20.4.10

Eyjafjallajökull e a cultura steamer

Fábio Fernandes, escritor, especialista em cybercultura e um dos contistas presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, deixou para os leitores de seu blog, o Pós-estranho, uma reflexão sobre os motivos para o atual interesse mundial em torno da cultura steamer. O mote para a reflexão foi a atual sucessão de tragédias naturais, das quais a erupção do vulcão islandês Eyjafjallajökull é apenas a mais recente de um ano que está sendo marcado por sucessivos terremotos e por chuvas muito acima das médias históricas. Abaixo, deixo vocês com o trecho inicial do artigo dele, que pode ser lido aqui, e com uma foto daquele vulcão que me foi enviada por Giseli Ramos e que pode ser vista aqui:


É um pensamento que me ocorreu há algum tempo (na verdade, depois dos terremotos do Haiti e do Chile) e que agora, com a erupção do vulcão Eyjafjallajökull, me instiga ainda mais: será que o interesse pela cultura steamer não traduz, em vez de um desejo ou de uma mera brincadeira estética, uma preocupação inconsciente com o retorno a uma era tecnológica menos avançada -- ou um momento tecnológico de virada em que nos são apresentadas alternativas para nossa vida neste momento? Será que o movimento steampunk não é uma maneira que a espécie, culturalmente falando, encontrou para apresentar essas alternativas?

Colin Wilson, em O Oculto (salvo engano) disse que nós somos as partes visíveis de Deus. Se você acredita ou não num ser superior, não faz diferença, não é esta a questão; um bom steamer ateu diria que somos todos engrenagens de uma Grande Máquina. Será que a Grande Máquina não está dando um jeito de nos programar para, como espécie (nem que seja apenas como subcultura), pensarmos em alternativas viáveis para um possível dia em que as catástrofes naturais nos impeçam de usar a tecnologia do século vinte e um?

19.4.10

Mais vapor em Rascunhos

A divulgadora de literatura fantástica Cristina Alves volta a falar sobre o subgênero steampunk em seu obrigatório blog Rascunhos. Em suas últimas dicas a resenhista portuguesa destacou duas obras. A primeira delas, como já comentada neste blog, contará com a presença de um brasileiro, Fábio Fernandes, em uma versão para o inglês de sua noveleta publicada na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário.  Confira o trecho abaixo e leia a íntegra aqui:

Ann e Jeff Vandermeer organizaram uma antologia de contos Steampunk em 2008, com o nome do género.

Dois anos após o sucesso da primeira, será publicada agora a antologia Steampunk II: Steampunk Reloaded através da Tachyon, contando com autores como Gail Carriger, Ekaterina Sedia, Fabio Fernandes, Brian Stableford, Margo Lanagan ou Caitlín R. Kiernan. Para uma completa lista de conteúdos podem consultar o blog de Jeff Vandermeer, Ecstatic Days .

Para além destes contos, dentro do género Steampunk vão também ser lançados alguns livros, como The Dream of Perpetual Motion, de Dexter Palmer. Decorrendo numa realidade alternativa, conta a história de Harold Winslow, aprisionado a bordo de um zeppelin, acompanhado pela voz de Miranda, a única mulher que amou, e pelo corpo gelado do pai, Prospero, um génio e magnata industrial.

The tale of Harold’s life is also one of an alternate reality, a lucid waking dream in which the well-heeled have mechanical men for servants, where the realms of fairy tales can be built from scratch, where replicas of deserted islands exist within skyscrapers..

Um certo monarca do século XIX

Tiburcio, quadrinista e ilustrador conhecido dos leitores por seu trabalho publicado na revista Mad, está desenvolvendo desde o início deste ano uma tirinha na rede com uma ambientação muito próxima aos trabalhos da cultura steampunk. Claramente inspirada nos últimos dias do Império do Brasil, Meu Monarca Favorito narra as desventuras de um rei fictício, de um país fictício, em pleno século XIX, cercado de ameaças à sua coroa.

