16.7.10

Um fórum para discutir o Oitocento

Uma outra iniciativa da organizadora do primeiro encontro vitoriano de Florianópolis que merece destaque é o fórum de discussão da Sociedade Histórica Desterrense. Homenageando a antiga denominação da capital catarinense, que até 1893 chamava-se Nossa Senhora do Desterro, o fórum também faz parte da proposta de Pauline Kisner, a Mme. Mean, de resgatar o imaginário do século XIX. "A ideia da SHD é ainda mais antiga que o picnic", foi o que ela me disse na comunidade criada para divulgar o convescote vitoriano. "Pode-se dizer que o picnic seja uma consequência do meu desejo de reviver a beleza do Oitocento".


Naquele espaço, Pauline está reunindo uma fonte variada de informações sobre o período, em temas tão variados quanto gastronomia, sexualidade, etiqueta, literatura, espiritualidade, entre outros. Vou reproduzir aqui um texto dela escrito à guisa de manifesto da Sociedade:

Um povo sem memória - que não cultua seus heróis e ignora seu próprio passado - está fadado a sofrer a dominação de conquistadores e aventureiros. Na pós-modernidade, isso se traduz na aniquilação de sentimentos, costumes e tradições. Aquele, pois, que voluntariamente ignora seu passado, torna-se escravo dos interesses de outros - como tantos que são diariamente tragados por uma (anti)cultura de massa, sob medida para o consumismo e para o caráter cada vez mais descartável que as relações humanas têm assumido.

Como alternativa, propomos um resgate do passado histórico; não como uma forma de escapismo, mas de modo tal que, ao reviver os usos e costumes de outro tempo, possamos questionar os nossos próprios. Para isso, elegemos aquele que o período áureo das revoluções políticas, sociais e econômicas - mas também da construção de uma sensibilidade artística e humana sem precedentes: o século XIX.

Através do estímulo à pesquisa e à vivência deste período, desejamos fomentar toda e qualquer manifestação artística que se aproprie da sensibilidade oitocentista. A longo prazo, é também de nossa vontade promover eventos que facilitem o intercâmbio de idéias e pessoas.

14.7.10

Vapor com aroma de café

Evento steampunk no Paraná, promovido pela Loja local do Conselho. Abaixo, o belo cartaz que pode ser ampliado com um clique:



Para mais detalhes, confiram o site.

13.7.10

Passarinhos vaporosos adiados

Nem sempre é possível dar boas notícias por aqui e é o caso desta nota. Estevão Ribeiro, quadrinista criador da tira Os Passarinhos, anunciou em seu blog o adiamento de um projeto steampunk ligado àqueles personagens emplumados. Eu havia comentado sobre a graphic novel A peça que move o mundo por aqui, mas o autor decidiu deixar o conceito em hibernação, conforme explicou neste post:




Caros piantes, infelizmente devo abortar o projeto steampunk “A Peça que Move o Mundo”, pelo menos por enquanto.

Tenho recebido visitas no blog de pessoas num post específico, exatamente do que falo de valores, isso porque uma ilustradora resolveu repostar o texto publicado em meu blog numa comunidade de ilustradores, não sei por qual motivo.

O fato de eu investir meu tempo livre nos Passarinhos enquanto me dedico a outros tantos projetos, roteiros de cartilhas para empresas e 10 horas de jornal me impedem de aplicar todas as energias neste projeto específico, mas a pessoa em questão não gostou de eu tirar do meu bolso R$ 30,00 por página + 30% de direito autoral do que eu receber. Lembrando que este projeto não tem editora, não é encomendado e eu não mandei este post para lista alguma, não fiz proposta indecente para ninguém. Ofereci o que posso pagar, mas é claro que, se houver(sse) uma remuneração pelo projeto, eu pagaria o que é justo. Continua.

Felizmente, há esperança de vermos o trabalho ser retomado, talvez com texto e arte do próprio criador da série. E ele ainda tem outras ótimas notícias, como a confirmação de que um álbum escrito por ele e ilustrado por um excelente time de desenhistas será publicado em breve pela editora Devir. Ou ainda um outro blog, dedicado ao romance de terror que escreveu e que em breve chegará às livrarias com o selo da Draco. No mais, fica minha torcida para que A peça que move o mundo logo também venha para o papel.

