9.8.09

Steampunk hecho en Brasil

Na chamada que escreveram para a submissão de textos da coletânea Vaporpunk, os editores Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva deram uma conceituação bem mais livre para o gênero steampunk. Na visão da dupla, as histórias não precisam necessariamente se passar na Era Vitoriana nem ter tecnologias baseadas no vapor para se enquadrar no estilo. Eles admitem mesmo uma noveleta situada em tempos atuais, como revela este trecho: "Nos presentes alternativos, a ação se passa mais ou menos em nossa época, só que numa linha histórica alternativa, modificada pelo advento precoce de uma tecnologia."

Dentro desta concepção mais liberal do que seja steampunk, existe um exemplo perfeito de conto brasileiro ambientado num presente alternativo alterado substancialmente por uma tecnologia surgida no século XIX. O nome da história é "Não Mais" e foi escrita por Carlos Orsi para outra coletânea, a Phantastica Brasiliana, organizada em comemoração aos 500 do Descobrimento do Brasil, por ele mesmo e por Lodi-Ribeiro para a editora da qual ambos foram sócios, a Ano-Luz.


O motivo para o título deste post - além de brincar com três outros anteriores chamados Steampunk made in Brazil - é que o texto de Carlos Orsi se encontra disponível em espanhol no portal argentino que é referência em contos fantásticos, o Axxon. Neste endereço, o leitor que não teve acesso ao livro brasileiro pode encontrar "Ya No", traduzido em 2004 por Claudia De Bella. A introdução, assinada por Alfredo Álamo e Sergio Gaut vel Hartman, dá uma ótima ideia do conceito que os hermanos têm deste nosso conterrâneo:

Carlos Orsi Martinho es periodista y, probablemente, el mayor autor del género de terror en lengua portuguesa. Carlos nació en Jundiaí, en el interior del estado de São Paulo, Brasil, el 5 de enero de 1971. Sus primeras historias se publicaron entre 1986 y 1989, en el Diario de Jundiaí y su primer trabajo profesional apareció en 1992, en el N°24 de la edición brasileña de la revista Isaac Asimov. Su primera colección de cuentos fue Medo, Mistério, Morte (1996) y la segunda O Mal de Um Homem (2000), e incluye "A Engrenagem Vulgar", elegido el mejor relato de 1999 por los lectores de la revista Quark. Muchas otras historias de Martinho aparecieron a partir de entonces en distintas antologías y fanzines, tanto nacionales como extranjeros. Su predilección por las ucronías permitirán que vuelva ser huésped de estas páginas muy pronto.


Por sua vez, ler o conto é a melhor maneira de entender o motivo para tal apresentação elogiosa. Orsi criou uma história em que a família real brasileira, tendo D. Pedro II à frente, perpetuou-se no poder - literalmente -, dominou boa parte do mundo e com isso o Brasil segue sendo um império naquele presente alternativo - provavelmente, o ano 2000 da publicação do livro. Agora, a tecnologia que muda tudo não é exatamente o que estamos acostumados a ver nos livros de Jules Verne ou de H. G. Wells. Não se trata de algo mecânico ou elétrico, um novo dirigível ou um computador vitoriano. A tecnologia é de natureza mística.

O escritor coloca em nossas terras o misterioso alquimista alemão Athanasius Kircher (1601 - 80), que, nesta versão, tornou-se portador de um conhecimento que altera a história: importando certas substâncias do Haiti, a terra dos zumbis, ele se mostra capaz de criar um estranho fluido verde que garante a quem se banha periodicamente nele nada menos que a imortalidade. Em alguns casos, como ocorre com o alquimista, àquela altura com seus 400 anos, e com a realeza, sem consequências negativas; em outros, caso dos negros, ainda mantidos como escravos naquela realidade, os usuários se tornam criaturas sem vontade própria.

O mago europeu, trazido a nosso país por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) - chamado apenas de Andrada na história -, tornou-se uma figura rasputiniana na corte dos Bragança. Produzindo o líquido alquímico no Jardim Botânico, ele garante a imortalidade dos que interessam a seus planos, tanto que a nobreza brasileira se encontra distribuída em reinos espalhados por toda a Europa e, neste continente, o Império brasileiro se estende da Argentina ao México. Os EUA deste universo foram derrotados ainda no século XIX em uma guerra que determinou o controle verde-amarelo do canal do Panamá, e não chegam a ser ameaça aos domínios de Athanasius, eminência parda do regime.

Mas o mundo influenciado por tal poder não é um lugar agradável. Além da escravidão persistir, arte, ciência e a imortalidade são privilégios das classes abastadas, dos escolhidos pelo alquimista. Várias personalidades famosas são citadas no texto como exemplo daqueles que não quiseram se submeter e tiveram fim trágico: Machado de Assis, Euclides da Cunha, Santos Dumont. No tempo em que se passa a narrativa, o nome do grupo de conspiradores que tramam contra o despotismo de Athanasius é o mesmo do conto: Não Mais em português, Ya no, em espanhol. O termo foi cunhado em um manifesto escrito pelo protagonista da história, Madeira, que aliado a outros agentes na capital do Império - cujos nomes são homenagens de Orsi a colegas cariocas escritores de FC - se prepara para dar um golpe desesperado na sede do poder do Rasputin germânico que domina o país.

