23.5.10

E por falar no Lancaster...

Alexandre Lancaster, como eu havia noticiado por aqui, participou na última quinta-feira de um evento que discutiu a cultura steam no Rio de Janeiro. Para relembrar, trecho do meu post do dia 15 de abril:

A livraria carioca Blooks prepara para o próximo mês um ciclo de debates sobre várias vertentes e mídias da FC, incluindo aí o subgênero steampunk. Iniciativa do escritor Octavio Aragão, um dos pioneiros do Brasil a escrever uma obra steamer, como falei neste post sobre o aniversário de Jules Verne, o Space Blooks - Ciclo de bate-papo sobre ficção científica vai reunir dez personalidades em três encontros, o último deles dedicado exclusivanente ao tema deste blog. Dois dos debatedores são escritores presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Fábio Fernandes e Alexandre Lancaster. 

O debatedor fez um relato de sua participação naquele evento no blog dedicado ao seu mangá steampunk em fase de produção Expresso!. Abaixo, vou citar uma parte do texto que pode ser lido por completo aqui:


Expresso!

Tive oportunidade de falar um pouco sobre minha história. E isso levantou dois pontos em especial que eu gostaria de recordar.

Vivemos em uma sociedade na qual somos enquadrados desde que nascemos; somos ensinados a nos mediocrizar. Eu tomei como ponto de partida, para minha série, um evento literário: o livro Steam Man of the Prairies de Edward S. Ellis (aliás, as revistas juvenis do século passado foram um manancial imenso para Expresso!). Poucas coisas são mais simbólicas do que um garoto anão e corcunda, vivendo na pobreza, construindo por conta própria um robô a vapor para buscar um tesouro.

Claro que Expresso! é antes de mais nada uma história de entretenimento. Não quero ficar passando sermão a ninguém – isso tornaria tudo muito, muito chato. No entanto, proatividade é um conceito muito importante para minha história e não é a toa que eu citei, na “capa” do biombo em que expus algumas páginas, duas citações: uma de Marinetti e outra, no segundo biombo, de Goethe (”… no princípio era a Ação!”). Não porque eu queira realmente trazer respeitabilidade haute-couture para minhas obras. Quem se sustenta não precisa de muletas. Mas eu acho que poucas vezes esse sentimento de iniciativa foi tão bem traduzido em palavras. Eu tive que recordar isso.

Expresso! acaba sendo realmente sobre a iniciativa própria e a força transformadora do indivíduo, a medida em que se trabalha com algum subtom confrontacional. Somos ensinados a nos adequar, e temos personagens que querem reescrever as regras do mundo. E quem ganha com a mediocrização – ou, pior ainda, aqueles para quem a proatividade incomoda porque levanta a bola da sua própria mediocridade por comparação – tende a reagir imediatamente.

Retrofuturismo oriental

Uma ótima notícia para este dia é a volta às atividades do site Maximum Cosmo, após semanas de atraso em suas atualizações devido a uma série de problemas técnicos enfretados por seu proprietário, o jornalista, quadrinista e escritor Alexandre "Lancaster" Soaraes. Um dos contistas presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, com o texto "A música das esferas", noveleta mais pop do livro, ele também é um expert na cultura de massa nipônica, principalmente no que se trata na produção dos quadrinhos e das animações japonesas.

Para celebrar esse retorno, o blogueiro uniu essas duas pontas, e um dos artigos que ele produziu nas postagens deste domingo é justamente sobre como o steampunk se desenvolveu no Japão e passou a ser representado nessas mídias. Extenso, explicativo e muito bem pesquisado, "A revisitação neovitoriana made in Japan" é uma leitura mais que recomendada para quem gostaria de saber mais sobre como o gênero steamer é trabalhado em outras latitudes. Lancaster fornece uma lista e tanto de obras e de autores, juntamente com uma análise do porquê da popularidade deste tema no páis do sol nascente. Fiquem abaixo com a abertura do material, mas não deixem de ler a versão completa aqui:



Last Exile

É algo a se reparar: os japoneses sempre tiveram uma atracão por uma estética neovitoriana/ neoedwardiana, antes mesmo disso ser notado como tendência ao redor do mundo. Pode ser reparada em detalhes: trajes escolares, desde sempre, seguem ainda um molde de inspiração prussiana, abotoando tudo até o pescoço (tem almas pouco perspicazes que sentem inveja dos uniformes japoneses e acham nossos uniformes uma pobreza só, mas quero ver o que essas pessoas sem noção de realidade achariam de usar esses trajes pretos e abotoados aos 42 graus do verão carioca). O traje de marujo que as meninas usam na escola também é herança de época, remetendo aos velhos trajes para crianças do começo do século XX. Há um gosto para formalismos visuais em várias ocasiões sociais - e pensando bem, , o japonês tem um gosto pelo formalismo de modo geral; esse tipo de estética casa bem com esse tipo de atitude – vide a moda Lolita, além do culto a mordomos e empregadas uniformizadas, que também remetem a essa atracão pelo passado, embora esses trajes pareçam mais com as roupas das bonecas que ficavam nas prateleiras dos quartos das meninas de boa família da época do que dos trajes dessas meninas em si. Boa parte dos desenhos para meninas dos anos setenta parece beber das referências da literatura para moças de tempos idos – acha que haveria algo como Candy Candy sem a popularidade que autoras como L. M. Montgomery, Louisa May Alcott, Frances Hodgson Burnett e outras construíram ao longo de décadas por lá? Não torçam o nariz; não podemos falar nada: o clássico absoluto da demagogia declarada – Pollyanna, de Eleanor H. Porter – até hoje é enfronhado na nossa cultura popular, mesmo após décadas. Muitas vezes, o referencial que os japoneses parecem ter do velho mundo também parece não ter ido muito longe desses tempos idos, e como sabemos, o Japão é especialista em reprocessar e devolver em forma de cultura pop tudo o que lhes cai em mãos, sob novo filtro.

Não é de se espantar que em um momento aonde muito se fala do Steampunk como tendência, uma olhada mais atenta mostra que ele já era cultivado em terras nipônicas antes de ser nomeado como tal.

21.5.10

Um museu de velhas novidades

O excesso de chuvas na Grande Florianópolis - especificamente em cima do meu telhado, que não aguentou a pressão e me brindou com várias goteiras - e a dedicação a um novo conto steampunk - quando eu souber onde publicá-lo, darei um toque - me deixaram meio longe do blog nos últimos dias. Para ir voltando aos poucos, destaco abaixo um post da Loja Paraná do Conselho Steampunk que anuncia uma exposição de legítimos artigos steamers:
Damas e Cavalheiros,

durante nosso primeiro evento, faremos uma exposição de instrumentos antigos do início do sec. XX.


Já conseguimos 15 instrumentos dignos de nosso Museu Steampunk (microscópio, máquinas fotográficas, radiola, potenciômetro, galvanômetro, resistências, ponte de resistência, ferrite, testador de válvulas (com válvulas), esfera celeste, termômetro e copo antigo, fogão a querosene), todos pertencentes aos períodos de 1920 ou 1930 e estarão expostos para observação aos participantes steamers presentes.
Continue a leitura e veja mais fotos aqui.

