31.5.10

Vaporpunk virá no Fantasticon

No último post de 2009, este blog revelou com exclusividade a escalação da segunda coletânea com temática steampunk a ser lançada no Brasil no prazo de apenas um ano. Relembrem comigo:

A Vaporpunk é organizada por Gerson Lodi-Ribeiro (Brasil) e Luís Filipe Silva (Portugal). Deverá ter oito histórias, em sua maior parte noveletas, escritas por oito autores: cinco brasileiros mais  três portugueses.

Os brasileiros: Carlos Orsi Martinho; Eric Novello; Flávio Medeiros; Gerson Lodi-Ribeiro; e Octavio Aragão.


Os portugueses: João Ventura; Jorge Candeias; e Luís Filipe Silva (Nota de Update: leia-se Yves Robert no lugar do coeditor Luís Felipe Silva).

Atendendo à proposta das guidelines, a maioria das histórias se passa no Brasil ou em Portugal.

Havia faltado ainda confirmar uma data para que os brasileiros e portugueses pudessem ler o material. O editor da Draco, Erick Santos, me confirmou que o livro vai mesmo ser lançado durante a próxima Fantasticon, o simpósio anual de literatura fantástica que acontece na capital paulista. Este ano, o evento está marcado para os dias 27, 28 e 29 de agosto, na Biblioteca Viriato Correa, rua Sena Madureira, 298, na Vila Mariana. Mais do que isso, ele me autorizou a dar uma amostra do que os leitores vão poder encontrar nas 312 páginas de Vaporpunk. Com vocês, o primeiro parágrafo de "O dia da besta", noveleta do escritor Eric Novello, que mistura ambientação steamer com uma temática de fantasia urbana:

Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A mata densa e os ruídos noturnos alimentavam a imaginação dos soldados, já abalados pelo dia incomum. Há tempos os jardins não reuniam tantos homens de pernas bambas. Nenhum deles sabia ao certo o que a Guarda Imperial havia levado para o laboratório, e a maioria torcia para não ter que descobrir, rezando por um final de turno tranqüilo. As diversas histórias que corriam na cidade tinham em comum somente o teor de absurdo. Cada soldado, escravo ou comerciante mudava detalhes de modo a espelhar seus próprios temores. Estamos em guerra, uma guerra como nenhuma outra. Fomos atacados por criaturas de outro mundo, tão afastados que estamos da santa igreja. Só pode ser coisa da Argentina, uma nova tramóia daqueles invejosos. O que os bruxos uruguaios evocaram dessa vez? O medo exalava como o aroma das especiarias. O calor do alto verão não cedia há mais de um mês. Canelas, cravos e alecrins tão agradáveis separadamente enjoavam os homens já sem forças, o suor pingando-lhes da testa. A nota criativa dos pasquins de que os temperos disfarçavam o cheiro dos experimentos conduzidos no Centro de Pesquisa Pedro de Alcântara ganhara de repente uma estranha veracidade.

28.5.10

Um novo - e ilustrado - conto steampunk

Quando postei sobre a comenda que recebi do Monarca, escrevi que: "em breve uma outra novidade em relação ao Tiburcio será comentada por aqui, com direito a participação do protagonista da noveleta 'Cidade Phantástica', João Fumaça". Então, já posso comentar que, dias atrás, o ilustrador Tiburcio me mandou o desenho abaixo, e me convidou a escrever um conto baseado nele. Aceitei na hora e fiz em tempo recorde um novo conto protagonizado pelo personagem criado para a noveleta que dá nome a este blog. Em breve o texto completo vai ser enviado para uma nova publicação que está sendo produzida, para concorrer a um espaço nela. Mas como não queria deixar de mostrar a criação do meu caro ilustrador, aproveito para postar o desenho e o início do conto. Boa leitura!

Modelo B

Ruas do bairro Ponta de Areia, em Niterói, próximo ao estaleiro da cidade.





Eu sou um policial dos caminhos de ferro! Dos caminhos de ferro! Então o quê, em nome de Cristo, faço aqui, sacolejando nesta chaleira que se move por fora da confortável segurança dos trilhos? E correndo numa velocidade que nenhuma locomotiva do mundo seria capaz? Posso jurar que se o combustível na caldeira aqui atrás, a mesma que está esquentando minhas costas neste momento, fosse o suficiente, este monstro barulhento superaria uns bons cem, cento e dez quilômetros no decorrer de uma hora! Porém, evidentemente, nenhum ser humano suportaria ficar sentado nesta máquina de tortura por tanto tempo.