Um dos homenageados no conto, Gerson Lodi-Ribeiro, escreveu uma coluna em que apresentou o livro Phantastica Brasiliana e comentou o texto de Orsi. Segue um trecho:

Qualquer fã que tenha tido o privilégio de ler o magnífico Anno Dracula (1992) não deixará de notar um certo paralelismo temático entre a noveleta de Martinho e o romance alternativo do inglês Kim Newman. Passado na Inglaterra Vitoriana do final do século XIX, o romance mostra o que teria acontecido se Drácula houvesse vencido o confronto contra o grupo liderado por Van Helsing e Jonathan Harker. O Império Britânico, de longe a potência mais poderosa da Terra, é dominado por uma estirpe de imortais, no caso a nobreza inglesa vampirizada por um Drácula que desposou a Rainha Vitória e tornou-se Lord Protector do Império. Mais ou menos a mesma coisa ocorre em "Não Mais", embora os imortais de Martinho não sejam vampiros. Em ambos os trabalhos há uma revolta de homens e mulheres notáveis que se recusam a compactuar com a nova ordem, mesmo ao preço de abrir mão da imortalidade. Tanto num quanto noutro há uma espécie de sociedade secreta composta por mortais patriotas e abnegados — a Não Mais da noveleta e o Diogenes Club do romance — lutando desesperadamente para reverter a situação ao status vigente antes do advento da imortalidade. Este paralelismo é um tour de force adicional dessa noveleta que se constitui num trabalhos mais interessantes e elaborados já escritos por aquele que é reputado por muitos como o autor brasileiro de horror mais criativo da atualidade.


O que mais dizer? Vale ainda citar o final que se vale de uma engenhosa manipulação metalinguística por parte de Carlos Orsi, remetendo o leitor dez anos depois da conclusão do conto, portanto, considerando-se a data do lançamento do livro, ao que seria aproximadamente os dias de hoje. Só ela, não fosse o excelente cenário construído, a perfeita caracterização dos personagens e os diálogos inspirados, já valeria a leitura da obra. Mas para quem ainda não se convenceu de que "Não Mais"/"Ya No" seja uma noveleta steampunk, vou encerrar com a passagem mais emblemática do texto, reforçando o convite para que o leiam por inteiro:

Frente a él, un intrincado sistema de ruedas, palancas, engranajes, cilindros y bielas trabajaba en el más absoluto silencio. El aparato ocupaba toda la altura de la torre y atravesaba el piso de mármol rosado, hundiéndose en el subsuelo.

La planta baja, donde se encontraba el alquimista, era el único nivel que poseía un piso sólido. Encima del mármol, alrededor del hueco central de la torre y a lo largo de toda la altura del edificio, el espacio entre el aparato y las paredes de bronce era interrumpido, aquí y allá, por una espiral simple, hecha de plataformas metálicas, que daba acceso a puntos específicos del Molino... así era como Athanasius llamaba a su silenciosa creación.

Por la espiral caminaban los esclavos sin mente, trabajando como abejas u hormigas para mantener a la reina alimentada y saludable. Esos esclavos salían de pasadizos tubulares que se abrían en la superficie interna de la torre.

El grosor del espacio que separaba la cara externa de la Torre de las paredes internas no era nada despreciable. Ese era otro truco, otro legerdemain del alquimista: para un observador casual, un noble visitante, la Torre del Bronce parecería hueca, un simple galpón metálico, construido para albergar al Molino y sustentar el volumen de la gran caja de distribución montada en su pináculo. Pero, en realidad, toda la estructura estaba entrecortada por corredores, cámaras, rampas y escaleras: una colmena secreta habitada por esclavos.

Todo sumido en el silencio. Como máximo, el sonido de una respiración, de un tenue suspiro, cada hora y media.

Como máximo.

6.8.09

Conselheiro honorário 2

Eis que surge uma nova resenha minha para a loja de São Paulo do Conselho Steampunk. Novamente eu falo de uma revista em quadrinhos do selo Elseworlds da DC Comics, desta vez protagonizada pelo Superman: A Nation Divided, traduzida no Brasil por Uma nação dividida.

Trecho, sendo que a íntegra pode ser lida aqui:

A história é praticamente uma versão em quadrinhos da chamada literatura epistolar, ou seja, daquela que é narrada por meio de cartas trocadas por seus personagens. Ela já abre com um exemplo desse recurso, quando vemos o jovem recruta nortista Atticus Kent escrever uma carta para seus pais, de Kansas, Josephus e Sarah – versão do século retrasado de nossos conhecidos Clark, Jonathan e Martha Kent.

"Queridos pai e mãe, não sei quando terei condições de remeter esta carta, mas eu queria registrar meus pensamentos, antes que o tempo os apague. Tem sido uma longa marcha. Embora eu não me sinta cansado, ando ouvindo queixas de outros homens. Desconfio que amanhã entraremos em combate. Eu não queria enfrentar os rebeldes. Sei que é preciso, pra encerrar esta guerra e preservar a União. No entanto, o preço será alto demais. Nós já vimos o resultado de batalhas preliminares. Homens mutilados e tão enfaixados que não vêem nada. Como crianças, eles são levados pela mão.”

A correspondência continua, com o soldado relembrando a vez em que seus pais deram abrigo à família Johnson, um casal e seus três filhos, negros, que fugiam de um grupo de escravistas. Pelas reminiscências do rapaz, podemos perceber que não se cansar nos deslocamentos não é a única evidência do quanto ele é diferente das demais pessoas. Os três homens armados que perseguiam os fugitivos foram expulsos do Rancho Kent por pedras lançadas por Atticus, em uma uma demonstração de força no mínimo incomum. Obviamente, isso seria apenas um aperitivo do que estava pra vir nas próximas páginas.

4.8.09

Conto steampunk em revista de RPG

Estive fora da rede mundial por uns dias, por isso não dei a notícia antes. A revista para entusiastas de jogos de interpretação RPG Magazine estreou na internet com uma versão em PDF e abriu espaço para o gênero abordado por este blog. Logo no seu primeiro número on line, a publicação trouxe o conto "Rota de fuga" de um dos criadores do Conselho Steampunk, Bruno Accioly, uma ótima surpresa em termos de steampunk made in Brazil.