12.7.10

Um certo monarca do século XIX 2

Relembrando o que escrevi neste blog no dia 19 de abril:


Tiburcio, quadrinista e ilustrador conhecido dos leitores por seu trabalho publicado na revista Mad, está desenvolvendo desde o início deste ano uma tirinha na rede com uma ambientação muito próxima aos trabalhos da cultura steampunk. Claramente inspirada nos últimos dias do Império do Brasil, Meu Monarca Favorito narra as desventuras de um rei fictício, de um país fictício, em pleno século XIX, cercado de ameaças à sua coroa.

Agora, graças ao desenhista e escritor Alexande Nagado, que mantém o blog SushiPOP temos a oportunidade de saber mais sobre os bastidores daquela webtira e sobre seu criador. Nagado publicou nesta segunda-feira uma entrevista com o ilustrador responsável pelo cabeçalho deste blog com muitas informações sobre o processo criativo de Meu Monarca Favorito e sobre a visão de mundo de Tiburcio. Seleciono duas perguntas e respostas que têm bastante a ver com o espírito retrô do steampunk. A íntegra pode ser lida aqui.

Quando e como surgiu a ideia da série Meu Monarca Favorito?

Olha, foi no Twitter. Como disse, já ilustrei diversos livros infantojuvenis e um deles, que acredito não chegou a ser publicado, tratava da proclamação da república. Na época – e isso tem tempo – a pesquisa feita para compor as ilustrações foi muito interessante. Deu para perceber uma série de nuances do episódio que não são muito claras nos livros escolares.

Bem, um dia estou ali, tweetando, e o Laudo comunica que trabalhava em um quadrinho sobre a proclamação. Eu fiquei entusiasmadíssimo, enviei a ele até meus desenhos, pois conhecia o tema, e eis que ele me diz que sua história se passava toda na cidade de São Paulo. E eu entendi que ela era contada do prisma paulista. Entendi isso. E fiquei a pensar se poderia fazer diferente disso.


Na minha opinião, a figura de D. Pedro II é muito pouco reverenciada, aliás todo o II reinado assim o é. Ele é vinculado à escravatura,  à Guerra do Paraguai, ao atraso e “n” qualidades pouco lisonjeiras. Mas não é só isso. Eu moro no RJ e passei toda a minha infância e adolescência passando em frente ao Paço Imperial, que fica na Praça XV aqui no Rio, e só vim a saber que aquele prédio que abrigava uma agência dos Correios era o palácio do Imperador quando foi reformado e transformado em Centro Cultural nos anos 80.

Pouco se falava do II Reinado na escola e isso vim a perceber – coloco isso como uma opinião minha – porque desde a proclamação da República não havia o interesse de se falar bem do antigo regime. Isso se cristalizou em atitudes que nunca procuravam ver o lado bom desse período.
Daí que resolvi aproveitar que detinha algum conhecimento histórico e apreciava a figura e criar o Monarca, que é D. Pedro II sem ser D. Pedro II, pois ele é ficcional – de outra forma eu não poderia tomar as liberdades que tomo, como inventar a Liga Imperial de Football - mas é positivo e friso que nessa webcomic o Monarca é o herói. Os vilões são os conspiradores.  E sob essa ótica e salientando que é uma ficção, eu vou tocando a HQ, e procuro sempre dar uma pincelada em temas relevantes da nossa sociedade.  

Além do resgate histórico da figura de D. Pedro II, você também pretende mostrar com sua série uma visão positiva da monarquia enquanto sistema de governo? Como você se define politicamente? 

Eu não sou monarquista. Se o fosse faria uma HQ sobre D. Pedro II mesmo, à vera. O que eu entendo é que tivemos um Imperador super gente boa e que ninguém sabe disso por causa de anos de abandono desse tema. Acredito que o Monarca possa gerar um debate e suscitar ao brasileiro à pesquisa sobre esse passado recente – a meu ver – e o esclarecimento, a dualidade de opiniões, ah!, ele era bom por causa disso, mas tem isso, nisso ele não era bom, mas todos os presidentes não foram assim?