Com um clima leve, acompanhamos uma série de conspiradores republicanos, civis e militares, cobiçando o poder do Monarca anônimo, mas cujas aparência e personalidade remetem instantaneamente a nosso conhecido D. Pedro II (1825-1891). As webtiras são postadas duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos domingos, com algumas postagens intermediárias para apresentar novos personagens ou para dar alguma ilustração de brinde aos leitores, como foi o caso das que permitem a impressão de cédulas do dinheiro que circula naquela monarquia - o mango imperial - ou a que mostra a aparência da bandeira e das armas do país. As atualizações podem ser acompanhadas ainda pelo Twitter do cartunista, o que gerou o desenho perfeitamente steamer do computador ao lado.

Abaixo, reproduzo uma das tiras de Meu Monarca Favorito, a mais recente no momento em que escrevo este post. É um capítulo com um gosto especial para quem aprecia o retrofuturismo, protagonizado pelo Sr. Platelminto, um personagem aparentemente à frente de seu tempo, espécie de antecessor dos marqueteiros. Na verdade, como Tiburcio havia explicado em um post anterior, a inspiração para o rapaz veio de passado ainda mais remoto, dos tempos de outro império: o romano. Platelminto seria baseado em Quinto Túlio Cícero, irmão caçula do mais famoso Marco Túlio Cícero (106 a.C - 43 a.C), apontado pelo historiador José Murilo de Carvalho como o pioneiro no marketing político. Na tira a seguir, Platelminto aparece como o criador de outra profissão que costuma atrapalhar a vida de quem tem telefone em casa até os dias de hoje... Clique na imagem para ampliar e fique de olho nos episódios semanais dessa tira quase steampunk.

15.4.10

Steampunk em debate no Rio

A livraria carioca Blooks prepara para o próximo mês um ciclo de debates sobre várias vertentes e mídias da FC, incluindo aí o subgênero steampunk. Iniciativa do escritor Octavio Aragão, um dos pioneiros do Brasil a escrever uma obra steamer, como falei neste post sobre o aniversário de Jules Verne, o Space Blooks - Ciclo de bate-papo sobre ficção científica vai reunir dez personalidades em três encontros, o último deles dedicado exclusivanente ao tema deste blog. Dois dos debatedores são escritores presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Fábio Fernandes e Alexandre Lancaster. Abaixo, segue a lista de convidados e assuntos a serem debatidos, conforme anunciado no site da livraria por Toinho Castro, que divide a curadoria do evento com Aragão:

  • Dia 6 de maio, 19h | Cinema e Ficção Científica: o escritor e roteirista Bráulio Tavares, o animador César Coelho, o jornalista do Globo Rodrigo Fonseca e o jornalista Eduardo Souza Lima, o Zé José.

  • Dia 13 de maio, 19h |Ficção científica na Internet: Os escritores Fábio Fernandes, Ana Cristina Rodrigues e Saint-Clair Stockler expõem seus sucessos e vitórias nesse território de bravos.

  • Dia 20 de maio, 19h |Steampunk:  o escritor e editor Gérson Lodi-Ribeiro, o ilustrador Alexandre Lancaster e o multimidiático Fausto Fawcett falam sobre suas visões de passado na última mesa da noite.
A Books Livraria fica na Praia de Botafogo, 316, junto ao cinema Arteplex.

13.4.10

Torre de Vigia 24

Como havia prometido em um post anterior, eis a resenha de Ana Carolina da Silveira na seção Torre de Vigia. Em seu blog Leitura Escrita, a escritora começou o texto com uma introdução ao livro e passou a resenhar cada uma das noveletas de Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Como de hábito, vou reproduzir o início do post e o comentário dela a meu conto, no qual foi a primeira pessoa a comentar um certo easter egg presente em "Cidade Phantástica". O texto integal pode ser lido aqui.


O Brasil, feliz ou infelizmente, é o “país do futuro”, que jamais chega. Tivemos várias oportunidades históricas de saltos de desenvolvimento, mas acabamos por ficar para trás. Nós, mais do que a grande maioria das nações, temos na pele o sentimento do que poderia ter sido, mas por várias razões não foi. Agora vivemos um período de crescimento e prosperidade, mas estaremos escolhendo os rumos certos? Será que finalmente viraremos o país do presente?

Mas quantos planos não foram frustrados, embriões de bonança abortados, sonhos partidos? Quantos futuros não poderíamos ter tido, não fossem os mais diversos fatores?

O steampunk lida, como já dito antes, com um futuro que não foi. Como nós, brasileiros, enxergaríamos então um passado glorioso que poderia ter sido?

