criada por um dos maiores estetas em atividade no cinema.

22.3.10

Tecnologia viking

Tudo bem que você precisará ser bem liberal com o termo para considerar a nova animação da DreamWorks uma representante steampunk. Afinal, os protagonistas aqui são os vikings, aqueles guerreiros escandinavos que aterrorizaram parte da Europa um milênio antes da Era Vitoriana. Porém, boa parte do interesse daquele gênero está preservado no filme, com algumas invenções retrofuturistas em um estilo faça-você-mesmo de enjambração mecânica. Além disso, Como treinar seu dragão é uma ótima aventura, bem humorada e que explora de maneira muito eficiente os recursos 3d que devem se tornar um padrão irrevogável nas produções cinematográficas nos próximos anos, principalmente as voltadas para o público juvenil, como esta.

Basicamente temos uma vila chamada Berk, onde os tais guerreiros vivem há sete gerações enfrentando um problema bastante sério: ataques constantes de dragões. Uma verdadeira praga, o lugar é alvo das mais variadas espécies desses rápteis voadores. Soluço é o nome do filho do chefe daquele bando, um garoto magrelo e desajeitado que parece honrar mais uma outra vocação dos escandinavos que não tem a ver com os feitos heroicos. Lembrando que provavelmente o leitor tem ou já teve pelo menos um celular feito naquela região congelada do mundo, o rapaz é um precursor dos atuais engenheiros. Com uma de suas invenções - uma espécie de catapulta capaz de disparar uma rede - ele captura um dos mais misteriosos representantes daqueles inimigos.

Sim, porque não é apenas uma variedade de dragões que ataca o vilarejo; há uma infinidade de tipos - o mais interessante lembra um isqueiro orgânico, com suas duas cabeças, uma libera gás e outra provoca faíscas para causar o incêndio. No caso, o garoto alvejou, mesmo que ninguém acredite nele, um Fúria da Noite, animal nunca antes capturado ou abatido, capaz de disparar rajadas explosivas. Recusando-se a matar o bicho a sangue frio, o garoto aprende com esse dragão - Banguela é o nome que ele recebe - alguns truques que vão revolucionar uma guerra que já dura 200 anos. Para isso, ele vai precisar usar mais daquela mente analítica que os poucos músculos que tem.

 Há muito em comum entre esta animação e o megassucesso Avatar. O princípio básico das duas histórias é o mesmo, baseado na Jornada do Herói; os efeitos tridimensionais das imagens e várias sequências aéreas. São semelhanças e tanto. Porém, na obra destinada a um público mais jovem, tais elementos são mais bem resolvidos. Entre um filme assumidamente divertido e para todas as idades como este ou uma película supostamente séria e adulta como aquele filme de James Cameron, não teria dúvida sobre qual me faria voltar a por aqueles irritantes óculos para assistir a uma segunda rodada.

9.1.10

Thought-time

Um ator que vive simultaneamente, em duas franquias cinematográficas de sucesso, personagens cínicos e canalhas: um deles cercado de tecnologia avançada e outro um aventureiro do passado nem tão distante. Estou falando de Harrison Ford que deu vida na década de 80 tanto a Han Solo, o contrabandista de Star Wars, quanto a Indiana Jones, o arqueólogo da série com seu nome. Mas daqui a algum tempo, essa frase pode ser verdadeira também ao se falar de Robert Downey Jr., que já vai para o segundo filme do super-herói hi-tech, beberrão e mulherengo de Homem de Ferro e que acaba de interpretar um detetive vitoriano, excêntrico e misógino em Sherlock Holmes. Se tudo der certo, como merece a obra, este último também vai virar franquia de sucesso e seu intérprete será o Harrison Ford desta nova década. E ele merece, ainda mais que a obra.

Quando anunciaram pela primeira vez esta nova adaptação do personagem de sir Arthur Conan Doyle  (1859-1930) não foram poucos o que acharam que estava tudo invertido. O atarracado Downey Jr. como Holmes e o galã Jude Law como Watson? Não seria o contrário, não? A intenção do diretor Guy Ritchie parecia ser essa mesma, a de subverter o mito, sair da tal zona de conforto e oferecer às novas gerações uma nova versão de um ícone. Paradoxal, a versão iconoclasta de um ícone. E deu certo. O protagonista entrega isso mesmo, um personagem que vive uma atmosfera de decadência, mas no sentido mais amplo do termo, pois vale lembrar que decadência é aquilo que se segue ao auge. Sherlock Holmes está no ápice de suas capacidades dedutivas e isso não é nada promissor em termos de futuro. O que se pode querer depois de se ter alcançado o máximo?