Narrado em primeira pessoa por um mais que inusitado personagem, cuja origem pode ser deduzida pelo leitor desde o início, mas cuja confirmação só ocorre ao final do texto, o conto é excelente. O autor conseguiu unir informações técnicas muito precisas e verossímeis sobre o que se poderia esperar de um construto movido a vapor sem se descuidar do lado humano da narrativa. O conjunto é muito bom, como se pode provar pelo trecho a seguir:

Os pistões começavam a funcionar, o vapor escapando pelas pequenas imperfeições inevitáveis em minha estrutura. O som repetitivo das engrenagens era previsível, mas por ser a primeira vez que eu as escutava e por serem estes os primeiros passos que eu ensaiava a descer do teto e da parede da biblioteca, era como se eu estivesse nascendo de uma gestação interminável.
O capitão não me dava atenção e, como que em transe, tentava resolver uma série de questões mecânicas de transferência de energia que não tinham mais qualquer relevância. Olhava-o por trás enquanto ele se esforçava com habilidade nos controles que acionara após retirar de cima deles a enorme edição do Alcorão que os escondia.
As espirais amplas que a embarcação agora descreviam pelas laterais do gigantesco redemoinho provocavam rangidos sinistros que provavelmente assustavam toda a experiente tripulação, mas o capitão continuava impassível.
Quando falei pela primeira vez ele não pestanejou, mesmo tendo o som sido mal articulado e sem significado – Agora não! – disse, aparentemente para minha manifestação.
- É o momento, capitão… – insisti no único tom monótono, metálico e sibilante que eu era capaz de usar.

A íntegra pode ser lida tanto no site do Conselho quanto no arquivo da revista, que trás o mutante Wolverine na capa e ainda dá oportunidade para seus leitores concorrerem a livros. Um ótimo aperitivo para o que promete ser uma grande parceria.

3.8.09

Caleidoscópio retro-futurista

Por Ricardo França


Uma coletânea como há muito não se via em termos de coesão e variedade com qualidade. Obviamente facilitou a consecução destas virtudes o fato de existir um fio condutor na forma do tema-estilo do título, que com todo o charme das histórias em futuro do pretérito mostra várias as possibilidades do que poderia ter sido com um estilo que dificilmente se adota hoje em dia. Todos os autores manifestaram ao jeito de cada um seu caleidoscópio interessante de imagens retro-futuristas. O espanto pessoal quanto ao grau de pesquisa necessária para as escrituras acompanhou cada página lida neste opúsculo, que é também adicionalmente uma mostra que se pode se manter as referências de nossas raízes culturais em quase qualquer estilo ficcional de forma bem feita. Minhas impressões de cada conto vão descritas individualmente como segue:

O Assalto ao Trem Pagador – Gianpaolo Celli

Abrindo a coletânea um conto que é uma verdadeira “traulitada” em termos de construção de cenário. Pesquisa intensiva descendo aos mínimos detalhes de consistência entremeados organicamente num ritmo de aventura e ação fazem deste conto steampunk uma experiência de fruição única para quem também aprecia uma boa pitada de teoria da conspiração. Fica aquele gosto de querer mais histórias com o desdobrar deste pano de fundo sócio-histórico.

Uma Breve Historia da Maquinidade – Fábio Fernandes

Um sintético conto que, mesmo num espaço bem “mignon”, consegue através de uma visão dos “rabota” em largas pinceladas aludir contextualmente aos grandes conflitos sócio-industriais do sec. XIX, ao mesmo tempo em que resgata personagens já bem conhecidos do imaginário coletivo, mas sempre sob um viés originalíssimo, e com o mesmo tom criativo no desembocar do seu final. Um “FF” da melhor qualidade.


A Flor do Estrume – Antônio Luiz M. C. Costa

Esta deliciosa história, recheada de bem urdidas referências de cunho estilístico e literário da nossa cultura para quem já teve oportunidade em algum momento de estabelecer um “primeiro contacto” com esta, é também quase um “must” como potencial ferramenta para alavancar interesses se for usada como atrativo para que nossos jovens se interessem pela produção dos autores nacionais clássicos. E além de apresentar o perfil de uma História Alternativa com nossas cores ainda põe uma criativa abordagem da possibilidade quanto às tecnologias biológicas dentro do estilo steampunk.


A Música das Esferas – Alexandre Lancaster

Os personagens deste conto contém grande eficácia de identificação, sendo tanto convincentes e bem construídas como adequadamente inseridas dentro de uma ação de ritmo jovem e ágil, dada a curta extensão de uma história ainda muito bem situada segundo o tema do livro. Uma também convincente aplicação do conceito operacional de um “mecha a vapor” e um estilo que por vezes perpassa ao “gore”, agregados a um sólido bom humor que coube muito bem no cenário e nos diálogos, faz com que fiquemos expectantes quanto às futuras incursões do autor.


O Plano de Robida: Une Voyage Extraordinaire – Roberto de Sousa Causo

Fantástica exposição de história de aventura num “blend” de tons míticos com tecnológicos, aborda um tema que sempre me foi de interesse, e cuja consecução resultou altamente satisfatória. Condensando o melhor do estilo e tradição dos pulps com um locus histórico mais do que adequado à coletânea, tem aquele tom estimulante que faz falta em muitas histórias mais “reflexivas” da atualidade. Espero ansiosamente a provável continuação deste conto que fecha bem, mas que claramente apresenta um gancho certo para a extensão deste fragoroso embate entre um vilão mais ambicioso que o sherlockiano Moriarty e as forças atlantes, sob a quase impotente e ainda ingênua sociedade da época.

Obs: Foi ótimo ver o Padre Landell de Moura representado de forma tão adequada e respeitosa.