E a alavanca aqui, na minha mão esquerda, é o único jeito de controlar a velocidade. Quanto mais a forço para a frente, mais ela aciona engrenagens e válvulas liberando mais e mais a força do vapor para impulsionar o bólido. Pelo estalo seco e o tranco que fez da última vez, devo ter chegado ao máximo que ela suporta. E tenho que dosar a correria, apesar da urgência, a cada curva ou ladeira, do contrário, esta coisa pode virar e me esmagar com o seu peso. E isso não é a única coisa a ocupar minha atenção. Preciso me lembrar de manter esta outra barra, a da direita, firme. Quando ela gira para um lado ou para o outro, as rodas desta carruagem sem cavalos a acompanham. A cabeça de um homem não foi feita para se dividir nesta confusão de puxa para cima, empurra para o lado, mais rápido, para a direita... Isso é antinatural, por todos os diabos e demônios!

E quase atropelo um cachorro, se não desvio por cima da calçada, lá se ia o bicho!

Viajar fora de trilhos, nesta velocidade ensandecida, sacudindo os ossos numa rua de pedras soltas enquanto tenho que me lembrar como controlar um monstro de ferro ainda não chega a ser o pior. O pior mesmo é fazer isso tudo sem uma arma e tendo que me desviar das balas dos outros! Por isso eu volto a perguntar: o quê, em nome de Cristo, faço aqui, sacolejando nesta chaleira?

Continua.

27.5.10

Antologia reúne textos raros de Verne

A seção mais produtiva desde blog, já chegando quase às 30 postagens, é a que leva o nome de "Torre de Vigia", na qual busco compilar o material que sai em forma impressa ou eletrônica a respeito da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Ela surgiu no dia 12 de julho do ano passado, quando identifiquei alguns dos primeiros divulgadores a comentar o lançamento do livro e, entre esses, para minha surpresa, o pioneiro foi um blogueiro português, admirador do trabalho de um certo escritor muito importante para minha noveleta presente naquela obra:

O primeiro que percebi a comentar a coletânea foi justamente um observador de outra margem do oceano. Frederico J., grande entusiasta de Jules Verne e responsável por um blog que reúne impressionante quantidade de informações sobre o autor francês, fez um post ressaltando a presença do meu conto e de sua influência verniana.

Não foi a única vez que mencionei nosso colega europeu por aqui. Pouco mais de um mês depois, escrevi sobre uma outra iniciativa dele:

O autor clássico de Ficção Científica favorito deste blog é homenageado periodicamente com uma ótima revista que leva seu nome. O melhor é que Mundo Verne conta com uma edição em português cortesia de uma equipe que inclui o já citado por aqui Frederico J.

Eis que Frederico Jácome - só vim a descobrir seu nome completo há pouco - volta a me surpreender, agora com mais uma publicação dedicada ao pai da ficção científica. Ele, em parceria com o carioca Carlos Patrício, reuniu em uma antologia disponível gratuitamente uma série de textos raros do escritor francês, entre crônicas científicas, estudos literários, declarações, discursos e até mesmo contos que ainda estavam inéditos em português. O volume, com impressionantes 372 páginas virtuais, pode ser lido na rede Scribd e seus organizadores anunciam que este é apenas o primeiro; outro tomo já está sendo editado. "Finalmente conseguimos concretizar um dos meus desejos", enfatizou Jácome no fórum onde revelou a boa nova. Sorte dos apreciadores de Jules Verne que ele conta com um divulgador tão incansável quanto seu ídolo foi em vida.

Update: Jácome me informou nos comentários que o material foi modificado e republicado neste endereço.

25.5.10

Torre de Vigia 27

Aquela primeira citação da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário no site da Locus Magazine teve repercussão no blog de Bruce Sterling. No dia 20 deste mês, o escritor americano reproduziu o texto de abertura de Jeff VanderMeer, que organizou um panorama da FC em mundo não-anglófono, e ainda as apresentações que Fábio Fernandes, um dos contistas do livro nacional, fez para a coletânea steamer e para o livro de história alternativa Xochiquetzal - Uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro. É uma curiosa união entre a revista na qual o termo "steampunk" surgiu pela primeira vez e o autor responsável -ao lado de William Gibson - pelo romance considerado o inaugural do gênero.

