9.8.10

Festival Punk

Este post nasceu a partir da sugestão de um leitor pelo Twitter – perdão, mas na confusão daquele telégrafo sem fio, acabei perdendo o nome dele Upgrade: ele voltou a se identificar, foi este o culpado – e da observação que algumas classificações de gêneros derivados do steampunk podem provocar muita confusão, muito calor e pouca luz. A princípio, a ideia era apenas a de recolher alguns dos vários tipos de anacronismos tecnológicos, marcados com o sufixo punk, e apresentar aos frequentadores deste espaço. Meu objetivo com isso é um só: ampliar as possibilidades do retrofuturismo, evitando que um tema tão rico e tão adaptável fique restrito a apenas  um período histórico - mesmo sendo um tão interessante quanto a Era Vitoriana.

Neste sentido, já publiquei aqui um conto de Eric Novello que pode ser classificado como sandalpunk, por se passar durante o Império Romano, e em breve pretendo postar uma contribuição de um conterrâneo meu que ocorre em uma II Guerra Mundial prolongada. Gostaria muito de ver e de receber mais dessas contribuições, em diferentes cenários cronológicos. Minha intenção inicial era apenas a de traduzir um artigo deste blog, do escritor americano J E Remy, que trata do assunto com um invejável poder de síntese. Mas, ainda pelo Twitter, ao anunciar essa proposta, recebi sugestões como sempre pertinentes de mestre Fábio Fernandes. Ele me fez perceber que algo intencionalmente pensado para ampliar o debate poderia, por puro e incontrolado paradoxo, restringir o alcance dessas possibilidades, por servir - a expressão agora é minha - de apologia aos maneirismos punk. Até porque isso costuma gerar por si só confusão, com muitos esperando obrigatoriamente que todos os escritores importem parte do ethos próprio do cyberpunk ao trabalhar com tais derivações. Uma cobrança que pode ser resumida na pergunta "mas o que é que tem de punk neste conto?", o que equivale aproximadamente a cobrar moicanos de todos os que se dizem punk.



E, vejam só, não só concordo com isso, como já deixei algo assim registrado há mais de três anos em uma conversa pelo Orkut - pois é, não é de hoje que me meto a falar sobre steampunk e assemelhados. Exatamente no dia 14 de março de 2007 escrevi isso por lá:


Basicamente, tudo isso é História Alternativa e ponto. Entendo que haja um bom motivo para a HA ter se subdividido em Ficção Alternativa, por exemplo, afinal há um elemento extra ali: personagens fictícios de obras alheias agindo lado a lado com personagens históricos reais, no caso.


O vaporpunk tem seu charme por trabalhar basicamente com tendências deixadas pelos pais da criança, seu Verne e seu Wells, quase sempre. Apesar da marquetagem pra cima do cyberpunk, vá lá.


Mas e os outros todos? Quer dizer, veja o caso do dieselpunk (que se passa entre as décadas de 40 e 50 com tecnologia baseada na utilizada na II Guerra); os caras arrumaram a subdivisão da subdivisão e chamaram de nazipunk (nome auto-explicativo)! Pra mim, pelo menos, parece um certo exagero.


Se alguém tem um bom roteiro de HA pra usar o Da Vinci como protagonista, não precisa criar um rótulo tão exótico quanto esse tal de clockpunk pra vender o peixe... IMHO.


No mais, se alguém tentar me convencer a classificar os Flintstones de stonepunk e os Muzzarellos (alguém mais lembra?) de sandalpunk só pode tá querendo tirar um sarro com a minha cara:)))


Juntando tudo isso, a sugestão inicial do leitor, a conversa com Fábio Fernandes e minha observação tirada do fundo do baú, vamos fazer uma adaptação da ideia original. Quero enfatizar que o objetivo não é passar receita de bolo, nem engessar a criatividade alheia dentro de conceitos pré-estabelecidos. O ponto é: há uma infinidade de possibilidades para se contar histórias de retrofuturismo, correto? Não há motivos para nos restringirmos a apenas um único período, nem que os escritores consultem um mostruário de conceitos para ver onde encaixar seus projetos.

Porém, também não há motivo para se deixar de conhecer o que já se pensou e já se escreveu sobre o tema. Mesmo para negar alguma coisa é importante que se conheça a tal coisa. Então, o que seria uma simples tradução – quer dizer, no meu caso uma tradução nunca é simples, se é que me entendem – vamos adaptar um pouco a seguir as definições apresentadas por Remy neste artigo de uma série que trata dos muitos usos – e abusos – do sufixo punk pela ficção científica. Ele começa relembrando da sempre citada carta de K.W. Jeter à Locus Magazine na qual o steampunk acabou por ser batizado. Era abril de 1987 e o escritor procurava encontrar um termo comum para as obras escritas por ele mesmo, Morlock Night, por Tim Powers, The Anubis Gates, e por James Blaylock, Homunculus, todas, de certa forma, tratando de ficção especulativa vitoriana. Ao final da carta, ele escreveu:


Pessoalmente, acho que fantasia Vitoriana vai ser a próxima grande coisa, contanto que nós possamos encontrar um termo coletivo para Powers, Blaylock e eu. Algo baseado na tecnologia apropriada da época, como "steampunks", talvez ...

Estava batizado um novo subgênero, mas também criado um monstro. A partir dali surgiram vários termos nessa mesma linha para batizar novas vertentes. Remy recuperou uma classificação geral que surgiu no suplemento de GURPS Steampunk de William H. Stoddard: Timepunk: “É sem dúvida o mais apto para descrever o gênero futurista anacrônico como um todo”. Ao longo do texto, ele recorrerá várias vezes àquele suplemento para tirar exemplos de tecnologias baseadas em algum elemento específico que se torna o principal fator a contribuir para o avanço ficcional da humanidade. “A ciência avança, mas apenas através do uso da tecnologia específica, e o período do tempo no qual ela se origina, determina a moda, estilos artísticos e a crença religiosa”, anotou.

Dito isso, Remy passou a listar os principais exemplos de timepunk, por ordem cronológica, a maior parte tirada daquele suplemento de RPG.



Stonepunk. Como não poderia deixar de ser, a Idade da Pedra é o primeiro deles. Como exemplo, o autor cita The Land that Time Forgot, de Edgar Rice Borroughs, e Clan of the Cave Bear, de Jean Auel.


Bronzepunk. Em seguida, temos a Idade do Bronze, exemplificado pelos romances de Mary Renault.


Sandalpunk. Já é um termo que apareceu por aqui anteriormente. “Denota uma antiga civilização, muitas vezes os romanos ou alguma outra civilização da Idade do Ferro, nunca entra em colapso”, ele escreveu, lembrando que a longevidade se deve a avanços científicos beseados em tecnologias como a do mecanismo de Antikythera.. O subgênero também é conhecido como "Classicpunk" ou "Ironpunk".

Candlepunk. O período histórico é a Idade Média, motivo para o subgênero também ser conhecido como "Castlepunk" e "Middlepunk". O escritor aponta ainda variantes: "Dungeonpunk", quando ocorre a adição de elementos mágicos, ou "Plaguepunk”, quando se enfatiza as antigas doenças que ocorreram naquela época. O exemplo citado é Doomsday Book de Connie Willis.