O Dobrão de Prata – Claudio Villa

Esta angustiante história de terror narrada em primeira pessoa não fica nada a dever às dos grandes representantes do gênero. A montagem de um cenário (sub-)aquático entre duas épocas seculares, bem como a sensação de como nem a ingênua confiança advinda dos albores da tecnologia pode ajudar quando confrontada com o incognoscível foram judiciosamente usadas para criar o clima macabro deste conto.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas – Jacques Barcia

A fusão estilística steam-punk-chaotic-weird-science (des-)enquadrada num hipotético cenário de conflagração política semelhante aos gerados pelas grandes confusões ideológicas dos séc. XIX e XX, na forma como obtida pelo autor, conseguiu atingir a dosagem certa dos elementos para a inclusão de uma vida aparentemente impossível mas não obstante invencível. Uma ode à liberdade e tolerância do diferente embutida nestes rasgados e plásticos (ou seriam organo-metálicos?) võos imaginativos.


Cidade Phantástica – Romeu Martins

Esta deliciosa fusão de elementos reais e literários (nacionais e internacionais) absolutamente bem pesquisados e embasados no contexto temático da coletânea teve na sua construção o toque de um estilo de ação policial tipicamente pulp, porém mesclado com sutis e às vezes grandiloquentes toques descricionais que fizeram paradoxalmente acelerar e dar colorido vivo a uma história cuja plausibilidade se estabelece como uma das mais fortemente impactantes desta coletânea.


Por Um Fio – Flávio Medeiros

Um grande otimismo subjacente pela humanidade, mesmo sob as condições mais limítrofes e desesperançosas, perpassa por este claustrofóbico conto que, ao mesmo tempo que resgata o estilo clássico de histórias de confronto entre oponentes valorosos de semelhante brilho, tem um “timing” que prende e nos faz “navegar” sem escalas até o fecho final.


Nota complementar:
Alguns poderiam retrucar que só fui “elogios” no que se refere à resenha dos contos desta surpreendente coletânea. Devo dizer em defesa que uma das principais preocupações foi tentar não levantar informação por demais “spoilerística”, me restringindo mais a uma descrição do clima que expondo os detalhes sobrenadantes que mais me afetaram (mesmo que por vezes falhando neste intento), até pelo fato de não ser propriamente um especialista em teoria literária no geral e no estilo steampunk em particular. Obviamente que alguns contos me agradaram mais que outros e alguns pouquíssimos deslizes na revisão (atípicamente poucos) ou de referência histórica (mas, ora bolas, se trata ou não de HA?), que no meu entender não comprometeram o prazer das leituras, poderiam ser indicados, mas achei por bem que seria mais construtivo apontar as grandes forças desta seleção de contos (que certamente fica como um marco tanto no estilo de produção como na qualidade gráfica) que pode e deve se consolidar como uma referência até mesmo acadêmica dentro do quadro da FC/HA nacional. Minhas esperanças estão em que seja esta a primeira de muitas outras iniciativas semelhantes.

Este texto foi originalmente publicado na comunidade Ficção Científica, do Orkut, que sorteou um exemplar da coletânea, cedido pelo autor Antônio Luiz M. C. Costa

1.8.09

A primeira resenha

Por Giseli Ramos

Já ouviu falar de steampunk? Se não, a explicação curta: ficção ambientada na era vitoriana, com o uso da tecnologia das máquinas a vapor alçada ao seu maior desenvolvimento possível – isto é: o que poderia acontecer se tivéssemos ido além dos navios e trens a vapor e se as máquinas mecânicas de Babbage tivessem vingado?

Uma explicação mais longa e bem mais detalhada foi feita pela Ana Cristina aqui. Um excelente post para situar os desavisados =)

Esses dias uma coletânea steampunk me surpreendeu. Melhor ainda, uma coletânea brasileira! Algumas histórias são situadas na época do Brasil Império, quando os trens a vapor eram bem comuns por aqui. Mas há também histórias bacanas de outras partes do mundo.

Comentarei rapidinho sobre cada um dos contos:
O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli – Apesar de ter achado um pouco confusa algumas descrições de cenas, a história é bem legal e dá uma causa diferente e interessante à Guerra Franco-Prussiana.
Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes – Fantástico conto steam adaptado de “The Boulton-Watt-Frankenstein Company” (também escrito pelo Fábio), onde ele expande a história de Victor Frankenstein, que não para no primeiro experimento apenas, também se volta às máquinas e não imagina suas consequências futuras.
A Flor do Estrume, de Antônio Luiz M. C. Costa – A história é legal, se passa numa linha alternativa onde o Brasil já é uma potência respeitável, comparável à Inglaterra. A trama se trata basicamente da medicina andando de mãos dadas com o avanço tecnológico a vapor. Eu só achei a linguagem um tanto rebuscada demais e tem vez que a leitura não flui legal. O autor podia ter pegado mais leve na linguagem. Fora essa parte, o conto é bem bacana de se ler.
A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster – Conto leve e bem divertido de se ler. Até se parece com uma HQ bacana ambientada na era do Brasil Imperial. Narra sobre as aventuras e problemas que um adolescente inventor tem que resolver. Soube há um tempinho que está em projeto (ou foi lançado já?) uma HQ justamente sobre o herói e personagem principal do conto.
O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo – Conto com várias referências a personagens reais e ficcionais, muito bacana de se ler. Eu achei legal ver Landell de Moura e Santos Dumont em ação, coisa raríssima de se ver na ficção. A trama flui bem, com engenhos a là Verne e aprimorados com o máximo que a tecnologia a vapor pudesse oferecer, eu só esperava um pouco mais do final.
O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa – Conto com leves pitadas de suspense/terror. Apesar de eu não ter lido Lovecraft (ainda!), dá para perceber sua influência na trama. Tudo isso em um ambiente steampunk, claro, onde o personagem conta com o auxílio da tecnologia de exploração do mar, já um pouco mais avançada graças ao vapor.
Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia – Não sei porque, mas quando li esse conto, me lembrei de Perdido Street Station. Apesar de ter me estranhado bem no começo, a coisa melhorou no decorrer da leitura, com personagens máquinas-quase-humanas e seres esquisitos metidos em uma revolução. Só achei alguns pontos do conto meio obscuros e podiam ser melhor desenvolvidos e descritos. Mas o final compensa, meio que leva a um clímax.
Cidade Phantástica, de Romeu Martins – Conto ambientado na época de D. Pedro II (bem mais liberal) e onde não houve a Guerra do Paraguai. É um faroeste brazuca pulp permeado de referências a vários personagens ficcionais e reais, mas sem descambar em clichês típicos. O autor reinventou várias ideias e personagens.
Por um Fio, de Flávio Medeiros – História de dois grandes homens em tempos de guerra e em lados opostos, na era vitoriana e onde é comum o uso de balões e de submergíveis. A trama é muito bem contada e o autor ainda soube manter um certo suspense no calor da batalha.
Gostei de praticamente todos os contos, apesar dos percalços de alguns. A ilustração da capa ficou ótima e reflete bem o espírito vaporoso. Eu só acho que a revisão de alguns contos meio que deixou a desejar… mas acontece.
Recomendável sua leitura! =D Pode ser adquirida aqui no site da Tarja.