O post de Bruce Sterling pode ser lido aqui e abaixo vou reproduzir a tradução que fiz do comentário de Fábio Fernandes a respeito da coletânea:

Steampunk—Histórias de Um Passado Extraordinário, editada por Gianpaolo Celli (Tarja Editorial) Esta é a primeira antologia brasileira de Steampunk, com nove histórias que variam do weird à ficção alternativa (brasileira e estrangeira) igualmente apresentando personagens de Jules Verne e de Conan Doyle. Há também uma história minha lá, uma versão de um conto publicado anteriormente em inglês, em 2009. O steampunk está crescendo rapidamente como uma subcultura no Brasil, e esta antologia tem merecido muitas resenhas em diversos blogs e sites steamers.

O Sul é Steampunk

Com o anúncio de uma nova loja do Conselho Steampunk no Sul do país, esta passa a ser a primeira região brasileira a contar com representações em todos os seus estados. Já havia a representante gaúcha e a mais recente do Paraná, e quem se une a elas neste momento é minha conterrânea de Santa Catarina. Ainda não conta com um site como as demais, porém pode ser acessada em redes sociais: por perfil no Twitter e por uma comunidade no Orkut. A imagem que ilustra esta nota de boas vindas é a mesma que foi escolhida para ilustrar ambos os avatares deles. Assim sendo, o Cidade Phantástica saúda mais essa iniciativa, será muito bom ver o vapor prosperar em terras catarinenses também!

Mais Spaceblooks 2

Saiu o terceiro relato sobre o debate steampunk durante o evento Spaceblooks. Após o texto dos participantes Alexandre Lancaster e Gerson Lodi-Ribeiro, agora foi a vez do escritor e designer Octavio Aragão, que dividiu a curadoria do ciclo de conversas com Toinho Castro. Pela resenha publicada em seu blog pessoal, este que foi o terceiro e último encontro desta primeira versão da iniciativa contou com alguns diferenciais em relação aos demais. Segue um páragrafo do texto, remetendo os leitores à íntegra aqui:

Essa talvez tenha sido a mesa onde o conceito de bate papo melhor funcionou, com os debatedores cedendo a palavra uns aos outros e tomando-a de volta eventualmente. Além disso, com certeza foi a mais bem sucedida no quesito “pescaria”, ou seja, aquele efeito que atrai o público incidental, que está ali para ver os livros, mas acaba gostando do papo e se aproxima para ouvir um poucochito, coroando o final da SpaceBlooks, que deixou a todos com gosto de quero mais e melhores mundos.

24.5.10

Uma comenda do Monarca

Já falei sobre o trabalho de Tiburcio por duas vezes neste blog. A primeira, quando comentei sua webtira Meu Monarca Favorito, foi no dia 19 de abril; a segunda, no dia 23 daquele mês, foi para apresentar a renovação no visual do Cidade Phantástica que ele proporcionou ao criar a colagem que pode ser vista no topo da página e no banner aqui ao lado. Bem, agora volto a falar desse ilustrador e quadrinista já que ele tornou pública uma verdadeira comenda que me foi concedida por aquele Monarca do século XIX que protagoniza suas histórias. Reproduzo o post a seguir, mas antes aviso que em breve uma outra novidade em relação ao Tiburcio será comentada por aqui, com direito a participação do protagonista da noveleta "Cidade Phantástica", João Fumaça. Ao texto, com meus agradecimentos:


Monarca gosta de presentear aqueles leitores que se propõem a ajudar na forma de sugestões, comentários e que divulgam a sua webcomic. Por isso alguns fãs e colaboradores desta HQ estão recebendo via correio esse bottom com o escudo do Império.
Para fazer juz a essa comenda basta ajudar também na divulgação do Monarca, que no tempo apropriado entraremos em contato solicitando seu endereço para o envio da mesma com os nosso agradecimentos! É a nossa forma de dizer muito obrigado!