Não compreendo por que parecemos não ter no nosso passado nada que não seja vergonhoso ou criticável. Só o futebol escapa disso, mas nós somos mais do que isso, senão não estaríamos aqui. O Brasil não seria um país continental se tivéssemos tido governos tão ruins como se tenta passar historicamente. O monarca visa uma reflexão e um olhar positivo sobre a nossa história, sobre a nossa sociedade, sobre o que fomos e podemos ser. Não se trata de uma visão positiva do sistema monárquico, mas sim de uma visão positiva do passado monárquico que todos temos. Não são os argentinos que vão valorizar nosso passado monárquico, isso tem de partir de nós mesmos. Auto Estima Histórica.

Steampunk no rádio 3

Uma nova investida do steampunk no mundo dos podcasts. Desta vez com sotaque carioca acentuado: o escritor Eric Novello foi convidado para falar de suas novidades literárias no pod Agenda Cultural. Como entre os lançamentos está agendado para o próximo mês a coletânea Vaporpunk, parte do programa de 54 minutos foi dedicada a tratar da literatura steamer. Vale ouvir aqui e, abaixo, segue uma lista dos temas discutidos pela equipe:

Agenda Cultural com a participação do escritor/tradutor Eric Novello.  Amilton BrandãoFlávio Vieira e Mario Abbade complementam os participantes desta edição.  Confiram o bate papo sobre captura de movimento nos games, vampiros (de verdade!) na TV, o septuagésimo ano do maior detetive de todos os tempos…e muito mais.

Comentados na edição:

HQ
Literatura
Para maiores detalhes sobre o trabalho realizado pelo Eric, acesse http://ericnovello.com.br/.
Games
Música
Serie
Cinema
Extra
Dica da Semana

11.7.10

Capa, espartilho e tecnologia a vapor

Quem me chamou a atenção foi Adriana Amaral em uma nota em seu blog:


Continuando o debate sobre uma possível nerdificação do mundo, a Revista da Cultura publicou publicou uma matéria sobre a recente visibilidade dos nerds na cultura massiva, intitulada “A vez do aro grosso”. Vale conferir!



Seguindo a dica, fui conferir a matéria e descobri que a revista dedicou um espaço para a subcultura steampunk. De autoria de Gustavo Ranieri, "De volta ao passado" reuniu o depoimento de vários membros das mais diversas lojas do Conselho Steampunk, de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraíba, apresentando a seus leitores o que foi definido no subtítulo como: "Movimento cultural steampunk reúne os entusiastas da literatura fantástica e de uma era de capa, espartilho e tecnologia a vapor". Devo dizer que adorei o trocadilho com "capa e espartilho". Seguem o trecho inicial desta matéria e a foto que a ilustra:




Você sempre sentiu atração pelos elementos da literatura fantástica e da ficção científica? Tem fascínio pela revolução tecnológica da era a vapor? Acha charmoso e, às vezes, pensa que eram legais as roupas pomposas do século 19? Bem, você talvez seja um steampunker ou steamer e nem saiba. Hã? Steampunker? Steamer? Calma, não precisa se assustar. Esses são os modos para se referir aos adeptos do SteamPunk, movimento que agrega os entusiastas desta cultura que engloba elementos da literatura fantástica, ficção científica e da tecnologia visionária movida a vapor na Era Vitoriana. Continua.

8.7.10

Steampunk feito no Brasil 6

Uma pesquisada rápida no oráculo me ajudou a localizar mais um brasileiro se aventurando a escrever ficção steampunk - e ficção steampunk escrita e ambientada na Amazônia. Cláudio Carqueija é o nome do escritor - upgrade: na verdade é o pseudônimo, o nome real é Vinicius Alves do Amaral - e Afoturismos o do blog onde ele posta seus textos. O neologismo é um belo achado, em sua contração de aforismos e futurismo, e diz respeito a textos curtos, flash fiction, publicados por ele como pequenas visões do futuro, como uma ONG para canibais e a valorização das fontes de água. Mas o futuro não é o alvo deste blog, então vamos ver o que Carqueija escreve sobre o passado. Ele apresentou desta forma o projeto que está elaborando:

Esse conto faz parte de um projeto maior sobre a Amazônia. Na realidade comecei a criá-lo antes mesmo de vir para Manaus. Foi na metade do ano passado. A inspiração veio de diferentes lugares e tempos: em primeiro lugar, o curso de História da América Latina - estávamos discutindo então a idéia de civilização e bárbarie, enquanto estudávamos as independências latino-americanas, mais especificamente o caso argentino e brasileiro. Uniu-se á esse tema que muito me interessa os filmes Flyboys (adoro combates áereos e esse filme me pareceu o mais fiel até agora ao estilo) e Up-Altas Aventuras (achei interessantísimo a criatividade do filme e como ele aproveita esse ideal do aventureiro). E, finalmente, temos meu próprio ideal de Amazônia, que começou a ser revisto depois de entrar em contato com um pouco da história de região - principalmente no que tange á Ajuricaba, as icamiabas, O Mundo Perdido de Conan Doyle e etc.

Mas em que consiste o projeto? Como eu não quero estragar a surpresa, digamos que seja uma história sobre aventureiros (principalmente aviadores)na indomável Amazônia em um passado meio steamer contra piratas, zepelins, monstros e muito mais.

E vamos ver agora o trecho inicial do citado conto, que tem o título "Entre dois mal ou a segunda viagem dos Acuntsu":

Apinaã era bravo guerreiro, homem forte e de atitude. Mas desde que voltara do cativeiro, Apinaã mudou muito. Não olhava mais com o mesmo olhar os outros índios da taba. Era um olhar diferente. Ninguém sabia porque.

Os Acuntsu estavam passando por um momento delicado. Depois que conheceram os caraíbas tudo mudou. Esses caraíbas não eram como os anteriores, com quem eles negociavam quinquilharias. Esses caraíbas eram piores: queriam que sua tribo se ajoelha-se para eles, que a tribo usasse as roupas deles, que a tribo obedecesse ao chefe deles, o demônio caraíba.

Os Acuntsu eram grandes guerreiros no passado, lutaram bravamente contra a confederação dos barés anos antes. Eram uma das únicas tribos que se recusava a se unir á confederação. No entanto, os caraíbas tem armas muito potentes. Seus barcos feitos de metal, cuspindo fumaça, não sentem o peso das flechas e dos tiros de carabinas. Suas armas possuem mais balas que as carabinas e espingardas. Nas batalhas anteriores tanto os Acuntsu como os seus "irmãos", os Kadiwéu, foram massacrados.

Apinaã foi um dos que lutaram ao lado dos "irmãos" perto da foz do rio Jari. Ele matou muitos caraíbas, mas foi capturado. Ficou preso em uma jaula por dias. Da jaula ele podia ver os caraíbas surrarem seus amigos e "irmãos", quase todos os dias. Apinaã ficou com vergonha. Fico com vergonha de seu povo, por ser tão fraco, por não responder á altura.

Depois de duas semanas Apinaã foi solto. Os caraíbas pediram para que ele dissese á sua tribo que eles chegariam na aldeia em cinco dias. Era para eles escolherem: ou se rendem ou lutam. Apinaã agora estava mais envergonhado ainda: o destino dos grandes guerreiros é ser morto em combate, ele, por outro lado, foi preso e agora solto como um simples menino de recados. Apinaã sentia o peso da vergonha nas costas, por isso andava envergado agora. Continua.

7.7.10

Um confederado no planeta vermelho 2

Noventa e três anos depois de publicado pela primeira vez nos EUA, o clássico da ficção científica Uma princesa de Marte chegou finalmente às livrarias brasileiras, como anunciei em um post anterior. É muito tempo de espera, certo? Mas pelo menos a editora Aleph foi mais rápida que os estúdios Disney e o título chegou antes ao papel no Brasil que à película dos cinemas, já que ainda está em fase de produção o filme que vai adaptar essa mesma obra, o primeiro romance da longa carreira de Edgar Rice Burroughs (1875-1950). Para quem gosta de literatura steampunk, o livro é uma excelente referência e fonte certa de influência, por contar a história de Jack Carter, um ex-soldado da Guerra Civil americana (1861-1865) de alguma forma transportado para Marte, onde vive um ciclo de aventuras em meio à impressionante tecnologia bélica daquele planeta e dos habitantes divididos em duas castas separadas pela cor de suas peles. A história é um ótimo exemplo de como um escritor de FC nascido no século XIX imaginava artefatos como máquinas voadoras, edifícios mecanizados, armas explosivas... Uma oportunidade para quem hoje pretende lançar um olhar de retrofuturismo para aquele período, proposta maior do subgênero steamer.