16.5.10

O vapor na virada

Pelo jeito foi um evento e tanto. Nos próximos dias devem surgir relatos nos blogs e sites especializados sobre como foi a presença da Malta do Vapor na Virada Cultural de São Paulo. Vou citar abaixo a parte final de uma matéria do portal G1, que entrevistou e fotografou membros do Conselho Steampunk e ainda mencionou a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. A íntegra pode ser lida aqui:



É possível encontrar vikings barbudos, personagens de animês,
 senhoritas medievais e jogadores de RPG.É possível encontrar vikings barbudos, personagens de animês, senhoritas medievais e jogadores de RPG. (Foto: Raul Zito/G1)
Apesar de também terem uma inspiração histórica, os membros do Conselho Steampunk não se preocupam tanto com fidelidade histórica. O movimento foi fundado a partir do livro "The difference engine", dos escritores de ficção científica William Gibson e Bruce Sterling, que mostrava um mundo vitoriano onde a energia a vapor era muito mais evoluída do que o século XX histórico. Outra obra conhecida do estilo é "A liga extraordinária", quadrinho de Alan Moore que virou filme estrelado por Sean Connery.

"O movimento não é tão conhecido no Brasil, mas está crescendo bastante", conta Cândido Ruiz, fundador do Conselho. "A estética do steampunk impressiona, e a gente traz diferentes culturas: moda, artes plásticas, artesanato. A gente usa esse apelo para levar literatura às pessoas".

Em 2009, saiu uma coletânea de contos de autores brasileiros sobre o tema, e até o fim do ano deve sair a versão brasiliera de "The difference engine", pela editora Aleph. "Devemos fazer ainda este ano o nosso primeiro evento nacional", diz Ruiz. Se depender da variedade da Virada Nerd, esse não deve ser o único.

13.5.10

Torre de vigia 26 - Na Locus novamente

O que escrevi no dia 12 de março continua valendo:

Juro que não canso de me surpreender. Agora, a primeira coletânea brasileira steampunk acaba de surgir em uma nova lista internacional. Mas não é "mais uma" lista internacional. Por vários motivos. Primeiro, porque ela aparece no blog da Locus, uma das mais importantes revistas dedicadas à ficção científica em todo o mundo. Segundo, porque foi compilada por Jeff VanderMeer, escritor e organizador de coletâneas que se tornam referências obrigatórias no assunto. Terceiro, porque quem elaborou o segmento brasileiro da listagem - que contempla ainda o romance de História Alternativa Xochiquetzal - Uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro, e a trilogia hard Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife - é Fábio Fernandes, também uma referência nacional, e cada vez mais internacional, nesta e em outras áreas.

Se já foi uma surpresa a coletânea ter aparecido no blog da Locus, agora a sensação é ainda maior ao constatar que o livro foi citado na própria edição impressa, em uma uma reportagem internacional sobre a ficção científica no Brasil, de maio deste ano. A autoria do texto é de um dos contistas presentes na obra e colunista do site Terra Magazine, Roberto de Sousa Causo. Na matéria de duas páginas, ele comenta sobre os diversos lançamentos de literatura fantástica nacional que ocorreram a partir da segunda metade de 2009. A coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário é citada no momento em que o correspondente fala a respeito do evento em que ela chegou ao público, a última edição do Fantasticon.

Causo relembra que o livro foi lançado logo após um painel que discutiu o gênero, que contou com a participação do organizador da obra, Gianpaolo Celli, do escritor Fábio Fernandes e do empresário Bruno Accioly, do Conselho Steampunk. Parte do grupo de debatedores aparece entre as várias fotos e reproduções de capas de livros que ilustram o artigo. Abaixo, seguem cópias das páginas da matéria. A revista pode ser adquirida pelo seu site. E minha surpresa continua.

Outras criações de Águia 1

Quando descobri o trabalho de Águia 1 no site Escala 1 Sexto não imaginei o quanto ele era prolífico em suas criações. Pesquisando mais no arquivo daquela página fui descobrindo outras criações com base retrofuturista que ele se utilizou em seus projetos. Uma delas é outra típica criação steampunk, chamada por seu criador de "A Mecânica":



No fórum, ele explicou que se baseou num personagem recorrente nesta linha de histórias e deu a ficha do material utilizado naquele projeto:

"Cabeça Cy Girl
Corpo Takara
Macacão Cy Girl
Capuz ... é de um russo não lembro
Martelo BBI
ferramentas
Botas Triad"

Mas não é apenas o mundo do vapor que inspira o homem. Aqui vai outra versão feminina para um personagem de filme, no caso, Capitão Sky e o Mundo do Amanhã, também de 2004, mas este um representante do subgênero dieselpunk.