AGRACIADOS:
André Lasak
Romeu Martins
Alexandre Nagado
Fábio Ciccone
Consuelo Froes da Cruz
Takren
Gui Branco
Wesley Samp

Gustavo Torreti
Regina Gonçalves
e
Erick Hartmann
A todos o nosso muito obrigado!


Mais Spaceblooks

O relato desta vez do debate sobre steampunk ocorrido na última quinta-feira no Rio de Janeiro coube a outro dos participantes da mesa-redonda: Gerson Lodi-Ribeiro, que está organizando a segunda coletânea do gênero a sair em nosso páis, a Vaporpunk. Extraio do blog do escritor e editor um trecho de sua crônica, lembrando que a íntegra pode ser lida aqui:


Convidados da Spaceblooks 3

Como já havia feito na segunda Spaceblooks, Octavio apresentou os três participantes da mesa e em seguida me passou a palavra. Enunciei brevemente o que o cânone considera steampunk, com direito a citações de St. Peter (Nicholls) em favor de O Homem-Elefante e O Jovem Sherlock Holmes, para em seguida me confessar um herege e apresentar minha própria visão subgênero menos restritiva que a ortodoxia pregada na Encyclopedia of Science Fiction, a Bíblia do gênero. Tendo procurado seguir minha própria exegese do subgênero, tanto no âmbito da antologia que estou organizando quanto fora dela.

Em seguida, Fausto Fawcett falou sobre as interseções entre as narrativas da ciência e tecnologia do passado e a tecnologia real do presente e do futuro próximo. Lutando para se entender com seu microfone, Lancaster falou sobre as edisonades norte-americanas escritas no século XIX e sua influência na FCB escrita no subgênero pulp no século XXI.

Encerrada a primeira fala dos três convidados, iniciamos um bate-bola sobre futurismo, criatividade, ficção científica, história alternativa e até mesmo um pouco de steampunk.

23.5.10

E por falar no Lancaster...

Alexandre Lancaster, como eu havia noticiado por aqui, participou na última quinta-feira de um evento que discutiu a cultura steam no Rio de Janeiro. Para relembrar, trecho do meu post do dia 15 de abril:

A livraria carioca Blooks prepara para o próximo mês um ciclo de debates sobre várias vertentes e mídias da FC, incluindo aí o subgênero steampunk. Iniciativa do escritor Octavio Aragão, um dos pioneiros do Brasil a escrever uma obra steamer, como falei neste post sobre o aniversário de Jules Verne, o Space Blooks - Ciclo de bate-papo sobre ficção científica vai reunir dez personalidades em três encontros, o último deles dedicado exclusivanente ao tema deste blog. Dois dos debatedores são escritores presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Fábio Fernandes e Alexandre Lancaster. 

O debatedor fez um relato de sua participação naquele evento no blog dedicado ao seu mangá steampunk em fase de produção Expresso!. Abaixo, vou citar uma parte do texto que pode ser lido por completo aqui:


Expresso!

Tive oportunidade de falar um pouco sobre minha história. E isso levantou dois pontos em especial que eu gostaria de recordar.

Vivemos em uma sociedade na qual somos enquadrados desde que nascemos; somos ensinados a nos mediocrizar. Eu tomei como ponto de partida, para minha série, um evento literário: o livro Steam Man of the Prairies de Edward S. Ellis (aliás, as revistas juvenis do século passado foram um manancial imenso para Expresso!). Poucas coisas são mais simbólicas do que um garoto anão e corcunda, vivendo na pobreza, construindo por conta própria um robô a vapor para buscar um tesouro.

Claro que Expresso! é antes de mais nada uma história de entretenimento. Não quero ficar passando sermão a ninguém – isso tornaria tudo muito, muito chato. No entanto, proatividade é um conceito muito importante para minha história e não é a toa que eu citei, na “capa” do biombo em que expus algumas páginas, duas citações: uma de Marinetti e outra, no segundo biombo, de Goethe (”… no princípio era a Ação!”). Não porque eu queira realmente trazer respeitabilidade haute-couture para minhas obras. Quem se sustenta não precisa de muletas. Mas eu acho que poucas vezes esse sentimento de iniciativa foi tão bem traduzido em palavras. Eu tive que recordar isso.