Clockpunk. Este termo é o termo que deu origem àquela discussão no fórum do Orkut. Ela se refere a uma civilização renascentista com tecnologia baseada em relógio cujos avanços tenham sido inspirados por Leonardo Da Vinci. Nas obras citadas, os romances satíricos de Terry Pratchet da série Discworld e o livro Pasquale's Angel de Paul J. McAuley.


Steampunk. Chegamos então ao nosso velho conhecido. “Inspirado pela ficção científica vitoriana real (Edisonades, Scientific Romances e Voyages Extraordinaires), Steampunk foi a primeira das categorias timepunk e serve de inspiração no mundo real para cultura, tecnologia, games, moda e arte anacrofuturistas”, como lembrou o autor do post e como tentamos demonstrar por aqui. Remy anotou algumas das nomenclaturas alternativas do subgênero, como “Victorian Steampunk” e “Gaslamp Fantasy” e aponto como exemplos modernos os sempre citados por aqui The Difference Engine e The League of Extraordinary Gentlemen



Western Steampunk. Temos neste ponto uma derivação do subgênero, um sub-subgênero. O período histórico é o mesmo, o que muda é a geografia, uma vez que as histórias abandonam o ambiente londrino para se passar no velho oeste americano. Classificações variáveis seriam “Weird West” e “Cattlepunk”. Ele ainda aponta uma variante denominada “Desertpunk” quando a história em questão se refere a um mundo pós-apocalíptico, “embora esse estilo de timepunk também possa ser abrangido por um cenário dieselpunk”.


Dieselpunk. Já que foi mencionado, vamos a ele. “Este termo, cunhado pelos game designers Lewis Pollak e Dan Ross para o RPG Children of the Sun, indica uma civilização da Idade Industrial com futurística tecnologia à base de petróleo”. Remy anotou que o subgênero também tem sido chamado de "Teslapunk" ao descrever a tecnologia elétrica futurista.


Atomicpunk. Neste cenário, nunca ocorreu a Grande Depressão e a II Guerra permaneceu como um prolongamento da Guerra Fria.

Nazipunk. Aqui ocorre um novo entroncamento, pois este subgênero ocorreria no mesmo período, porém com o não pequeno detalhe da vitória nazista, sendo sinônimo para ele o termo “Blitzpunk”. Conforme Fábio Fernandes argumentou comigo pelo Twitter, e eu concordo, a classificação nazipunk por si só pode gerar algum ruído indesejado e mobilizar ideias negativas a respeito do gênero. O exemplo dado pelo autor também é controverso, The Man in the High Castle , romance de história alternativa de Philip K. Dicky. Controverso porque o foco daquele escritor no livro – como em toda sua obra – não estava na tecnologia, nem no elemento retrofuturista. “O Dick era genial mesmo. Tanto que ele abria o leque das possibilidades. E, hoje, ficar colocando -punk em tudo,fecha”, destacou o escritor carioca que, entre outras muitas coisas, traduziu a última versão daquela obra publicada em português.

Como eu disse por lá, concordo com ele, apesar de achar genial o fato de PKD imaginar os alemães conquistando o espaço muito prematuramente em seu romance, enquanto tecnologia de entretenimento, como a televisão, ser deixada de lado e se encontrar em um estágio muito pouco desenvolvido no período em que se passa a história. Sem mencionar a ausência de comediantes judeus em um território americano dividido ao meio por germânicos e japoneses... Mas classificar o livro como nazipunk é um reducionismo bem pouco produtivo.



Transistorpunk. Continuando com a lista de Remy, temos esse subgênero que diz respeio a “uma exagerada e glamourizada sociedade da era da Guerra Fria”. Influenciaddo pelos ideais e modismos da década de 1960, o Transistorpunk também pode ser chamado de "Psychedelipunk" ou "Weedpunk", quando enfatiza elementos psicodélicos ou “tecnologias à base de cânhamo”.


Spacepunk. Por fim, o último da listagem. “No Spacepunk, as ferramentas do gênero punk se combinam com os temas de um conto de Swords and Space”. A ideia é apresentar uma civilização antiga que consegue avançar com tecnologia da era espacial. Dependendo dos detalhes da trama, poderia ainda receber a classificação de fantasia Swords and Space.


Como podem ver, há uma infinidade de categorias, o que tanto pode expandir as possibilidades de cenários quanto pode podar a criatividade de quem tentar segui-las muito à risca. Encontrar o equilíbrio ideal é algo que cabe a cada um dos futuros escritores que desejarem trabalhar com os anacronismos tecnológicos, sejam eles amparados ou não por um sufixo punk. Para encerrar o post, e dar uma descontraída no tema, vou relembrar algumas das sugestões que dei naquele tópico já citado no Orkut e em um outro, mais recente, sobre o assunto.


Tupãk. Tribos nômades cruzam influências de vários grupos do continente, de maias a incas, e acabam se estabelecndo no litoral do que conhecemos como Brasil lá pelo que contabilizamos como século XIII, dando início a um boom tecnológico. Quando Cabral e suas caravelas aportam nestas areias, são recebidos a rajadas da caramuru-giratória, obrigados a se render e a levar seus novos senhores a uma combalida Europa que é rapidamente conquistada. O resultado é que hoje, todos os anos, chefes da maioria das nações, com suas pinturas ritualísticas, se reunem na grande Oca do alto Xingu, para realizar o Qarup mundial. Tudo ia bem, até um certo dia 11 de Setembro.


14-Bispunk. Após realizar sua série de façanhas nos céus de Paris, Alberto Santos-Dumont entrega-se ao primeiro porrete de absinto de sua vida. No meio da ressaca, ele tem deslumbres do que seriam os sanguinolentos usos bélicos de suas criações. A epifania faz mudar seus conceitos em realação ao registro de marcas e patentes, e o brasileiro passa a se associar com empresários com o objetivo de tentar retardar ao máximo aquelas visões pertubadoras, restringindo o uso de suas invenções apenas para fins pacíficos. Logo temos um mundo em que Conversíveis Modelo T saem das fábricas para a casa das famílias mais abastadas e unidades do Mais Pesado que o Ar cuidam do transporte coletivo das massas. Mas nem tudo sai como o planejado, pois uma dupla de irmãos tem planos para sabotar aquela utopia aérea.


Mickeypunk. Nos anos 70, Richard Nixon resolve enfrentar o processo do Watergate até o fim, e por mais fantasioso que pareça, com um papo de que não sabia de nada, que foi traído por aloprados do Partido Republicano e que seria só uma vítima da mídia burguesa, ele passa a conversa nos eleitores e no congresso. Mesmo assim, percebe que seu filme está muito queimado e que precisa de uma estratégia para melhorar sua imagem mundo a fora. O político nomeia seu velho amigo Walt Disney - nesta realidade, ainda conservado em estado criogênico, após sua morte em 1966 - como Secretário de Estado e juntos passam a formular uma nova estética publictária para embaixadas e filias de empresas americanas. Em alguns meses, simpáticos robôs animatrônicos estão espalhados por toda parte e os fogos de artifício explodem no céu de meio mundo todas as noites. Todas as noite.


