23.9.10

O dilema de Bentinho

Nos últimos anos tem aumentado as tentativas no Brasil de se aproximar a literatura de gênero fantástico, mais notadamente a ficcão científica, daquela que pode ser chamada de mainstream, feita com embasamentos realistas, geralmente com mais atenção à forma que ao enredo e, por este somatório, com maior prestígio acadêmico. As estratégias variam desde convidar autores identificados com este segundo grupo a se arriscar na criação de contos de FC, como sempre ocorre na série semestral Portal, até a chamar escritores daquela primeira turma a colaborar em coletâneas preponderantemente mainstream, como Todas as guerras (ambos os exemplos são organizados pelo escritor Nelson de Oliveira, maior incentivador deste movimento de aproximação literária). Esta resenha é sobre uma iniciativa diferente, que age como um vírus se incubando no hospedeiro e modificando sua estrutura genética a ponto de causar uma mutação. Se for para transformar um clássico da literatura nacional em uma obra de FC, quer vítima melhor que partir logo para o romance símbolo do Realismo (com r maiúsculo) em nosso país?

Indo por partes. Falei em transformar um clássico em literatura fantástica? Este é justamente o nome da coleção do selo Lua de Papel, da editora Leya do Brasil, sobre a qual já postei por aqui: Clássicos Fantásticos. Falei em romance símbolo do Realismo? Sim, me refiro a Dom Casmurro, publicado em 1900, por ninguém menos que Machado de Assis (1839-1908). E o livro a tentar atar essas duas pontas literárias é Dom Casmurro e os discos voadores, do escritor, roteirista e beta reader de "Cidade Phantástica" Lúcio Manfredi. O título foi lançado em um pacotão com outros três da mesma coleção, dois deles se apropriando de obras cujas recriações, à primeira vista, me interessariam até mais, justamente pelo uso que também fiz do material original naquela noveleta que dá nome a este blog. Porém, ao dar uma olhada no quarteto à disposição nas livrarias, não  hesitei em mudar de ideia: o texto do paulista do século XXI que se infiltrou na obra do carioca do século XIX me interessou desde o primeiro capítulo até o final da leitura, fazendo com que eu não me arrependesse da escolha feita na boca do caixa.


Aliás, pelo primeiro capítulo, disponível aqui, o leitor pode ter uma ideia do que esperar das 264 páginas deste lançamento. Quem quiser fazer as devidas comparações vai perceber que Manfredi iniciou sua recriação pelo terceiro capítulo do original, no ano de 1857, quando o narrador relembrava um tempo em que ainda não fazia por merecer nem o apelido zombeteiro que ganhou na maioridade, mem mesmo o seu nome completo, Bento Santiago. Ele era apenas o Bentinho que aos 14 anos se dava conta, ao entreouvir uma conversa, de que estava apaixonado por sua vizinha, algo que consistia um problema e tanto para alguém como ele, prometido para a vida sacerdotal antes mesmo do nascimento. Tudo isso consta do original e também na adaptação, assim como outras passagens do romance de Machado de Assis, a diferença fundamental está no toque fantástico resumido por aquele "e os discos voadores" do novo título. Pelo uso de trechos da obra primária, cerca de 30% do total, segundo cálculo do próprio autor, pode-se considerar que ele, em seu primeiro romance impresso em papel, fez um mashup, como vem sendo anunciado em matérias e em colunas literárias. Mas o trabalho lembra mesmo um outro tipo de narrativa, até mesmo pelo que consta de fantástico em seus acréscimos.

