6.3.10

O capitão e o camundongo

Não fosse esta nota do Universo HQ, certamente teria deixado passar em branco a edição deste mês de Mickey, da editora Abril, na qual o personagem símbolo de Walt Disney (1901-1966) se encontra com o personagem mais famoso de Jules Verne (1828 - 1905). Imagino que deveria fazer uns 25 anos desde que comprei pela última vez um gibi do camundongo. O jejum foi quebrado agora, quando o encontro no número 810, para conferir o que prometiam ser "a melhor aventura dos últimos 125 anos" com a participação do Capitão Nemo. Não posso dizer que gostei, mesmo levando em conta o público a que se destina a HQ e o preço reduzido da revista, R$ 2,95.

Pelo menos houve um avanço neste último quarto de século e já podemos saber o nome dos verdadeiros quadrinistas responsáveis pela história, pois, da última vez que eu tive uma dessas na mão, a assinatura de Walt Disney era a única visível nos créditos. "Mickey e o selo de Vladimir Zeta" foi produzida no país que chama aquele camundongo de Topolino pelo roteirista Francesco Artibani e pelo desenhista Giuseppe Dalla Santa. A premissa básica é interessante: em tempos atuais, uma expedição oceanográfica localiza no fundo do Oceano Atlântico restos de um naufrágio, entre eles, pedaços de madeira com o nome "Isère" e um selo gravado com uma letra que tanto poderia ser Z ou N, a depender de como se girasse o material. Mais notável que isso, havia ainda uma réplica da tocha da Estátua da Liberdade, feita totalmente em ouro.

Uma dupla de cientistas amiga de Mickey e Pateta, professor Zapotec e doutor Marlin, não só tem acesso à descoberta, como determina que as peças realmente são originárias - exatamente - do ano 1885 e, ainda por cima, conta com uma máquina do tempo à disposição para resolver o mistério. Desta forma, as autoridades científicas enviam para o passado os dois investigadores temporais, até o porto de Le Havre, de onde partiu o navio Isère rumo aos EUA com a estátua ainda desmontada, presente da nação europeia pelo primeiro centenário da independência do país americano. Alguns outros detalhes da trama podem ser adivinhados apenas se observando a capa, que revela mais do que o necessário: um personagem denunciando sua cara de vilão e parte do que obviamente é o submarino Nautilus.

O problema da história, como pode constatar quem for ler o gibi, é justamente na motivação do mistério do nem tão misterioso Vladimir Zeta, o homem por trás daquele selo que tanto pode ser um Z quanto um N. Sendo ele, na verdade, um personagem que se define pelo veículo pioneiro que criou, por que haveria de passar tanto trabalho, ter que confiar em tipos tão suspeitos, e embarcar uma carga clandestina, muito preciosa para ele, no navio mais visado e bem protegido daquele fim de século XIX? A coisa não se sustenta nem mesmo com a desculpa de ser uma história de detetive destinada a crianças. Faltou um bom trabalho de edição para exigir mais de Artibani. E o editor também poderia fazer Dalla Santa se esforçar mais com a reconstituição da época vitoriana.

Um Mickey vivendo aventuras no século retrasado não é nem de longe algo inédito. Na verdade, havia mesmo uma série em que ele - ou pelo menos um personagem homônimo, talvez um antepassado - era o ajudante de uma paródia de Sherlock Holmes na Londres daqueles tempos. Com roteiros bem mais interessantes que o desta revista, desenhos detalhados e bem pesquisados e uma diagramação inventiva, valeria a pena se ver uma compilação das HQs com o personagem Sir Lock Holmes. Não o confunda com outra sátira da Disney chamada Berloque Gomes que se passava em tempos contemporâneos: Sir Lock (Sleuth, no original; Ser Lock ou Hulme, na Itália; Ser Lock, na Espanha) foi uma criação de Carl Fallberg e de Al Hubbard apenas para o mercado externo da Disney, com histórias que, até onde pesquisei, não foram publicadas nos EUA. Se a editora Abril lançasse uma edição especial com o personagem e seu ajudante eu compraria com muito mais gosto que fiz com este gibi agora.

3 comentários:

Lancaster disse...

Acredita que eu era fã das histórias do Sir Lock Holmes quando era criança? Gostava do fato de que a diagramação era totalmente diferente e inusitada em relação ao resto dos quadrinhos Disney. Aliás, eles usaram aquele tipo de diagramação inventiva na série "Pateta Faz História".

Romeu Martins disse...

E-xa-ta-men-te. Eu era fã das duas produções da Disney e compraria satisfeito se a Abril lançasse especiais do Sir Lock e do Pateta faz história. Aquele sobre o Homem invisível foi uma das HQs que mais reli na vida (a minha edição veio junto com a Odisséia). Genial, genial.

Leonardo Peixoto disse...

É uma pena que Mickey e o selo de Vladimir Zeta não tenha lhe agradado . Quando reli a história recentemente , minha mente encheu-se de perguntas sobre como Nemo assumiu a identidade de Barão Zeta e sobre sua vida após imigrar para os Estados Unidos . Tem duas HQs de Mickey que eu acho que valem a pena você gastar R$ 2,95 :
Mickey e o Mundo do Amanhã - Reunindo o camundongo com seu amigo do futuro Esquálidus , essa aventura inspirada no filme Capitão Sky e o Mundo do Amanhã e dividida em quatro capítulos foi publicada em Mickey 791 e 792 .
Mickey e o Segredo dos Mousestones - Na Patópolis do Século XIX , Mickey (ou um ancestral ou uma versão alternativa do rato de um universo paralelo) embarca em uma busca movida a vapor para resgatar o tio desaparecido . Publicada em Mickey 807 .