Shitpunk. Neste mundo, as tradições religiosas são ligeiramente diferentes: não existe a proibição para que judeus e muçulmanos comam carne de porco. A suinocultura é muito mais desenvolvida, com mais de um bilhão de consumidores em potencial, se comparado com nossa realidade. Tal produção gera tamanha quantidade de resíduos poluentes que algo precisa ser feito. A matriz de geração energética dos países produtores de porcos passa a ser o aproveitamento da bosta suína, na forma de biogás, como o carvão foi no século XIX.



PunKKK. Malcom X sobrevive ao atentado no Harlem. O líder negro entra em estado de coma, fica meses fora do ar, enquanto um verdadeiro culto à sua imagem se desenvolve entre uma boa parcela dos americanos. Quando ele se recupera, usando um discurso mais moderado, bem embalado por estrategistas políticos, se torna uma possibilidade real como candidato à Presidência, por um partido independente, ameaçando tanto republicanos quanto democratas. O país entra em convulsão, várias organizações racistas e neonazis unem forças e praticam uma série de atentados de uma costa a outra; o mais célebre deles é a destruição parcial da estátua de Abraham Lincoln em Washington.


Se alguém quiser desenvolver algumas dessas novas categorias é só entrar em contato ;-) Mas para resumir tudo o que eu quero mesmo dizer é que as possibilidades são muitas e não faz sentido se impor uma camisa de força. E que se for para usar alguma coisa daquele sufixo raptado, que seja o seu lema: "faça você mesmo". E tenho dito.

8.8.10

Encontro vitoriano em Florianópolis 3

Sinceramente? Se tivesse aparecido metade das pessoas eu teria considerado o evento um sucesso. O que dizer então de um encontro que, apesar das instabilidades meteorológicas, praticamente fez lotar um salão com capacidade para 50 pessoas? Não fazia ideia da popularidade da temática vitoriana em minha própria cidade! Foi preciso a mobilização de uma professora de História que mora a dezenas de quilômetros da capital, no município de Anitápolis, para me mostrar esse fato, comprovado pela conversa animada durante toda a tarde deste sábado entre diversas tribos, dos RPGistas às lolitas. De quebra, ainda conheci boa parte dos membros da Loja Santa Catarina do Conselho Steampunk que, por ironia, são moradores do bairro vizinho ao meu, aqui em São José.

Parabéns à Pauline "Mme. Mean" Kisner, de quem roubei a foto abaixo, com apenas parte do grupo reunida. Assim que eu souber de algum link para mais flagrantes, divulgo. E que venha o próximo evento!


Upgrade: E Mme. Mean fez seu próprio relato do encontro no blog Sombria Elegância, postou a foto abaixo e ainda anunciou a criação de uma conta no Flickr onde serão postados novos registros do encontro.

Upgrade 2: Mais fotos no Flickr de Ton Black, da Loja Santa Catarina do Conselho Steampunk.

6.8.10

Salvador, 1835

Um fato histórico do século XIX é o pano de fundo do novo álbum de André Diniz, um dos principais quadrinistas que surgiram no país nesta última década e que já foi assunto por aqui. O Quilombo Orum Aiê é o nome do álbum, primeiro lançamento na área dos quadrinhos do selo Galera Record, do qual também já falei neste blog, e a Revolta dos Malês é o mencionado fato histórico. Trata-se de uma grande rebelião de escravos de fé islâmica que ocorreu em Salvador a partir do dia 25 de janeiro de 1835. É nas vésperas dessa data que começamos a conhecer o jovem Vinícius, apelidado de Capivara, "bicho que só come mato", pelos seus companheiros de escravidão por se recusar a comer qualquer tipo carne. A vida do rapaz parecia não ter saída dos serviços que presta a mando de seu dono branco em uma barbearia e dos encontros fortuitos com Sinhana, também escrava, mas ela de um negro liberto.



Quando explode a revolta, Capivara tem a chance de tentar realizar seu maior desejo: alcançar um quilombo mítico, descrito por sua mãe inúmeras vezes, para onde teria fugido o pai logo que o rapaz nasceu. É rumo a Orum Aiê que o protagonista ruma, acompanhado de Sinhana, por quem ele arriscou uma volta à cidade para convencê-la a acompanhá-lo; Abdul, escravo muçulmano que não fala nenhuma língua que seus colegas entendam; e Antero, um branco que também se aproveitou da confusão para fugir da cadeia onde cumpria pena por um crime misterioso. A jornada desse quarteto improvável em busca de um lugar utópico é o que acompanhamos ao longo das pouco mais de cem páginas da graphic novel, uma jornada que não ocorre sem contratempos, obviamente. Mas além das ameaças externas e internas do grupo, há espaço para divagações filosóficas entre o letrado Antero e o "orgânico" Capivara, com direito a várias citações de Voltaire (1694-1778) e de Maquiavel (1469-1527).



Responsável pelo texto e pela arte, Diniz se sai muito bem em O Quilombo Orum Aiê. No início, pelas menções idealizadas que o protagonista faz daquele lugar que dá título ao álbum, meu medo era de que o autor caísse nas mesmas armadilhas maniqueístas de Subversivos uma série do início de sua carreira pela editora Nona Arte, sobre o período da última ditatuda militar brasileira, escrita por ele e desenhada por vários convidados diferentes. Felizmente, ao longo dos últimos dez anos o quadrinista carioca amadureceu muito e enriqueceu bastante suas possibilidades narrativas. Mesmo sendo uma história bem direta e linear, o trabalho aqui é bem interessante do início ao fim, evitando as soluções mais simplistas que poderiam compremeter a obra. O único ponto que me incomodou um pouco parece ter sido um ajuste na linguagem para deixar as falas mais contemporâneas e que acabou por padronizar e empobrecer alguns diálogos. O exemplo que mais chama a atenção é o uso da expressão "não ir com a cara" que é dita por três dos personagem ao logo das páginas. Um pouco mais de apuro e pesquisa sobre a forma de se expressar na capital bahiana na primeira metade do século retrasado daria um tempero mais interessante a esse particular, certamente, ainda mais levando-se em conta as diferenças culturais de cada personagem.



Porém, se o texto é bom, são os desenhos que realmente fazem valer e muito a aquisição deste título, tanto por aqueles que se interessam por ambientações no século XIX quanto por qualquer um que apenas aprecie boas histórias em quadrinhos. A arte de André Diniz evoluiu barbaramente neste tempo, desde que vi seu traço pela primeira vez na revista 31 de Fevereiro (que ainda é o meu trabalho favorito dele em termos de roteiro, a mais inovadara de suas criações). Neste trabalho atual, o quadrinista alcançou um nível de estilização excelente, em um traço altamente expressionista. Sua técnica de hachuras, então, merece ainda mais destaque, seja quando detalha as tábuas de um casebre no mato ou para representar a areia de uma praia. Só não gostei muito da repetição que ele empregou para passar o clima tenso dos embates físicos entre Abdul e Antero: sempre que eles partiam para o conflito, o desenhista usou o mesmo recurso de trocar os desenhos quase que geométricos por linhas trêmulas. Um pouco de variedade ali poderia acrescentar mais em termos de impacto visual, um tanto perdido por essa reiteração insistente.