Da mesma forma que o Tarzan das selvas africanas, a criação mais famosa de Burroughs, Jack Carter de Barsoom - como o lugar é chamado pelos nativos -  é um representante autêntico da literatura pulp, com tudo aquilo que isso representa. Escrita em capítulos para a revista All-Story Magazine, a obra é um festival de ação sem freios. A cada final de episódio, o autor precisava deixar os leitores suficientemente interessados em sua trama para desejarem retomar a aventura na próxima edição. Então tome situações de perigo, cenas de lutas anunciadas, planos descobertos, fugas planejadas e frustradas a cada um dos 28 capítulos que compõem o romance. E nessa fórmula não há muito espaço para os meios tons: entre as raças coloridas de marcianos, o terráqueo vai do ódio mortal aos homenzarrões verdes ao amor à primeira vista por sua princesa vermelha praticamente sem escalas.

Escrito como se fosse as memórias do ex-soldado confederado a respeito da década que passou em Marte, o livro teria sido apenas organizado por Edgar Rice Burroughs, sobrinho do verdadeiro autor. O prefácio que Burroughs assina e uma das notas de rodapé presentes na edição brasileira (a outra é do tradutor, Ricardo Giasseti) aumentam essa sensação metalinguística. Temos então a narrativa em primeira pessoa em tom mais que urgente de Carter, descrevendo todos os apuros que viveu no planeta vizinho. Na maior parte do tempo, funciona bem essa estratégia; porém, em alguns casos, ela falha já que a pressa foi tamanha a ponto de atropelar o enredo. O pior caso é a velocidade e a falta de detalhes com que o sulista narra o breve período em que viveu em uma espécie de versão marciana das arenas romanas. Tudo ali se passa de modo tão rápido que o leitor mal começa a se ambientar e o trecho já acabou. A linguagem extremamente simples do romance também pode irritar quem desaprove construções como esta, da página 191, com cara de boletim de ocorrência (os itálicos são meus) : "Antes de me recolher para dormir, prometeu que me daria uma carta para um produtor de uma plantação próxima que me ajudaria a chegar a Zodanga, que, segundo disse, era a cidade marciana mais próxima".

Agora, quem busca pelo fluxo de ação vertiginoso e pelo exercício de imaginação mais poderoso que a força da estética, deverá se divertir bastante com Uma princesa de Marte. As explicações para o poder explosivo dos armamentos dos alienígenas esverdeados ou para o modo como a raça vermelha domou espectros desconhecidos por nós da luz para mover suas naves voadoras são um excelente achado para os fãs da pulp fiction. A edição da Aleph é bastante caprichada com uma capa muito boa (apesar de semelhante demais às de uma outra série publicada por ela, a dos livros vampirescos da brasileira Nazareth Fonseca). Mas é bem difícil de imaginar que a editora paulista consiga trazer ao Brasil o restante da saga criada por Burroughs: mais uma dezena de livros protagonizados por Jack Carter, a princesa Dejah Thoris e seus descendentes. Seria mais fácil isso acontecer caso houvesse se popularizado por aqui o padrão original daqueles livrinhos, de formato de bolso, papel amarelado, capas apelativas, com preço bem reduzido...

5.7.10

Um steampunk da vida real

Se alguém perguntasse assim, de súbito, aposto como praticamente todos iriam errar: quem foi o primeiro homem a voar no Brasil com um mecanismo mais pesado que o ar? Arriscar um Alberto Santos-Dumont (1873-1932) seria certeza de erro, já que o brasileiro realizou sua aventura aérea em 1906 nos ares franceses mas nunca a repetiu em sua terra natal. A resposta correta foi dada pela tradutora Suzana Alexandria em parceria com o jornalista Salvador Nogueira no livro 1910 - O primeiro voo do Brasil: Dimitri Sensaud de Lavaud (1882-1947), um inventor nascido na Espanha que se considerava francês mas se radicou por aqui, onde, quatro anos após a aventura francesa do 14-Bis, decolou com uma máquina chamada São Paulo pelos céus de Osasco.