Em 1973, o americano Philip José Farmer (1918-2009) teve a ideia de reescrever Volta ao mundo em oitenta dias em um novo contexto: ele envolveu os personagens daquele livro, além de outras criações de Jules Verne (1828-1905), como o capitão Nemo,  em uma disputa entre duas raças alienígenas. O resultado foi The other log of Phileas Fogg, traduzido como O outro diário de Phileas Fogg no Brasil e O diário de bordo Phileas Fogg em Portugal. Aquela é uma das mais conhecidas obras da chamada ficção alternativa, um dos subgêneros da FC, mas com a atual onda de mashups, iniciada com Orgulho e preconceito com zumbis, desconfio que se alguma editora resolver republicá-la por aqui, a tendência é ser rebatizada para algo como Volta ao mundo em oitenta dias com alienígenas. O trabalho de Lúcio Manfredi lembra mais a liberdade assumida pela FA de Farmer que as paródias do autêntico mashup, porém o desafio que ele enfrentou ao reescrever a obra de um esteta do porte de Machado de Assis foi ainda maior. Para título de comparação, me lembrou o que o inglês Harry Turtledove fez com o maior dramaturgo de seu país na história alternativa Ruled Britannia - esta reabatizada como O dilema de Shakespeare apenas em Portugal, já que nunca recebeu edição nacional.

O paulista escreveu sobre esse desafio em seu blog:

Antes de mais nada, eu optei por me manter o mais fiel possível ao enredo do Dom Casmurro original. O que me interessava era determinar de que maneira a nova premissa modificaria o significado dos eventos do livro. Assim, Dom Casmurro e os Discos Voadores continua sendo a história de Bentinho, um garoto destinado pela mãe a ser padre, mas que se apaixona pela vizinha Capitu. A diferença é que isso agora envolve discos voadores e alienígenas.


A segunda decisão foi a de tentar reproduzir a voz narrativa de Bentinho. Tudo o que acontece no romance de Machado é filtrado pela perspectiva do narrador, a tal ponto que é impossível saber o que é fato e o que é fruto de sua imaginação paranóica. Tanto que a grande questão que Dom Casmurro levanta até hoje é se Capitu traiu ou não Bentinho. E eu não queria perder essa ambiguidade, especialmente quando o meu Bentinho, ao contrário do de Machado, passa por situações que vão muito além da banalidade do adultério.

Assim como é impossível para um leitor de hoje ler o Dom Casmurro de 1900 sem ter conhecimento da polêmica do traiu ou não traiu que atormenta a alma de Bentinho tanto quanto o ser ou não ser fazia com a de Hamlet; mesmo os mais desavisados vão começar a leitura do Dom Casmurro e os discos voadores de 2010 já sabendo de antemão da presença dos ETs. Em ambos os casos, o atrativo é descobrir como as situações se encaixam numa prosa cheia de digressões, metalinguística, irônica, intertextual, feita em capítulos curtos por um narrador pouco confiável. Ou seja, o que há de melhor no romance Realista foi preservado no de ficção científica. E quem teme perder elementos mais profundos do trabalho original, como as incursões psicológicas empregadas pelo escritor do século XIX também pode ficar tranquilo, pois um dos níveis de leitura que o autor do século XXI deixa à disposição é uma possível releitura dos aliens como representantes do id e ego em eterno combate e mediados pelo superego. Agora, se a intenção é só buscar uma boa história com ares juvenis, também é uma ótima pedida. Uma grande homenagem não só a Machado de Assis, como à ficção científica. Homenagem com direito a inúmeras citações que passam por seriados de TV até autores consagrados do gênero, com destaque, óbvio, à paixão literária de Manfredi, o americano Philip K. Dick (1928-1982).

4 comentários:

Lúcio Manfredi disse...

Grato pela resenha, Romeu! E, sim, os dois Philips foram duas referências constantes durante a escrita do livro: o Farmer pela ideia de contar o avesso de uma história conhecida e o PKD pq é o PKD, rs.

Romeu Martins disse...

Não descansei enquanto não encontrei uma referência clara ao segundo Philip e devo dizer que gostei muito do que vi.

Fernando disse...

Machado de Assis e alienígenas. Fiquei curioso quanto a essa história!

Romeu Martins disse...

Opa, Fernando, e além de alienígenas, os personagens do Machadão encaram zumbis em "Memórias desmortas de Brás Cubas" e mutantes em "O alienista caçador de mutantes".

Agenda cheia ;-)