Bom, primeiro é preciso dizer que o steampunk demorou a pegar no Brasil, tendo sido mais divulgado só a partir da segunda metade da década de 2000 (apesar de já existir como gênero desde 1990). Não saíram muitas obras steampunk estrangeiras no Brasil, dá para destacar principalmente o RPG Castelo Falkenstein e os quadrinhos d’A Liga Extraordinária, mas não muito mais do que isso.

O primeiro livro genuinamente nacional a tratar do steampunk foi a coletânea Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, lançada pela Tarja Editorial em 2009. A Tarja, como quem acompanha o blog já sabe, é uma editora voltada principalmente para a ficção especulativa nacional e vem lançando trabalhos bem interessantes de nossos autores.

A edição é muito bem cuidada, o projeto editorial é bem legal, é um livro bonito de se ter em mãos. Foram convidados para compô-los vários autores, de vários estilos, mostrando sua visão do steampunk.
Interessante perceber também que a coletânea teve repercussão internacional, ganhando resenha do crítico literário estadunidense Larry Nolan, em seu blog, que dá destaque à obra dentro do cenário da ficção especulativa latino-americana (...)
 
Cidade Phantástica, de Romeu Martins
– Uma aventura steampunk no Rio de Janeiro imperial, onde alguns fatos políticos ocorreram de maneira diferente de nossa realidade, como a ausência da Guerra do Paraguai e uma abolição décadas antes da real, além da aparição de personagens ficcionais brasileiros, como o pai da Sinhá Moça, que faz uma participação especial, e certo vilão muito conhecido. Aqui acontece algo inverso ao primeiro conto do livro: o conto tem pegada, tem empatia… mas tem alguns probleminhas de desenvolvimento. A trama é um bocadinho confusa, como se três histórias estivessem fundidas em uma só e fossem contadas em conjunto, mas sem delineamento. Achei uma pena, porque faltou só uma acertadinha de pilares para termos aqui um conto muito bom.

12.4.10

Bruce Sterling rides again... again

O mentor do steampunk volta a dar destaque para a produção brasileira em seu blog. Sim, Bruce Sterling já havia tratado do Brazilian Steampunk antes, o que foi noticiado neste blog aqui e aqui. Agora, novamente por inciativa do empresário Bruno Accioly, cofundador do Conselho Steampunk, ele foi informado da movimentação da cultura steamer neste lado do globo.

No email que o brasileiro lhe enviou, publicado pelo escritor em seu blog na Wired, tanto ele quanto os leitores de sua página são informados oficialmente sobre o Ano do Vapor em nosso país. O que inclui, entre as várias atividades promovidas pelo Conselho, a publicação da versão nacional pela editora Aleph do romance que começou tudo: The difference engine, a obra que Sterling escreveu em parceria com William Gibson e deu a forma moderna a esse subgênero. O americano se mostrou muito surpreso com o nome niporrusso - "magnificamente improvável" - de sua tradutora e foi pesquisar a existência de Ludimila Hashimoto no Twitter.

Bruno Accioly manifestou ainda a intenção do seu grupo em relação à divulgação da cultura movida a vapor. "Nós estamos estamos tentando construir um steampunk brasileiro que não seja apenas sobre estilo, moda e beleza, estamos tentando ir além do entretenimento para educar o público de uma maneira lúdica, usando a estética fascinante da Belle Époque, da Era Vitoriana, do século XIX, como a cobertura de açúcar de uma ferramenta educacional poderosa e uma forma obviamente importante de comunicar os problemas do presente enquanto fala divertidamente sobre o passado ficcional do steampunk". No seu comentário em resposta, Sterling não só deu apoio e demonstrou entender sobre o que o missivista falava como ainda provou ser um bom conhecedor do jeito certo de se fazer uma caipirinha.

10.4.10

Nostalgia revisitada

A advogada e escritora mineira Ana Carolina Silveira prometeu para breve uma resenha da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário em seu blog Leitura Escrita (adoro o nome dessa página). Assim que ela fizer isso, entra na minha seção de clipagem - aquela cujos títulos sempre são Torre de Vigia -, porém, antes de mais nada ela resolveu fazer uma bela introdução ao tema de onde extrai algumas passagens abaixo. A íntegra pode ser lida aqui:

Todos nós somos um pouco saudosistas, alguns mais, outros menos. É comum ouvirmos coisas como “no meu tempo as coisas eram melhores”, “no meu tempo tudo era diferente” e outras variantes. A nostalgia é parte de nós, ainda mais quando estamos diante de tempos difíceis e precisamos recorrer a lembranças de quando tudo era seguro e agradável.