A cidade do interior paulista é onde nasceu a coautora da obra, sobre quem falei neste blog ao resenhar o livro Anno Dracula: "A tradução competente é de Susana Alexandria que, além de verter as palavras para o português, ainda compilou uma muito bem-vinda (mesmo que, como dificilmente deixaria de ser, incompleta) lista com 104 personagens históricos e fictícios retrabalhados pelo jornalista, crítico e escritor Kim Newman". O feito dessa osasquense agora foi o de resgatar essa história centenária que estava praticamente condenada ao esquecimento em nosso país. E ela o fez pela mesma editora que publicou a obra daquele escritor britânico, a Aleph. Suzana mantem um blog com mais detalhes sobre o livro que conta essa história quase steampunk, de como Lavaud idealizou com projeto e materiais nacionais o primeiro voo realizado na América do Sul. Abaixo, seguem a capa da obra e um trecho da biografia do inventor, publicada pelo Estadão, jornal que cobriu a demonstração pública em 1910 e que voltou a dedicar uma reportagem ao pioneirismo, digno de um romance steamer, exatemente um século depois.



Lavaud nasceu na Espanha, em 1882, filho do casamento de um francês com uma russa. Antes de se mudar para o Brasil, viveu na Suíça, Turquia e Grécia. Em Osasco desde 1898, a família Lavaud se instalou no chalé Bricola, construído menos de uma década antes pelo banqueiro Giovanni Bricola, no alto de um morro em uma área então distante do centro urbano. Seu pai comprou uma olaria e, em seguida, tornou-se sócio de indústrias de cerâmica da região.

Ainda adolescente, Lavaud já se dedicava a ler livros técnicos, construir barcos a vela e a jogar xadrez. Aos 26 anos, iniciou os projetos e cálculos para a realização de seu sonho: projetar e construir um avião. O aeroplano São Paulo, cujo esqueleto media 10,2 metros de comprimento por 10 metros de largura, ficou pronto em fins de 1909, e todas as suas peças foram feitas no Brasil.


"Ele era nosso Thomas Edison, um homem fantástico", compara o engenheiro civil Pierre Arthur Camps, citando o célebre inventor norte-americano. Camps, cujo avô era irmão da sogra de Lavaud, sempre foi um admirador da história do aviador. Em 2007, construiu uma réplica do São Paulo, doada ao Museu Asas de Um Sonho, mantido pela companhia aérea TAM na cidade de São Carlos, interior do Estado. "Levei um ano para construir o avião, com base em desenhos da época", recorda-se. "Precisei reprojetá-lo."

A carreira de Lavaud não se encerrou com o histórico voo. Acredita-se que ele tenha registrado cerca de 1,2 mil patentes diferentes, em vários países. Entre seus inventos, estão peças até hoje utilizadas pela indústria automobilística e aeronáutica, como tipos de chassis, freios, câmbios e hélices.

Em 1916, trocou o Brasil pelo Canadá. Na década de 20, mudou-se para a França - onde se estabeleceu até a sua morte, em 1947. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a ser preso, a mando dos alemães, para que contribuísse com conhecimento tecnológico. A embaixada brasileira na França atuou por sua libertação.
"Infelizmente, não cheguei a conviver com ele. Mas minha família sempre lembrava de sua história com orgulho, afinal foi um grande inventor", afirma a única de suas netas ainda viva, Martine Ryser de Souza e Silva, de 63 anos.

4.7.10

Drácula, a fanfic neovitoriana

Vampiros são a espécie favorita da literatura fantástica brasileira. O tempo passa e as ondas vampíricas vêm e vão, numa constante. Se nos últimos anos o destaque nessa área veio de escritoras, como Anne Rice e Stephanie Meyer, o impulso literário do mito teve origem com Bran Stoker (1847-1912) e seu romance Drácula, de 1897. Acabo de saber que essa obra mitológica vai ganhar uma fanfic, com direito a textos supostamente resgatados do original, protagonizada por personagens criados para uma webtira chamada Bram & Vlad.

A autora das tirinhas e da fanfic é a estudante de química, escritora e desenhista mineira Adriana Rodrigues. Ela que é uma das contistas da coletânea Meu amor é um vampiro, estrategicamente lançada pela editora Draco no último Dia dos Namorados, já havia provado que entende tanto das origens clássicas do mito quanto de suas versões mais atualizadas. Para constantar isso, recomendo sua série sobre a estilização do Vampiro, uma crítica muito consciente e bem fundamentada ao trabalho da citada Stephanie Meyer, responsável pela disseminação do que chamo de romance diabético - por misturar sangue com açúcar.