24.7.09

É neste final de semana

A coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário será lançada neste final de semana, durante o Fantasticon - III Simpósio de Literatura Fantástica, que acontece nos dias 25 e 26 de julho, na Biblioteca Viriato Corrêa, Vila Mariana, na capital de São Paulo.

No domingo, para celebrar o feito, vai haver ainda um evento na programação daquele encontro especialmente voltado ao gênero steampunk. Segue abaixo:





11 às 12 horas
Bate-papo: “STEAMPUNK E OS NOVOS RUMOS DA FICÇÃO CIENTÍFICA”
Criativos, retrofuturistas no estilo e no comportamento. Esses são alguns dos conceitos do Steampunk, um gênero de ficção que explora um “mundo alternativo” movido a vapor (”steam”). Assim, temos uma fusão de “era vitoriana” com “futuro pós-apocaliptico” ou “punk” no sentido de transgredir o hoje e o passado. Algo com muitas engrenagens, com grandes zepelins voando pelos céus e seus respectivos piratas, um misto de roupas vitorianas com tecnologias que parecem do nosso tempo. Mais do que nunca, surgem novos e talentosos autores na atual Ficção Científica que expandem as barreiras do gênero. E os editores fazem a sua parte: buscam rótulos para categorizá-los. No meio de tantos rótulos e inovações, o que exatamente eles representam?

Para discutir o tema, três convidados: Gian Celli, organizador da coletânea; Fábio Fernandes, um dos autores; e Bruno Accioly, cofundador do Conselho Steampunk.

Não poderei ir, mas por ótimas razões e estarei ocupado ao longo da próxima semana. De qualquer forma, para marcar a data publiquei em meu outro blog o início da minha noveleta que participa desta obra pioneira no Brasil.

Quando eu voltar das minhas férias da frente do computador, volto a acompanhar a repercussão do lançamento e qualquer outra notícia que eu venha a saber sobre material steampunk nacional ou que venha a ser veiculado no Brasil.

Até a volta, boa festa a quem vai participar, ótima leitura a todos que nos derem o prazer de acompanhar nossos textos.

23.7.09

Sobrenome é destino

Este é um post que estou devendo desde o dia 10 de feveiro, quando terminei desta forma uma nota publicada neste blog:


Vale lembrar que o nome do protagonista de "Cidade Phantástica" não é João Octavio Ribeiro à toa. Foi minha homenagem pessoal a um dos precursores do steampunk e da ficção alternativa no Brasil [eu falava de Octavio Aragão, autor do romance A mão que cria]. Quanto ao Ribeiro, no nome do personagem, também é outra citação. Mas isso fica para um próximo post.


Bem, já que eu citei e publiquei textos do homenageado recentemente, vamos cumprir a promessa, com certo atraso. O Ribeiro do nome do personagem principal da noveleta, único que não é uma apropriação vinda de alguma obra em domínio público, vem diretamente de Gerson Lodi-Ribeiro. Publiquei ontem uma resenha sobre a novela O que o olho vê, no Overmundo, em que comentei um pouco sobre este engenheiro carioca, o gênero de FC conhecido como história alternativa e o livro cuja capa pode ser vista aqui ao lado. Segue o trecho sendo que a íntegra pode ser lida - e votada - aqui:

O Brasil não é apenas consumidor, mas também produz história alternativa. O maior incentivador e um dos pioneiros no gênero em nosso país é o carioca Gerson Lodi-Ribeiro. Apesar de o veterano J. J. Veiga ter escrito antes uma história em que Antonio Conselheiro sobrevivera ao cerco de Canudos, é uma noveleta de Lodi-Ribeiro a mais citada como precursora das HAs em nosso país. “A ética da traição”, publicada na Isaac Asimov Magazine brasileira, falava de um Brasil que havia perdido a Guerra do Paraguai, mas, em compensação, se tornara um país mais desenvolvido. Este texto e outros de uma segunda linha de especulação do autor, na qual os holandeses não foram expulsos, mas se aliaram aos quilombolas e se mantiveram em Recife, foram compilados em forma de livro: Outros Brasis, da Mercuryo, em 2006. Antes disso, quando se comemoravam os 500 anos da descoberta do Brasil, ele já havia organizado uma coletânea inteira do gênero, chamada Phantastica Brasiliana, pela editora Ano-Luz, da qual participou Carlos Orsi, como coeditor e um dos autores.


Uma vez que, basicamente, "Cidade Phantástica" é uma história alternativa em que a Guerra do Paraguai nunca existiu, achei seria muito justo citar de alguma forma o autor brasileiro que mais contribui para a consolidação desta vertente da ficção científica no Brasil. Dai nasceu nosso conhecido João Octavio Ribeiro.