De qualquer forma, esta é uma ótima indicação em termos de quadrinhos nacional. Um belo trabalho de um autor que não se acomodou com o status de revelação do início da carreira, nem com a mais de uma dúzia de prêmios acumulados nesta década de atividade. Ele é alguém que vem evoluindo constantemente em termos artísticos. E o produto final é uma ótima estreia da Galera Record no mercado das graphic novels. Fica a sugestão para os próximos lançamentos, ou mesmo para uma próxima edição deste álbum, que a editora acrescente material extra na publicação, ajudando seu público-alvo, os agora chamados "jovens adultos", a se contextualizar no assunto. Este foi um cuidado que o próprio André Diniz teve em seu tempo de autor independente - como naquele álbum linkado no início desta resenha, Fawcett, feito em parceria com Flavio Colin (1930-2002) - e que poderia ter sido um exemplo a ser seguido em uma empresa com muito mais estrutura para isso.

Encontro vitoriano em Florianópolis 2

Anunciei a iniciativa no dia 18 de junho:

Neste blog já tive a oportunidade de comentar convescotes inspirados na Era Vitoriana que mobilizaram fãs do steampunk em Curitiba e em São Paulo. Agora, tenho o prazer de anunciar um encontro do gênero que vai acontecer aqui, em Florianópolis. Está marcado para o dia 7 de agosto, a partir das 14h. O local dificilmente poderia ser mais adequado: o Horto Florestal do Córrego Grande, essa beleza que pode ser vista abaixo e que fica bem próxima da Universidade Federal de Santa Catarina. O período histórico que vai inspirar o encontro será o da Restauração à Primeira Guerra Mundial (1815-1914) e iniciativa conta com uma comunidade no Orkut para os interessados tirarem dúvidas e confirmarem a presença.

O encontro ainda está marcado para amanhã, mas devido às tenebrosas condições climáticas do inverno, com algumas modificações, como informou a organizadora naquela mesma comunidade:

Em virtude das condições do tempo em Florianópolis (ameaça de chuva, frio e vento), o picnic vitoriano foi transferido para o CAFÉ CULTURA, que fica na Praça XV - próximo ao Taliesyn, ao Círculo Ítalo-Brasileiro e ao Banco do Brasil.

Mantem-se o horário de início, mas caem os comes e bebes. Poderemos consumir o que o lugar oferece e que é um cardápio muito saboroso e divertido. Acredito que gastaremos por lá o mesmo que gastaríamos entre cesta de picnic+comes+bebes.

Os trajes a caráter também são mantidos. A gerência do estabelecimento já foi informada. O local tem dois ambientes, cada qual atende 50 pessoas, e uma fachada do começo do século XX. Estando no "centro histórico", poderemos também fazer excelentes fotos em outros locais - se o tempo assim nos permitir. 



Já estou tirando a poeira do meu relógio de algibeira.

5.8.10

Vaporpunk: Capa e Capista

Promessa é dívida. Sei que estava todo mundo esperando para ver a capa da coletânea Vaporpunk, então, sem mais demora, aqui vai:




Não é impressionante? Ao final do post, vocês podem vê-la aberta, também, com mais detalhes desse projeto minucioso. Antes disso, segue uma conversa com o criador dessa peça gráfica, Erick Santos, que por acaso é também o dono da editora que a publica, a Draco.


Você me disse que foram ao todo mais de 20 horas dedicadas ao trabalho desta capa. Poderia dar uma ideia de como foi o processo de criação? Quais foram as técnicas empregadas nela, como chegou ao resultado final?


Erick Essa capa foi um desafio, estou me planejando para ela desde o momento em que o Gerson Lodi-Ribeiro trouxe a coletânea para a Draco, dado o meu fascínio pelo tema. Para executá-la, primeiro fiz alguns esboços sobre o conceito a lápis, antes de partir para os programas de ilustração no computador. Contei como sempre com valiosos retornos de amigos que me apontaram problemas na montagem ou sugeriram soluções, além de me darem dicas para utilizar o software de 3D (o mesmo tipo utilizado por criadores de games e filmes), algo que ainda não domino. Para finalizar, utilizei montagem digital de fotos com a composição em 3D, que ainda exigiu tratamento de pós-produção. 


E a ideia para a capa partiu de que ponto? Qual foi sua inspiração para o material?

Erick O gênero steampunk sempre me chamou a atenção, tanto em jogos como Final Fantasy VI, animes como Steamboy e o próprio Difference Engine.

Em todos esses exemplos, a questão estética aliada ao conteúdo foi fundamental.

Então, decidi explorar o visual, apresentando a excentricidade da época e mostrando a força da tecnologia no imaginário steampunk. Esse foi o meu ponto de partida. Por ter em mente que precisaria de uma técnica que transmitisse melhor a sensação de realidade, escolhi o 3D e as fotos.

Usei como referência a abertura do anime Steamboy, que traz um grande mecanismo que apresenta o título. O filme mais recente de Sherlock Holmes me ofereceu a tipologia ideal para a execução. Mal posso esperar para ver uma versão animada quando o mercado de tablets se firmar.


Poderia falar um pouco de sua experiência como ilustrador?


Erick Trabalho com edição de arte e desenho gráfico há mais de 10 anos. Nesse meio tempo, tive oportunidades para ilustrar, mas não me aprofundei na área. A ilustração por si só já é uma carreira, e o meu traço é muito carregado pelo pop, principalmente referências de mangás e videogames. Trabalhei sob demanda pela internet, inclusive para o extinto site estadunidense gamedreamz.com, mas deixei meus desenhos adormecidos e me concentrei no que a profissão exigia. Com a Draco, estou retomando meu lado ilustrador e aproveitando isso em nossas capas.

E sobre a editora. Desde que a Draco surgiu no final do ano passado ela tem surpreendido autores e leitores com uma política de formação de acervo crescente, em termos de quantidade e de qualidade. O que podemos  esperar dos próximos lançamentos?


Erick Como disse anteriormente, trabalho no mercado editorial há bastante tempo e sempre fui fã de literatura fantástica e suas vertentes. Porém, sentia falta de um trabalho mais sólido focado na literatura nacional. Por acreditar na qualidade dessa literatura, temos como missão só trabalhar com obras brasileiras, e por isso queremos um catálogo abrangente e que agregue leitores de diversos gostos e faixas etárias. Assim, queremos apresentar o que há de melhor, como os autores veteranos que temos publicado, mas também novos autores que possam crescer junto com a casa.

Com a formação desse catálogo base, vamos continuar investindo muito em distribuição, queremos oferecer nossa literatura para todo o Brasil e, com o advento dos e-books, para todo o mundo.

