30.3.10

Torre de Vigia 22

Já havia falado do blog e da blogueira em um post anterior. Agora a portuguesa Cristina Alves volta a ser mencionada por aqui, por um post publicado ontem em sua página chamada Rascunhos, no qual ela fotografa e comenta livros steamers, entre eles, a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Segue abaixo o flagrante.


No início deste conjunto podem ver Steampunk, uma colectânea de histórias no género steampunk, onde podem encontrar autores como Fábio Fernandes (autor de Os Dias da Peste), ou Jacques Barcia, lançada pela Editora brasileira Tarja. Sobre os contos, podemos encontrar um pequeno resumo no site da editora:

Fábio Fernandes apresentou uma adaptação primorosa do complexo de Frankenstein, com uma visão fascinante de um futuro onde a sociedade divide seu espaço com a maquinidade. Alexandre Lancaster cedeu uma narrativa com ares de ficção científica, onde a ciência aponta que somente pode ser vista com simpatia se for inofensiva, caso contrário, torna-se uma maldição. Claudio Villa arremessa o leitor para o mar, singrando suas águas acima e abaixo, em busca de um tesouro que leva o leitor aos ares do terror lovecraftiano. Jacques Barcia nos dá um conto “estranho”, unindo o drama da guerra, máquinas quase humanas e seres inacreditáveis da mitologia em um caldo que realmente proporciona uma nova criação. E Flávio Medeiros encerra as páginas da obra com chave de ouro, mostrando os clássicos dirigíveis e submergíveis em um drama de honra que certamente agrada muito aos apreciadores do gênero.
Segue-se Boneshaker, uma história fantástica também enquadrada no género steampunk que cruza invenções na época victoriana, numa cidade caótica, isolada por um muro como resultado da libertação de um gás tóxico que transforma os seres humanos em zombies rápidos e acéfalos. Esta é uma história simples mas movimentada, com tecnologia movida a vapor, dirigíveis e cientistas malucos, onde podemos encontrar episódios de grande tensão. Embora não seja o melhor livro em que peguei este ano, encontra-se entre os melhores até agora.

Entrevista com China Miéville

Já havia falado do site Capacitor Fantástico quando comentei uma entrevista que eles traduziram com o escritor e organizador de coletâneas Jeff VanderMeer. Agora, seguindo uma dica via Twitter da cyberpesquisadora Adriana Amaral, fiquei sabendo que a equipe daquela página adaptou mais um material ao português, desta vez uma conversa de David Soyka com o escritor inglês China Miéville, nome mais citado quando se pensa em literatura New Weird. Reproduzo abaixo o texto de apresentação e as duas primeiras perguntas, que fazem referência ao gênero steampunk, uma das influências assumidas daquele autor. A entrevista completa pode ser lida aqui.


Seu primeiro romance, KING RAT, era uma aterrorizante história de fadas.

Em PERDIDO STREET STATION, Miéville criou 'New Crobuzon', uma metrópole corrupta habitada por insetos humanóides, cactos andantes, grotescos 'Renascidos' pela bioengenharia, e máquinas conscientes e 'vivas’, assim como um monte de tipos comuns, assediadas por criaturas que sugam espíritos, saídas de um experimento fracassado.

A fantasia de Miéville é permeada por um realismo que rejeita finais felizes. 


Pergunta:: Parabéns pelo Prêmio Arthur C.Clarke por 'Perdido Street Station'. Não parece irônico ou incongruente que um romance de fantasia baseado em um cenário 'steampunk' tenha recebido um prêmio tão importante, que recebe o nome de um escritor de Ficção Científica Hard, de satélites e naves espaciais, em que a sensibilidade para a prosa não é, digamos, sublime.


Miéville: Obrigado - ainda estou um pouco estupefato. Existe uma ironia sim, mas não é tão incomum este prêmio ir para alguém que faz uma FC tão pouco 'Clarkeniana'. O próprio Clarke é um sujeito muito generoso a respeito do que se trata o prêmio, e a quem deve ser dado.

Além de estar pessoalmente extasiado, me sinto contente, porque eu sempre senti que era impossível separar a Ficção Científica da Fantasia - certamente eu devo ter conscientemente estado em um e em outro, e eu esperava que o prêmio indo para um romance não tão de FC, deveria encorajar uma abertura conceitual da tradição. Sempre gostei de dizer que escrevo uma 'ficção esquisita', porque me sinto na interseção da Ficção Científica, Fantasia e até do horror, o que claramente, torna as fronteiras nebulosas. Quer dizer, é fácil dizer que Larry Niven é FC e Tolkien é fantasia, mas e David Lindsay? Lovecraft? Clark Ashton Smith?