Como de hábito, ele informou a lista de peças e acessórios empregados em sua Fly Captain:

"Corpo Perfect Body
Catsuit ZCGirl Carol
Botas Dragon Matilda (customizadas)
Jaqueta Tribute of Valor
Cachecol customizado
Quepe Dragon Luft.
Video radio Customizado
Lazer CyGirl Aurora"

E, para finalizar, outra mistura de épocas. Dessa vez, de um passado ainda mais remoto que os tempos vitorianos, e inspirado em um RPG chamado Hellgate, Águia 1 criou Joana 21, a versão contemporânea de Joana D'Arc (1412-1431).



Segundo suas informações no fórum, nesta figura ele utilizou:

"Corpo Cy Girl 2.0
Cabeça Triad toys Night Stalker
Armadura, espada e escudo Dragon da série Timeline
Botas cy cirl Cutei Honey
Macacão ojinfirmary
M-16 BBI
Cinto da Joana Dark"

Vou ficar atento a novas invenções desse Sillof brasileiro. Qualquer novidade, postarei por aqui.

Conheçam Lady Van Helsing

Comentei sobre o trabalho de um dos customizadores de figuras de ação do site Escala 1 Sexto em dois posts anteriores - este e aquele. Águia 1 volta a ser assunto aqui pois ele acabou de completar mais uma de suas criações com influência steampunk e postou fotografias dela no fórum daquele site. Como ele é o especialista local em figuras femininas, há cerca de dez anos colecionando e criando personagens neste segmento, não é surpresa que a novidade seja outra pequena dama do vapor. A surpresa fica por conta da inspiração mais recente desse morador de São Paulo.


Águia 1 deu o nome de Lady Van Helsing a seu novo projeto. A ideia foi, como fica claro na imagem acima, fazer uma versão feminina do personagem interpretado por Hugh Jackman no filme Van Helsing, de 2004.



Devo dizer que acho aquela obra pavorosa, apesar da ótima premissa original - utilizar o personagem criado por Bran Stoker (1847-1912) para o romance Drácula como um caçador de outros monstros que, a exemplo do vampiro, viraram filmes clássicos de horror. Mas gostei muito da recriação feita pelo brasileiro.



Ele detalhou o material utilizado em sua versão:

"Corpo e cabeça Perfect Body
Capote CyGirl
Calça customizada
Corpete customizado
Camisa da ZCWorld
Cinto BBI
Cachecol customizado
Botas Triad
Chapéu, não lembro foi muito tempo atrás
Crossbow ou besta da Sideshow"


E o ponto de partida para essa customização foi esta arma, a besta-metralhadora utilizada pelo personagem do filme, que foi lançada pela empresa Sideshow na adaptação oficial do longa-metragem para figura de ação. Certamente, prefiro a versão não-oficial de Águia 1.

12.5.10

Vai ter vapor na Virada 2

Havia falado da Virada Cultural de São Paulo dias atrás. Ontem e hoje recebi reiterados convites para participar do evento que vai mobilizar o próximo fim de semana da maior cidade do país. Por motivos muito alheios à minha vontade não poderei ir e nem sei dizer quando vou poder voltar a São Paulo. Porém, reproduzo a seguir o convite feito pelo editor Gianpaolo Celli, organizador da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, e deixo meus votos para que o evento seja tão produtivo quanto divertido a tantos quantos puderem ir. Boa festa!



Estou escrevendo para avisar que neste domingo, 16 de maio, nós da Tarja estaremos, a convite do Conselho Steampunk, participando da Virada Cultural 2010.
 
A partir das 9h da manhã estaremos no Stand 18, DIMENSÃO NERD, na Praça Roosevelt.
 