Especificamente sobre steampunk. A coletânea Vaporpunk e o terceiro número da série Imaginários foram as primeiras investidas da Draco no retrofuturismo. Sabemos que vão vir mais lançamentos do tipo, na coletânea Brinquedos Mortais e nos romances Baronato de Shoah e O Peregrino. Isso é o que já foi anunciado. Mas ainda há mais interesse por material do tipo? Há espaço para mais histórias retrofuturistas em sua editora?

Erick Não temos nada específico de steampunk para o momento, mas estamos abertos para a avaliação de originais que tratem de retrofuturismo ou de qualquer abordagem especulativa que amplie os horizontes da literatura brasileira.

Acredito que em breve encontraremos bases interessantes para explorar ambientes diferenciados dentro do próprio imaginário brasileiro, sem dependermos tanto das tendências vindas de fora. Quero trabalhar pelo dia em que o Brasil inverterá a situação e oferecerá as tendências a serem seguidas pela literatura estrangeira.

E, para finalizar, como prometido, eis a capa da coletânea aberta, percebam o detalhismo do projeto (e tentem imaginar uma versão animada dela, como foi previsto na entrevista):

4.8.10

Vaporpunk: Entrevista com Gerson Lodi-Ribeiro

Quem duvida que o steampunk veio para ficar em nosso país, pode tirar o cavalo do vapor. Este mês, chega com tudo a segunda coletânea do gênero, reunindo autores brasileiros e portugueses em um lançamento que deverá repetir o sucesso da pioneira Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Vaporpunk - Relatos steampunk publicados sob as ordens de Sua Majestade é o nome da nova obra, que trará o selo da Editora Draco em sua capa - aliás, que capa, a melhor que já vi de um livro de ficção especulativa nacional! A seleção do material também ficou por conta de editores dos dois países. Do lado europeu, Luís Filipe Silva, coautor, ao lado de João Barreiros, do clássico lusófono Terrarium. Deste lado do Atlântico, Gerson Lodi-Ribeiro, velho conhecido dessas paragens. Na entrevista a seguir, é ele quem comenta o processo de produção da coletânea, que será oficialmente lançada durante o próximo Fantasticon, nos dias 27, 28 e 29 de agosto. Vamos ao bate papo.




Os primórdios da organização da coletânea Vaporpunk apareceram neste blog, primeiro em uma chamada que fiz  e, em seguida, dada à repercussão gerada, houve um segundo post com uma apresentação sua do projeto. Poderia dar uma ideia de como o trabalho se desenrolou a partir dali? Foram recebidos e analisados novos textos, de autores brasileiros e portugueses? Como se chegou ao resultado final das obras reunidas na coletânea?


GL-R A partir dos fatos relatados nos posts acima, abrimos novo prazo para autores brasileiros. Sete autores submeteram trabalhos, um desses trabalhos foi aceito: a noveleta “O Dia da Besta”, do Eric Novello. Do outro lado do Atlântico, Luís Filipe Silva conseguiu reunir uma novela, “Unidade em Chamas”, do Jorge Candeias; e duas noveletas, “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome”, do Yves Robert, e “O Sol é que Alegra o Dia...”, do João Ventura.


Desde o início, a Vaporpunk demonstrou ter uma abrangência maior que apenas estar ligada ao steampunk puramente, ou seja, apresentar cenários diretamente ligados à Era Vitoriana. Seria possível fazer um apanhado geral dos contos e noveletas, incluindo o seu texto, para que os futuros leitores possam saber o que esperar do livro em termos de temática e de ambientações?


GL-R Esta resposta será um pouco longa, mas vamos lá, na ordem em que vão aparecer na Vaporpunk:
Em “A Fazenda-Relógio”, único conto da antologia, Octavio Aragão nos brinda com as consequências funestas da mecanização precoce nas fazendas de café no Império do Brasil da penúltima década do século XIX.

Do outro lado do Atlântico, em “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome”, Yves Robert mostra o que acontece quando a monarquia portuguesa invoca poderes africanos ancestrais a fim de transformar o Reino em potência mundial, atraindo contra si a cobiça dos demais impérios europeus, numa linha histórica alternativa em que as ciências físicas e mentais avançaram mais rápido do que em nosso mundo.

Na noveleta de ficção alternativa “Os Primeiros Aztecas na Lua”, Flávio Medeiros narra as agruras de um agente duplo britânico que espiona para o Império Francês, numa linha histórica em que o ministro de ciências francês Jules Verne e seu análogo inglês H.G. Wells empregam suas engenhosidades prodigiosas em prol da vitória numa guerra fria franco-britânica, num passado alternativo onde a civilização asteca floresceu sob domínio anglófono.

Em minha “Consciência de Ébano”, inserida na linha alternativa dos Três Brasis, de “O Vampiro de Nova Holanda”, durante a construção de uma grande represa hidrelétrica no rio São Francisco palmarino da quarta década do século XIX, um operativo da agência mais secreta da República de Palmares se vê obrigado a trair a pátria para livrá-la de um conluio hediondo com o Mal.

Em “Unidade em Chamas”, única novela da antologia, Jorge Candeias retrata o duro cotidiano da preparação dos corpos aéreos de passarolistas militares portugueses para a guerra iminente contra o invasor francês, em meio à tensão racial provocada pela fusão inopinada do corpo metropolitano com um outro, arregimentado e treinado em segredo nas colônias.

Em “A Extinção das Espécies”, Carlos Orsi nos mostra pelos olhos do jovem naturalista inglês Charles Darwin a guerra sem quartel travada pelas forças argentinas do General Rosas contra os índios da Patagônia, eventos que também ocorreram em nossa própria linha histórica, ainda que sem o emprego de uma tecnologia biológica avançada, a ponto de empregar como arma criaturas artificiais cujos tecidos vivos e não-vivos se encontram impregnados de uma energia vital irresistível.

Em “O Dia da Besta”, de Eric Novello, um agente de elite do Império investiga a presença de uma criatura metamorfa no Rio de Janeiro, num Brasil alternativo em que as tecnologias do vapor e aeronáutica chegaram mais cedo e onde, às vésperas da Guerra contra o Paraguai de Solano López, a Princesa Isabel se tornou a primeira aviadora do país.

O ponto de divergência inserido por João Ventura na noveleta de história alternativa “O Sol é que Alegra o Dia...”, é que o cientista português Padre Himalaya — pioneiro do emprego da energia solar e inventor do pirelióforo, grande atração da Exposição Universal de St. Louis em 1904 — logra concretizar seu ideal de incrementar uma revolução tecnológica e industrial alimentada pela luz do Sol.



Uma das características que mais chamam a atenção no livro organizado por você e pelo editor e escritor português Luís Filipe Silva é justamente essa cooperação binacional. Podemos esperar mais parcerias do tipo, entre escritores lusófonos para o futuro?


GL-R No que depender de mim, sempre. Como nas antologias anteriores que organizei — Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000) e Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (idem, 2002) — a Vaporpunk conta com a presença substancial de autores portugueses. A diferença é que, ao contrário das antologias da Ano-Luz, agora também há um co-editor português para auxiliar a arregimentar os talentos do lado de lá.