P: A 'ciência' que aparece em seus romances, dependem de mecanismos da era-vitoriana. A teoria da grande crise soa igual à especulação quântica e a inteligência artificial sempre foi uma obsessão da FC. Tem sempre um cientista maluco e que é responsável por forças desastrosas, resultado direto de sua arrogância e da irracional manipulação cientifica, sem ligar para as conseqüências. O que da FC de antigamente se tornou um fato hoje, como a biotecnologia e as máquinas pensantes que aparecem em seu trabalho?

M: Em geral não penso que se possa ver a FC como profecia cientifica, sociológica ou outra coisa desse tipo. Não acho que FC trate disso. É obvio que muitos cientistas se inspiraram em historias de FC que leram quando jovens e não posso dizer que não seja uma influência.

Sou totalmente pró-ciência. Acho muito interessante. Tento evitar a tradicional tropa de escritores 'metidos a cientistas'. Não é a atividade cientifica por si só que nos causa problemas, como o doutor Frankenstein. Mary Shelley, refutava em ter a responsabilidade dos frutos de sua pesquisa - em meus livros, é algo mais como uma má sorte danada!

O problema não é a ciência, mas onde ela nos leva. Biotecnologia é um bom exemplo. Não tenho nenhum problema, em termos abstratos com a modificação genética dos alimentos. Porém, acho problemático quando ela caminha para beneficiar os exploradores.

Além disso, muita coisa é lançada no mercado sem os devidos testes - sem termos uma ideia real dos efeitos a longo prazo. Além disso, algumas pesquisas são socialmente inadequadas e inúteis, como fazer plantas que só respondam a um único tipo de fertilizante.

Muita coisa vai surgir nos próximos anos e isso é excitante. Particularmente estas coisas mais grotescas são as que mais falam à minha natureza macabra. Ratos com genes de águas-vivas e que brilham verdes, é demais!

29.3.10

Passarinhos vaporosos 2

Em um post anterior, tinha adiantado que Estevão Ribeiro, da tira Os passarinhos, traria novidades sobre um projeto steampunk com seus personagens, citando suas próprias palavras:

E antes que perguntem: Sim, tenho planos de fazer uma história sobre o Universo SteamPunk dos Passarinhos! Aguardem e até quarta! 

Ele acaba de dar mais detalhes em seu blog sobre o assunto, um projeto chamado "A peça que move o mundo":

Neste universo, que tem referências steampunk, o Grande Piador criou a terra com a explosão de sua caldeira, que destruiu o pequeno espaço que ele chamava de lar. Ao ver elementos como engrenagens de seu relógio, sua caldeira e um pequeno vaso transformar formar um universo, resolveu observar e cuidar dele.

Mas uma minúscula peça de seu relógio, a que move o o universo caiu na terra onde vivem nossos heróis Hector e Afonso. Agora, eles precisam achar esta peça antes que o mundo acabe!

Aberta a temporada de caça aos desenhistas

Estou procurando pessoas que ilustrem no estilo europeu, personagens carismáticos e cenários detalhados. Trabalhos podem ser enviados para hectorandalfonse@gmail.com.

Os trabalhos começam no segundo semestre, porque passarei três meses fazendo o roteiro de Pequenos Heróis 2, mas gostaria de discutir um pouco do universo assim que possível.

Este trabalho apenas usa os personagens da tirinha Os Passarinhos e não terá relação direta com as tirinhas. A previsão é a produção de uma graphic novel de 80 páginas, ou uma minissérie em duas partes de 40 páginas.

Um confederado no Planeta Vermelho

A editora Aleph que já havia publicado em 2009 Anno Dracula e garante ainda para este ano The difference engine surpreendeu ao anunciar em seu blog mais uma obra fundamental para quem aprecia o steampunk. Está previsto para o dia 12 de abril o lançamento de Uma princesa de Marte, romance de estreia de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), escritor americano mais conhecido por seu aventureiro perdido na África, um certo Tarzan.

Nesta primeira obra de uma série, vamos acompanhar como o ex-soldado da Guerra Civil americana (1861-1865) John "Jack" Carter, após lutar pelos estados sulistas e passar a se dedicar à exploração de ouro, foi capturado para viver sua mais estranha aventura, entre uma raça de marcianos chamada de Tharks. Escrito em 1917, o livro é uma influência para os cultuadores do gênero, um verdadeiro clássico da ficção científica. Como aperitivo, a editora deixou à disposição dos leitores as primeiras páginas do romance. Trata-se do prefácio, no qual o próprio Burroughs assina, apresentando o trabalho como sendo um manuscrito que teria recebido anos antes de seu tio, o capitão Carter, e o primeiro capítulo, "Nas colinas do Arizona", tudo na tradução de Ricardo Giassetti.


