15.5.11

Aranha noturna

Para quem já acha Peter Parker o mais azarado dos super-heróis, acaba de ser publicada no Brasil uma versão alternativa do personagem capaz de provar que tudo poderia ser ainda na pior na vida dele. Homem-Aranha Noir é uma edição especial da Panini que reúne em um único volume a minissérie em quatro partes originalmente lançada nos EUA em 2009. No lugar do adolescente nerd e vítima de bullying na escola, desenvolvido nos anos 60 por Stan Lee e Steve Ditko, a recriação dos roteiristas David Hine e Fabrice Sapolsky e do desenhista Carmine Di Giandomenico imagina o rapaz trinta anos antes, vivendo na Era da Depressão americana. Naquela Nova Iorque suja e cínica retratada nos filmes de detetive, cujo gênero tem o mesmo nome deste projeto de quadrinhos, não sobra muito espaço para as piadas infames e para a roupa colorida do Amigão da Vizinhança. Jogando-se entre prédios de um skyline muito mais baixo do que nos acostumamos a ver, temos uma figura bem mais angustiada, trajada de negro e, por vezes, até mesmo armada com um impensável revólver.



A mudança de tom, do solar Cabeça de Teia rubro-celeste que conhecemos para essa criatura noturna com óculos de aviador que pode ser vista na capa acima, explica-se pela diferença de cenário. Este Peter Parker, também órfão, foi criado por tios de inclinação socialista, em uma cidade que naquele ano de 1933 é dominada por gangues e por políticos corruptos. Aqui, o futuro herói não carrega a culpa de ter deixado escapar o bandido que mais tarde mataria seu tio Ben. A revolta do rapaz vem de bem antes e não é tão focada, mas dirigida a todo um sistema viciado. A frase ensinamento deixada por aquele tutor, nesta realidade, um ex-piloto da Grande Guerra, não é mais o velho bordão "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades". "Se aqueles que detêm o poder não são dignos de confiança, é dever do povo destitui-los" é o mote que anima o Homem-Aranha Noir.

A nova abordagem não é sentida apenas no protagonista e em seus parentes. Os demais coadjuvantes também foram afetados pelo clima soturno da década de trinta. O mais notável é Ben Urich, jornalista competente e idealista do Clarim Diário nas histórias do Aranha e do Demolidor que conhecemos tradicionalmente, nesta versão ele aparece rejuvenescido em idade - Di Giandomenico o desenha de modo bastante semelhante à figura do ator Benício Del Toro - porém endurecido pela vida: ele é um repórter e fotógrafo viciado em drogas que acaba acolhendo o garoto como seu ajudante. Os vilões também são apresentados em retratações muito mais cruéis, tanto Norman Osborn, o gangster que aparentemente ninguém sabe o porquê de ser apelidado de Duende, quanto seus capangas recrutados em circos de aberrações. Destaco a nova personalidade do Abutre, bem mais chocante que a do velhote alado das histórias normais.

Homem-Aranha Noir é uma bela surpresa e vale muito a pena para quem aprecia esses anacronismos que de tempos em tempos Marvel e DC produzem com seus personagens.  A qualidade atingida pelo trio responsável, mais ligado ao mercado europeu, é inegável. Hine e Sapolsky, que começaram suas carreiras respectivamente na Inglaterra e na França, entregaram uma história ótima, cheia de reviravoltas, cujos cliffhangers nos últimos quadrinhos de cada edição original da minissérie estão perfeitos. Prendem o leitor de modo memorável a cada vinte páginas. E quanto ao italiano Di Giandomenico, ele já está se tornando um especialista em HQs apresentando o passado da Marvel. Já falei dele aqui a respeito de uma história imaginando o Capitão América na Guerra Civil Americana; e também foi o desenhista de uma das melhores e mais importantes histórias recentes daquela editora, Magneto: Testamento (imperdível, quem não leu, faça-se este favor). Quanto à Panini, merece os parabéns por editar o material com tanta qualidade (capa dura, papel nobre, extras) a menos de R$ 20. De deslizes, apenas o fato de não ter informado aos leitores que Spiderman Noir surgiu antes em um videogame e por ter feito confusão nos arquivos que apresentam as capas variantes da minissérie (publicaram duas vezes uma mesma e deixaram de mostrar outra). Espero que repitam a qualidade e o preço quando editarem a continuação da série - Homem Aranha Noir: Olhos sem face.

10 comentários:

Cirilo S. Lemos disse...

Já leu o Homem de Ferro Noir?

matheus aguiar disse...

achei sensacional. não sou fã de histórias de heróis como o Homem-Aranha, a não ser quando saem essas edições sensacionais e imperdíveis.

Romeu Martins disse...

Opa, Cirilo, este é o primeiro noir que eu li. Sabia do que fizeram pros X-Men, do Homem de Ferro nem fiquei sabendo, vou ver.

Legal mesmo, Matheus. Eu também quase não acompanho as revistas de linha, mas gosto muito dessas versões alternativos, do tipo Elseworlds da Dc.

Cirilo S. Lemos disse...

Ih, tem quase a marvel inteira. Tem X-Men, Demolidor, Homem de Ferro...

Romeu Martins disse...

Eu vi umas imagens e li uns textos. Parece bem bacana mesmo! Tomara que saiam logo por aqui mais dessas histórias, o cenário promete... E quero ler o Demolidor Noir, é meu personagem favorito da Marvel

Duda Falcão disse...

Olá, Romeu!
Sou fã desse homem-aranha noir!
Não sabia que tinha outros heróis da Marvel nesse universo. Valeu Cirilo pela informação!
Vou procurar!
Um abraço!

Romeu Martins disse...

Pois então, estive lendo uma resenhas gringas e parece que o X-Men noir é ainda melhor e mais ousado que o do Aranha (que teve de manter algumas características clássicas para ser adequado ao videogame).

Tomara que este faça sucesso e a Panini traga os próximos, com a mesma qualidade e preço (comprei o Aranha noir por R$ 17,90!)

Duda Falcão disse...

Puxa, pagou barato! Eu não encontrei por aqui impresso. Tô lendo pelo site Vertigo.
Tenho de ler esse X-Men!
Um abraço!

resgate disse...

Esse é de longe o melhor dos títulos da Marvel Noir.

Romeu Martins disse...

Eu gostei muito mesmo, sou fã da arte do Giandomenico, desde o primeiro momento que a vi, naquele Capitão da Guerra Civil. E o roteiro cheio de deixas pra próxima história ao fim das edições está ótimo.