Esta vai ser a segunda coletânea steampunk a ser lançada no Brasil em um período de um ano. Fora outros livros e quadrinhos que estão prometidos para o decorrer do ano, sejam de escritores brasileiros ou traduções de material estrangeiro. Esse interesse súbito de escritores, editoras e - esperamos - leitores do Brasil pelo gênero o surpreende? Qual podem ser as causas para esse boom literário? Será que ele tem fôlego para concorrer com o vampirismo como preferência nacional em termos de literatura fantástica?


GL-R A questão das duas antologias em menos de um ano se prende ao fato de que inicialmente as duas eram para ser uma. Em virtude da existência de filosofias divergentes quanto à maneira ideal de organizar uma antologia steampunk, resolvi trilhar meu caminho e o pessoal da Tarja seguiu o deles. Quanto à questão do steampunk ter entrado na moda aqui no Brasil, eu diria que não era sem tempo, pois o subgênero é instigante e tem um bocado de temas interessantes para oferecer aos leitores. Agora, quanto a competir com os subgêneros associados às temáticas dos vampiros, infelizmente, não creio que o steampunk, ou qualquer outro subgênero da ficção científica ou da história alternativa, tenha fôlego para tanto.


No seu ebook de Ensaios sobre História Alternativa há um capítulo dedicado ao subgênero steampunk. Nele, você comenta algumas obras como The Difference Engine, de Willian Gibson e Bruce Sterling, e Anti-Ice e The Time Ships, ambos de Stephen Baxter. O primeiro livro finalmente deve sair com uma edição nacional este ano, pela Aleph, dos demais, nem sinal. Que outras obras você poderia indicar a nossos conterrâneos e que fazem falta nas prateleiras das livrarias daqui?


GL-R Uma opção que talvez fosse interessante do ponto de vista editorial são as “continuações” de A Máquina do Tempo, do H.G. Wells, do qual The Time Ships é apenas um exemplo. Há também dois romances antiguinhos mas interessantes: Morlock Night, de K.W. Jeter, a narrativa da invasão de Londres pelos morlocks combatida pelo Rei Arthur(!); e The Man Who Loved Morlocks, de David E. Lake, que mostra a segunda jornada do Viajante Temporal, agora para o ano 1.000.000 A.D. Dentro do escopo do steampunk lato sensu que, aliás, faz parte da proposta da Vaporpunk, temos Pasquale’s Angel, de Paul J. McAuley, publicada em Portugal sob o título de A Invenção de Leonardo, onde o Grande Engenheiro Leonardo da Vinci dispara a revolução industrial com três séculos de antecedência, permitindo que a República de Florença unifique a Itália e descubra a América. Algo que não é bem steampunk, mas fantasia científica extremamente criativa com cheiro de steampunk é a trilogia MAINSPRING, de Jay Lake, em que a Terra e o Sistema Solar funcionam, literalmente, como se fossem peças de um relógio gigantesco. Há também a trilogia em andamento The CLOCKWORK CENTURY de Cherie Priest, iniciada com Boneshaker, em que a Guerra de Secessão se estende por mais de vinte anos e os dois lados empregam dirigíveis, num enredo decerto inspirado na noveleta clássica “Custer’s Last Jump”, de Steven Utley & Howard Waldrop. Enfim, narrativas steampunk de qualidade, tanto lato sensu quanto stricto sensu, existem a dar com o pau no mundo editorial anglo-saxão. Infelizmente, os editores brasileiros ignoram o fato. Com um pouco de sorte, descobrirão a pólvora daqui a quinze ou vinte anos, como fizeram afinal com The Difference Engine, romance comentado há mais de treze anos na coluna do saudoso Megalon.

E no post de amanhã, a tão aguardada capa da nova coletânea e uma conversa com o responsável por ela, Erick Santos, da Editora Draco.

Twitteresenha da coletânea 2

No dia 6 de novembro do ano passado apresentei um texto semelhante ao que será postado aqui com estas palavras:

O texto a seguir foi escrito em tópicos do microblog Twitter por Edgard Refinetti através de seu perfil naquele site que permite notas de no máximo 140 caracteres por vez. Apelidei o modelo de twitteresenha e de twittereview quando o texto é escrito em inglês, o que o próprio autor também faz, em sua outra identidade por lá. Com a autorização do resenhista, compilei os posts para republicar aqui, um para cada conto da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, na ordem em que eles foram organizados no livro. Notem que sempre que um autor do conto resenhado possuísse um perfil no Twitter, Refinetti o citava pelo nick. Boa leitura!

Mais recentemente, a coletânea acabou de receber uma nova twitteresenha, desta vez de autoria de Fernando Trevisan utilizando o perfil Leituras. Novamente, com a autorização devida, fiz a compilação dos tópicos para facilitar o acesso a mais essa avaliação do livro. O resultado segue abaixo:



Comecei depois a badalada coletânea "Steampunk", da Tarja. Até agora, não mostrou a que veio, e tem sido uma grande decepção. Talvez minhas expectativas estivessem muito altas, mas realmente, não vi pra que tanto auê com essa coletânea. Vou comentar os contos que já li:

"O Assalto ao Trem Pagador", do organizado Gianpaolo Celli, é um bom exemplo de como NÃO começar uma coletânea. Apesar da pesquisa extensa e cuidadosa, a impressão que fica é que é pouca página pra muita história; alguns acontecimentos se atropelam e parecem nverossímeis DEMAIS. A ideia no entanto é ótima e pode render boas histórias.

"Uma Breve História da Maquinidade" de @fabiofermandes dá seguimento e eleva um pouco o moral da coletânea, mas é um tema caro ao autor e, de certa forma, já esperado. Ainda assim consegue surpreender positivamente e dá esperança, também, de outras boas histórias.

"A Flor do Estrume", de @ALuizCosta diverte e, por causa das referências ficcionais que faz, desperta o interesse.

Já "A Música das Esferas", de @alex_lancaster, é um pulp que parece homenagear um pouco o anime SteamBoy. Divertido, apenas.

@RSCauso dá um verniz steam p/seu eterno personagem-soldado mas, além do estranhamento de ser o único a ultrapassar 30 páginas na coletânea (de 180 no total), é uma história interessante e bem escrita, ainda que de steampunk tenha apenas o verniz, mesmo. Decepcionou um pouco a "substância mágica" vinda da "tribo mágica", quando as coisas iam bem.

Ainda estou lendo o de Cláudio Villa, que até agora apresenta os mesmos problemas de seu romance. ...pois. O conto do Villa tinha os problemas de estilo dele *e* do Lovecraft, que ele tentou emular. Triste, poderia ter dado algo bom.

Agora leio o do @jacquesbarcia - e finalmente, faltando apenas 40pág. para o final (quase um conto do @RSCauso - rs) aparece um exto que atende à expectativa criada. Ainda não terminei de ler, mas já gostei muito. Amanhã se eu estiver vivo comento o que achei.

O conto do @jacquesbarcia realmente se firmou como uma das melhores coisas que li neste ano.

O conto de @romeumartins é um bom exemplar Pulp do gênero, com cenas divertidamente grotescas e impossíveis.