O Steampunk, como gênero literário, também é uma espécie de releitura do saudosismo. O gênero é uma derivação do cyberpunk (aqui cabe um parêntesis para falar da ironia de falar do cyberpunk como uma projeção de um futuro que já chegou), que trata de como a humanidade estaria em um futuro próximo dominado pela alta tecnologia, principalmente a computacional, e onde as diferenças sociais se agravariam ainda mais pelo fortalecimento e ascensão das megacorporações e pelo crescimento de uma classe social posta à margem do progresso.

Já o steampunk parte da seguinte premissa: a tecnologia do vapor (“steam”, em inglês) surgiu no final do século XVIII-início do século XIX e foi determinante tanto para a industrialização (Revolução Industrial, baby) quanto, por via de consequência, da expansão do Império Britânico ocorrida no período vitoriano (chamado assim por ter coincidido com o longo reinado da Rainha Vitória). O século XIX também assistiu a ascensão do positivismo – e da aplicação mais rigorosa do método científico – e avanços científicos como o delineamento da evolução, por Darwin, e maiores conhecimentos sobre eletromagnetismo e química, que muito influenciaram as descobertas e teoremas elaborados posteriormente por Bohr, Curie, Einstein… Foi um século de luzes.

(...)Mas engana-se quem limita o steampunk à especulação tecnológica. O elemento “punk” que veio de seu tronco principal – o cyberpunk – diz respeito, também e principalmente, à crítica social. O século XIX e o Império Britânico foram o berço da civilização e da inovação científica? Foram sim, mas também promoveram a exploração, matança e divisão da África, o que gera consequências gravíssimas até hoje, assim como um sistema de colonização opressivo no Oriente Médio e Ásia (e que também foi responsável por vários frutos colhidos ao longo do século XX…). Também foi a época da exploração dos operários pelos industriais, o que gerou movimentos de revolta e propiciou o início de várias lutas sociais e movimentos políticos. Não houve apenas luzes, mas uma boa dose de trevas…

(...)Claro que não é minha intenção falar do steampunk como um todo, mas só dar uma introduçãozinha. Algumas pessoas fazem/fizeram melhor do que eu, aí uma lista de links para quem quiser se aprofundar no assunto:

Portal Steampunk: a maior página, com várias informações, sobre o steampunk no Brasil. Bem interessante.

Cidade Phantastica: Blog bem legal do Romeu Martins, também sobre steampunk em geral

Papo de Artista Steampunk: Do podcast do multiartista e multitarefas Rod Reis, com participação especial minha e do pessoal do Papo na Estante. Vale colocar no iPod.

Steampunk na TV 2

No finalzinho de setembro do ano passado escrevi aqui:

A coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário foi lançada durante o Fantasticon 2009, evento organizado por Silvio Alexandre no mesmo local em que vai ocorrer, em novembro, uma nova atividade ligada ao gênero. O lançamento do livro foi marcado ainda por uma mesa redonda que discutiu e apresentou a cultura steamer aos brasileiros.

Aquela conversa reuniu o organizador da coletânea, Gian Celli, editor da Tarja, um dos autores, Fábio Fernandes, e o empresário Bruno Accioly, fundador do Conselho Steampunk. A boa notícia para os que perderam o evento ou para aqueles que querem rever a discussão é que agora a mesa redonda está disponível na rede, no site da TV Cronópios. Clicando aqui você pode assistir à mesa "Steampunk e os novos rumos da ficção científica".

O gênero voltou a conquistar espaço na televisão esta semana. Primeiramente foi o colunista social Amaury Jr., da Rede TV!, quem convidou dois representantes da Loja São Paulo do Conselho Steampunk, Lord Fire e Lili Angelika, a apresentarem a seus telespectadores o assunto. Focado principalmente na questão da indumentária em estilo vitoriano - mas também com observações sobre outros temas dessa "nova tribo", como definiu o apresentador - a matéria de quase quatro minutos pode ser conferida no canal do YouTube do Conselho.