22.7.09

Sobre a coletânea Vaporpunk

Como a chamada que eu fiz sobre a coletânea Vaporpunk gerou algumas dúvidas nos comentários, convidei o responsável pela parte brasileira do projeto para responder aos leitores do blog. Gerson Lodi-Ribeiro aceitou o convite e comentou no mesmo espaço. Para dar a suas respostas a mesma visibilidade que a nota que gerou o assunto, republicarei aqui suas palavras.

A ideia de fazer uma antologia temática de história alternativa dentro do subgênero steampunk surgiu de um papo com o Gian Celli da Tarja no ambiente alegre e barulhento de uma danceteria em outubro de 2008, por ocasião do lançamento nacional do Taikodom em São Paulo.

Nas semanas que se seguiram, ao longo das discussões para decidirmos como seria nossa antologia steampunk, eu, o Gian e o Richard Diegues acabamos percebendo que tínhamos concepções divergentes e irreconciliáveis quanto à melhor estratégia para organizar e montar a obra. Daí, a separação amigável com um bônus adicional para os leitores lusófonos: em vez de uma, teremos duas antologias steampunks, cada qual com sua filosofia de trabalho.

Parte do meu plano consistia em montar uma antologia luso-brasileira, pois esse caminho multiplicaria por dois as chances de publicação em papel. Para tanto, convidei para me ajudar na tarefa árdua de edição o amigo de longa data Luís Filipe Silva, autor e editor de ficção científica português, cuja obra e reputação dispensam maiores apresentações.

O plano inicial da Vaporpunk é reunir de dez a catorze noveletas (cinco a sete trabalhos de autores brasileiros e outro tanto de autores portugueses). Um livro com algo em torno de 80.000 a 100.000 palavras.

Dividimos nossa labuta de editores por nacionalidade: o Luís cuida das submissões dos autores portugueses e eu cuido das submissões dos autores brasileiros. No entanto, cada trabalho precisará do aval de ambos para ser incluído na Vaporpunk.

Dentro dessa divisão, cada co-editor é livre para estabelecer seus próprios critérios para a seleção do material a ser submetido.

Deste lado do Atlântico, enviei nossas guidelines para alguns autores com os quais já trabalhei antes como editor. Autores que, tanto pela análise do conjunto de suas obras anteriores quanto pela confiança mútua no trato pessoal, julgo capazes de produzir noveletas efetivas dentro do subgênero steampunk. Deste modo, a submissão dos autores brasileiros deu-se por convite.

Em Portugal, o Luís adotou estratégia diversa. Após avaliar que não conseguiria obter as cinco ou sete submissões com o padrão de qualidade almejado através do simples convite, ele decidiu publicar nossas guidelines sob forma de um edital lato sensu, solicitando submissões de autores portugueses.

Naturalmente, em virtude dessa divergência de critérios, vários autores brasileiros só acabaram sabendo da existência do esforço para produzir a Vaporpunk a partir de sites e fóruns portugueses.

A partir do conhecimento da existência de uma antologia temática com submissões tecnicamente em aberto, passamos a receber submissões não solicitadas de autores brasileiros.

Como iremos proceder a partir do imbróglio resumido acima?

É simples.

Todos os autores brasileiros que, convidados ou não, submeterem seus trabalhos até a deadline proposta (31 de julho de 2009), sob os ditames das guidelines estabelecidas, terão suas noveletas avaliadas em primeira instância por mim e, se aprovadas, também e obrigatoriamente, pelo Luís Filipe Silva.

Autores brasileiros que receberam convites no início de 2009 e que já vêm trabalhando em suas noveletas desde então também deverão se ater em princípio à deadline referida. Contudo, a meu critério, na dependência do andamento dos trabalhos desses autores convidados e de entendimentos prévios entre autores e editor, poderei estender um pouco esse prazo.

Não se justificam as queixas por parte dos autores brasileiros de que não foram avisados das guidelines e do edital da Vaporpunk, ou que apenas souberam dos mesmos em cima da hora, tendo em vista que os critérios de seleção deste lado do Atlântico não envolveram solicitação pública de submissão de trabalhos.

Espero ter esclarecido os colegas e amigos acima.

Gerson Lodi-Ribeiro, editor brasileiro da VAPORPUNK.

21.7.09

Novo desafio de minicontos

Tom Banwell ataca novamente. O artista plástico que lançou um desafio do qual participei e me valeu a publicação de um miniconto chamado "Amazon Underground" em seu blog finalizou um novo capacete e lançou outro concurso.

A peça agora levou o nome provisório de Defender e é uma beleza:



O californiano caprichou ainda mais desta vez, concordam?



Novamente, a ideia é contar em um texto sobre este capacete, quem é seu dono, para que ele serve, enfim, criar um histórico para o artefato de Banwell.



O limite do texto é de 700 palavras, o prazo de entrega é no dia 11 de agosto.



Quem for o escolhido do artista plástico, vai levar US$ 75 para gastar em um dos artigos à venda na loja on line dele.


Os interessados podem encontrar mais informações neste post. Da última vez foram três brasileiros participando, contando com Ludimila Hashimoto que me garantiu uma tradução de primeira. Espero que novamente haja minicontos nossos conterrâneos na disputa. Boa sorte a todos!

20.7.09

Bruce Sterling e a "Bossa Steampunk"

Ele mesmo: o homem que é, ao lado de William Gibson, o criador tanto do cyberpunk quanto do steampunk como os conhecemos; o guru tecnológico; o cara.

Bruce Sterling descobriu a existência do site do Conselho Steampunk e fez um post a respeito no blog que mantém na Wired.com, o Beyond the Beyond. Nesta nota, ele brincou com a ideia e batizou um novo conceito: "Bossa Steampunk".