Já o de @flaviocmedeiros supreende pela temática, que foge um pouco da habitual nos outros contos, e pela tensão crescente. Um excelente fechamento para o livro e, aliás, cumpre dizer, a coletânea deixou o melhor para o final, mesmo.

Infelizmente, o vapor não é apenas parte da temática, mas também parte do auê exagerado para uma coletânea boa, mas não excelente e recomenda-se abordar a obra sem grandes expectativas, talvez aí funcione melhor.

3.8.10

Sobre CyberRoma

O conto publicado no post abaixo, é um teste de ambientação feito por seu autor a partir de uma obra sua anterior. Eric Novello lançou o romance Dante, o Guardião da Morte pela editora Novo Século, em 2004, e pretende fazer uma releitura do trabalho em um novo contexto, agora com o clima retrofuturista de histórias steampunk e sandalpunk. Além de ser um dos escritores selecionados para a nova coletânea steamer, a Vaporpunk, como comentamos aqui, com direito a amostra de sua noveleta, ele também está lançando pela Draco um novo romance, Neon Azul, este de um gênero do qual se tornou um dos maiores divulgadores no Brasil, a fantasia urbana. "CyberRoma" é uma bela apresentação do que podemos esperar do livro que está planejado para ficar pronto no próximo ano.

CyberRoma

Por Eric Novello



Quando a noite dominou o horizonte, o povo ainda tomava as ruas da cidade, curioso para ver o desfile de espólios da mais recente batalha do exército romano contra o flagelo de Zeus. O vento soprava seco como se o sol ainda estivesse a pino, espalhando a fuligem que escapava dos lança-chamas e pintando com seu negrume a pele daqueles que se amontoavam nos limites do isolamento imposto pela guarda palaciana.

Licínio tentava se movimentar em meio à multidão, com um olho em seu chefe Ítalo Tarnapo e o outro em um carro que aguardava com ansiedade, para ele deveras especial. Percebeu que Ítalo se aproximava pelos urros ensurdecedores que tomaram a avenida. Gritavam como se fossem eles os soldados que arriscavam a vida no campo de batalha, eles os feridos pelos escudos eletrificados dos espartanos. De nada adiantou argumentar com o guarda e pedir passagem. Se fosse ele em seu lugar, também não acreditaria que um garoto magrelo tinha sido escolhido pelo general das tropas romanas para servi-lo em treinamento.


Como era de se esperar, Ítalo havia dispensado a toga do traje cerimonial e vinha em sua armadura. Não fazia o tipo que seguia os ritos e vivia uma relação conturbada com os deuses, como se tivesse a necessidade de dizer em atos que o mérito pelas conquistas era dele e não das divindades. A cada nova explosão de fogo, era possível ver as marcas nas escamas metálicas presas sobre a sua roupa de couro negro, e quando as chamas cessavam, brilhava a águia romana em seu peito, num intenso tom de dourado. As botas reforçadas estavam surradas, porém inteiras, encaixando perfeitamente na peça sobre as canelas. Ítalo havia desmontado a parte dos membros superiores para expor o corte adquirido do lado esquerdo. Lembrava ao povo com aquele gesto que era um guerreiro de carne e osso, sem nenhum implante, nenhuma peça metálica entranhada em seu corpo.

Ítalo esperou que o desfile fizesse a última parada e retirou o elmo dourado que simulava o bico curvo de um falcão. Os cabelos castanhos estavam úmidos de suor, e os olhos ardidos pela mistura deste com a fuligem que se espalhava. Uma nova onda de urros e brados se seguiu, mas seu ânimo começava a ceder ao cansaço. Tinha em mente os homens mortos na batalha, as mulheres a quem daria a notícia de morte, e não a coroa de louros que César pousaria em sua cabeça. Achou que havia enlouquecido ao ver Licínio passar por entre as pernas dos guardas e correr no meio do desfile para o carro logo atrás do seu.

O jovem parou em frente às grades, sem conter o entusiasmo de ver pela primeira vez de perto uma quimera alada. Parecia sedada, com o corpo caído sobre uma das asas coriáceas, agora murchas e sem brilho. Licínio arriscou tocar a cabeça de leão, mas se assustou quando a cauda de serpente moveu-se em sua direção. Um guarda tentou alcançá-lo, mas Ítalo sinalizou que o deixassem em paz e assim foi feito. Licínio sacou sua pequena adaga, cortou um tufo da juba e guardou-o no estojo em sua cintura. Logo que os carros voltaram a se mover, acompanhou a quimera por mais uns instantes, depois se misturou novamente à multidão, guardando a lembrança como a um tesouro.

O campo próximo ao templo de Marte estava ocupado pelos soldados que Ítalo comandara na missão. A maioria deles ostentava modificações metálicas, braços reforçados pelo ferro e aço, pernas capazes de guardar uma pequena arma em seu interior. Ítalo não os culpava, era difícil resistir aos caprichos da ciência trazida pelos deuses e tida como um símbolo de superioridade diante dos adversários. Ele estava entre os poucos que ousavam resistir aos inventos inspirados por Vulcano.

Roma se vangloriava de ser a cidade escolhida pelos deuses para levar a luz até os povos primitivos. Havia sido construída com a força dos homens e das máquinas sobre um terreno consagrado em rituais tão antigos quanto o próprio conceito de civilização. Era cantada aos quatro ventos como a maior e mais poderosa cidade de ferro já erguida sobre a terra, cuja glória irradiava sobre o território cada vez mais vasto controlado pelo ditador.

O festejo precisava ser digno de Roma e assim Júlio César o fez, ordenando aos seus edis que colocassem as fornalhas no máximo e oferecessem um espetáculo flamejante. Meticuloso, fez questão de vistoriar o templo e escolher o sacerdote que conduziria os ritos, seu antigo amigo Metellus, um homem de mãos metálicas recurvadas como garras e olhos biônicos financiados pelo próprio imperador.

A cerimônia no templo devia ser o momento mais importante, com Ítalo Tarmapo sendo recebido pelos togas-negras e pela guarda de elite na base da escadaria. Com alguma sorte, o próprio Marte apareceria para agraciar seu pupilo, mas César sabia que era querer demais convencer os deuses de se misturarem aos homens por motivos que não os seus caprichos. Se nem Ítalo fazia questão de esconder o tédio em seu retorno, o que dizer de um deus que só se sente vivo no calor da guerra, pisando no corpo do inimigo. A resistência de Ítalo aos implantes tornava-o um de seus preferidos, o ditador sabia disso, por isso mantinha a ínfima esperança viva no peito reconstruído sob a armadura.

Os escoriados espartanos tinham muito que agradecer a Zeus. Geralmente alvo de pedras e objetos, passavam como um mero detalhe entre o carro da quimera e dos desmortos. A última jaula do desfile trazia cinco das estranhas criaturas que vinham interferindo nas batalhas, atacando os soldados em regiões de mata densa. Pareciam homens cadavéricos, criaturas com uma força que não condizia com a aparente fragilidade. No momento do ataque, agiam de forma organizada e inteligente, movendo-se com agilidade na certeza de seus golpes. Mas depois de capturadas, não passavam de cascas vazias, como se a consciência as abandonasse de repente. Matá-los em eu estado de inércia era considerado sinal de mau augúrio pelos soldados, por isso eles o traziam para a cidade, largando-o nas mãos dos sacerdotes, para que fossem jogados nas fornalhas num ritual de neutralização.