Uma outra investida televisiva do gênero ocorreu nesta sexta-feira, dia 9 de abril, no programa Hiper-Real da SescTV. Infelizmente, como não tenho o canal em minha grade, não pude assistir a esse programa que parece ter sido muito bom. Para quem perdeu a primeira exibição mas conta com a possibilidade de ver a programação daquela emissora, há reprises programadas, como informa este site:




Steampunk (14 anos)


reprises deste programa
10/04/2010 : 01h00 : sábado
10/04/2010 : 23h00 : sábado
11/04/2010 : 20h00 : domingo
12/04/2010 : 05h00 : segunda-feira

Steampunk é mais que um subgênero de ficção cientifica, é também uma versátil e criativa estética de viver. O SteamPunk no Brasil conta com uma estrutura que inclui um Conselho criado em 2008 que promove eventos em que grupos de jovens se encontram no Memorial do Imigrante de São Paulo para passear, vestidos como damas e cavalheiros, na velha Maria Fumaça.


Um caleidoscópio dos jovens na São Paulo contemporânea. Grupos diferentes, interesses distintos, prazeres e problemas singulares. Histórias da juventude.

6.4.10

Steampunk na rádio 2

Em novembro passado escrevi aqui:

Está no ar um verdadeiro crossover de podcasts tratando integralmente de cultura steamer. Rod Reis, do Papo de Artista, recebeu a equipe do Papo na Estante para falar sobre várias manifestações steampunk. Durante mais de uma hora, Thiago Cabello, Ana Cristina Rodrigues, Ana Carolina Silveira e Eric Novello fazem um levantamento de obras literárias, cinematográficas e dos quadrinhos dentro do gênero. Alguns dos contos presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário são comentados. Para ouvir o programa este é o endereço

Pois acabo de ouvir uma segunda investida de um podcast neste mundo do steampunk. Trata-se do terceiro episódio do PODespecular, um programa radiofônico virtual dedicado à ficção especulativa. Com o significativo nome de "Vapores eletrônicos", a equipe e seus convidados discutiram as variadas vertentes da cultura steamer, ao longo de 85 minutos. Entre as várias atrações, eles comentaram conto a conto toda a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. O programa pode ser baixado no site Dimensão Nerd e logo abaixo deixo vocês com a lista completa do que foi abordado no podcast, com os devidos links.


No episódio de hoje, Paulo Elache e Edgar Smaniotto resenham a antologia brasileira “Steampunk - Histórias de um Passado Extraordinário” e conversam com Carlos Alberto Machado, Marco Ortiz e Rogério Brito para discutir e definir tudo (ou quase isso) sobre Steampunk, o gênero literário e o movimento cultural.
Divirtam-se!

* Vitrine especialmente produzida por Carlos Relva
Livros citados:
De Gianpaolo Celli (organizador):Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário”.
De Philip José Farmer: “O Diário de Bordo de Phileas Fogg” (The Other Log of Phileas Fogg), ler resenha aqui e comprar acolá.
De William Gibson e Bruce Sterling: “The Difference Engine”, livro steampunk escrito pelos pioneiros do movimento cyberpunk, que será publicado no Brasil pela Editora Aleph - leia aqui a notícia.
Da Editora Draco, vários lançamentos anunciados para 2010.
Da Editora Devir, anunciado o lançamento de “Xenocídio” (de Orson Scott Card), terceiro livro da “Saga de Ender”.

.Outras mídias citadas:
História em Quadrinhos: Os dois volumes, publicados pela Mythos Editora, de “Docteur Mystère”, resenhados aqui, ali, , acolá e cá também; “Os Passarinhos” (tirinha de Estevão Ribeiro), aqueles dois lá no canto direito da imagem de vitrine do podcast, o baixinho (Hector) e o magrão (Afonso), vestidos à steamplay. Conforme citado por Edgar Smaniotto, a graphic novel “As aventuras de Luther Arkwright” (The Adventures of Luther Arkwright), publicada em dois volumes no Brasil e que pode ser encontrada aqui. E, como curiosidade, uma ilustração steampunk de Hellboy, discretamente inserida por Carlos Relva no canto esquerdo da imagem de vitrine do podcast.
Música: Exemplos desse estilo nos links Gilded Age Records, The Clockwork Cabaret (steampunk radio) e num artigo da revista Matrix Online (“Pump Up The Volume: The Sound of Steampunk”) com vários links.
Cinema:Steamboy”, de Katsuhiro Otomo - encontrável aqui; o filme mencionado por Paulo Elache “The Prestige” (no Brasil, O Grande Truque) - encontrável aqui.
TV:Warehouse 13”, série citada por Carlos Alberto Machado, que passa no canal pago Warner (e nos USA, no canal SyFy).
.Podcasts sugeridos:
.Links:
Artigo da revista Carta Capital sobre Steampunk.
Comunidade Steampunk no Orkut.
Loja Paraná do Conselho Steampunk.
(Não deixem de se inscrever na Lista de Discussão do CLFC)
.Para críticas, dúvidas e palpites, mande e-mail para: podespecular@gmail.com
E para apontar nossos deslizes… No mesmo e-mail (fazer o quê?)

