27.6.10

Steampunk e fantasia histórica

Na maioria das vezes, steampunk é descrito sucintamente como um subgênero da ficção científica. Porém, como tentei esclarecer na entrevista que dei ao site Contos Fantásticos outros elementos podem entrar em jogo:

Steampunk não necessariamente tem que ser uma história alternativa, nem tem que ser FC. O subgênero parte da premissa de que haja uma tecnologia retrofuturista, que pode ou não ser movida a vapor, em uma ambientação que seja inspirada no século XIX de nosso mundo. Mas não tem que ser necessariamente o nosso mundo, o século XIX, ou FC. Vou dar um exemplo: a animação Avatar que logo deve chegar ao cinema dirigida por M. Night Shyamalan com o nome de Last airbender, para não se confundir com o Titanic 2, do James Cameron. Aquela é uma obra de fantasia de segundo mundo – ou seja, que se passa em um lugar que não é o nosso planeta, apesar de muito inspirado nele, no lado oriental, para ser preciso. No desenho e provavelmente no filme veremos tecnologia retrofuturista da Nação do Fogo que, em minha opinião, é claramente um elemento steampunk. Mesmo assim, não se pode dizer que seja história alternativa, nem FC, certo?

Então, steampunk é um ingrediente, um modelo de ambientação, mas que pode ser usado em outros gêneros do fantástico que não seja a ficção científica, nem que tenha a ver com uma alteração na história real de nosso mundo, caracterizando uma HA. Você pode ter uma história de horror ambientada em outra dimensão e ela ser, mesmo assim, steampunk, desde que haja nela esse elemento de um futuro do pretérito contido na narrativa. Claro que, outros autores, críticos e afins, podem dar uma visão diferente, fazendo questão que a trama seja ambientada em cenário vitoriano legítimo, para merecer o carimbo steamer. Não é meu caso, mas respeito quem pense assim.

Um outro exemplo, além do que citei, de obras que misturam fantasia com ambientação steamer pode ser o da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, cujo primeiro livro, A Bússola Dourada, foi adaptado para o cinema. Sendo assim, a mistura do elemento fantástico com a estética típica steampunk tornaria a obra em questão um exemplar da chamada fantasia histórica. E eu chamo a atenção para um texto de Ana Cristina Rodrigues que levanta importantes questões e dá dicas de como se escrever dentro de tal gênero.

Tendo formação em História e sendo um dos nomes mais conhecidos da ficção especulativa brasileira, ela é a pessoa mais indicada para falar sobre o tema. O gancho para aquele texto foi a apresentação de um conto seu chamado "Maria e a fada" para uma coletânea já comentada aqui, o terceiro volume da Imaginários, que, como vimos, também vai trazer uma história steampunk, de Douglas MCT. Não é o caso do de Ana Cristina, ambientado na Idade Média, sua especialidade como pesquisadora, contudo as dicas certamente podem ser muito úteis a quem queira se aventurar a misturar magia e vapor. Seguem as quatro primeiras dicas da escritora e historiadora, abaixo da capa do livro, a ser lançado em breve, pela editora Draco:


1- Escolha bem o seu plot para evitar anacronismos. É muito comum, por exemplo, ao querer trabalhar com bruxaria escolher falar da Inquisição na Idade Média. A Inquisição Medieval é muito mais preocupada com a caça aos hereges como os albigenses do que com bruxas e feiticeiras.

2- Após definir o periodo e o local em que sua história vai se passar, é hora de aprofundar a pesquisa. Você pode pensar que jogar no google e ler a wikipedia por alto pode ser suficiente, porém o diabo mora nos detalhes e em ficção histórica os detalhes são os que dão a atmosfera. Caça às bruxas, por exemplo, é muito mais forte nos países protestantes do que nos católicos.

3- Essa questão dos detalhes é importantíssima ao se escrever ficção histórica, sendo fantasia ou não. Mais do que veracidade, o ponto é a verossimilhança – o seu leitor tem que identificar o período histórico sendo retratado.

4- Equilibre as informações que você está compartilhando, sabe como é chato ler ‘Senhor dos Aneis’ quando o Tolkien começa a despejar nomes de reis, batalhas e etc.? Não é por serem reis, batalhas e etc. reais que fica legal. Se duvidar é até mais chato, fica com cara de livro paradidático oficial. Continua

11 comentários:

Ana Cristina Rodrigues disse...

Opa, Romeu

Obrigada pela divulgação - em breve, irei postar um texto sobre escrever Steampunk :)

Romeu Martins disse...

Opa, ansioso para ler desde já ;-)

bibs disse...

Opa, ansiosa para ler desde já ;-) [2]

gostei muito desse post, bastante esclarecedor pra quem tá se aventurando a escrever [vide eu xDDD]

Anônimo disse...

Tambem gostei muito do post. A autora parece saber muito sobre muitos assuntos. Quando eu crescer quero ser igualzinha a ela! :)

Romeu Martins disse...

Obrigado pelos comentários bibs e fã anônima da Ana ;-) Quero ler seus textos, bibs.

Shogu disse...

Realmente, acredito muito nessa bandeira que já vi você defender em outros lugares: a estória vem em primeiro lugar, e, se um artifício for necessário para que uma boa estória seja contada, oras, que ele seja usado, mesmo que não exatamente correto do ponto de vista científico.

E gostei muito do exemplo de Avatar! A Nação do Fogo realmente tem elementos que eu considero bastante Steampunk. Lembro até mesmo de um episódio com uma porta que só podia ser aberta com uma determinada dobradura de fogo. Isso é muito cool!
E tem um outro ambiente em Avatar que acho muito interessante pra ser abordado num clima retro: a biblioteca abandonada de *algum lugar*, com o Corujão guardando. Acho a combinação de areia e livros muito charmosa, e o lugar perfeito para algumas máquinas. ;)

Romeu Martins disse...

O senso de maravilhamento é o mais importante na literatura especulativa, né? Mais até que as minúcias cinetíficas ;-)

Lembro desse episódio da porta! Putz, gosto muito daquele desenho e de todo o aparato da Nação do Fogo, com seus tanques e navios vaporizados.

Vamos torcer para que esteja tudo no lugar no filme que estreia logo e teremos uma ótima obra steampunk nos cinemas ;-)

Ana Cristina Rodrigues disse...

Oi, bibs!

Uma das coisas que eu sentia muita falta quando comecei é material de fácil acesso sobre como escrever. Eu acho essa troca de ideias fundamental, para todo mundo. Até pra mim, já que estou aprendendo muito com os comentários ao post. Essa semana sai o sobre steampunk!:)

Ana Cristina Rodrigues disse...

Anônima,

A unica coisa que eu sei mesmo é estudar. Mas daí a gente vai aprendendo um pouco. ;)

Romeu Martins disse...

O melhor meio de aprender ;-)

bibs disse...

Com toda certeza, estudar é o melhor meio de aprender.
E pra escrever, é lendo e escrevendo, né?! Sair testando pra ver se dá certo também ajuda!