11.10.10

San Juan Romero


Uma aventura de Sir James Winterwood


 
      Parte I

05 de julho de 1892...
Era uma tarde numa terra de calor, poeira e desolação - um vilarejo na fronteira do México, que fora esquecido pelo mundo. E foi naquele dia que o viajante chegou.
Ele parou na entrada daquele lugar, desceu do cavalo e leu uma inscrição numa tábua caída: "San Juan Romero".
Em seguida, pegou, de um compartimento na sela do cavalo, um cantil e provou um gole de água (que acabou bem antes do que ele esperava). Guardou o cantil. "San Juan Romero". Jamais ouvira falar daquele lugar, porém teria de servir.
Retirou o chapéu e, com um lenço, começou a limpar a poeira e o suor que lhe cobriam o rosto. A pele estava ressecada pelo sol, os cabelos desgrenhados e a barba não era feita há dias. Seu estômago reclamava e seu coração estava partido... Porém, ele virou o rosto para o lado e repeliu as memórias, evitando que o dominassem... Pois, como já havia aprendido tanto tempo atrás, elas podem ser bem mais cruéis que o deserto...
Recolocou o chapéu, montou novamente e começou a entrar em San Juan Romeiro. Ele já havia cruzado metade da rua principal - e lhe pareceu que estava numa cidade fantasma - quando um grupo de cinco homens bloqueou seu caminho. Um deles segurava um velho rifle, os outros estavam armados com picaretas. O viajante saudou-os em espanhol, uma língua que aprendera com seu pai, em tempos melhores:
_Boa tarde. Estou viajando há muitos dias. Por favor, preciso de comida, água e de abrigo por uma noite. Eu posso pagar bem.
Os homens olharam para o viajante, com expressões severas e hostis, e um deles, o que carregava o rifle, um tipo muito magro, de olhos apertados, falou desta forma:
_Vá embora. Não queremos estranhos por aqui.
O viajante considerou a possibilidade de passar a noite no deserto e depois resolveu insistir:
_Eu não vou incomodar. E, pela manhã, irei embora.
_Não! Vai dar meia-volta agora e vai sumir - retrucou um deles - ou não vamos nos responsabilizar pelo que acontecer a você.
Em seguida, o homem do rifle mirou na direção do viajante, que contemplou atenta-mente os olhos daquela figura...Lá estava uma expressão que ele já vira antes, no rosto de loucos e assassinos (como naquela aldeia na Índia ou em um dos safáris na África Central... E em outras vezes que foi esfaqueado ou baleado ou, de alguma forma, em todas as ocasiões em que a morte se aproximou o bastante para colocar a mão em seu ombro e sorrir).
O viajante tinha um revólver pendurado do lado direito de sua cintura e acreditava que poderia atingir aquele homem antes que o rifle fosse disparado, mas ele preferia resolver este assunto de um modo que não custasse o sangue de ninguém. Todavia não desejava morrer, com um tiro no peito, caído naquela terra empoeirada...
O viajante e aqueles homens permaneceram em silêncio por alguns instantes, num tenso impasse, cada um aguardando o que o outro faria.
Foi então que uma voz inesperada intercedeu:
_Perez! Você está louco? Abaixe essa arma! Ele é só um estranho e você não vai querer mais sangue em nossas mãos, não é?
O viajante olhou para a esquerda e viu que se aproximava um velho de longas barbas, segurando um cachimbo.
Perez baixou o rifle a contragosto - tentando conter sua própria fúria, que era como a de um cão raivoso. Quando o velho já havia se aproximado o suficiente, o viajante decidiu falar:
_Eu agradeço muitíssimo, senhor. Eu sou...
_Não me interessa! - vociferou o velho - Tem um depósito abandonado ali. Vou conseguir comida e água. Você vai embora de manhã. É só esse o tempo que vou conseguir segurá-los.
O grupo de homens se afastou rapidamente, murmurando furiosos para si mesmos, tão frustrados quanto uma fera de que se rouba a comida. O velho também foi embora - e seus passos lembravam os de um fantasma.
O viajante ficou parado contemplado os homens que se afastavam, o vilarejo - que parecia incômoda e sombriamente vazio - e meditou sobre a sensação de desconforto que crescia em seu coração, um alerta de que algo estava terrivelmente errado com aquele lugar... "(...) Você não vai querer mais sangue em nossas mãos, não é?" - lembrou o viajante. Um calafrio afligiu-lhe a espinha. Sim, seus instintos gritavam para ele: havia algo de maligno e oculto em San Juan Romero.
Ele puxou seu cavalo na direção do depósito e recitou para si mesmo uma prece. Prometeu, por sua alma, que partiria no começo da manhã. Para seu próprio bem, deveria ser dessa forma.