Expresso! acaba sendo realmente sobre a iniciativa própria e a força transformadora do indivíduo, a medida em que se trabalha com algum subtom confrontacional. Somos ensinados a nos adequar, e temos personagens que querem reescrever as regras do mundo. E quem ganha com a mediocrização – ou, pior ainda, aqueles para quem a proatividade incomoda porque levanta a bola da sua própria mediocridade por comparação – tende a reagir imediatamente.

Retrofuturismo oriental

Uma ótima notícia para este dia é a volta às atividades do site Maximum Cosmo, após semanas de atraso em suas atualizações devido a uma série de problemas técnicos enfretados por seu proprietário, o jornalista, quadrinista e escritor Alexandre "Lancaster" Soaraes. Um dos contistas presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, com o texto "A música das esferas", noveleta mais pop do livro, ele também é um expert na cultura de massa nipônica, principalmente no que se trata na produção dos quadrinhos e das animações japonesas.

Para celebrar esse retorno, o blogueiro uniu essas duas pontas, e um dos artigos que ele produziu nas postagens deste domingo é justamente sobre como o steampunk se desenvolveu no Japão e passou a ser representado nessas mídias. Extenso, explicativo e muito bem pesquisado, "A revisitação neovitoriana made in Japan" é uma leitura mais que recomendada para quem gostaria de saber mais sobre como o gênero steamer é trabalhado em outras latitudes. Lancaster fornece uma lista e tanto de obras e de autores, juntamente com uma análise do porquê da popularidade deste tema no páis do sol nascente. Fiquem abaixo com a abertura do material, mas não deixem de ler a versão completa aqui:



Last Exile

É algo a se reparar: os japoneses sempre tiveram uma atracão por uma estética neovitoriana/ neoedwardiana, antes mesmo disso ser notado como tendência ao redor do mundo. Pode ser reparada em detalhes: trajes escolares, desde sempre, seguem ainda um molde de inspiração prussiana, abotoando tudo até o pescoço (tem almas pouco perspicazes que sentem inveja dos uniformes japoneses e acham nossos uniformes uma pobreza só, mas quero ver o que essas pessoas sem noção de realidade achariam de usar esses trajes pretos e abotoados aos 42 graus do verão carioca). O traje de marujo que as meninas usam na escola também é herança de época, remetendo aos velhos trajes para crianças do começo do século XX. Há um gosto para formalismos visuais em várias ocasiões sociais - e pensando bem, , o japonês tem um gosto pelo formalismo de modo geral; esse tipo de estética casa bem com esse tipo de atitude – vide a moda Lolita, além do culto a mordomos e empregadas uniformizadas, que também remetem a essa atracão pelo passado, embora esses trajes pareçam mais com as roupas das bonecas que ficavam nas prateleiras dos quartos das meninas de boa família da época do que dos trajes dessas meninas em si. Boa parte dos desenhos para meninas dos anos setenta parece beber das referências da literatura para moças de tempos idos – acha que haveria algo como Candy Candy sem a popularidade que autoras como L. M. Montgomery, Louisa May Alcott, Frances Hodgson Burnett e outras construíram ao longo de décadas por lá? Não torçam o nariz; não podemos falar nada: o clássico absoluto da demagogia declarada – Pollyanna, de Eleanor H. Porter – até hoje é enfronhado na nossa cultura popular, mesmo após décadas. Muitas vezes, o referencial que os japoneses parecem ter do velho mundo também parece não ter ido muito longe desses tempos idos, e como sabemos, o Japão é especialista em reprocessar e devolver em forma de cultura pop tudo o que lhes cai em mãos, sob novo filtro.

Não é de se espantar que em um momento aonde muito se fala do Steampunk como tendência, uma olhada mais atenta mostra que ele já era cultivado em terras nipônicas antes de ser nomeado como tal.

21.5.10

Um museu de velhas novidades

O excesso de chuvas na Grande Florianópolis - especificamente em cima do meu telhado, que não aguentou a pressão e me brindou com várias goteiras - e a dedicação a um novo conto steampunk - quando eu souber onde publicá-lo, darei um toque - me deixaram meio longe do blog nos últimos dias. Para ir voltando aos poucos, destaco abaixo um post da Loja Paraná do Conselho Steampunk que anuncia uma exposição de legítimos artigos steamers:
Damas e Cavalheiros,

durante nosso primeiro evento, faremos uma exposição de instrumentos antigos do início do sec. XX.