Durante o evento teremos:
  
No PALCO, das 10h às 11h – palestra sobre Historia Alternativa e Steampunk
 
Das 11h30 às 14h  – sessão de venda e autógrafos com os autores presentes.

A partir das 14h30 – Mesa de RPG multimídia de Castelo Falkenstein.
 
Aproveite seu domingo para saber o que há de novo no mercado, botar o papo em dia, rever velhos amigos e conhecer novos. Não perca! Contamos com sua presença.
 
Para mais informações: http://viradacultural.org/programacao

Fronteiras da fantasia

O título acima é o mesmo de uma série que o escritor, tradutor e roteirista Eric Novello vem desenvolvendo em seu blog pessoal. Na segunda e mais recente postagem, ele citou a este blog e a meu resenhista convidado logo abaixo, ao comentar sobre o livro Baronato de Shoah e o steampunk mais ligado à fantasia, no lugar dos costumeiros cenários de ficção científica. Seleciono trechos a seguir, lembrando que a íntegra pode ser lida aqui:

Terminei esses dias o copidesque de O Baronato de Shoah, de Roberto Vieira. O Zero (para os íntimos) anunciou a criação do livro passo a passo no twitter, chamando a atenção do público e da editora. Desde então, a história vem passando por um processo de reconstrução e amadurecimento, e eu entrei na etapa final. O Baronato une a estética steampunk, mais comumente relacionada à FC, com a ambientação da dark fantasy (a fantasia que não é fofinha cheia de fadas e elfos cintilantes). O Zero é de uma geração que viu os games evoluírem e levarem narrativas complexas ao mercado, apresentando clímaxes que competem de igual para igual com as produções Hollywoodianas. Como não poderia deixar de ser, sofre influência direta disso, mas de um jeito positivo (...)

O livro tem uma narrativa fragmentada que acompanha um pequeno grupo de heróis desde o colégio (uma escola que prepara guerreiros) até seus derradeiros destinos. A grande questão abordada é como um jovem se reposiciona diante da guerra, como ele redimensiona seus valores e o que ele faz quando o que quer é diferente do que a “sociedade” espera dele.

Se você se interessou pelo gênero (cada vez menos sub) Steampunk, um bom site de referência é o Cidade Phantástica, de Romeu Martins, com links para diversas fontes de informações. Quem tiver curiosidade sobre o Baronato de Shoah pode visitar o blog do autor Roberto Vieira. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2010.

Através do espelho

A caótica programação de filmes nas salas de cinema de Florianópolis me aprontou mais uma e me deixou sem poder ver uma das obras que eu mais aguardava nesta temporada: O mundo imaginário de Dr. Parnassus. Como o diretor Terry Gillian, ex-Monty Phyton, tem uma grande contribuição para o acervo visual do steampunk - desde que lançou em meados dos anos 80 Brazil, o filme - esse era um longa que eu planejava resenhar por aqui. Não deu para fazer isso pessoalmente, mas o escritor José Roberto Vieira, autor de Baronato de Shoah, aceitou meu convite para escrever sobre a obra. Segue o texto, com meus agradecimentos a ele.

Em uma época onde releituras, remakes, restarts e todos os demais “res” empesteiam nossos cinemas e a criatividade de Hollywood parece se esgotar a cada lançamento, surge um filme que se salva do modismo, apresentando um roteiro inédito, inteligente e capaz de conquistar o mais duro dos corações: The Imaginarium of Doctor Parnassus.

A mais nova película de Terry Gilliam é uma fantástica aventura na mente do Doutor que dá nome ao filme. Estrelado por não menos que Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrew no mesmo papel: Tony, um desmemoriado e provavelmente a figura mais carismática do filme.