Parte II

O depósito era de madeira velha e estava em condições precárias, como se um vento forte pudesse derrubá-lo. Parecia já está vazio há muito tempo, exceto por algumas ferramentas - pás e picaretas - que foram abandonadas ali. O viajante imaginou que San Juan Romero já houvesse sido uma terra de mineradores... Talvez em outros tempos. Agora, não passava de uma cidade morta, cujos habitantes pareciam não terem entendido isso.
O viajante sentou-se em um canto e logo um outro homem - com o rosto como o de uma fera prestes a lançar-se sobre sua presa - trouxe comida e água e saiu sem dizer uma une-la palavra.
O gosto daquele líquido era por demais desagradável e os alimentos não estavam melhores, porém, o viajante comeu e bebeu como pôde, depois espalhou um saco de dormir no chão e adormeceu... E depois começou a sonhar. Ele era Sir James Winterwood e sua memória era cotada como extraordinária.
Nos sonhos, ele via seu pai, Sir John, vagando pelo mundo e arrastando consigo a esposa e o filho, ainda pequeno, por lugares dos mais diversos e hostis, mas que o fascinavam, pois John era um viajante, um aventureiro, um homem obcecado com a idéia de aprender, de conhecer os mistérios que se ocultam neste mundo. Ele fora alguém notável, sem dúvida, e que desejava tornar seu nome uma lenda.
Porém... James era ainda adolescente quando sua mãe, Lady Margareth, sucumbiu à malária no sudeste asiático. Sir John chorou de uma forma que James nunca imaginara ver e, a partir daquele momento, definhou até não ser mais do que um rascunho do homem que um dia fora. James voltou à Inglaterra, deixou Sir John aos cuidados de criados leais e retornou ao caminho que havia aprendido com seu pai, porém de uma forma um pouco diferente...
Certamente, o mesmo fogo que uma vez impulsionara o coração de Sir John também iluminava o espírito do jovem James. Todavia, em sua alma habitava parte do que havia feito de Lady Margareth uma mulher tão maravilhosa: o gosto pelos livros, pela cultura, pelas estórias. James vagava pelo mundo coletando os fatos mais inusitados para com eles escrever livros, que, assim ele ansiava, seriam lidos por gerações após sua morte. Suas obras, assim ele sonhava, o tornariam imortal.
Muito tempo já se passara desde então: ele enterrara seu pai no início de um inverno e vivera aventuras sem conta (uma das mais estranhas, ele enfatizaria alguns anos depois em suas memórias, ocorreu em sua própria pátria, quando encontrou Skykeeper, um louco, sem-teto e londrino, perseguido pela crueldade de Lorde Douglas Whitehill... quando James aprendeu que a fronteira entre nosso mundo e o que está além dele é bem mais tênue do que julgara...)
Então, o sonho começou a mudar... Ele passava dos quarenta anos agora e estava chegando a América pouco tempo atrás... Sir James ouvira muitas histórias sobre o Oeste selvagem e estava ansioso para conhecê-lo... Mas agora, ele provava de uma decepção que não podia ter imaginado... Toda a fantasia que aguçava a curiosidade dos imaginosos europeus, quando confrontada com a realidade daquela terra e daquela gente, convertera-se em sangue e selvageria... Nada que merecesse ser relatado ou escrito...
Sua mente pareceu rodopiar e ele estava de volta aquele saloon num lugarejo do Teças, em meio a um conflito de intrigas e maldades que quase lhe custou a vida... E de volita...Aquele nome, aquele rosto, aquele perfume, aquele corpo que lhe dominavam os sentidos e a razão... De volta àquela cama... De volta a Mary...
Como lhe fora ensinado uma vez por um xamã africano, ele bloqueou suas memórias e evitou que avançassem para... Não, ele não queria lembrar, mas ainda assim, mesmo dormindo, lágrimas caíram-lhe dos olhos...
Logo o sonho se transformou por completo. James se percebeu caminhando por San Juan Romero, entrando em casas, tentando chamar a atenção das pessoas, até perceber que, para elas, ele não era mais do que um invisível fantasma...E tudo estava tão deferente, como se o tempo tivesse voltado para trás...Então, ele compreendeu: era o passado daquele lugar, a história ocultada por aqueles homens de modos hostis, que agora se insinuava para ele...
Era uma época ruim para aquele vilarejo. O lugar havia sido cercado pelo bando de Ramirez, El Diablo, como ficou conhecido o criminoso mais sanguinário da fronteira, um homem maligno, com um coração selvagem, que não era o de um ser humano. Suas feições, seu riso, seus gestos... Eram os de um demônio...Contavam-se as coisas mais terríveis sobre ele... O povo de San Juan estava aterrorizado demais e ofereceu ao facínora todo o ouro que este desejasse levar. Ramirez aceitou o presente, mas seus interesses eram ainda maiores... Ele também ouvira histórias sobre San Juan Romero e o Padre Garcia...
O Padre Rodriguez Garcia chegara ao vilarejo tempos atrás e logo conquistara o afeto de todos. Aquela gente simples ficara deslumbrada com sua bondade, seu desprendimento e sua dedicação. Logo passaram a dizer que ele era um santo, enviado por Deus para ajudar aquela terra.
"_Entreguem-me esse Padre Garcia ou matarei cada um de vocês. Vocês têm uma semana." - disse Ramirez e o povo implorou-lhe que reconsiderasse e ele riu e mandou que voltassem ao vilarejo antes que ele perdesse a paciência com eles.
O povo de San Juan Romero conversou entre si e com o Padre Garcia (que, apesar de ser bom, estava aterrorizado) e juraram que não entregariam aquele homem santo, não importava o que acontecesse...
Mas naquela noite, homens de Ramirez entraram no vilarejo atirando e três pessoas foram mortas e mais quatro tombaram da mesma forma na noite seguinte...
"No sétimo dia, se eu não tiver o que pedi, matarei a todos" - era o que estava escrito numa mensagem deixada num saco, que fora jogada pelo bando de Ramirez no centro da vila, e dentro do qual estava a cabeça de Miguel, um mineiro gordo, idoso e que nunca fora conhecido por ser rápido ou ágil...
E o medo cresceu e começou a sufocar o pudor no coração dos habitantes de San Juan Romero. E, no quarto dia, eles amarraram e amordaçaram o Padre Garcia, que pensava em fugir, e - por estarem com medo e com vergonha de seus atos e como o sacerdote choramingava assustado como uma criança - bateram nele até que se calasse.
Eles o levaram até Ramirez, que os recebeu com um sorriso selvagem no rosto e uma satisfação demoníaca iluminando seus olhos.
"_Aqui está ele. Como você pediu. Por favor, agora parta e poupe a todos nós." - disse um homem, cuja voz estava maculada pela consciência e culpa (e que James percebeu ser o velho que ele encontrara ao chegar ao vilarejo).
"_Não. Eu quero mais do que isso"- retorquiu Ramirez.
E eles olharam confusos e assustados para o criminoso e ele continuou:
"_Vocês devem matá-lo, da forma mais dolorosa que puderem, e depois tragam o cadáver para mim e irei embora e então San Juan será poupada".
"Não!" - disse um dos habitantes do vilarejo (que James reconheceu como sendo Perez) - "Ele é um homem santo! Não podemos fazer isso!"
"Então,"- replicou Ramirez - "em três dias eu matarei todos vocês... Da forma mais dolorosa que eu puder imaginar".
Eles voltaram para o vilarejo. Assustados demais, confusos demais e em silêncio, pois qualquer palavra morria antes de deixar suas bocas...
No mesmo depósito onde agora James dormia, eles prenderam o Padre Garcia e se reuniram para decidir o que fariam, e debateram entre si e divergiram e discutiram e brigaram, até que Jose Saltares esmagou a cabeça de Juan Gomez com uma pá e o povo de San Juan percebeu que seu tempo estava acabando e que a proximidade da morte lhes roubara a razão.
Foi então que chegou o sexto dia. Os habitantes de San Juan Romero escolheram entre si um pequeno grupo (Perez e o velho que ajudara James faziam parte dele). Eles foram até o depósito, até o indefeso, amarrado e amordaçado Padre Garcia, ajoelha-ram-se diante dele, rezaram um "Pai Nosso", pediram perdão ao sacerdote e depois a Deus, armaram-se de picaretas e contaram o que iriam fazer.
Jamais houve, sobre a Terra, tanto medo, fúria, dor, revolta e desespero quanto nos olhos do Padre Garcia, enquanto eles golpeavam sem cessar e aquelas picaretas rompiam carnes e ossos. De sua boca, Garcia deixou escapar uma promessa feita sem palavras, de absoluto horror e vingança, que o acompanharia até as chamas abissais do Inferno.
Quando aqueles homens terminaram, estavam chorando.
Logo depois, ainda cobertos de sangue, levaram o que restara do Padre Garcia para Ramirez, o terrível Ramirez, que os esperava gargalhando, que nada disse quando seus homens puseram aquele corpo despedaçado num saco, que juntou todo o seu bando e partiu sem mais demora. San Juan Romero fora poupada, mas o preço dessa salvação e a gargalhada do demônio que chamavam de Ramirez permaneceu queimando na alma dos habitantes do vilarejo... Para sempre...
SAN JUAN ROMERO



Parte III

O sonho terminou e Sir James Winterwood despertou num sobressalto, pedindo a Deus que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo...Mas seu coração lhe avisava que era verdade...
Ele cuidou de arrumar suas coisas o mais rapidamente possível, pois, mais do que nunca, era essencial deixar aquele lugar amaldiçoado.
Quando ele chegou a rua, o sol já havia nascido. Todos os habitantes de San Juan Romero estavam reunidos lá fora. James sacou do revólver, porém logo percebeu a inutilidade de sua reação, pois eles não estavam interessados no viajante: todos permaneciam está-ticos contemplando uma figuram mais terrível e sombria do que qualquer coisa que o viajante já vira ou pudera imaginar:
Sua magreza era inumana; a coloração da pele parecia mais pálida que a de um cadáver; vestia um hábito de sacerdote, que estava em frangalhos; e os olhos, ah, os olhos eram o pior de tudo: a cor era indefinível; tentar contempla-los fazia a mente rodopiar e enchia o estomago com horror e ânsia de vômito e inundava o coração com uma mistura obscena de emoções: medo capaz de despedaçar uma alma; pena - que fez James curvasse no solo e chorar - e repulsa, pois se tinha a certeza de estar diante de algo maligno e blasfemo, algo que não devia existir, mas que, mesmo assim, ofendendo a toda a criação, caminhava sobre a Terra.
Aliado a isto, duas constatações quase arrancaram o espírito de James de seu corpo: a primeira foi perceber que, apesar de estarem diante daquele horror, o povo de San Juan Romero não tentava fugir ou resistir, pareciam como se estivessem resignados; em seguida, ele entendeu o óbvio, aquilo, fosse o que realmente fosse, era o Padre Garcia.
_Por favor, tenha piedade! - implorou Perez.
_Pelo amor de Nosso Senhor! Perdoe-nos! - disse o velho que antes intercedera por James - Nós estávamos assustados, temíamos por nossas vidas... Nunca quisemos fazer abique-lo!
_Sim - falou um terceiro homem - e nossa consciência jamais nos deixou em paz. Nós vivemos num inferno, atolados até o pescoço na culpa.
Para James, tudo aquilo já era um pouco demais e ele atirou contra a figura fantasmagórica do Padre Garcia... Até que o revólver estivesse descarregado e o espectro olhasse para ele...
_Você não pertence a isso. Vá embora. - ressoou na mente do viajante uma voz que lembrava túmulos, areia, assassinato e horrores.
_Por favor... Saia daqui. Você não precisa pagar também por nossos pecados... - aconselhou o velho e, antes que James reagisse, o ancião voltou-se para os outros habitantes de San Juan Romero e falou desta forma: _Amigos, nosso crime é indizível e não devemos mais continuar neste mundo, impunes, sem castigo, pelo mal que fizemos...Chegou a hora de terminarmos com tudo isso.
No momento seguinte, o velho segurou a mão de Perez e começou a rezar o "Pai Nosso" e, logo, todos, excerto James, também seguravam as mãos uns dos outros e rezavam.
Sir James pensava em fugir dali, mas estava abalado demais e, mesmo, curioso, para tomar qualquer atitude. Foi quando o fantasma ergueu a mão direita e um vento selvagem, que açoitava areia contra a pele, com a força de um chicote e um uivo infernal, tomou conta do lugar.
O viajante tentava proteger os olhos e caminhou desnorteado pela tempestade de areia, até que, sem poder calcular que distância havia percorrido, tombou naquele chão de vingança e horrores sobrenaturais.
Algum tempo depois, ele despertou. O sol queimava seu rosto. Estava dolorido e horrorizado. Seu cavalo, inexplicavelmente estava ali perto... E James não questionou isso, pois havia aprendido, uma década atrás, que certas dádivas devem ser aceitas sem maiores perguntas...
Ele montou. O mais lógico seria afastar-se daquele lugar para sempre... Porém, James se parecia mais com seu pai do que costumava admitir,e ele estava curioso em ver, com seus próprios olhos, como o destino da desafortunada San Juan Romero havia sido concluído.
Facilmente ele reencontrou o caminho de volta para o vilarejo e, novamente, cavalgou pela rua principal. Era um cenário de horrores, e James recriminou-se por sua curiosidade: por toda a parte cadáveres estavam espalhados, mas eram quase esqueletos, como se algo maligno e selvagem houvesse, violentamente, arrancado a carne dos ossos... Os rostos daqueles infelizes estavam maculados por uma expressão de desespero que fugia a qualquer descrição... E sobre todos eles havia areia...
Ele não encontrou qualquer sinal do Padre Garcia e agradeceu aos céus por isso.
James pensou em chorar, mas logo entendeu que não haveria nele lágrimas suficientes para algo assim... Ele apenas ficou em silêncio e pediu a Deus que se apiedasse da alma daqueles desafortunados...
Depois foi embora. Passou pela placa caída, onde se lia "San Juan Romero", hesitou um pouco, mas então pegou aquele objeto e amarrou com suas coisas no cavalo: por mais horrível que fosse, era uma recordação do que aconteceu e serviria, mais adiante, para provar a ele mesmo que não enlouquecera, nem sonhara tudo aquilo...
Sim. Aquele trágico episódio seria transformado numa história e tanto, embora ele duvidasse que alguém poderia acreditar nele.
De qualquer forma, James planejava voltar à Europa e repousar, pelo menos por um tempo, na propriedade de sua família, pois estava cansado deste sombrio, selvagem e terrível Novo Mundo...
Ele se voltou por um instante e disse: "San Juan Romero...", como se tentasse entender tudo aquilo, todo o horror e crueldade, e desejando que alguém pudesse lhe explicar que capricho, ou mecanismo secreto da criação, permite que homens bons, ou simplesmente comuns, transformem-se em assassinos e demônios...
Porém, seu coração advertiu-lhe que esse era um assunto grande demais, para ele ou qualquer outro homem, e Sir James Winterwood curvou a cabeça e partiu, com a alma ainda mais infeliz do que quando chegara... 

