8.3.10

Entrevista comigo

Meu caro Afonso Luiz Pereira edita um site de inestimável qualidade chamado Contos Fantásticos. Naquele espaço ele não apenas reúne um acervo de contos diversos, como também artigos e entrevistas com escritores dedicados à literatura de gênero nacional. Ele decidiu começar o mês de março me entrevistando, ora vejam. Nada menos que minha primeira entrevista sobre ficção científica, pela qual sou muito grato ao entrevistador pelo espaço e pelas palavras generosas no comentário. Como não poderia deixar de ser, em vários momentos o assunto da conversa foi o subgênero steampunk. Abaixo vão alguns dos trechos sobre este tema, a íntegra você pode ler aqui.

O escritor Fábio Fernandes, em entrevista concedida aqui mesmo para CONTOS FANTÁSTICOS, foi pontualmente didático ao explicar o significado do termo Steampunk, mas para não perdemos o foco das perguntas que farei a seguir, seria possível você falar alguma coisa sobre e, também, esclarecer este seu súbito “arrebatamento” por este subgênero da FC? 


Fábio Fernandes é um especialista do gênero, tanto escrevendo FC quanto escrevendo sobre FC. Não teria nada a acrescentar às informações que ele lhe deu sobre o subgênero steampunk e de como ele derivou do cyberpunk. Recomendo a quem leu reler o material e a quem não conhece dar uma conferida "aqui". Meu arrebatamento não chega a ser tão súbito. Eu me interesso pelo subgênero desde o final da década de 90, quando em tempos de paridade de nossa moeda com o dólar foi possível acompanhar o lançamento na Inglaterra e nos EUA, via Amazon, da série Liga Extraordinária, de Alan Moore. Aquilo me conquistou de imediato, sabe? Costumo dizer que, racionalmente falando, sei que outras obras do inglês são superiores, nem preciso citá-las, mas algo naquele projeto, naquela ambientação, na ideia de reutilizar personagens clássicos de autores como Jules Verne me conquistou de imediato. 

E mesmo nesse resumo que eu fiz sobre minha aproximação em relação aos escritores de FC nacionais, dá para perceber que o interesse vem de longe. Falei do primeiro livro recente que li, A mão que cria, que, como ressaltei naquela resenha, se tratava de uma obra com elementos steampunk, ao imaginar Verne eleito presidente da França e incentivador de uma corrida tecnológica no século XIX.  Já naquela época, em discussões no Orkut, propus várias sugestões que, dois anos depois, acabaria eu mesmo incorporando em uma noveleta quando me convidaram a escrever uma história desse subgênero para aquela que acabou sendo a primeira coletânea steampunk brasileira. Então, arrebatamento, sim, mas nem tão súbito assim, para quem me conhece. 

Em sendo, teoricamente, a Ficção Científica um tipo de literatura já altamente restritiva ao gosto popular dos leitores brasileiros, o Steampunk, sabidamente uma vertente diferenciada deste gênero, tem fôlego para fazer bonito no Brasil? 

Daí depende das expectativas em jogo. Diria que, a princípio sim, pois existem grupos organizados em todo o país, a partir de uma iniciativa chamada Conselho Steampunk que mantém unidades regionais chamadas de Lojas – a exemplo do que fazem os maçons – em diversos estados, do sul ao nordeste. É um grupo forte, unido, coeso, que contribui com vários eventos e produção cultural, seja em termos literários, de moda, de jogos, enfim. É um verdadeiro exemplo, o melhor que conheço, sem dúvida, de fãs de um gênero que alimentam uma verdadeira cultura, chamando a atenção dentro e fora do país.Além  disso, as editoras e os escritores estão apostando bastante nessa área, com alguns lançamentos agendados, uma segunda coletânea de contos, histórias em quadrinhos, romances, uma produção que procuro documentar em meu mais recente blog, que completou um ano em janeiro, o Cidade Phantástica.

laro que, além da produção nacional, ainda há material produzido no exterior chegando ao Brasil, como filmes, a exemplo do recente Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr., que ajuda a disseminar a estética entre mais e mais interessados. Este ano de 2010 vai ser bastante pródigo em lançamentos, tanto que, pegando emprestada uma expressão do cofundador do Conselho Steampunk, Bruno Accioly, estamos chamando de “O ano do vapor”.

Agora, se por fazer bonito você quer dizer resultado comercial, bem, aí fica difícil prever. No Brasil, literatura fantástica não costuma ser uma boa aplicação em termos financeiros. A única exceção que me ocorre é o vampirismo, como um subgênero da fantasia e do horror. Só o tempo dirá se o steampunk algum dia vai conseguir repetir o feito dos vampiros e produzir um escritor que viva disso. 