Torre de Vigia 22-b

Dias atrás, fiz um post sobre um comentário com direito a foto que Cristina Alves postou em seu blog a respeito da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Agora, essa colega portuguesa, grande divulgadora da literatura fantástica lusófona, dedicou uma resenha completa ao livro. Tão completa que ela a dividiu em duas partes. Na primeira, Cristina contextualiza um pouco esse ramo da FC:

Género de ficção especulativa, o Steampunk reúne elementos de fantasia e ficção científica, constituindo normalmente uma história alternativa no século XIX, na época Victoriana, onde existirão máquinas movidas a vapor mais avançadas do que na realidade existiram. Entre estas invenções podemos encontrar dirigíveis ou submarinos, referências a Wells ou Verne.

Para além de género literário, o Steampunk tem influenciado algumas criações artísticas, dando origem a mobiliário ou relógios e computadores modificados onde, sob uma camada de madeira e vidro, podemos visualizar engrenagens fascinantes compostas por roldanas e botões.

No seguimento do espírito Steampunk a editora Tarja organizou uma antologia de contos brasileiros, com o nome do género. São ao todo 9 histórias, nem todas excelentes, mas todas acima da média.

Em seguida, ela começa a resenhar cada uma dessas histórias. É na segunda parte de sua análise que se encontra o comentário sobre "Cidade Phantástica", o qual reproduzo abaixo, juntamente com o trecho final daquele texto:

Romeu Martins é o autor de Cidade Phantástica, um conto que se inicia com a movimentada tentativa de rapto de uma jovem, que se revela menos indefesa do que seria de esperar de uma dama. Maria Pinto é a noiva de Mr. Gibson, um empresário americano que, conjuntamente com o seu sócio, constrói o Edifício Cidade Phantástica, um enorme prédio de ferro fundido que será a sede do Império de Gibson. Tanto dinheiro e poder instigam planos criminosos, que se iniciarão com a tentativa de rapto.(...)

Quase todas as histórias recriaram uma realidade interessante, povoada de invenções demoníacas ou simplesmente dementes, realidades alternativas sobre as quais seria engraçado ler mais alguma coisa. A Música das Esferas, Cidade Phantástica ou O Plano de Robida são alguns dos contos que me deixaram com esta sensação.

Depois de Steampunk, aguardo o lançamento de Vaporpunk, uma antologia do género steampunk, de autores portugueses e brasileiros.

Fico muito feliz que a minha história tenha sido uma das que tenham deixado tal sensação na resenhista. Espero ter em breve novidades quanto a continuações de "Cidade Phantástica", tanto uma segunda noveleta, "Tridente de Cristo", quanto uma nova versão de um conto curto no mesmo universo, a ser publicada em um fanzine dedicado ao gênero steampunk.

5.4.10

Vitorianos no maior jornal da Espanha

Quando comentei, no final do ano passado, um artigo da revista americana Time, escrevi por aqui:

Neste blog costumo abordar apenas material steampunk que tenha sido produzido no Brasil ou que esteja disponível em versão nacional. Não é o caso deste post em que vou falar de uma matéria veiculada em inglês no site da revista Time. O motivo é que gostei muito da abordagem do texto que levou o título "Steampunk: Reclaiming Tech for the Masses" (algo como Recuperando a tecnologia para as massas), ele sintetiza vários dos elementos que, na minha opinião, tornam este gênero da ficção fantástica tão atrativo em termos estéticos-formais e de conteúdo.