Mas não parou por aí. Hoje, Sterling publicou uma mensagem do fundador do Conselho, Bruno Accioly, divulgando os demais endereços das representações regionais - que, para surpresa do blogueiro, são batizadas da mesma forma que uma certa sociedade secreta ("Lodges. Like Masonic Lodges? Boy, that’s awfully 19th century.") - e descreveu algumas das iniciativas do grupo. Conclusão do pai da matéria: "O mundo é um lugar vasto e maravilhoso, damas e cavalheiros."

19.7.09

Mais uma Loja no Conselho Steampunk

A cidade que inspirou o título deste blog e da noveleta homônima acaba de estrear no Conselho Steampunk. Minhas boas vindas à Loja Rio de Janeiro e ao belo site de onde tirei a imagem acima.

17.7.09

Coletânea lusobrasileira: Vaporpunk

Como soube da notícia já bem atrasado - graças à versão twitter da Loja São Paulo do Conselho Steampunk - vou reproduzir na íntegra o chamado de submissão de textos publicado originalmente aqui torcendo para ler material brasileiro nesta coletânea binacional:

A antologia Vaporpunk pretende reunir noveletas de história alternativa do subgênero steampunk escritas por autores brasileiros e portugueses, com fins de publicação em mercados de ambos os lados do Atlântico, em mídia convencional e/ou e-book.
Por considerarmos que a dimensão ideal precípua para expressar um enredo de história alternativa é a noveleta e não o conto, como no caso da ficção científica, gostaríamos de fixar os limites dos trabalhos que aceitaremos entre 8.000 e 18.000 palavras. Isto não quer dizer, em absoluto, que trabalhos fora deste padrão serão sumariamente rejeitados. Se vossos escritos forem realmente bons, a qualidade decerto pesará, ainda que eles sejam menores ou maiores do que o limite proposto. No entanto, convém deixar claro que olharemos com mais simpatia trabalhos dentro do intervalo citado.
Analogamente, gostaríamos de receber trabalhos steampunks cujos enredos dissessem respeito, direta ou indiretamente, às culturas brasileira e/ou portuguesa, mostrando o impacto social do avanço tecnológico precoce na história dessa(s) cultura(s).
Vaporpunks, por assim dizer.
Não se trata de uma exigência estrita. Trabalhos steampunks que nada tenham a ver com o Brasil ou com Portugal serão apreciados com a atenção devida e também poderão ser eventualmente aceitos. Porém é honesto frisar aqui nossa predileção por vaporpunks que sejam lusófonos não só de corpo (i.e, escritos por autores portugueses e brasileiros), como também em espírito (enredo, personagens, ambientação lusófonos).
A deadline proposta é 31 de julho de 2009.
O mais importante é que não nos prendemos à definição castiça de steampunk / vaporpunk.
Isto quer dizer que a ação de vossas noveletas não precisa necessariamente transcorrer na Londres Vitoriana da segunda metade do século XIX. Afinal, As Loucas Aventuras de James West é considerado steampunk e se passa no Velho Oeste, certo?
Da mesma forma, consideramos vaporpunk o romance de Paul McAuley, Pasquale’s Angel (publicado em português sob o título de A Invenção de Leonardo, Saída de Emergência, 2005), onde os inventos de Da Vinci são concretizados e a Revolução Industrial começa com três séculos de antecedência.
Não se faz necessário que o vapor seja a única tecnologia precoce presente em vossos enredos.
Em resumo, estamos interessados em enredos que mostrem o impacto social do emprego amplo e precoce de avanços tecnológicos nas culturas portuguesa e/ou brasileira. Tais enredos podem se constituir em passados alternativos ou em presentes alternativos.
Nos passados alternativos, a ação transcorre numa época bastante anterior ao presente, como por exemplo, na noveleta “Custer’s Last Jump”, de Steven Utley & Howard Waldrop, em que o advento da aviação em meados do século XIX modifica a história da Guerra de Secessão e das Guerras Índias que se seguiram.
Nos presentes alternativos, a ação se passa mais ou menos em nossa época, só que numa linha histórica alternativa, modificada pelo advento precoce de uma tecnologia.
Quando principiamos a cogitar essas guidelines, pensamos em conceituar steampunk aqui.
Contudo, descobrimos uma definição castiça adequada na Wikipedia. Os conceitos ali expressos são mais restritivos do que aqueles que lhes estamos propondo, mas já dá para ter uma idéia geral. Portanto, usem e abusem: http://en.wikipedia.org/wiki/Steampunk
Se possível, dêem preferência ao verbete da Wikipedia em inglês, visto que sua tradução na Wikipedia em português encontra-se incompleta e, em alguns trechos, errada.
Se quiserem, sintam-se à vontade para consultar o ensaio “Steampunks!” constante na coletânea em e-book Ensaios de História Alternativa , cujo download é gratuito no site:
No que se pese que se trata de um texto escrito em 1998, é mais atualizado do que o verbete da Encyclopedia of Science Fiction, escrito pelo Peter Nicholls.
Contamos com a submissão da sua noveleta.
A submissão deve ser mandada somente em versão eletrônica, formato universal de texto (.txt) ou rich text file (.rtf), para os emails glodir@centroin.com.br e
antologia@tecnofantasia.com (enviem para ambos de forma a que não se perca nenhuma submissão. Por favor, solicitem confirmação de recepção). Indicando na folha de rosto o nome de nascimento do autor, o nome literário (se diferir deste), o título da obra, a dimensão (número de palavras) e um meio de contacto (endereço, email). Se tiver de enviar mapas ou gráficos, por favor envie em ficheiro separado e faça a devida nota no corpo do texto.
Mãos à obra!
Gerson Lodi-Ribeiro & Luís Filipe Silva
Fevereiro de 2009

Aula de História

Ana Cristina Rodrigues, historiadora, escritora e fomentadora cultural da literatura fantástica nacional, deu uma verdadeira aula sobre o que chamou - com razão - de "novo hype da Ficção Especulativa brasileira", no caso o gênero abordado nesta casa, o Steampunk. No blog Ficção Científica e Afins, que vem a ser uma versão Wordpress da maior comunidade em português de FC, da qual ela é a atual dona e há tempos moderadora, Ana destrinchou o contexto por trás desta "novidade", que já tem um quarto de século se considerarmos apenas sua vertente mais bem acabada, apontou várias obras em diferentes mídias que seguem o estilo steamer e relacionou tudo com a realidade do Brasil.