Em outro blog, Adriana lançou a novidade que batizou de Bram & Vlad Vitorianos, o que me chamou a atenção para este post. Abaixo, seguem a ilustração que ela fez para o projeto e trechos de sua introdução para essa fanfic neovitoriana.





Vitorianos? O que é isso, afinal?

"Vitoriano" é um adjetivo que caracteriza um período da história da Inglaterra, em que esse país foi governado pela Rainha Vitória. Isso aconteceu de meados para o fim do século XIX.

Muito do que somos hoje foi construído nesse período. O século XIX foi o século da razão, dando prosseguimento ao século XVIII, o século das luzes. Muitas ciências foram criadas e/ou estruturadas nessa época. A Inglaterra vivia um período de prosperidade e desenvolvimento. Na Literatura, o Romantismo e o Realismo lutavam entre si, um criado da ânsia pela fuga desse mundo tão "certinho" e "explicadinho" e o outro, pelo espírito de racionalidade que imperava na época.

Muitas de minhas obras preferidas são dessa época, além de gente famosa que vocês provavelmente reconhecerão: Sherlock Holmes, O Morro dos Ventos Uivantes, O Médico e o Monstro, Frankenstein, o Retrato de Dorian Grey, Júlio Verne e sua extensa prole (eu sei que ele não era inglês, mas FOI dessa época), Machado de Assis (no Brasil), e ele, claro. Drácula.

Perceberam o chiste? Drácula, a obra que inspirou Bram & Vlad ocorre em pleno período vitoriano. Portanto Bram & Vlad Vitorianos são ninguém mais, ninguém menos que Abraham Van Helsing e Vlad Drácula, os personagens de Bram Stoker. Continua.

As boas novas da Tarja para 2010

No dia 9 de junho, em um dos posts mais visitados e retuítados deste blog, publiquei uma mensagem de um dos sócios da Tarja Editorial, Richard Diegues, dando conta dos três anos de atividade da editora. O aniversário foi comemorado nesta sexta, dia 2 de julho, na capital paulistana. Durante a reunião de escritoes, editores e parceiros de empreitada, foram anunciados os lançamentos que a casa editorial vai trazer para a segunda metade deste ano. Um dos escritores presentes, Eric Novello, fez um apetitioso relato do que está porvir, incluindo na lista dois títulos internacionais, os primeiros a fazerem parte do catálogo da Tarja. Para quem aprecia a boa e a ótima literatura fantástica, a visita ao site é obrigatória. Segue abaixo somente a abertura do texto:


Sexta passada, no Bardo Batata, a Tarja Editorial comemorou 3 anos de vida e reuniu velhos conhecidos desordeiros que não saíam da tumba fazia muito tempo. Foi quase um O Retorno da Múmia 4. Acreditem se quiser, além de falar muita besteira, autores também conversam sobre literatura.  Num desses papos, Richard contabilizou por volta de 40 lançamentos na área de literatura fantástica para o segundo semestre e liberou a lista de títulos da Tarja que chegarão ao mercado. Continua.

Só posso aqui reforçar meus parabéns a todos os envolvidos nessas excelentes notícias e desejar o maior sucesso possível à editora e a todos os escritores, ilustradores, revisores, diagramadores e grande elenco que fazem parte dessa história.

3.7.10

Steampunk e história alternativa

Alguns posts atrás, utilizei um texto de Ana Cristina Rodrigues para fazer a associação entre Steampunk e fantasia histórica, defendendo que o subgênero pode ser combinado a outros elementos da literatura fantástica além da ficção científica. Neste sábado, em sua coluna no site Terra Magazine, Roberto de Sousa Causo faz uma referência a outro subgênero da FC como sendo uma das possibilidades ligadas à cultura literária steamer. O colunista e escritor estava se referindo à história alternativa uma vez que a pauta da coluna era a crítica a um dos clássicos absolutos da área: Complô contra a América, do americano Philip Roth. À certa altura, Causo se refere a primeira coletânea steamer brasileira, da qual é um dos contistas:

História alternativa é o subgênero da ficção científica que imagina o que aconteceria se a História como a conhecemos tivesse tomado um caminho diferente. Esse subgênero primeiro aparece no Brasil em 1989, com a novela de José J. Veiga, A Casca da Serpente, que trata de uma segunda comunidade fundada por Antonio Conselheiro, depois do Massacre de Canudos. Mas é com o escritor carioca Gerson Lodi-Ribeiro, cuja noveleta "A Ética da Traição" (1993) é considerada um clássico da história alternativa nacional, que esse enfoque passa a criar raízes mais fortes.