Repito o aviso agora, pois uma nova reportagem veio me chamar a atenção, graças a uma dica via Twitter do escritor Eric Novello. A matéria dessa vez foi publicada no site de El País, maior e mais respeitado jornal da Espanha. "Victorianos amantes de la retrotecnologia" é o artigo que tem o subtítulo: "Las obras de H. G. Wells o Julio Verne inspiran el movimiento steampunk". A motivação para o texto de Xavi Sancho foi a constatação de que tal movimento, surgido nos EUA há um par de décadas, viu sua relevância, popularidade e projeção social darem um passo gigante nos últimos três anos.


Abaixo, traduzo um trecho da reportagem de estilo, que pode ser lida integralmente aqui, e reproduzo ao lado uma das fotos que ilustram a matéria, um flagrante do designer e cultuador steamer Jake Von Slatter:

A meio caminho entre o romantismo, a nostalgia, a estética vitoriana e a tecnologia - não só como um meio ou fim, mas também como um complemento estético - o Steampunk pode ser entendido através das criações de H.G. Wells ou Julio Verne, o escapismo de Harry Houdini e a inventividade de Nikola Tesla. De alguma forma, o movimento é um elogio de como era um futuro de um passado que oferece expressões éticas e estéticas muito mais satisfatórias do que as do tempo atual. Os seguidores se distinguem por suas roupas vitorianas e eduardianas, suas palavras corteses, seus apelidos que parecem ter sido tirados da lista de membros da Câmara dos Lordes e, sobretudo, pela interação ativa com este movimento, fazendo seus próprios artigos e vestuário.
 
"A era vitoriana é a última época em que um menino em idade escolar podia ter suficiente conhecimento científico para compreender as complexidades da tecnologia de sua época. Um aficionado podia ainda contribuir para o progresso tecnológico. Além disso, como costumavam ser de boas famílias, incluíam seus valores estéticos em todas as suas criações", comenta o americano Jake Von Slatter, cérebro por trás do Steampunk Workshop, um seminário para a construção de dispositivos neste estilo - modifica telefones celulares, computadores ou iPods para a estética vitoriana -  e uma das figuras mais importantes dentro desta subcultura que em alguns países, como os EUA, está se tornando uma forma de vida. Ainda não conseguiu encontrar seu tom, mas já tem a sua imagem e até seus dilemas de identidade.

Steampunk feito no Brasil 4

O escritor Rynaldo Papoy é mais um representante do Brazilian Steampunk. Ele acaba de publicar no blog The Braganza Mothers um conto do gênero ambientado em um dos mais famosos e decisivos momentos da Guerra do Paraguai (1864-1870): a Batalha do Riachuelo, ocorrida no dia 11 de junho de 1865. Abaixo, podemos ver a mais famosa representação daquela escaramuça naval, um quadro pintado pelo catarinense Victor Meirelles (1832-1903).



No texto de Papoy, circulam alguns personagens reais, como o Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva, o Barão do Amazonas (1804-1882), comandante da Armada Brasileira naquela ocasião. Até mesmo sua frase mais famosa surge nesse conto: "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever". Claro que o que torna "O Aquidabã" uma obra steamer é algo além dos detalhes históricos, no caso, uma tecnologia náutica que influencia bastante no resultado daquela batalha. Deixo vocês com um trecho do conto que pode ser lido integralmente aqui.

8h
A neblina dissipava-se. Já era possível avistar pontos azuis no céu. O Sol avançava por trás da província de Corrientes, à boreste da Esquadra Brasileira.

Do alto do mastro, Segundo-Tenente Josias Fernandes gritou:

- Esquadra inimiga à vista!

Os marinheiros brasileiros perderam imediatamente qualquer vestígio de sono, fome, cansaço ou medo.

A vasta frota paraguaia foi avistada aproximando-se, a todo vapor e com as velas arriadas, enfrentando o vento de bombordo.

Barroso chamou o bandeirista, Sargento Tobias de Souza Lima e lhe contou a mensagem que queria transmitida aos navios brasileiros.

Lima subiu com suas bandeiras ao alto do mastro e anunciou:

- O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.

Comandante Tales de Miranda, no passadiço da canhoneira Belmonte, ordenou:

- A todo vapor!

Belmonte ultrapassou a Amazonas. Almirante Barroso viu a canhoneira avançar a toda velocidade, cuspindo fumaça para o céu, com seus canhões e metralhadoras apontados para a canhoneira Paraguary, descendo o rio em igual velocidade.

