31.7.10

Venezianos no Império do Meio

Resenhei por aqui, no início de julho, uma obra que conta a história de um homem que viaja para um reino distante e, ao longo dos muitos anos de sua estada por lá, ele descobre povos exóticos que dominavam tecnologias avançadas, guerreavam usando animais enormes e armas explosivas, se alimentam de produtos nunca vistos e, por fim, ainda conhece uma princesa local por quem se apaixona. Esse é um resumo rápido de Uma princesa de Marte, mas também poderia ser uma descrição das aventuras de um aventureiro da vida real, o veneziano Marco Polo (1254-1324), que, no ano de 1271, partiu com seu pai e com um tio para uma longuíssima expedição à Ásia Central. Durante os 24 anos de duração de suas andanças, calcula-se que o trio percorreu algo em torno de 24 mil quilômetros, travou contato com o então imperador da China, Kublai Khan (1215-1294) -  neto do conquistador mongol Genghis Khan (1162-1227) - e com as maravilhas daquele reino, como os elefantes de guerra, a pólvora, a bússola e o macarrão. A façanha dos Polo, ainda que muito contestada por historiadores, rendeu diversas interpretações ficcionais: filmes, séries de TV, livros e, no caso em questão, uma história em quadrinhos que acabei de reler depois de passado um tempo ainda maior que o daquela jornada oriental. Sim, pois foi em 1984, há 26 anos portanto, que tive esse material em mãos pela primeira vez.


"As viagens de Marco Polo" é o sexto volume da coleção Clássicos da Literatura Disney, a forma de a editora Abril comemorar os 60 anos da publicação de o Pato Donald no Brasil. A edição atual compila HQs que saíram originalmente na Itália em 1982 na revista Topolino - o nome do Mickey naquele país - do número 1409 ao 1412. Por aqui, as histórias foram publicadas dois anos depois nas edições 229 e 230 de Tio Patinhas, em Almanaque Disney 157 e no Mickey 382. Esta manhã, pude constatar que eu tinha todos esses gibis, que sabe-se lá onde foram parar. Pois, mesmo tendo passado tanto tempo, me peguei relembrando vários detalhes da trama escrita e desenhada pelo conterrâneo de Marco Polo, Romano Scarpa (1927-2005), um mestre europeu dos quadrinhos Disney, com uma carreira de meio século dedicada àqueles personagens. Impressionante como várias passagens dessa minissérie, protagonizada por Donald e seus parentes, ainda estavam impregnadas na minha memória; desde falas até expressões faciais daqueles desenhos.



A desculpa para o fumetto se desenvolver é o fato de o Tio Patinhas ter comprado uma rede de TV e pedir para Mickey escrever um roteiro adaptando a obra que registrou as memórias de Polo: O livro das Maravilhas - A descrição do mundo. Dessa forma, com os patos representando os papeis dos personagens históricos, vemos uma versão bastante romanceada daquela jornada de décadas. O terceiro capítulo é o que chama mais atenção para quem aprecia retrotecnologia. "Missão em Saiangfu" mostra os avanços tecnológicos criados na China, o Império do Meio, até então isolado dos olhos da maioria dos europeus. Além daquelas já mencionadas, há uma aparição robótica: uma galinha de ouro capaz de botar ovos do mesmo metal precioso. Um toque interessante, misturado a várias citações de outros feitos mais ligados à magia. No capítulo final, "A princesa Kokacin", vemos Donald/Polo em sua última missão antes de voltar para Veneza: escoltar a nobre, sobrinha de Kublai Khan, até a Pérsia, atual Irã.

"As viagens de Marco Polo" é uma aventura de ótima qualidade, perfeita para quem sente saudade dos antigos gibis Disney dos tempos da infância, como eu. Ou ainda para quem quer conhecer o que de melhor se produziu com esses personagens ao longo de sua longa história. O volume completa 130 páginas com uma HQ bem inferior em termos de roteiro e, principalmente, de arte: "O tesouro de Marco Polo", de Carl Fallberg e Tony Strobl. Suas 16 páginas estão lá mais para tapar buraco que, neste caso, foram muito mais bem preenchido pela matéria de seis páginas que abre a revista, contextualizando as HQs da edição e apresentando material sobre os dados históricos. Vale a pena, mesmo para quem não esteja colecionando Clássicos da Literatura Disney. E para estas pessoas, vale lembrar que edições futuras prometem adaptar material bem interessante, como a de número 12, "20.000 léguas submarinas", a 14, "Guerra dos mundos", e a 15, "Viagem ao centro da Terra", que será complementada ainda por adaptações de "A volta ao mundo em oitenta dias" e, como extra, "O diário de Júlio Verne". Veremos o que nos espera nessas próximas aventuras. Se tiverem metade da qualidade do material produzido por Scarpa, valerão a pena.

4 comentários:

Cláudio Carqueija disse...

Sempre fui um fã do Tio Patinhas, espero que ele apareça na adaptação como um imperador chinês, rs

Romeu Martins disse...

Na mosca ;-)

Ele aparece como ele mesmo, na história que conecta a adaptação, sobre a compra da TV, e é o único que faz papel duplo no texto adaptado: como o dio do Donald/Polo e como Kublai Khan.

bibs disse...

adorei saber disso! também sou fã do Patinhas e do Donald... vou ficar de olho nesses clássicos da Disney

e é impressionante, não lembro como, mas me lembro dessas aventuras do Donald/Polo, e duvido que tenha lido os quadrinhos *tilt*

Romeu Martins disse...

Segundo informações deste volume, a história havia sido reeditada em 2003 (mas eu li mesmo a de 1984, aos meus oito anos). Talvez você tenha visto essa segunda edição. Saiu em Grandes Aventuras Disney 1.