FIM

8.10.10

Steampunk em debate em São Paulo

Um novo evento vai por em discussão as várias vertentes culturais da ficção científica no Brasil. O seminário Science'n'Fiction será organizado pela universidade Cásper Líbero no final deste mês, na capital paulista. A última mesa do encontro, dedicada aos movimentos culturais sci-fi, terá uma participação de representantes do subgênero steampunk, como pode ser conferido neste endereço.




16h45
Mesa IV - Movimentos culturais sci-fi
Como a ficção científica une pessoas e promove movimentos culturais pela cidade de São Paulo. Apresentação de fãs de Steampunk e Star Wars vestidos a caráter.

Carlos Eduardo Pereira Felippe
Artista plástico, editor do site da Loja São Paulo do Conselho Steampunk, colunista do site OutraCoisa.com.br, um dos membros-fundadores do Conselho Steampunk.


Cauê Nicolai
Estudante a prazo de filosofia; desenvolvedor, programador e gestor web na maior parte do tempo. Mas é quando se dedica à música eletrônica/industrial underground que está sua paixão: foi moderador da lista de discussão Rejekto durante quatro anos; é músico de suporte nos shows do projeto de Electro-Industrial kFactor e do projeto de EBM/Industrial Tatari Gami; membro do Atari Game, duo que produz música com sonoridade que remete à decada de 1980, além de ser organizador e DJ da festa PÓS e do CyberCarnival, que estreiará em 2011. Seu projeto atualmente é construir um cenário mais favorável aos gêneros eletrônicos e industriais underground através de festas, festivais e divulgação dos lançamentos pelas redes sociais.

Marcelo ‘Chewie’ Forchin
Representante do grupo paulista de Star Wars, Conselho Jedi.

Henrique Kipper
Frequentador da cena Gótica paulistana desde o começo de 1990. Organiza eventos Góticos e Darkwave e páginas informativas sobre a subcultura Gótica desde 2004. Também é cartunista, ilustrador e quadrinhista profissional desde 1988. Iniciou sua colaboração com grupo The Maozoleum em março de 2004.

Um exemplo de retrotecnologia medieval

Alguém aqui ainda se lembra daquele meu post sobre a enormidade de exemplos de anacronismos tecnológicos que usam o sufixo punk? Baseado num artigo do escritor americano J. E. Remy, uma das possibilidades citadas era a de histórias situadas em uma era anterior à Vitoriana:

Candlepunk. O período histórico é a Idade Média, motivo para o subgênero também ser conhecido como "Castlepunk" e "Middlepunk". O escritor aponta ainda variantes: "Dungeonpunk", quando ocorre a adição de elementos mágicos, ou "Plaguepunk”, quando se enfatiza as antigas doenças que ocorreram naquela época. O exemplo citado é Doomsday Book de Connie Willis.

Tempos atrás, em uma conversa via twitter com Ana Cristina Rodrigues, ela me lembrou de um ótimo exemplar nacional que se encaixa em tal classificação. O conto em questão é "As lágrimas amargas de Sir Kay", escrito por Délio Freire para um especial do site de fanfics Hyperfan dedicado a recriar lendas inspiradas na figura do mítico Rei Arthur, de Camelot. Organizada pelo escritor e designer Octavio Aragão, uma das regras das Arturianas Alternativas era que não se utilizasse nos enredos a presença ativa da magia. O recurso poderia surgir como em nosso mundo, como por medo de maldições, por exemplo - algo explorado por Ana Cristina em seu conto, "A dama de Shalott", que mais tarde acabou sendo reunido em sua antologia Anacrônicas.

Mas foi Freire quem explorou mais a fundo a possibilidade de se usar tecnologias retrofuturistas em um cenário medieval naquele ciclo de contos. Herdeiro das ciências proibidas estudadas pelo falecido Merlin, o irmão de Arthur, Sir Kay, é convocado para investigar uma série de assassinatos na Abadia de Belaventura. Vou citar a seguir um trecho dessas investigações de Kay, com seu ajudante Tom, no melhor clima de O nome da Rosa, como um bom exemplo nacional de candlepunk - ou castlepunk, ou middlepunk, ou, se preferir, sem o tal sufixo, apenas como um retrofuturismo medieval:



A noite foi passando e quem chegou em seu lugar foi uma manhã de sol forte. Mas a noite dos dois servos do bom Rei Arthur foi passada em claro. O sol estava forte, mas ainda assim dois enormes castiçais acessos ajudavam os olhos de Sir Kay para a observação cuidadosa do objeto que cortava, a pele ressecada do cadáver. Uma incisão precisa na tampa craniana e um movimento firme das mãos foram o suficientes para retirá-la. Tom aproximou-se, mas afastou-se de imediato. O fedor e a visão interna do morto não faziam seu estômago comportar de maneira dócil.

A visão de pequenos vermes rastejando pelo cérebro do monge morto fez Tom acreditar que aquele corpo estava dominado por ovos de dragões. Sem demonstrar muita consideração pela opinião de seu pajem, Sir Kay voltou a tampar a cabeça do cadáver, explicando em seguida as relações existentes entre o consumo de carne de porco mal cozida e determinadas doenças estudadas por Merlin.

Desconcertado e cansado, pela noite em claro, Tom sentiu-se inútil naquele método investigativo e pediu licença para se recolher aos seus aposentos, no que o irmão de Arthur, necessitando de silêncio, atendeu prontamente. Enquanto o jovem fechava a porta, o cavaleiro examinava a face desfigurada do homem, que o intrigara desde que a viu. Porque alguém se daria ao trabalho de jogar um ácido no rosto do inimigo já morto? Haveria interesse em não identificar a vítima? Ou seria esse apenas um capricho sem sentido do criminoso? E tal homem seria uma espécie de canibal, um devorador de seus semelhantes? Ou, o que não acreditava, não seria esse um homem?
Pelo que observara do braço mastigado, um ser vivo havia se deitado sobre o monge com fins de se alimentar de sua carne. Com este, já eram quatro as vítimas. Todas, segundo o monge que os recebera, tiveram partes do corpo amputadas, como se a criatura ou o homem fosse movido por uma fome animal, uma necessidade visceral.

7.10.10

Corujas noturnas

Zack Snyder é um diretor conhecido por suas adaptações de quadrinhos consagrados, primeiramente 300, de Frank Miller, e mais recentemente Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. No filme que vai chegar aos cinemas brasileiros esta semana, o americano volta a a dirigir uma adaptação, mas desta vez a fonte original vem da literatura e o resultado é sua primeira animação. A lenda dos Guardiões é a versão em 3d da série de livros juvenis da escritora Kathryn Lasky (publicados no Brasil pela editora Fundamento) que encontrou personagens sui genreris para protagonizar sua história de fantasia. Ela usa uma rica diversidade de corujas de todas as espécies, das mais imponentes às menores, graças à pesquisa elaborada para o que, um dia, cogitou trabalhar na forma de obras de não-ficção. Com essa parceria, a Warner Brothers disputa um filão dominado por Disney e DreamWorks, o dos longas de animação. Aliás, o curta que antecede a atração principal parece estar lá para lembrar que, apesar de não ter seu nome muito associado a iniciativas do tipo nos cinemas, o estúdio tem longa tradição em outras mídias. Na tela grande, encarnações tridimensionais de Wile E. Coyote e do Papa-Léguas se enfrentam exatamente do mesmo modo que já cansaram de fazer em nossas TVs.