Enganado pelo diabo, Parnassus tenta, de diversas formas, ser feliz e levar a vida normalmente, mesmo sendo um imortal com mais de mil anos. Acompanhado de sua bela filha Valentina; Anton, um menino de rua malabarista; e Percy, um anão, o “Mundo Imaginário do Doutor Parnassus” apresenta-se de cidade em cidade, como um circo itinerante e decadente cuja única atração é um espelho mágico, que, segundo dizem, é capaz de dar experiências incríveis àqueles que ousarem atravessá-lo.

E são essas experiências que são divididas com os espectadores, através de imagens fabulosas e um enredo totalmente bem amarrado e consistente, como só Gilliam consegue apresentar. Cada imagem, cada cor, é o símbolo de outra coisa, uma realidade existente em nosso mundo e incapaz de se revelar de outra forma – a não ser que tenha ajuda da imaginação.

Tudo, no fim das contas, é mais uma aposta feita entre Parnassus e o Diabo, que se parecem muito mais com amigos de longa data do que com rivais. Pessoas cujos pontos de vista foram alterados ao longo dos anos, e o sentido de “Bem” e “Mal” carecem de limites humanos e simples filosofia. Há certos momentos em que a plateia não sabe mais quem é quem, e se não fossem as aparências, ambos se confundiriam.

Vale lembrar, que é através do espelho, que vemos a última interpretação de Heath Ledger… e, infelizmente, nem a brilhante imaginação de Parnassus ou a astúcia macabra do Diabo são capazes de vencer a senhora da Foice.

11.5.10

E já que o assunto é arte...

... deixem-me pelo menos fazer o registro hoje - já que a perda de conexão ontem tornou isso impossível - da morte de um dos meus ídolos. Frank Frazetta morreu nesta segunda-feira, dia 10 de maio, aos 82 anos, deixando para trás um legado artístico que revolucionou a fantasia e a ficção científica. Se hoje há tamanho interesse por um subgênero como o steampunk, com tanta atenção pela parte estética, visual, muito se deve a pessoas como esse nova-iorquino, criador de mundos e responsável pela popularização de personagens como Conan, criação máxima de Robert E. Howard (1906-1936). Deixo vocês com o início do texto de André Forastieri dedicado a esse artista, publicado hoje de manhã em seu blog no portal R7:


Frank Frazetta era boa pinta como um ator coadjuvante em um policial noir - um italianinho do Brooklyn musculoso, topetudo, com um sorriso canastrão. Era bom no desenho e no baseball - chegou a ser chamado para os New York Giants.

Frank passou a vida dividido entre ser esportista e artista. Malhou a vida toda. Atingiu o melhor equilíbrio. Frank, morto ontem, foi um dos ilustradores mais influentes do século 20 - e suas criações exibem a explosão muscular de um atleta nato. 

Aos 16 anos, 1944, Frank estreou ilustrando quadrinhos. Na década seguinte faria de tudo um pouco, sempre aprendendo, sempre na melhor companhia. Foi, por nove anos, assistente de Al Capp em Ferdinando; publicou na EC Comics, editora dos melhores quadrinhos adultos do período; trabalhou com Harvey Kurtzman no clássico erótico da Playboy, Little Annie Fanny; desenhou de faroestes a Buck Rogers.

Smaller - Reprodução

Foi como ilustrador que deixaria sua maior marca. Primeiro, de pôsteres de cinema. Desenhou 15 pôsteres de 1965 a 1983, de O que é que há, Gatinha a A Festa do Monstro Maluco a Mad Max. Pagava bem melhor que quadrinhos - quatro, cinco mil dólares, o que Frazetta ganhava em um ano. 

Destructeur - Reprodução
  Barbarian - Reprodução
Mais importantes ainda foram suas capas de livro. A partir de 1966, Frazetta passou a ilustrar as capas da série Conan - e simplesmente reinventou a estética da literatura fantástica, disparando uma nova onda de interesse por fantasia e ficção científica e influenciando milhares de ilustradores pelo mundo afora.