“Afunde-os, Miranda, afunde-os!”, pensou Barroso, mordendo seu cachimbo.

Os marinheiros a bordo da Belmonte olhavam fixos para a canhoneira inimiga, que abriu fogo. 

2.4.10

Torre de Vigia 23

O jornalista Antonio Luiz M. C. Costa, da revista Carta Capital, acaba de postar uma resenha sobre a primeira coletânea nacional dedicada ao gênero steampunk na rede social Skoob, especializada em literatura. Ele abre sua análise avisando aos leitores que é um dos contistas presentes no livro, sendo o autor de "A flor do estrume", mas compartilha a opinião de outros críticos que apontam a obra como uma das mais importantes lançadas recentementes no país. Entre eles, o americano Larry Nolen - cuja opinião foi registrada e, em parte, traduzidada aqui - como podemos ver a seguir:

O leitor talvez queira considerar esta resenha como suspeita, pois o resenhista é um dos autores. Mas não fui só eu quem considerou esta como uma das melhores antologias brasileiras de ficção científica publicadas em 2009. Compartilha dessa opinião o estadunidense Larry Nolen – um dos mais conhecidos resenhistas do gênero no mundo – que listou este livro entre os 51 melhores lançamentos ou relançamentos desse ano entre os cerca de 500 de todo o mundo que chegou a ler. O livro também foi lembrado na retrospectiva de 2009 organizada por Jeff VanderMeer para o site internacional de ficção científica “Locus Online”, no “The World SF News Blog” e no site especializado “Steampunkopedia”.

Transcrevo um trecho da resenha de Nolen:

“When I first ordered this anthology back in August, I had some trepidation that the authors would ape the manners and styles of the Anglo-American steampunk writers and not write anything that would be original in form or content. If anything, the elements that these nine writers (...) use are more appealing to me than what I have found in the majority of the English-language steampunk fiction of the past decade. There is a darker undercurrent in this anthology, a sense that underneath the trappings of a steam age ‘golden age’ that there is much wrong with the local and global societies. A frustration that technological advancement and the rise of a leisure class is not improving the lot of the social classes as much as it should. There is a dark cloud in several of these stories, a cloud which threatens to burst asunder, bringing destruction and ruinous change in its wake”.

Parafraseando, Nolen temia que os contos fossem mera imitação da produção anglo-americana, mas descobriu nos brasileiros desta antologia algo mais atraente ou interessante do que têm encontrado na maior parte da ficção steampunk anglófona: uma percepção de que a tecnologia (representada pelas invenções steampunk) e a ascensão das classes ociosas não melhora a vida das demais classes sociais tanto quanto deveria. Há uma “nuvem negra” em várias das histórias, que ameaça trazer mudanças destruidoras em seu caminho. É curioso, pois essa mesma percepção estava bem clara em “The Difference Engine”, o romance de William Gibson e Bruce Sterling que definiu o steampunk como gênero. Isso significaria que os autores brasileiros estão sendo mais fiéis ao espírito original do gênero que os britânicos e estadunidenses.
 Após essa introdução, o resenhista dedica "Uma antologia de ficção científica brasileira de repercussão internacional" a comentar cada um dos nove contos presentes em Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Destaco abaixo o trecho que fala de minha noveleta, "Cidade Phantástica", deixando o alerta de que há alguns spoilers ao final:

“Cidade Phantastica”, de Romeu Martins, é uma aventura em um Brasil de um Segundo Reinado mais avançado e industrializado que o do D. Pedro II real, no qual se encontram personagens de Júlio Verne (“Da Terra à Lua”), Conan Doyle (“A Ponte de Thor”) e Bernardo Guimarães (“A Escrava Isaura”), além dos criados pelo autor. Como aventura cinematográfica, funciona bem, tanto na descrição da ação quanto na caracterização e uso de personagens tão heterogêneos. O núcleo da história, porém, repousa numa premissa pouco verossímil. Os vilões conseguem construir, em segredo, um supercanhão no centro do Rio de Janeiro, capital do Império, como parte de um projeto arquitetônico que certamente atrairia o interesse e a curiosidade de todos os engenheiros do planeta – e numa posição que o tornaria muito pouco manejável.