Diretor, escritora e estúdio podem se orgulhar do material que produziram e que deve ser apenas o primeiro de uma nova franquia cinematográfica, já que ainda há mais livros a serem adaptados e a estreia é bem promissora. Antes de mais nada, é preciso dizer o quanto faz diferença quando um projeto assim é planejado de fato para ser 3d e não apenas se dá um jeitinho na pós-produção. A riqueza dos detalhes do filme valorizam muito as cenas naquele mundo habitado por corujas inteligentes e que dominam tecnologia de metalurgia (vou tentar evitar aqui a piada que fiz no twitter classificando a obra como owlpunk, certo?). As texturas das penas daquelas aves, por exemplo, são um deslumbre à parte, uma demonstração de que a WB reuniu um ótimo time de animadores a seu serviço. E se desde Avatar, passando por Como treinar seu dragão, tomadas aéreas paracem ser um dos grandes atrativos da moda do 3d nas películas - aliás, será interessante ver o mesmo Snyder usar esses recursos no próximo filme do Superman, pelo mesmo estúdio - A lenda dos Guardiões não decepciona. Cada voo das corujas é um verdadeiro espetáculo, tanto em longas travessias entre tempestades quanto nas cenas de combate.

Boa parte da graça do filme está justamente baseada no realismo empregado para retratar seus atores, sejam os protagonistas, sejam os coadjuvantes. Os irmãos Soren e Kludd, capturados por um beligerante grupo autodenominado Puros; os aliados Gyfie, Digger, Crepúsculo; os míticos Guardiões que dão título ao filme; todos eles foram recriados mais baseados em suas contrapartes reais do que em uma antropomorfização caricata. Isso exige um grau maior de sutilezas dos responsáveis pela animação, pois não é tarefa das mais fáceis emprestar ao elenco expressões faciais dignas dos sentimentos despertados durante a história e com isso garantir a empatia dos espectadores. A tarefa é mais simples em alguns casos, como na reinterpretação do principal vilão da trama, chamado de Bico de Ferro na tradução brasileira, que com seu capacete sinistro se torna uma espécie de Darth Vader emplumado. Mas na maioria das vezes, são pequenos detalhes nos olhos tudo o que eles têm - e precisam - para passar a mensagem.

Com tanto requinte, a imagem que eu faço do filme é meio têxtil: o tecido é da maior qualidade, poderia dar uma traje e tanto, só pecou nas costuras. A história é bastante tensa e forte, com temas complicados de se lidar em relação a crianças menores, como sequestros, escravismo, crueza no campo de batalha... Elementos que poderiam dar leveza e unidade ao conjunto são exatamente os pontos fracos neste trabalho de Snyder. Trechos de virada do roteiro, como os alívios cômicos, o momento da profecia, a revelação da arma secreta ou mesmo o do interesse romântico, acabaram não sendo tão eficazes quanto poderiam. O resultado: para o público muito jovem e para quem não conhece a saga criada por Kathryn Lasky é a sensação de não poder aproveitar tanto quanto ocorreria se esses pontos fossem mais bem acertados. De qualquer forma, é excelente ver um novo jogador dando cartas neste circuito fechado das animações, ainda mais um que já venha para a mesa com a tradição de uma Warner.

3.10.10

Laerte e a República

Nem vou falar nada, deixa nosso melhor quadrinista fazer uma homenagem à República neste dia eleitoral. Ela foi multirretwittada em minha timeline e veio deste endereço.

30.9.10

A grande corrida chega ao fim

Abrir o twitter hoje me deu uma má notícia ao me informar da morte de um dos grandes atores de todos os tempos, o americano Bernard Schwartz, aliás, Tony Curtis (1925-2010). Intérprete de inúmeros sucessos da metade do século XX, como Quanto mais quente melhor, ele também é uma citação obrigatória neste blog por um detalhe lembrado naquele mesmo site por Alexandre Lancaster. Tony Curtis foi o protagonista de um dos filmes steampunk mais influentes e bem sucedidos da história, A corrida do século (The great race), de 1965, dirigido por Blake Edwards.




Mais lembrado por ter sido a inspiração do desenho animado A corrida maluca, com seus carros retrofuturistas insanos, o que muita gente não sabe é que o filme foi baseado em um evento real, ocorrido em 1908. Relembro aqui uma matéria de Henrique Koifman, do blog Rebimboca, hospedado no portal de O Globo, como minha homenagem ao filme e ao ator que acabamos de perder.


Há quase exatos cem anos, na manhã gelada de 12 de fevereiro de 1908, em Nova Yorque, uma seleção de bólidos alinhou para a largada daquela que seria a maior corrida de automóveis de todos os tempos. Saindo da Ilha de Manhathan, os carros seguiriam rumo à Paris, indo pelo Oeste – ou seja, cruzando todos os EUA, parte do Alasca, norte da Ásia e quase toda a Europa –, percorrendo um total de 22 mil milhas (ou pouco mais de 35 mil km). Quase uma volta ao mundo, num tremendo feito para a época – e respeitável, ainda hoje. A competição deu origem a uma série de filmes – como o antológico “A Corrida do Século”, de 1965, com Tony Curtis. Falo, a seguir, resumidamente, sobre esse fantástico grande prêmio. Quem quiser saber mais detalhes, vá até o site do New York Times, que, aliás, foi patrocinador da tal prova e também a fonte de muito do que publico aqui. No mapa, o trajeto da corrida está em vermelho.

Continua

29.9.10

Convescotes pelo país 2

No final de agosto publiquei uma nota chamando de tendência os vários eventos vitorianos que se espalham pelo Brasil. Naquela ocasião, eu me referia três encontros marcados para Florianópolis, Curitiba e Rio de Janeiro. Pois no dia 30 de outubro, para confirmar a força dessa tendência, vai haver mais um, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Como podem ver na imagem e no texto abaixo, retirados do site SteamCon, este evento está sendo chamado de SteamNic. Que seja o primeiro de muitos.


No dia 30 de Outubro de 2010 no Parque Prefeito Dr. Luiz Roberto Jábali, às 14 horas, o Núcleo Ribeirão Preto da Loja São Paulo do Conselho SteamPunk vai promover o primeiro piquenique SteamPunk/Vitoriano.

Será o primeiro SteamNic do país um evento que tem a intenção de agregar Vitorianos, RomantiGoths, Classic Gothics, Lolitas, Elegant Gothic Lolitas e, é claro, Steamers, em um piquenique temático que vai juntar entusiastas do passado factual e passado ficcional.

No evento, além das guloseimas, os presentes vão dialogar sobre o Século XIX no Brasil e no mundo, discorrer acerca de seus gostos pelo tema, exibir e discutir seu figurino.

Não se espera que venham todos caracterizados, mas a organização incentiva que os entusiastas da Era Vitoriana e de SteamPunk, exercitem a imaginação e pesquisem acerca de roupas de época e do estilo ficcional que é tema do evento.

O evento é considerado, pela terminologia do Conselho SteamPunk como um SteamCamp e, portanto, um evento informal para reunir entusiastas do gênero e, no caso, convidando todos aqueles que apreciam piqueniques Vitorianos.

28.9.10

Exclusivo: Boneshaker vai sair no Brasil

Tenho o prazer de anunciar em primeira mão uma novidade daquelas: Boneshaker, romance steampunk premiado pela revista Locus vai ser publicado no Brasil pela Editora Underworld. O anúncio havia sido feito informalmente pela autora, Cherie Priest, em seu perfil no twitter. Ela escreveu no microblog:

In more good news - Editora Underworld has just picked up Brazilian translation/publication rights for BONESHAKER and DREADNOUGHT both!



Como não queria dar nenhuma barrigada com os leitores, confirmei a informação com a dona da editora, Fabiana Andrade, e ela não só me disse que sim, trará mesmo Boneshaker e sua sequência, Dreadnought, ao Brasil, como ainda me contou o nome do tradutor. Ninguém menos que Fábio Fernandes, meu colega de Steampunk - Histórias de um passado extraordinário e da futura Steampunk Bible! Cherie Priest não poderia estar em melhores mãos.

Para comemorar, relembro um post em que comentei a resenha que Fábio Fernandes fez do livro:

Havia falado de Fábio Fernandes no último post, volto a falar agora. O motivo é a resenha que ele acaba de publicar, em inglês, sobre um livro que já foi mencionado por aqui duas vezes - a primeira e a segunda. Boneshaker, de Cherie Priest, um romance steampunk indicado ao maior prêmio da FC mundial, o Hugo - do qual aquele resenhista é um dos votantes. Destaco duas frases do texto de Fábio Fernandes. Primeiro uma que diz respeito ao gênero da obra: "Cherie Priest inventou uma história em sintonia com o Zeitgeist - e o zeitgeist é (ainda é e provavelmente continuará a ser durante algum tempo) steampunk". A segunda, sobre a obra em si: "Imagine Fuga de Nova Iorque. Em Seatle. No século XIX. Com zumbis".


É isso. Se alguma editora brasileira não publicar logo uma tradução do material, estão todas loucas. Leia a resenha completa aqui.

Fabiana Andrade e sua Underworld me provaram que nem todas estão loucas.