Sem Frazetta não existiria a série em quadrinhos de Conan, muito menos os filmes. Suas capas para Tarzan fizeram o homem-macaco popular de novo; as ilustrações para a série John Carter of Mars, de Edgar Rice Burroughs, conectaram fantasia espacial com a nova geração dos 60 - do rock, das drogas, da contracultura.

Steampunk em imagens

Gabriela Barbosa da Loja Paraíba do Conselho Steampunk deu início a uma série de matérias a respeito de um dos aspectos que mais chama a atenção na cultura steamer: o apelo visual, a arte inspirada nas divagações retrofuturistas do gênero. Em seu primeiro artigo, ela escolheu um tema bastante incomum, como podem ler abaixo, no trecho inicial e nas primeiras imagens escolhidas por ela:


Não é difícil encontrar na internet novidades acerca do steampunk. Como gosto muito de arte, fico encantada quando encontro objetos criados dentro da estética steam.

Tendo acumulado muitos links e imagens, resolvi fazer uma série de publicações para divulgação desses artistas. Se você também é um desses e quer ver seu material aqui, deixe um comentário.
Hoje vamos nos dedicar aos insetos. Achou estranho?!

O artista multidisciplinar (como se autoclassifica) Mike Libby ao encontrar um besouro morto intacto e localizar um antigo relógio de pulso, pensou que o besouro era semelhante a um pequeno dispositivo mecânico, então resolveu juntar os dois. Dissecou o besouro e o equipou com peças de relógio, resultando numa linda escultura.


A partir daí, Libby criou o Insect Lab. Ele compra insetos reais de várias partes do mundo e faz o mesmo procedimento, com peças de relógio, máquinas de costura, de escrever, etc.

“Na ficção científica, os insetos são frequentemente apresentados como robôs. [...] De Cronos à Bússola de Ouro o inseto/protótipo de robô usado, reutilização e re-imaginado inúmeras vezes. “
“Na realidade, os engenheiros olham para o movimento dos insetos, o desing das asas entre outras características como inspiração para novas tecnologias”
“Essa hibridização entre insetos e tecnologia é onde o Insect Lab empresta. [...] O trabalho não tem intenção de funcionar, mas de insistir alegre e maliciosamente de que foi possível.” M.Libby
(Tradução livre de trechos retirados do .COM PROSA)


E não para por aí. Gabriela criou um espaço no Tumblr chamado Distopias Utópicas no qual também faz a compilação de arte steampunk. Por lá, ela comentou um pouco sobre o gênero e também falou da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário:


Steampunk, ou Vapor Punk

Oriundo do CyberPunk, considerado inicialmente um subgênero da ficção científica, o Steampunk se passa numa realidade alternativa. Você já deve ter parado para pensar algum dia da sua vida: “se [isso] tivesse acontecido, como seria hoje?!”, não?!

Então, imagine que a Era Vitoriana tivessse continuado, que o século XIX tivesse sido um completo sucesso e sua cultura tivesse perpetuado! Um mundo com tecnologia movida a vapor! Isso é puro Steampunk (...)

No Brasil, o Steampunk cresce a passos largos. Em 2009 foi lançado pela Tarja o livro de contos Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, agora em 2010 temos outra obra saindo que é O Baronato de Shoah. Além disso, o Conselho Steampunk está se mobilizando para que esse seja  Ano do Vapor
                                      

10.5.10

Steampunk feito no Brasil 5

Um de meus contos favoritos na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário é "A flor do estrume", do jornalista Antonio Luiz M. C. Costa, uma visão retrofuturista das ciências médicas em um Brasil que figura entre as potências do XIX. O universo daquela noveleta havia sido delineado por seu autor em uma edição da revista em que trabalha, a CartaCapital, na forma de um artigo na época em que se comemoravam os 500 anos do Descobrimento do Brasil. Aquele texto especulava o que poderia ter acontecido com nosso país caso Dom Sebastião (1554-1578) não houvesse desaparecido na cruzada que promoveu no Marrocos, deixando para trás não apenas o trono de Portugal vago, mas toda uma crise dinástica que levou a perda da independência do reino e ao início de um processo de decadência lusitano. Com o título de "Outros 500" o ensaio jornalístico é a origem tanto de "A flor do estrume" quanto de um novo texto que Costa acaba de publicar em seu livro virtual na rede social aoLimiar: "O Istmo do Doutor Moreira".