Ítalo Tarnapo desceu do carro e caminhou em direção a Júlio Cesar, alcançando o palanque metálico. O fascínio que exerciam sobre o povo era incontestável. O ditador se aproximou da borda e silenciou a multidão com um único gesto, era hora de seu discurso. Mergulhou as mãos numa fenda e sentiu os conectores cravarem em seu pulso, ligando-o à cidade. Ele era Roma, seu corpo, sua alma. Podia sentir cada parte da cidade pulsando, a energia que emanava do público extasiado. Sua voz ecoou como um trovão. De onde estava, Ítalo viu o brilho azulado dos olhos de Metellus e precisou controlar a raiva que lhe queimava o estômago. Não confiava no sacerdote, um abutre traiçoeiro que um dia teria o prazer de depenar com a ponta da espada. Por agora, seguiria com o teatro de poder que tanto valia ao império. Não estava ali por César nem por Marte, mas pelos homens e mulheres que os observavam curiosos. Era por eles que iria até o fim, por eles tentava silenciar no fundo de sua mente o chamado que fingia ignorar. Um eco numa língua que não era a sua, mas que sabia de onde vinha, sabia o que anunciava. Em algum momento de sua vida, pararia para ouvir a voz de Anúbis, mas, por enquanto, preferia se manter distante, um guerreiro, puro, sem fios e engrenagens, fiel aos seus ideais.

2.8.10

SteamPop

Sim, os steamers também podem ser pop! Confira a estampa desta camisa, dica de Bruno Accioly:




Gostou? Quer saber quanto é, quais os tamanhos disponíveis, se tem pra marmanjo? Passe lá na Camiseteria e confira os detalhes.

Invisibilidades: O gênero em debate

Adriana Amaral acaba de divulgar a programação do principal ciclo de debates sobre literatura de gênero do país: o Invisibilidades, já em sua terceira edição. Em pelo menos uma das mesas do encontro, estará em discussão a cultura steamer. Seguem abaixo a apresentação que a pesquisadora fez do evento e um destaque para a mesa que tratará do steampunk.

Conforme eu havia comentado em um post anterior, participarei dias 21 e 22 de agosto do Invisibilidades III no Itaú Cultural. Confiram abaixo a programação.

Em agosto, o evento Invisibilidades, promovido bienalmente pelo Itaú Cultural, chega a sua terceira edição e dá continuidade aos debates sobre a produção de ficção científica na literatura e nas artes brasileiras.
São quatro mesas de discussão divididas em dois dias, reunindo diversos artistas, escritores, quadrinistas e pesquisadores que atuam na área. Além disso, a programação conta com apresentações especiais do artista plástico Walmor Corrêa e dos VJs Wandeclayt e Lady A. (...)


domingo 22

17h mesa 1 Ficção Científica e Estudos Culturais: Uma História Sem Fim
com Adriana Amaral e Chris Busato Smith
mediação Fábio Fernandes
Uma mesa para discutir Estudos Culturais no universo da ficção científica,lançando ao gênero um olhar mais acadêmico, convidando pesquisadores e jornalistas para um panorama abrangente dos desdobramentos dessa cultura, do fenômeno relativamente recente da subcultura steampunk até a obra do escritor britânico underground J.G.Ballard)

Para conferir a programação completa, clique aqui.

Steampunk e a "Síndrome de Watchmen"

"O zeitgeist é (ainda é e provavelmente continuará a ser durante algum tempo) steampunk". Esta frase de Fábio Fernandes destacada no post anterior serve de deixa para um artigo de 2009 que descobri neste final de semana graças ao Oráculo. "Cyber especulações" é uma longa análise do blogueiro que se identifica como Andrezinho "A Mochila" a respeito da situação atual da cultura cyberpunk. O autor parte dos primórdios da ficção científica, das influências reconhecidas pelos criadores daquele gênero, Willian Gibson e Bruce Sterling, até chegar a derivações e novos subgêneros influenciados por eles. Caso, evidentemente, do steampunk. O artigo é bastante complexo, tem algumas partes polêmicas, mas quero reforçar aqui um trecho em especial.


Quase ao final do texto, Andrezinho toca num ponto que deu origem a uma reflexão interessante. Para explicar o atual sucesso de material que escolhe explorar o passado no lugar do futuro, ele usa a obra-prima de Alan Moore, citada no título deste post.






Minha humilde teoria quanto ao insucesso do Cyberpunk e o cada vez mais exorbitante viés para o passado, é chamada de "síndrome de Watchmen". Na aclamada graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons, lançada entre 1986 r 1987 em um mundo alternativo em que super-heróis existem de fato, a mitologia super-heróica estaria longe dos quadrinhos, tema já saturado pela imprensa e temores populares, o tema da mídia popular desviaria-se para outros mitos, estes longe do cotidiano, como por exemplo, histórias de piratas.

Assumindo que estamos caminhando por vielas ornadas com tecnologias de facíl acesso, pavimentadas sobre a dignidade humana,  cujos cacos desta são pisados pelas botas do corporativismo ou mesmo por nações, a balsa de fuga que a maioria necessita está sob águas longínquas, as perguntas “e agora? o que vem depois?” podem ter cansado. O cyberpunk nasceu como a profecia de um “futuro terrível, porém provável”, coisa que, FM-2030 não nos avisou, após ter nos tirado o benefício da novidade e adentramos em sua época sem surpresas e receios, não há por que buscarmos dar asas aos futuros que já perderam este status de "futuro". Quem sabe tenha chegado a hora de engendrar perscrutações maiores aos passado que poderiam ter sido, largar o presente como alegoria, ou ficar especulando continuamente em sensatos e empolgantes exercícios de futurologia, afinal, só o passado é certo, ao tempo que o futuro, e estas palavras, são apenas mais especulação. Mas tenho esperança de que a anarquia seja certa. 

Para ler o texto completo, acesse aqui.

1.8.10

Nova resenha de Boneshaker

Havia falado de Fábio Fernandes no último post, volto a falar agora. O motivo é a resenha que ele acaba de publicar, em inglês, sobre um livro que já foi mencionado por aqui duas vezes - a primeira e a segunda. Boneshaker, de Cherie Priest, um romance steampunk indicado ao maior prêmio da FC mundial, o Hugo - do qual aquele resenhista é um dos votantes. Destaco duas frases do texto de Fábio Fernandes. Primeiro uma que diz respeito ao gênero da obra: "Cherie Priest inventou uma história em sintonia com o Zeitgeist - e o zeitgeist é (ainda é e provavelmente continuará a ser durante algum tempo) steampunk". A segunda, sobre a obra em si: "Imagine Fuga de Nova Iorque. Em Seatle. No século XIX. Com zumbis".


É isso. Se alguma editora brasileira não publicar logo uma tradução do material, estão todas loucas. Leia a resenha completa aqui.