27.9.10

Retrofuturismo oriental 2

A última vez em que falei sobre um artigo do blog mais completo a respeito de quadrinhos e animações feitas no Japão que eu conheço foi no dia 23 de maio:

Uma ótima notícia para este dia é a volta às atividades do site Maximum Cosmo, após semanas de atraso em suas atualizações devido a uma série de problemas técnicos enfretados por seu proprietário, o jornalista, quadrinista e escritor Alexandre "Lancaster" Soaraes. Um dos contistas presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, com o texto "A música das esferas", noveleta mais pop do livro, ele também é um expert na cultura de massa nipônica, principalmente no que se trata na produção dos quadrinhos e das animações japonesas.

Para celebrar esse retorno, o blogueiro uniu essas duas pontas, e um dos artigos que ele produziu nas postagens deste domingo é justamente sobre como o steampunk se desenvolveu no Japão e passou a ser representado nessas mídias. Extenso, explicativo e muito bem pesquisado, "A revisitação neovitoriana made in Japan" é uma leitura mais que recomendada para quem gostaria de saber mais sobre como o gênero steamer é trabalhado em outras latitudes. Lancaster fornece uma lista e tanto de obras e de autores, juntamente com uma análise do porquê da popularidade deste tema no páis do sol nascente. Fiquem abaixo com a abertura do material, mas não deixem de ler a versão completa aqui:

Novamente, o Maximum Cosmo passou por um período de inatividade, mas desta vez por bons motivos. Lancaster tem se dedicado ao seu projeto de quadrinhos steampunk, Expresso!, que conta com um segundo blog. Para felicidade de quem gosta do material de origem - ou pelo menos de inspiração - nipônica, ele voltou a elaborar um de seus longos e completos artigos, e dentro da mesma série sobre cultura steamer comentada acima. Desta vez, o blogueiro analisou o mangá Steam Detectives de Kia Asamya. Destaco dois trechos abaixo, primeiramente sobre a comparação que ele faz entre dois campos da retrotecnologia - o steampunk e o dieselpunk - e em seguida uma apresentação da série em si:


 Quando abri a série de artigos sobre o gênero Steampunk (para os que estão chegando agora: a revisitação da ficção científica dos primórdios, de Jules Verne, H. G. Wells e muita gente boa), houve na seção de comentários muitas perguntas sobre um dos derivados do gênero – o Dieselpunk. Enquanto o Steampunk toma como base a ficção popular das eras Vitoriana e Edwardiana – o Dieselpunk tomaria como base os anos 20 e 30. Se um seria a Dime Novel, o outro seria a Pulp Magazine; o problema é que em termos de Japão essa definição não funciona.

Qual o problema de se falar em Steampunk e Dieselpunk sob esses termos na cultura pop japonesa? É que diferentemente do que acontece no ocidente, separar os dois é algo complicado. Isso acontece porque no hemisfério de cá do planeta, houve um evento que efetuou uma quebra clara e deixou tudo bem distinto: a Primeira Grande Guerra. Ela não foi apenas um conflito em que morreu muita gente – e que para falar a verdade, foi de certa forma mais traumático do que a própria Segunda Grande Guerra; esta mesmo foi um mero efeito colateral da guerra que veio antes. Ela foi um divisor de águas – tanto que muita gente considera que o Século XIX terminou em 1914 (e se olharmos bem o que o mundo foi entre 1870 e 1914 – a "Era dos Impérios", de acordo com Hobsbawn [sim, tenho o livro] – dou toda a razão a quem pensa assim).

Então há uma diferença clara entre a cultura que gerou a matriz do Steampunk e a cultura que gerou a matriz do Dieselpunk. Há um mundo de distância entre a cultura pop que gerou Sherlock Holmes e a que gerou Doc Savage (apesar deste também ter uma mente científica ao seu favor); entre o culto ao racionalismo e a desconfiança que se passou a ter com ele; o cientista que, de herói inventor, passou a ser vilão e ameaça para um troglodita musculoso (se pensarmos bem, Conan é a transposição desse espírito a um universo de fantasia); entre as Dime Novels e as Pulp Magazines… enfim, no ocidente, o dieselpunk e o steampunk remontam a dois conjuntos culturais que são bem  diferentes, cada um com seu ethos, tendo como ponto comum meramente seu aspecto nostálgico e sua costura temática envolvendo o passado e a retrotecnologia.

Quando falamos de Japão, no entanto, essa diferença não existe. E há um bom motivo para isso. (...)


A Era Atemporal
Steam DetectivesSteam Detectives é material de entretenimento puro, e ninguém deveria esperar mais do que isso da obra. Mas ele é curioso porque não apenas é lembrado como um dos exemplares mais bem acabados do gênero Steampunk nos mangás; não fosse o fato da onipresença do vapor em si, ele seria considerado facilmente Dieselpunk.

Ou talvez não. As moças usam mangas presunto como costumavam usar nas duas primeiras décadas do século vinte, a arquitetura da cidade remete a cidades como Praga, na República Tcheca (que é praticamente um monumento vivo a todas aquelas estéticas arquitetônicas e decorativas do século dezenove – e a silhueta de suas construções é inconfundível). É a década de 1910 de autores de mistério como Sax Rohmer (o criador do infame Dr. Fu Manchu, que foi criado em 1913), dos livros, mas com uma influência estética das décadas seguintes, com os sobretudos celebrizados pelos detetives dos anos quarenta (o que não chega a ser totalmente anacrônico, porque sobretudos como os conhecemos são algo que existe desde antes do século vinte), mas também traz para esse 1910 algo das pulp magazines que marcaram as duas décadas posteriores, e, como dito ao longo desse texto, traz para si parte do ethos dos mangás dos anos 40 e 50, encaixados nesse cenário, como se Asamiya estivesse consciente dessa área difusa que faz do dieselpunk mera parte do steampunk japonês, e a corporificasse em uma cidade nominalmente steampunk sob uma neblina que esconde três décadas de mundo.

Para ler o artigo completo, clique aqui.

25.9.10

E o João Fumaça vai para...

Hoje, dia 25 de setembro, foi o dia do sorteio do mini-João Fumaça. Previamente marcado para o proletário Alçapão, querido muquifo da Mauro Ramos, de última hora o local acabou sendo alterado para o mais chique Café Cultura, por coincidência local do primeiro encontro vitoriano de Florianópolis. Estiveram presentes para dar aquela credibilidade ao evento Fernando Pascale, o homem por trás do Superfakes; sua digníssima namorada Liliam Ciarnoski; Fabrício Rodrigues, na qualidade de auditor, e o indigitado blogueiro que vos digita. Entre cervejas, cafés, doces e salgados, tiramos o nome de um dos concorrentes que deixaram seu comentário no post que anunciou a promoção. A identidade do sortudo fica para o final deste manking of, antes as fotos do passo a passo.

 João Fumaça curte uma Eisenbahn dunkel, aqui de Santa Catarina, a cerveja steamer até no rótulo...


...mas não dispensa uma Devassa carioca.

Aproveitamos para fazer um reclame ao lado da capa da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário.


Fernando Pascale, o sr. Superfakes - Criador e criatura.


Liliam Ciarnoski, sra. Superfakes e a responsável por sortear o papelzinho no chapéu.


O chapéu. Ah, e abaixo dele, Fabrício Rodrigues, o auditor do sorteio.


Lá se foram os 42 papeizinhos para dentro do chapéu.


Liliam escolhe o vencedor sob o olhar quase atento do auditor que estava distraído no momento.


Close no nome e confirmação com duplo positivo: o sortudo foi Ivo Heinz, de São Paulo.

 

O mini-João Fumaça com o papelzinho do seu novo dono.



E ele embalado, pronto para seguir viagem assim que eu pegar o endereço do vencedor. É isso, pessoal! Parabéns ao meu caríssimo Tio Ivo, obrigadão às demais 41 pessoas que participaram da promoção. E um especial muito obrigado ao Pascale, à Liliam e ao Fabrício pelo sorteio festivo!

P.S. Vou sentir saudades do João Fumaça, espero que ele seja bem cuidado lá em Sampa.

