16.4.11

Dicas de leitura para o fim de semana 2

Como havia feito no sábado passado, deixo os leitores desta página com a recomendação de novos contos steampunk disponíveis para leitura on line. Ambos os textos têm em comum o fato de terem sido enviados originalmente para a apreciação da coletânea Deus Ex Machina - Anjos e Demônios na Era do Vapor, da editora Estronho. Portanto, a temática das duas dicas de hoje também tem tudo a ver com outra recomendação colhida no twitter do aomirante e que estou ouvindo enquanto faço este post: uma ótima versão de "Sympathy for the Devil", dos Stones.

O primeiro conto é de autoria de Guto Fernandes, "Bruma e Chamas", que ele postou parcialmente em seu blog, A Few of Dark, remetendo os interessados a um arquivo para download. O texto será a primeira parte de uma minissérie. Trecho a seguir:


Fazia tempo desde a última vez que havíamos nos encontrado. Fora ainda naquele período da história em que os humanos teimam em chamar de Idade Média; Idade das Trevas sempre combinou mais para mim, e creio que para ele também.

Era o ano de 1500 e estávamos na Espanha no desabrochar de sua Inquisição, em meio a conflitos sangrentos motivados pela intolerância religiosa e racial implantada pelo Caído e ampliada por padres, bispos e cardeais egoístas e pervertidos. Ele se fartava com aquilo, também pudera a própria Igreja de Cristo naqueles anos se preocupava mais com a sua figura do que com a do Salvador. O Todo-Poderoso, então, me enviou para aquele pardieiro que era Sevilha a fim de destronar meu irmão sombrio, outrora guardião da Luz.

Nossa batalha foi ferrenha. Ele lançava sobre mim hordas e mais hordas de demônios menores, assim como humanos que utilizava como peões em seu intricado jogo de xadrez com Deus. Naquele instante, eu era a torre que deveria por fim àquele avanço e assim o fiz. Não sem dificuldades, mas o fiz.

Infelizmente, não fui forte o bastante para destruí-lo como era minha obrigação e, mais uma vez, ele fugiu e se escondeu. Samael, contudo, havia sido bom o bastante para conseguir engendrar seus planos e a Inquisição durou mais alguns séculos, mesmo com o Todo-Poderoso sussurrando, dia e noite, nos ouvidos de cada Papa que se sentava no Vaticano, que aquilo era errado Maldito livre-arbítrio.
O mundo ficou por cerca de trezentos e poucos anos em suas mesquinharias, com seres infernais de pouco importância brotando aqui e ali; potências econômicas e militares surgindo e sangue sendo derramado como se fosse água no novo mundo. Mas nada da participação dele em qualquer atividade humana.

Assim veio a Revolução Industrial ou a Era do Vapor, como a chamamos na Cidadela de Prata. O povo saiu dos campos e foi infestar as cidades como moscas varejeiras sobre corpos mortos e também os demônios retornaram com força e números. Ao menos agora o local do confronto não era nada mal: Londres, Inglaterra.

Continua.


A segunda recomendação literária do fim de semana parte de Afonso Luiz Pereira, responsável pelo obrigatório blog dedicado à ficção especulativa Contos Fantásticos, para o qual já tive o prazer de ser convidado para uma entrevista. Ele conta que "Os estranhos da noite" teve uma primeira versão escrita há dois anos como uma narrativa de terror e ganhou esta segunda encarnação somada a elementos steamers recentemente. As primeiras linas estão abaixo:



Abril de 1889.

Estava com medo! Muito medo! Não conseguia afastar os olhos esbugalhados de uma das frestas da cortina que cobria a janela frontal de sua velha morada. Alois, o marido, um bem sucedido guarda de alfândegas, não se encontrava em casa, mas tivera o bom senso de não deixá-la totalmente desprotegida. Através da influência de seu posto, conseguira confiscar um dos autômatos humanóides vindos da Inglaterra para fortalecer o exército do Império. A criatura cilíndrica metálica, que mais parecia um enorme pepino com braços e pernas, se locomovia feito gente e ocultava nas suas laterais armas de fogo retráteis de poder devastador. Apesar da forte oposição que fizera contra a ideia de se manter aquela coisa como cão de guarda da casa, dava graças a Deus, naquela fatídica noite, à arrogância e à teimosia do marido.

Os quatro estranhos lá fora queriam a criança que estava na sua barriga! Eu sei. Eu sinto. Eles querem o meu bebê! Não sabia determinar bem qual a razão, mas desconfiou assim que os viu parados em atitude muito suspeita dentro dos limites do seu quintal. Então, sem saber como proceder, desligara os refletores portáteis instalados no umbral da porta e deixara os invasores envoltos sob a luz de uma acanhada lamparina a óleo, aparelho ainda em uso dos costumes antigos das regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos; era uma luz fraca, mortiça, que teimosamente impunha sua luminescência medíocre contra uma das noites mais escuras do século. O vento forte açoitava a pequena lâmpada dependurada na frente do sobrado fazendo-a tremeluzir para todos os lados, imprimindo efeitos grotescos de luz nas fisionomias indiferentes dos quatro homens. A ventania castigava as árvores, assoviava alto, levantava as folhas secas do chão em miúdos redemoinhos e penetrava audaciosamente às frestas das portas e janelas. Dava-lhe a impressão de que o vento impetuoso queria trazer a morte para dentro de casa!

— Johann. Vá até ao quarto dos fundos e veja se as crianças estão dormindo. – Ordenou ao autômato, pela primeira vez, em tom afável. Trazia consigo sérias restrições de convívio com aquela criatura metálica, a começar pelo esquema dos comandos de voz, porque detestava a brincadeira de mal gosto do marido ao atribuir o nome do velho Johann, seu pai, àquela máquina.

O robô prontamente atendeu a ordem, indo averiguar as condições físicas de seus enteados, filhos de Alois com a primeira esposa já falecida. A situação era realmente preocupante. Não havia mais ninguém ali além dela, das duas crianças miúdas e daquele protótipo gigante de legume mecanizado. Sempre se preocupara pelo fato da casa ficar afastada da vila. Achava que não era certo, indecente até, uma mulher passar a noite sozinha com os pequenos, ainda mais considerando a sua delicada situação: grávida de oito meses!

Continua.

Acabei pouco depois da música. Boas leituras e bom final de semana a todos!

5 comentários:

Afonso L. Pereira disse...

Romeu, meus agradecimentos pela oportunidade de marcar presença por aqui também. Valeu!

Romeu Martins disse...

Quem divulga os divulgadores, meu caro conterrâneo? Prazer foi meu, parabéns pelo conto e pela ótima virada do final!

Guto Fernandes disse...

Não foi dessa vez que tive a oportunidade de publicar ao teu lado, mas outras virão com certeza. Fico feliz pela atenção que deu ao conto e pela experiência positiva que foi escrevê-lo. Obrigado.

Guto Fernandes disse...

E só um adendo a respeito da música. Realmente é uma versão muito boa! rs Abraços amigo!

Romeu Martins disse...

Opa, Guto, sem dúvida outras oportunidades virão, tanto para o steampunk quanto para outros gêneros. Pois é, não resisti à coincidência de postar link para a música, quando fui ao twitter buscar os contos e topei com a indicação bem pertinente ao tema. Abraço!