Já conseguimos 15 instrumentos dignos de nosso Museu Steampunk (microscópio, máquinas fotográficas, radiola, potenciômetro, galvanômetro, resistências, ponte de resistência, ferrite, testador de válvulas (com válvulas), esfera celeste, termômetro e copo antigo, fogão a querosene), todos pertencentes aos períodos de 1920 ou 1930 e estarão expostos para observação aos participantes steamers presentes.
Continue a leitura e veja mais fotos aqui.

16.5.10

O vapor na virada

Pelo jeito foi um evento e tanto. Nos próximos dias devem surgir relatos nos blogs e sites especializados sobre como foi a presença da Malta do Vapor na Virada Cultural de São Paulo. Vou citar abaixo a parte final de uma matéria do portal G1, que entrevistou e fotografou membros do Conselho Steampunk e ainda mencionou a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. A íntegra pode ser lida aqui:



É possível encontrar vikings barbudos, personagens de animês,
 senhoritas medievais e jogadores de RPG.É possível encontrar vikings barbudos, personagens de animês, senhoritas medievais e jogadores de RPG. (Foto: Raul Zito/G1)
Apesar de também terem uma inspiração histórica, os membros do Conselho Steampunk não se preocupam tanto com fidelidade histórica. O movimento foi fundado a partir do livro "The difference engine", dos escritores de ficção científica William Gibson e Bruce Sterling, que mostrava um mundo vitoriano onde a energia a vapor era muito mais evoluída do que o século XX histórico. Outra obra conhecida do estilo é "A liga extraordinária", quadrinho de Alan Moore que virou filme estrelado por Sean Connery.

"O movimento não é tão conhecido no Brasil, mas está crescendo bastante", conta Cândido Ruiz, fundador do Conselho. "A estética do steampunk impressiona, e a gente traz diferentes culturas: moda, artes plásticas, artesanato. A gente usa esse apelo para levar literatura às pessoas".

Em 2009, saiu uma coletânea de contos de autores brasileiros sobre o tema, e até o fim do ano deve sair a versão brasiliera de "The difference engine", pela editora Aleph. "Devemos fazer ainda este ano o nosso primeiro evento nacional", diz Ruiz. Se depender da variedade da Virada Nerd, esse não deve ser o único.

13.5.10

Torre de vigia 26 - Na Locus novamente

O que escrevi no dia 12 de março continua valendo:

Juro que não canso de me surpreender. Agora, a primeira coletânea brasileira steampunk acaba de surgir em uma nova lista internacional. Mas não é "mais uma" lista internacional. Por vários motivos. Primeiro, porque ela aparece no blog da Locus, uma das mais importantes revistas dedicadas à ficção científica em todo o mundo. Segundo, porque foi compilada por Jeff VanderMeer, escritor e organizador de coletâneas que se tornam referências obrigatórias no assunto. Terceiro, porque quem elaborou o segmento brasileiro da listagem - que contempla ainda o romance de História Alternativa Xochiquetzal - Uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro, e a trilogia hard Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife - é Fábio Fernandes, também uma referência nacional, e cada vez mais internacional, nesta e em outras áreas.

Se já foi uma surpresa a coletânea ter aparecido no blog da Locus, agora a sensação é ainda maior ao constatar que o livro foi citado na própria edição impressa, em uma uma reportagem internacional sobre a ficção científica no Brasil, de maio deste ano. A autoria do texto é de um dos contistas presentes na obra e colunista do site Terra Magazine, Roberto de Sousa Causo. Na matéria de duas páginas, ele comenta sobre os diversos lançamentos de literatura fantástica nacional que ocorreram a partir da segunda metade de 2009. A coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário é citada no momento em que o correspondente fala a respeito do evento em que ela chegou ao público, a última edição do Fantasticon.

Causo relembra que o livro foi lançado logo após um painel que discutiu o gênero, que contou com a participação do organizador da obra, Gianpaolo Celli, do escritor Fábio Fernandes e do empresário Bruno Accioly, do Conselho Steampunk. Parte do grupo de debatedores aparece entre as várias fotos e reproduções de capas de livros que ilustram o artigo. Abaixo, seguem cópias das páginas da matéria. A revista pode ser adquirida pelo seu site. E minha surpresa continua.