24.9.10

More steampunk made in Brazil

Edgar Refinetti é quem me chamou a atenção: mais uma vez a ficção steampunk feita no Brasil cruza as fronteiras do país. Jacques Barcia, autor da noveleta "Uma vida possível atrás das barricadas", da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, vai ter uma tradução de seu texto publicado no segundo volume de uma consagrada coletânea internacional. "A Life Made Possible Behind The Barricades" sairá no meio do próximo ano em The Apex Book of World SF organizada por Lavie Tidhar. Dividindo as páginas com ele e com autores de todas as partes do mundo, outro brasileiro sempre citado por aqui, Fábio Fernandes, com o texto "Nothing Happened in 1999". Parabenizando a dupla pela conquista, agradecendo ao Garapa pela dica, reproduzo abaixo a lista completa dos autores selecionados para a coletânea:



Rochita Loenen-Ruiz (Philippines)–Alternate Girl’s Expatriate Life
Ivor W. Hartmann (Zimbabwe)–Mr. Goop
Daliso Chaponda (Malawi)–Trees of Bone
Daniel Salvo (Peru)–The First Peruvian in Space
Gustavo Bondoni (Argentina)–Eyes in the Vastness of Forever
Chen Qiufan (China)–The Tomb
Joyce Chng (Singapore)–The Sound of Breaking Glass
Csilla Kleinheincz (Hungary)–A Single Year
Andrew Drilon (Philippines)–The Secret Origin of Spin-man
Anabel Enriquez Piñeiro (Cuba)–Borrowed Time (trans. Daniel W. Koon)
Lauren Beukes (South Africa)–Branded
Raúl Flores Iriarte (Cuba)–December 8
Will Elliott (Australia)–Hungry Man
Shweta Narayan (India)–Nira and I
Fábio Fernandes (Brazil)–Nothing Happened in 1999
Tade Thompson (Nigeria)–Shadow
Hannu Rajaniemi (Finland)–Shibuya no Love
Silvia Moreno-Garcia (Mexico)–Maquech
Sergey Gerasimov (Ukraine)–The Glory of the World
Tim Jones (New Zealand)–The New Neighbours
Nnedi Okorafor (Nigeria/US)–From the Lost Diary of TreeFrog7
Gail Har’even (Israel)–The Slows
Ekaterina Sedia (Russia)–Zombie Lenin
Samit Basu (India)–Electric Sonalika
Andrzej Sapkowski (Poland)–The Malady (trans. Wiesiek Powaga)
Jacques Barcia (Brazil)–A Life Made Possible Behind The Barricades

23.9.10

O dilema de Bentinho

Nos últimos anos tem aumentado as tentativas no Brasil de se aproximar a literatura de gênero fantástico, mais notadamente a ficcão científica, daquela que pode ser chamada de mainstream, feita com embasamentos realistas, geralmente com mais atenção à forma que ao enredo e, por este somatório, com maior prestígio acadêmico. As estratégias variam desde convidar autores identificados com este segundo grupo a se arriscar na criação de contos de FC, como sempre ocorre na série semestral Portal, até a chamar escritores daquela primeira turma a colaborar em coletâneas preponderantemente mainstream, como Todas as guerras (ambos os exemplos são organizados pelo escritor Nelson de Oliveira, maior incentivador deste movimento de aproximação literária). Esta resenha é sobre uma iniciativa diferente, que age como um vírus se incubando no hospedeiro e modificando sua estrutura genética a ponto de causar uma mutação. Se for para transformar um clássico da literatura nacional em uma obra de FC, quer vítima melhor que partir logo para o romance símbolo do Realismo (com r maiúsculo) em nosso país?

Indo por partes. Falei em transformar um clássico em literatura fantástica? Este é justamente o nome da coleção do selo Lua de Papel, da editora Leya do Brasil, sobre a qual já postei por aqui: Clássicos Fantásticos. Falei em romance símbolo do Realismo? Sim, me refiro a Dom Casmurro, publicado em 1900, por ninguém menos que Machado de Assis (1839-1908). E o livro a tentar atar essas duas pontas literárias é Dom Casmurro e os discos voadores, do escritor, roteirista e beta reader de "Cidade Phantástica" Lúcio Manfredi. O título foi lançado em um pacotão com outros três da mesma coleção, dois deles se apropriando de obras cujas recriações, à primeira vista, me interessariam até mais, justamente pelo uso que também fiz do material original naquela noveleta que dá nome a este blog. Porém, ao dar uma olhada no quarteto à disposição nas livrarias, não  hesitei em mudar de ideia: o texto do paulista do século XXI que se infiltrou na obra do carioca do século XIX me interessou desde o primeiro capítulo até o final da leitura, fazendo com que eu não me arrependesse da escolha feita na boca do caixa.


Aliás, pelo primeiro capítulo, disponível aqui, o leitor pode ter uma ideia do que esperar das 264 páginas deste lançamento. Quem quiser fazer as devidas comparações vai perceber que Manfredi iniciou sua recriação pelo terceiro capítulo do original, no ano de 1857, quando o narrador relembrava um tempo em que ainda não fazia por merecer nem o apelido zombeteiro que ganhou na maioridade, mem mesmo o seu nome completo, Bento Santiago. Ele era apenas o Bentinho que aos 14 anos se dava conta, ao entreouvir uma conversa, de que estava apaixonado por sua vizinha, algo que consistia um problema e tanto para alguém como ele, prometido para a vida sacerdotal antes mesmo do nascimento. Tudo isso consta do original e também na adaptação, assim como outras passagens do romance de Machado de Assis, a diferença fundamental está no toque fantástico resumido por aquele "e os discos voadores" do novo título. Pelo uso de trechos da obra primária, cerca de 30% do total, segundo cálculo do próprio autor, pode-se considerar que ele, em seu primeiro romance impresso em papel, fez um mashup, como vem sendo anunciado em matérias e em colunas literárias. Mas o trabalho lembra mesmo um outro tipo de narrativa, até mesmo pelo que consta de fantástico em seus acréscimos.

Em 1973, o americano Philip José Farmer (1918-2009) teve a ideia de reescrever Volta ao mundo em oitenta dias em um novo contexto: ele envolveu os personagens daquele livro, além de outras criações de Jules Verne (1828-1905), como o capitão Nemo,  em uma disputa entre duas raças alienígenas. O resultado foi The other log of Phileas Fogg, traduzido como O outro diário de Phileas Fogg no Brasil e O diário de bordo Phileas Fogg em Portugal. Aquela é uma das mais conhecidas obras da chamada ficção alternativa, um dos subgêneros da FC, mas com a atual onda de mashups, iniciada com Orgulho e preconceito com zumbis, desconfio que se alguma editora resolver republicá-la por aqui, a tendência é ser rebatizada para algo como Volta ao mundo em oitenta dias com alienígenas. O trabalho de Lúcio Manfredi lembra mais a liberdade assumida pela FA de Farmer que as paródias do autêntico mashup, porém o desafio que ele enfrentou ao reescrever a obra de um esteta do porte de Machado de Assis foi ainda maior. Para título de comparação, me lembrou o que o inglês Harry Turtledove fez com o maior dramaturgo de seu país na história alternativa Ruled Britannia - esta reabatizada como O dilema de Shakespeare apenas em Portugal, já que nunca recebeu edição nacional.

O paulista escreveu sobre esse desafio em seu blog:

Antes de mais nada, eu optei por me manter o mais fiel possível ao enredo do Dom Casmurro original. O que me interessava era determinar de que maneira a nova premissa modificaria o significado dos eventos do livro. Assim, Dom Casmurro e os Discos Voadores continua sendo a história de Bentinho, um garoto destinado pela mãe a ser padre, mas que se apaixona pela vizinha Capitu. A diferença é que isso agora envolve discos voadores e alienígenas.


A segunda decisão foi a de tentar reproduzir a voz narrativa de Bentinho. Tudo o que acontece no romance de Machado é filtrado pela perspectiva do narrador, a tal ponto que é impossível saber o que é fato e o que é fruto de sua imaginação paranóica. Tanto que a grande questão que Dom Casmurro levanta até hoje é se Capitu traiu ou não Bentinho. E eu não queria perder essa ambiguidade, especialmente quando o meu Bentinho, ao contrário do de Machado, passa por situações que vão muito além da banalidade do adultério.

Assim como é impossível para um leitor de hoje ler o Dom Casmurro de 1900 sem ter conhecimento da polêmica do traiu ou não traiu que atormenta a alma de Bentinho tanto quanto o ser ou não ser fazia com a de Hamlet; mesmo os mais desavisados vão começar a leitura do Dom Casmurro e os discos voadores de 2010 já sabendo de antemão da presença dos ETs. Em ambos os casos, o atrativo é descobrir como as situações se encaixam numa prosa cheia de digressões, metalinguística, irônica, intertextual, feita em capítulos curtos por um narrador pouco confiável. Ou seja, o que há de melhor no romance Realista foi preservado no de ficção científica. E quem teme perder elementos mais profundos do trabalho original, como as incursões psicológicas empregadas pelo escritor do século XIX também pode ficar tranquilo, pois um dos níveis de leitura que o autor do século XXI deixa à disposição é uma possível releitura dos aliens como representantes do id e ego em eterno combate e mediados pelo superego. Agora, se a intenção é só buscar uma boa história com ares juvenis, também é uma ótima pedida. Uma grande homenagem não só a Machado de Assis, como à ficção científica. Homenagem com direito a inúmeras citações que passam por seriados de TV até autores consagrados do gênero, com destaque, óbvio, à paixão literária de Manfredi, o americano Philip K. Dick (1928-1982).

17.9.10

Reinos unidos

O Brasil e a ficção científica muitas vezes são descritos por um chavão em comum que os associa ao porvir: um seria o país do futuro; a outra, a literatura sobre o futuro. Quem conhece um pouco sobre ambos sabe que a realidade pode ser um tanto mais complexa, tanto para o país, com sua rica história, quanto para o gênero literário, que nunca foi só um mero exercício de futurismo. Não deixa de ser curioso que um confronto entre chavão e realidade esteja acontecendo na vertente da FC nacional que mais vem alcançando evidência, aqui e lá fora: o retrofuturismo do steampunk. Se a coletânea da Tarja Editorial Steampunk – Histórias de um passado extraordinário, lançada em 2009, inovou pelo pioneirismo de dedicar todo um livro à temática, uma segunda obra vem consolidar essa posição, dessa vez pela editora Draco: Vaporpunk – Relatos steampunk publicados sob as ordens de Sua Majestade. Mais do que uma continuação, a nova coletânea também inova ao trazer súditos não apenas brasileiros: foram convocados igualmente portugueses para escrever seus relatos, em uma união de forças transatlântica.