Novamente, o escritor deixou de lado o alvo preferencial dos autores steampunk - mecanismos movidos a vapor - para se voltar a avanços na área médica. O texto aqui, que havia sido publicado anteriormente nos documentos do jornalista na rede Scribd, é muito provavelmente a mais instigante especulação do tipo que já li. Ele imagina, naquele cenário de um Brasil muito mais avançado economica e cientificamente, o dilema do médico citado no título da história. Descendente de portugueses, católico, rico e conservador, Afonso Fialho Moreira (1719-1801) tornou-se conhecido no mundo inteiro por ter identificado, na década de 1760, os fatores sanguíneos A, B, AB e O, descobrindo os motivos por trás da incompatibilidade de transplantes e de transfusões entre pacientes. Por ironia, esse conhecimento o ajudaria a entender o quanto ele estava impotente para tratar sua filha mais nova, Maria Isabel de Almeida Moreira, chamada de Bebel pelos familiares, nascida em 1767, e portadora de uma rara e mortal forma de anemia congênita.

A única maneira que o doutor encontrou para poder ajudar sua filha foi a proposta de uma técnica revolucionária e que provocou reações de repúdio em boa parte da sociedade da época. Ele teria que encontrar algum voluntário disposto a se tornar uma espécie de xipófago artificial com Maria Isabel, compartilhando com ela, pernanentemente, o sistema sanguíneo, tornando-se assim um doador constante do fluido que a garota necessitava para sobreviver. Depois de dispensados vários voluntários, fenotipicamente mais semelhantes à paciente mas incopatíveis na genética, a única alternativa que se demonstrou viável foi o tipo mais improvável possível. Um jovem negro, pobre, muçulmano chamado Mamadu Baldé. Escrito na forma de um artigo de divulgação científica para uma publicação especializada - Revista História e Ciência, de julho de 1897, pela pesquisadora Ester Arias Carvalho -, é desta forma que a noveleta descreve o curioso procedimento:


Depois de uma semana de preparação, a operação foi realizada em 15 de dezembro de 1779. Não cabe esmiuçar aqui os pormenores. Basta dizer que os sistemas circulatórios dos dois adolescentes foram conectados por artérias dos antebraços, formando o que o doutor chamou de “istmo arterio-venoso radio-ulnar” e a imprensa de “istmo do doutor Moreira”. A ligação foi assegurada por placas e pinos de platina que prendiam solidamente os ossos do antebraço direito de Mamadu, que era canhoto, ao antebraço esquerdo de Bebel. Devido à fragilidade desta, a usou-se apenas anestesia local (cocaína).

O que se segue nas páginas seguintes dessa noveleta são os avanços secundários que tal operação médica causou na sociedade brasileira de fins do século XVIII. A união forçada dos dois jovens de culturas tão diferentes provocou uma rápida reforma nos sistemas religiosos e sociais do país, com algumas implicações políticas que atingem até mesmo as decisões tomadas pelo Imperador e inspiram correntes adversárias à monarquia. Provavelmente, seria mais fácil de acompanhar todo esse desenrolar paralelo ao cotidiano daquela dupla se o texto fosse acompanhado de material que descrevesse melhor os pontos de divergência e a linha do tempo adotada naquele universo. Para quem não conhece os bastidores de "Outros 500"  e de "A flor do estrume" pode ser bem mais difícil acompanhar algumas referências, por exemplo, aos métodos contraceptivos e sobre a identidade dos mandatários do Império. Mesmo assim, é um texto que vale a leitura, pela abordagem inusitada que faz dos avanços científicos e das consequências inesperadas que ele pode provocar.