“Ouvi dizer” que a antologia Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, da qual você participa com um dos noves contos que compõem a obra, independente do retorno popular, recebeu críticas superpositivas de quem entende do assunto, até mesmo no exterior. A informação procede? 

Você ouviu bem. A repercussão que essa primeira coletânea nacional dedicada ao gênero alcançou desde que foi lançada, na metade de 2009, certamente surpreendeu a todos nós, aos nove autores, ao organizador, Gian Celli e a seu sócio Richard Diegues, da Tarja. Teria que fazer um levantamento para poder afirmar com certeza, mas esse deve ter sido o lançamento recente, da última década, de ficção científica brasileira, que alcançou o maior número de comentários de leitores e de críticos. E isso no Brasil e lá fora, sendo a maioria dessas avaliações positivas. A resenha que mais chamou a atenção foi a de um dos maiores especialistas em literatura fantástica, um americano que mantém uma média de leitura anual na casa dos 500 livros. Larry Nolen primeiro posicionou a obra, sem maiores comentários, entre as melhores que havia lido no ano de 2009 – entre as 500 e tantas que lei aquele ano, volto a reforçar. Pouco depois ele escreveu um texto extremamente atencioso e muito positivo sobre a coletânea em si e sobre o potencial da FC brasileira que, em minha opinião, caso o livro tenha uma segunda edição deveria vir com a tradução do artigo a título de apresentação ( link do artigo ). 

E o impacto não parou por aí. No final de fevereiro deste ano ainda ficamos sabendo que uma versão em inglês do conto do já citado Fábio Fernandes, presente na obra com a noveleta “Breve história da Maquinidade”, vai surgir em uma nova coletânea, dessa vez um livro americano. Steampunk reloaded vai ser lançado ainda este ano pelo casal de editores Ann e Jeff VanderMeer, dando continuidade a outra coletânea compilada por eles. E este segundo volume vai vir com brazuca ao lado de trabalhos de escritores mundialmente conhecidos como William Gibson, ninguém menos que o homem que criou o subgênero steampunk ao lado de Bruce Sterling. Haverá ainda uma publicação virtual, ligada ao livro, que também terá a presença de outro conterrâneo nosso, Jacques Barcia, escritor e jornalista Pernambucano. O e-book trará uma tradução para o inglês da noveleta “Uma vida possível atrás das barricadas”, também publicada originalmente em Steampunk – Histórias de um passado extraordinária.

Arrisco a dizer que esta é uma das poucas, raras, raríssimas vezes que a produção nacional de ficção científica entrou em ressonância com aquilo que está sendo produzido e apreciado lá fora, nos grandes mercados consumidores e fornecedores de FC. Por isso há o interesse deles em saber o que é o tal Brazilian steampunk. E o melhor é que eles estão lendo e gostando daquilo que é feito aqui.            

6 comentários:

Giseli disse...

Ótima entrevista, Romeu! =) E mande meus parabéns ao Afonso também pela iniciativa (ah, tem que se registrar para comentar lá, preguiça, sabe como é...rs).
Ei, rola de tentar publicar um conto meu no seu TC?

Romeu Martins disse...

Opa, Gi, brigados e é claro que sim! Me mande a sua obra!

Afonso L. Pereira disse...

Romeu, passo de rápido por aqui para prestigiar o teu blog, meu bom! Essa foto aí do post você dá pinta de ser um cara prá lá de intelectual, cheio da razão, né? Como de fato o é de verdade. (rs, rs, rs,). Uma imagem assim que se afigura você estar pensativo, introspectivo a nível de você mesmo. (rs, rs, rs).

Tudo brincadeira, meu bom!

Tua entrevista ficou show de bola

Grande abraço!

Romeu Martins disse...

Acho que no momento daquela foto eu estava era observando alguém encher o meu copo de cerveja :-)

Abraço, Afonso, de novo muito grato pela oportunidade, que está repercutindo muito bem, e parabéns pelo seu grande trabalho.

Tânia Souza disse...

Ótima entrevista, gostei de conhecer ainda mais esse gênero literário, fiquei com vontade de arriscar algo do gênero, Romeu, parabéns pelo trabalho e pelas respostas.

Romeu Martins disse...

Opa, obrigado pela leitura e pelo comentário, Tânia. Espero que você se arrisque e que o gênero te traga tanto prazer, ao ler e escrever, quanto vem me trazendo.