Acho impossível falar sobre esse livro sem começar pela capa, que tive o prazer de anunciar em primeira mão neste blog. Conferir a arte ao vivo, e não mais pelo monitor do computador, dá uma nova dimensão a uma peça gráfica que, seguramente, vai marcar época. Reforçou a impressão que tive do acerto do responsável por ela, Erick Santos Cardoso, ou Ericksama, que também vem a ser proprietário da Draco, por todas as escolhas estéticas que fez ali. Usando diversos programas de modelagem 3d, ele transformou a embalagem do livro em uma autêntica traquitana steamer, com suas engrenagens, válvulas e mostradores se espalhando pela capa em si, pela contracapa, pela lombada e pelas orelhas, dando muita vontade de ver aquilo tudo brilhar e se mexer de verdade. Porém, houve muito acerto também na imagem principal da capa, que destaco abaixo.



Nela vemos uma paisagem que podemos intuir ser a do Rio de Janeiro, mesmo não destacando nada óbvio da exuberante paisagem natural de uma cidade que já foi capital de Império. Mas aquela ponte imensa, paralela ao horizonte e emoldurada por balões nos céus, navios no mar e um trem em terra, não seria uma versão retrofuturista da Rio-Niterói, obra da engenharia capaz de competir de igual para igual com morros e praias? Desta forma, o capista encontrou uma ótima tradução da intenção dos organizadores, registrada no prefácio da obra: “desejamos mostrar noveletas cujos enredos digam respeito, direta ou indiretamente, às culturas brasileira e/ou portuguesa, exibindo o impacto social do avanço tecnológico precoce nas histórias dessas culturas”. A assinatura do texto de apresentação dá uma boa mostra da qualidade que marcou também a escolha do conteúdo para além dos cuidados com a forma da coletânea: Gerson Lodi-Ribeiro, maior referência em História Alternativa do Brasil, já entrevistado por aqui; e Luís Filipe Silva, coautor com João Barreiros de Terrarium, apontado por inúmeros críticos como a grande obra de FC não só de Portugal, mas a melhor já escrita em português.

O selecionado binacional é formado por cinco brasileiros (incluindo Lodi-Ribeiro) e três lusitanos que preenchem as encorpadas 312 páginas do livro – com a alta gramatura do papel de ótima qualidade utilizado, fosco e amarelecido no ponto ideal, parecem até mais: Vaporpunk é uma dessas raras obras de FC editadas por aqui que, literalmente, para em pé sozinha. Além da qualidade do material utilizado, o fato se deu por outra intenção manifestada naquele prefácio: “Em termos de ficção curta, ao contrário do que acontece na ficção científica, na história alternativa o conto não constitui a forma narrativa por excelência. Em seu lugar, temos a noveleta, uma peça mais extensa, de modo a possibilitar tanto o desenvolvimento do enredo e da trama quanto o delineamento do cenário histórico alternativo. Por este motivo, ao convocar autores para submeter trabalhos para a Vaporpunk, deixamos claro nosso anseio de receber textos mais encorpados, em tamanho e conteúdo”.

O único relato presente no livro que não seguiu esse padrão de noveletas é o conto que justamente abre a coletânea: “A fazenda-relógio”. Curiosamente, ele é do carioca Octavio Aragão, autor de um dos raros trabalhos com o fôlego de romance a usar elementos steampunk já escritos no Brasil. Com apenas 13 páginas, a história acabou não desenvolvendo tão bem personagens com potencial para exibir mais do que foi mostrado ali, caso do Dr. Bento, político de origem proletária infiltrado na corte do Império brasileiro em fins da década de 1880. Porém, se o conto não chega a ser encorpado no tamanho ele é em conteúdo. Uma fazenda na região de Jundiaí – talvez não por coincidência, terra de Carlos Orsi, outro participante da antologia – inaugura um projeto inovador de Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), àquela altura já Visconde de Mauá e com muito mais prestígio que manteve em nossa realidade naquele período de tempo. A intenção é implantar a total mecanização da propriedade, fazendo uso de mecanoides no lugar da mão-de-obra escrava. A questão é que tal iniciativa, independentemente das ambíguas intenções por trás dela, acaba por provocar uma onda de insatisfação entre os negros jogados à própria sorte. O caos gerado é ainda pior que o dos luditas do início da Revolução Industrial britânica.

A seguir, a primeira noveleta propriamente dita do livro e a primeira contribuição de um autor português: “Os oito nomes do deus sem nome”, do matemático, programador e publicitário Yves Robert. Situado na África, em 1884, o início da trama lembra o clássico do pré-steampunk The Anubis Gate, de Tim Powers. Contudo, com o desenrolar dos eventos, e um salto de 14 anos no tempo, vamos presenciando aos poucos um original e excelente cenário, sem dúvida um dos pontos altos do livro. No mundo proposto, há três impérios dividindo o poder: a Inglaterra por dominar a tecnologia movida a vapor; a França, país que desencadeou uma revolução nos estudos dos poderes mentais propostos pelo austríaco Franz Anton Mesmer (1734-1815) e... Portugal. Este último, aparentemente dotado de alguma arma secreta, ou, no mínimo, de uma sorte inacreditável, alcança tamanho sucesso em tão pouco tempo que provoca a aliança das duas outras potências contra si. O resultado é uma história ágil, de intrigas políticas, conspirações e agentes duplos, com equipamentos de espionagem de invejável criatividade. Merece um romance ou, pelo menos, mais inserções neste cenário. Torço para que Robert pense o mesmo.

Um agente duplo inglês é o narrador da próxima história: “Os primeiros astecas na Lua”, a única a fugir do foco lusobrasileiro. O autor é o mineiro Flávio Medeiros Jr., único escritor a estar presente em ambas as coletâneas dedicadas ao steampunk do Brasil. No livro da Tarja, ele publicou “Por um fio”, por certo o melhor texto do livro, com uma ambientação que ele vem chamando de Guerra Fria Vitoriana. Parte história alternativa, parte ficção alternativa, naquele mundo Inglaterra e França são as potências dominantes sendo habitadas por personagens criados por H. G. Wells (1866-1946) e Jules Verne (1828-1905). Não apenas pelos personagens, mas também por seus criadores: os dois escritores ocupam posições políticas de relevo em suas respectivas nações. Em Vaporpunk ele dá continuidade àquele cenário, esquentando bastante o conflito. Porém, mesmo quem não tenha lido o texto anterior não vai ter dificuldade em entender essa nova história, bastante independente da primeira.

Para quem leu, no entanto, é possível fazer comparações. “Por um fio” foi uma noveleta bastante focada na lógica da guerra, bem contida em termos da quantidade de personagens e do espaço geográfico utilizado. Medeiros usou muito bem os poucos recursos que se propôs a tomar de empréstimo dos pais da FC e deu um ar mais cientificamente correto a algumas das invenções imaginadas no século XIX, uma excelente proposta executada com maestria pelo escritor que tem dois romances publicados. Já em “Os primeiros astecas na Lua”, ele retoma algumas dessas premissas, explorando de maneira genial, por exemplo, as opiniões que Verne (em uma breve e impactante aparição) realmente tinha em relação à obra de Wells. O ponto é que, com um maior número de páginas à disposição – foram 17 na primeira coletânea e pouco mais de 40 agora - a complexidade aumentou, o número de personagens é bem maior, assim como a quantidade de ambientes explorados, na Inglaterra. Tudo isso é ótimo e enriquece um dos melhores cenários steamers do imaginário nacional. Mas em determinado momento, sem querer soltar spoilers, o autor faz uso de uma retrotecnologia que abala um pouco a coerência interna de ficção científica hard que ele vinha até então utilizando e que retoma mais tarde; fato que, pelo menos para mim, causou um pouco de estranheza. Por outro lado, aumentou a curiosidade de ver Flávio Medeiros continuar a explorar ainda mais esse universo em novos textos.

Fechando a primeira metade do livro, é a vez da contribuição do coorganizador Gerson Lodi-Ribeiro com sua noveleta “Consciência de Ébano”. Assim como a anterior, esta também é um desenvolvimento de histórias prévias do autor, o que particularmente considero uma excelente iniciativa. Concordo com Lodi-Ribeiro quando ele diz que a FC – ao contrário de outros gêneros da literatura fantástica como a fantasia, por exemplo, com suas enelogias de romances – costuma ser mais bem explorada em narrativas curtas, como o conto ou a noveleta. Porém, alguns dos cenários que surgem são tão bons que seria um desperdício não os ver tendo continuidade. Caso deste aqui, uma derivação de “O Vampiro de Nova Holanda”, originalmente escrito pelo carioca em 1998, publicado primeiramente em Portugal e, mais tarde, em 2006, no Brasil, na antologia de autor Outros Brasis. O ponto de divergência desta linha temporal é um belo achado: holandeses se unem aos quilombolas de Palmares para evitar sua expulsão do Nordeste brasileiro no século XVII. Isso dá origem a uma tríplice divisão do território nacional, uma parte para cada um desses aliados e o restante para os portugueses, motivo pelo qual o escritor chama este seu universo de Três Brasis.