Em fins de 2009, Lodi-Ribeiro publicou o seu primeiro romance dentro dessa linha: Xochiquetzal: Uma Princesa Asteca entre os Incas, lançado pela Editora Draco e resenhado aqui em 13 de fevereiro de 2010. Esse parece ser apenas o título brasileiro mais visível de um novo momento da história alternativa no Brasil. A onda steampunk - iniciada com a antologia Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (Tarja Editorial) ano passado - também se comunica com a história alternativa, e há uma nova antologia steampunk prometida para breve, Vaporpunk, organizada pelo próprio Lodi-Ribeiro para a Draco. Além disso, a Tarja também está produzindo aquela que deverá ser a primeira antologia dedicada ao subgênero. E eu incluo o meu Selva Brasil, lançado este ano pela Draco, neste momento da história alternativa brasileira.

Em termos de traduções, tivemos os recentes Associação Judaica de Polícia, de Michael Chabon, resenhado aqui em 28 de fevereiro de 2009 - e até mesmo Anno Dracula, de Kim Newman, livro lançado pela Aleph em que narra como o vampiro Drácula teria ascendido ao poder no Reino Unido. A Aleph também relançou em 2006 o clássico de Philip K. Dick O Homem do Castelo Alto (1962), com tradução de Fábio Fernandes (que também resenhamos aqui, em 16 de dezembro de 2006)

Nesse quadro de crescimento da história alternativa no país, seria interessante dar uma olhada num dos seus melhores exemplos dos últimos anos: Complô contra a América, de Philip Roth, vencedor do Prêmio Sidewise para melhor romance de história alternativa. Continua.
Os interessados em aprofundar o debate sobre as ligações entre steampunk e história alternativa contam com uma obra de referência em português e ao alcance de um clique do seu mouse. Ensaios de história alternativa  é o nome do livro, ou melhor, do ebook, de autoria de um dos escritores citados naquela coluna: Gerson Lodi-Ribeiro. Compilação de textos escritos pelo carioca para o fanzine Megalon, o material é o mais completo disponível no Brasil a respeio de HA e conta com um capítulo dedicado ao subgênero steampunk. Nele, Ribeiro se vale dos verbetes da Encyclopedia of Science Fiction, de John Clute e Peter Nicholls para estabelecer as ligações possíveis entre as duas vertentes da literatura fantástica e, como bônus, ainda analisa algumas obras steamers que, de fato, também podem ser consideradas histórias alternativas. Uma delas que deve ser lançada ainda este ano no Brasil.

O melhor de tudo é que tal obra pode ser lida por todos gratuitamente. Ensaios de história alternativa está disponível para ser baixado gratuitamente e de modo legal pelo site da Scarium neste endereço. É a minha dica de leitura para este final de semana pós-Copa do Mundo.

2.7.10

Mais espaço para a literatura steampunk

 Já está virando uma autêntica chuva no molhado elogiar o pessoal da Loja da Paraíba do Conselho Steampunk neste blog, mas existem motivos para tanto. Depois da criação de uma comunidade steamer no Skoob e da divulgação do prêmio Locus para três obras do gênero, os paraibanos inauguram uma nova seção em seu site para dar ainda mais destaque à parte literária desta cultura. "Literatura a vapor" é o nome do espaço que pretende resenhar periodicamente obras steampunk, ou ao menos com influência no estilo, sejam nacionais ou estrangeiras. Em sua primeira edição, os títulos escolhidos foram The alchemy of stone, de Ekaterina Sedia, e o clássico Vinte mil léguas submarinas, de Jules Verne. As resenhas podem ser lidas aqui e estou conversando com Bruno Carvalho Melo para republicar por lá críticas feitas para este blog.