É este momento de crise o visto no recorte do filme, agravada ainda mais pela iminência do fim da parceria dos moradores do 221b de Baker Street. John Watson, médico e veterano de guerra, vai se casar o que acentua ainda mais o temperamento exótico de Holmes. Downey Jr. é certeiro ao dar esse ar de desesperada arrogância ao personagem. Se não fossem os novos chamados à ação que obrigam a dupla a continuar junta em mais um caso, a autodestruição do investigador do século XIX seria tão certa quanto a dos astros pop de nossos dias após terem conquistado tudo o que poderiam extrair de seu talento.

Mas para o bem da sanidade do detetive, e  o azar de Londres, ação não falta nos 128 minutos de filme. A história envolve conspirações, magia negra, ciência e tecnologia em uma mistura steampunk das melhores que o cinema já proporcionou. A trama é bastante intricada e confia no público ao evitar apresentações muito didáticas de seus personagens. Não se perde tempo explicando quem são Holmes e Watson, como eles se conheceram ou como travaram o primeiro contato com figuras como a antogonista, rival e algo mais do detetive Irene Adler (interpretada por Rachel McAdams). O texto oferece os detalhes básicos e convida a plateia a conhecer mais a partir do material que deu origem àquele universo. A noiva de Watson, por exemplo, faz referência a histórias de investigação que teria lido, citando explicitamente Edgar Allan Poe, e, em certo momento, esbarra no baú onde seu futuro marido guarda as anotações das dezenas de casos nos quais acompanhou as deduções do antigo colega.

Como cinema, Ritchie exibe suas características marcantes de obras anteriores, como Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (1998) e Snatch - Porcos e diamantes (2000). A estilização da violência e os maneirismos visuais não agradam a todos, mas têm público cativo. Esse mundo não iria colidir com aquele criado por Conan Doyle sem soltar faíscas. Os mais puristas deverão estranhar muito; as vertentes acostumadas com as recriações da cultura steamer, por outro lado, talvez se sintam em casa. Para este segundo grupo, além das tecnologias deliciosamente retrofuturistas, o diretor ainda oferece um interessante olhar cinematográfico para os poderes de racionalização do grande detetive. Antes de partir para a violência explícita - seja agindo em campo ou numa luta de boxe movida a apostas - Holmes coreografa mentalmente cada golpe que vai dar, antecipando ações e reações. Se Matrix apresentou o já desgastado efeito do bullet-time, Sherlock Holmes surge com seu thought-time. É uma maneira de entrarmos na mente dessa genial criação vitoriana. O perigo é não conseguirmos sair mais de lá.

22.2.09

Meio século atrás, na Tchecoslováquia...

...um diretor de cinema chamado Karel Zeman lançava uma pequena obra-prima inspirada no trabalho de Jules Verne (ou Julia Vernea, na adaptação feita naquele país, assim como é Júlio o primeiro nome do escritor para muitos lusófonos).

Vynález zkázy é o nome original da adaptação cinematográfica, mas ela também pode ser encontrada pelos pelos títulos em inglês, The fabulous world of Jules Verne ou ainda A deadly invention. Em cerca de 80 minutos, o filme oferece um espetáculo visual em preto e branco: muito antes da existência das técnicas de computação gráfica a equipe se valeu de uma série de montagens e fusões com base em ilustrações de diversos livros do autor francês.

O resultado é um mundo totalmente alterado pelas invenções visionárias de Verne. Seja no céu, com vários balões ou o engenho voador Albatros (de Robur, o Conquistador); na terra, com locomotivas exóticas e o enorme Columbiad (Da Terra à Lua); ou no mar, com batalhas de versões do Nautilus (Vinte mil léguas sugmarinas) a diversão para os fãs dessas e outras obras é garantida.

De acordo com o IMDB esta é a lista parcial do elenco do filme, escrito por Frantisek Hrubín:

Lubor Tokos - Simon Hart
Arnost Navrátil - Professor Roch
Frantisek Slégr - Kapitán Pirátu
Jana Zatloukalov - Jana

Quem estiver interessado em conferir este pequeno clássico quase esquecido, pode dar uma passada no Youtube, onde o filme foi dividido em oito partes a partir deste primeiro segmento. Garanto que vale muito a pena mesmo para quem, assim como eu, não entender nada do que esteja sendo falado.

A dica partiu de um dos beta readers de "Cidade Phantástica" e, se tudo der certo, um dos escritores que vai dividir comigo o espaço de uma futura coletânea steampunk, Alexandre Soares (valeu, Lancaster! Garantiu meu divertimento no sabadão de Carnaval!)