Desde então, nestes doze anos, Lodi-Ribeiro vem explorando continuamente sua criação; já naquele livro de 2006, por exemplo, havia outra noveleta no mesmo cenário: “Assessor para Assuntos Fúnebres”. Se não me engano, “Pátria de chuteiras”, na coletânea Outras copas, outros mundos, foi a única continuação (ou para quem preferir outro termo, spin-off) que não contou com a presença de um certo protagonista fantástico: Dentes Longos, um vampiro – sem misticismos – que acaba por se tornar imprescindível aliado da potência que os antigos escravos negros criam em Palmares. Em “Consciência de Ébano”, vemos novamente esse predador imortal, mais de cem anos após seu surgimento entre os palmarinos, já no início do século XIX, envolvido em progressos tecnológicos notáveis e provocando reações adversas em um agente secreto que tem a missão de protegê-lo e de mantê-lo incógnito. Não tenho a menor dúvida de que é um excelente texto este, dos melhores do livro, porém acredito que ele deva ser mais bem aproveitado por quem já conhece o material anterior criado neste cenário. Talvez, algumas notas editoriais contextualizando essa HA façam falta a novos leitores.

Jorge Candeias, escritor e tradutor lusitano, é responsável por outro dos melhores momentos de Vaporpunk. “Unidade em chamas” conceitualmente me lembrou o citado conto “Por um fio” da coletânea da Tarja, por também apresentar uma visão crítica e intimista de um conflito bélico e pelo uso mais embasado na realidade de uma retrotecnologia alada. A diferença é que, como eu disse antes, o brasileiro Flávio Medeiros Jr. havia escrito uma ficção alternativa com toques de HA, já Candeias faz uso – e muito bem – apenas desta última vertente. No caso, nesta linha temporal alternativa, o diferencial é o sucesso havido na tentativa do padre brasileiro Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) em produzir em Portugal seu invento voador, a Passarola. Tanto sucesso que, décadas depois, em meio a uma tentativa de invasão por parte dos franeses, aquele reino já conta com um Corpo Aéreo estabelecido, formado pelos chamados passarolistas. Para servir de tripulação daqueles exóticos balões, minuciosamente descritos pelo autor, com saborosos detalhes da técnica empregada para manobrá-los, tais soldados são como jóqueis dos céus. Ou seja, eles são escolhidos não pela posse de terras ou por títulos de nobreza, mas sim pela estatura baixa e pelo pouco peso de cada um.

Acontece que com os rumos incertos da guerra, o rei de Portugal convoca para lutar pela metrópole passarolistas vindos de suas várias colônias. A cor escura da pele dos novatos que chegam das Américas e da Índia desentoca preconceitos raciais entre os lusos, provocando uma série de animosidade entre pessoas para quem a confiança mútua no campo de batalha é questão vital. Apesar de narrado em terceira pessoa, o ponto de vista da noveleta é do passarolista branco Sidónio. De uma hora para outra, ele vê antigas e incontestadas certezas serem desafiadas quando é obrigado a compartilhar seu posto entre a tripulação da nave Unidade, que dá título à história, com pessoas antes consideradas inferiores. Sem descuidar do lado tecnológico e dos demais elementos steamers, Candeias produziu literatura de primeira.

O nível da coletânea continua em alta com meu texto favorito entre o dos brasileiros, “A extinção das espécies”, do já mencionado Carlos Orsi. Se o colega carioca Octavio Aragão situou seu conto no município natal dele, este jornalista jundiaiense inicia sua noveleta na cidade daquele designer carioca. E começa na região de Botafogo, com uma narrativa em primeira pessoa feita por uma figura histórica que aos poucos o leitor vai desconfiando de quem seja, com várias pistas, como sua nacionalidade, o nome do barco em que viaja... Bem como pode desconfiar de qual é o ponto de divergência nesta ficção alternativa escondido por trás do várias vezes citado método Waldman-Ingolstadt, tecnologia a animar uma série de autômatos que surgem pela história a fora. Seguindo a viagem que o narrador faz pela América Latina, na década de 1830, a maior parte da trama ocorre mesmo nos pampas argentinos, onde ele encontra um gênio local envolvido em uma sanguinária luta com indígenas: Luís Adolfo Morel (aqui há citação a dois escritores conterrâneos dele e à principal obra de um, prefaciada pelo outro). Falar muito desta noveleta sem entregar surpresas é um desafio complicado demais, vou reforçar apenas o quanto a achei excelente e dizer que ela faz um par e tanto com “Uma breve história da Maquinidade”, de Fábio Fernandes, de Steampunk – Histórias de um passado extraordinário.

O penúltimo texto da coletânea era o único que eu já havia tido o prazer de ler antes da publicação no livro – na verdade, até já havia brindado os leitores do blog com um trecho de “Os dias da besta”. Seu autor, o carioca radicado em São Paulo Eric Novello, é a principal autoridade em termos de fantasia urbana do país, assim como Gerson Lodi-Ribeiro é quanto a história alternativa. Nada mais lógico então que sua colaboração juntasse elementos de FU com a temática steampunk. A capital de uma versão mais tecnologicamente desenvolvida do Império brasileiro – mas nada muito exagerado, inventos áreos, por exemplo, ainda são incipientes, o que abre espaço para alguns inusitados piratas dos céus – foi onde o escritor calhou de ambientar uma espécie de lobisomem vitoriano. Com farta dose de intriga internacional e muitas cenas de violência, esta noveleta faz um curioso triunvirato de temas clássicos do terror com os textos de Lodi-Ribeiro e Carlos Orsi. Um ótimo atrativo extra do livro que amplia o repertório e o imaginário steamer para além da FC.

Por fim, a noveleta que encerra o livro: “O sol é que alegra o dia...”, do escritor português João Ventura. Com a informação de que o protagonista é uma pessoa que realmente existiu, no caso o padre inventor Manuel António Gomes (1868-1933), chamado de Himalaya pelos colegas, devido à sua grande altura, à primeira vista poderia parecer se tratar de um tipo bem incomum de história altenativa. Falo daquela focada na vida de apenas um pequeno grupo de pessoas, como “Doris Bangs”, de Bruce Sterling, publicado no Brasil no segundo número da Isaac Asimov Magazine. Não é bem o caso, pois o ponto de divergência aqui, mesmo sendo pessoal, acaba influenciando muito mais gente ao dar início a uma revolução tecnológica, como seria de se esperar em um trabalho steampunk. Na vida real, aquele padre foi a atração de uma feira mundial de ciência realizada nos EUA em 1904 com o seu pirelióforo – ou Pyrheliophero na grafia da época, empregada no texto –, uma invenção pioneira na utilização da energia solar, com vários espelhos e cerca de 80 metros quadrados de área ocupada. Por falta de investimentos e de interesse, após aquela apresentação o padre nunca chegou a dar uma aplicação prática à sua máquina.

Tudo muda na linha temporal alternativa proposta por seu conterrâneo. Pois na ficção de Ventura, uma série de acontecimentos passa a dar certo para o padre Himalaya e suas invenções. O resultado é um resgate interessante e muito bem-vindo de uma figura praticamente desconhecida da história das ciências. O problema está no formato com que o texto foi escrito, que acabou por privilegiar aspectos mais burocráticos do processo – como o patenteamento das invenções e a forma de obter capital de investimento – que lances mais aventurosos, como o da corrida de automóveis comuns contra os movidos a energia solar, descrita de forma rápida e com pouco entusiasmo. É compreensível o escritor ter dado importância a fatos que realmente poderiam ter feito a diferença na história do inventor, mas não havia necessidade de se relegar a segundo plano alguma dose de entretenimento. Quando, perto do fim, ele recria um discurso em que o padre rememora os feitos que acabamos de ler em detalhes, eu me perguntei por que os editores não podaram algumas das 37 páginas da noveleta em benefício dela própria. Se o excesso de gordura tivesse sido transferido para encorpar a primeira história, a coletânea teria sido ainda mais equilibrada do que se mostrou.

Mesmo assim, preciso dizer que é exatamente isso o que Vaporpunk – Relatos steampunk publicados sob as ordens de Sua Majestade é: a mais equilibrada coletânea de ficção científica brasileira – e também portuguesa – que já li. A média dos textos é a mais alta que já vi ser alcançada em uma coleção de textos de autores tão diferentes, reunidos apenas por um tema em comum. Aliada ao cuidado gráfico exemplar – que não se resumiu ao detalhes que descrevi sobre a capa, ela se espalha por todo o projeto interno – esta obra é um marco, sem a mínima dúvida, para a cultura steamer de nossos países, bem como para a literatura fantástica e de gênero de Brasil e de Portugal. Motivo de orgulho para as majestades dos dois reinos que obtiveram relatos à altura de suas ordens.