Vou selecionar abaixo alguns trechos, mas recomendo enfaticamente uma lida na versão integral naquele blog.


Steampunk é um estilo dentro da Ficção Especulativa em que se reproduz uma Era Vitoriana ucrônica, com avanços tecnológicos baseados no vapor. E vejam bem. A ênfase não é exatamente no Vapor – ou um conto sobre a minha chaleira seria steampunk – mas principalmente no ambiente que envolvia a Londres da segunda metade do século XIX.

Agora, qual o interesse em reviver essa época da história britânica?(Sim, bonitinho, Era Vitoriana foi só nos domínios ingleses…)

A Era Vitoriana compreendeu os anos do longo reinado da rainha Vitória, que governou o Reino Unido entre 1837 e 1901. Até hoje, desperta saudades nos britânicos por ter sido um período de prosperidade – para uma camada populacional bem definida, uma classe média urbana e mercantil que ascendia socialmente – e de grande pujança para o Império Britânico, sobre o qual o Sol nunca se punha. (Ok, a frase original é sobre o Império Espanhol do século XVI, mas está valendo aqui também).

Literariamente, tínhamos dos cínicos cronistas do mundo enfumaçado como Dickens aos românticos crônicos como Tennyson. De um lado, a dura vida cotidiana de órfãos, do outro, a Idade Média adoçada, fundada por Walter Scott, uma época fundadora onde teria nascido o sentimento da nação no meio de justas, torneios e belas donzelas amorosas. E claro, a literatura aventurosa, como a de Robert Louis Stevenson, de piratas e tesouros, ou de H. R. Haggard e Rudyard Kipling, em que as estranhas terras dos domínios britânicos serviam de palco para a aventura de um grande herói.

Porque essa foi também a época das grandes explorações geográficas e dos aventureiros. A Oceania, a África, a Ásia e a América – abaixo do Rio Grande, pelo menos – eram os quintais dos corajosos britânicos, impelidos pelo ímpeto da necessidade de se conhecer o Mundo como um Todo, eliminando as incomodas ‘terras incognitas‘ que ainda apareciam nos mapas. A Sociedade Real de Geografia divulgava alvoroçada os descobrimentos e as novidades em seus boletins, ricamente ilustrados com gravuras de lugares exóticos e mapas o mais precisos que fosse possível. Florestas eram desbravadas, nascentes foram encontradas, tribos foram pacificadas (algumas nem tanto). Souvenirs eram trazidos: cocares, flechas, potes, pigmeus e cabeças tatuadas de maoris.

(Sério. Até uns anos atrás, o Museu da Quinta da Boa Vista tinha duas em exibição. Não estavam mais expostas na última vez que eu fui lá, mas fuçando na internet descobri que o governo da Nova Zelândia vem pedindo desde 2003 aos museus do mundo o repatriamento dessas lembranças macabras. Alguns atenderam, a França não quis abrir precedentes e a cabeça da foto estava em exibição na Bélgica em 2008)

A ciência floresceu. Darwin escrevia sobre bicos de passarinhos ‘galapaguenses’. Faraday quebrava a cabeça tentando entender o magnetismo. E um tal de Charles Babbage começou a pensar em como seria uma máquina que pensasse.

Obviamente, nem tudo eram flores. Havia miséria – a emigração massiva de irlandeses para os Estados Unidos começou por essa época, guerras e conflitos armados grassavam nos domínios. Londres era uma cidade suja e perigosa. Afinal, Jack The Ripper é tão fruto dessa época quando o Dr. Livingstone (...)

(...)A gente realmente tinha pouco a ver com isso. Poucas obras do gênero foram traduzidas no Brasil – aliás, acho que só se você considerar o livro do Powers [Os portais de Anubis] como steampunk. Talvez parte da trilogia de Phillip Pullmann. Nos quadrinhos, tivemos a Liga de Alan Moore. No RPG, Castelo Falkenstein. Nos cinemas, a coisa foi melhor: os blockbusters chegaram todos aqui – até mesmo As loucas aventuras de James West, infelizmente.

Agora, é de se admirar que um país que nos deu o Barão de Mauá, Augusto Zaluar, D. Pedro II, Santos Dummont… não tenha produzido obras a vapor suficientemente interessantes. Poxa, nosso imperador provavelmente foi o governante mais steampunk de sua época. Seu interesse por gadgets, ciências e novidades era/é notório.

Até esse ano, aconteceram algumas tateadas. Gerson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho e Octavio Aragão tangenciaram o gênero – os dois primeiros em contos, o último em seu romance, A mão que cria. Mas talvez a primeira obra consciente e declaradamente steampunk do Brasil sejam os quadrinhos de Expresso! de Alexandre Lancaster. O piloto da série foi publicado em um projeto online de curta duração, mas a saga continua, já que novas HQ’s estão previstas e um conto sobre o protagonista vai entrar na primeira coletânea nacional do gênero.

A Tarja Editorial convocou alguns autores – uns experientes, outros novatos – para escrever histórias no mundo do vapor. Dessas, eu li em primeira mão três. Se as demais seguirem a qualidade destas, o livro promete. O lançamento de Steampunk – Histórias de um passado extraordinário será na Fantasticon, dias 25 e 26 de julho.

Agora, é esperar para ver se continuamos na onda do vapor – ou se escolheremos um novo hype literário.