Abaixo, pode ser vista a capa desse novo lançamento do Ano do Vapor, produzida pelo estúdio Retina78.



25.3.10

Guerra e circo

Um evento inusitado ocorre nesta sexta, organizado pelos confrades do Conselho Steampunk. Confiram abaixo uma chamada & o cartaz e leiam o texto na íntegra aqui.






Eis que, uma semana depois do evento[bb] “SteamPunk de Volta”, o Conselho SteamPunk nos brinda com o evento “A Guerra da Criméia foi um Circo”, um SteamCamp – evento informal – que começa às 18 horas do dia 26 de Março de 2010 e vai até o dia seguinte em um divertido “Sarau Etílico”.

O “Sarau Etílico” vai fazer referência ao advento da declaração da Guerra da Criméia, conflito que se desenrolou de 1853 à 1856, às margens do Mar Negro, no sul da Rússia e nos Balcãs.

Reflexo da tentativa russa de aumentar sua influência nos Balcãs desde o Século XVIII, o conflito causava receio na Inglaterra que, sob a rainha Vitória, via a possibilidade de que a queda de Constantinopla diante das tropas inimigas comprometesse seu controle estratégico dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, cortando-lhe as comunicações com a Índia.

Mas nem só de desgraças e aborrecimentos vive a história, posto que na virada do dia 26 para o dia 27 é comemorado o Dia do Circo, homenageado no evento pelo Conselho SteamPunk, que convida artistas circenses de toda parte a participar[bb] ou mesmo apresentar seus talentos diante das ávidas câmeras das empresas[bb] de mídia presentes.

24.3.10

Feliz Ada Lovelace Day

Uma legítima e real personagem steampunk recebe homenagens no dia de hoje. Augusta Ada King, Condessa Lovelace (1815-1852). Não serei eu a falar sobre ela, deixarei para uma autêntica seguidora dos feitos dessa inglesa notável, minha querida amiga Giseli Ramos, a CyberGi (que ainda fez a gentileza de me citar em seu post dedicado à data):

Hoje é o dia de Ada Lovelace! Não, não, ela não nasceu nessa data, é um dia dedicado para blogar e/ou twittar a respeito das contribuições das mulheres na ciência, o que acho uma iniciativa bem válida. Afinal, você sabe se houve alguma mulher que ganhou a medalha Fields? E sabia que Ada Lovelace foi a primeira programadora? Ela fez o primeiro programa que poderia funcionar na máquina analítica de Babbage. De fato, a matriarca da programação (by Romeu).
Ada Lovelace
Ada Lovelace, a matriarca da programação

Bem que queria fazer um post caprichado a respeito (falta de tempo…), então me concentrarei em passar uns links que achei bem interessantes e uns comentários rápidos. Para começar, veja essa fantástica apresentação a respeito de Ada Lovelace (em inglês). Vale muitíssimo a pena ver! =D

É coisa recente as mulheres começarem a serem reconhecidas na área de computação… Conhecem o prêmio Turing? É uma espécie de Nobel da computação, para premiar as contribuições nessa área, afinal, um bom trabalho deve ser reconhecido, não? Desde 1966 não tinha premiado nenhuma mulher… até 2006! Quem ganhou nessa época foi Frances E. Allen, por suas contribuições à área de otimização de compiladores e de processamento paralelo. E em 2009, outra mulher ganhou o prêmio, Barbara Liskov, por contribuir para os fundamentos de design de sistemas e de linguagens de programação. Espero que no futuro possamos ver mais trabalhos importantes e marcantes feitos pelas mulheres. Para ver a lista de todos os ganhadores do Turing award, veja o verbete da Wikipedia.

Outra dica é esse wiki de mulheres notáveis. Vale a visita!
O texto continua aqui, recomendo.

22.3.10

Torre de Vigia 21

Alexandre Lancaster, um dos autores presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário foi entrevistado pelo site Ambrosia. O ponto principal da conversa foi a atuação dele como blogueiro especializado em mangás e animes. Porém, o entrevistador Phill Souza não se deixou de fora a participação de seu convidado na primeira antologia do gênero no Brasil e nem a HQ que ele está produzindo atualmente e que se passa no mesmo universo da noveleta "A música das esferas".

Logo abaixo, trechos da entrevista que focam o mundo steamer, sendo que a íntegra pode ser conferida aqui:

Phil Souza: E quanto ao Lancaster fora do Maximum Cosmo? O que ele gosta de fazer? Ler, Escutar...
Alexandre Lancaster
: Eu? Gosto essencialmente de rock, mas varia de acordo com o dia – tem momentos que eu me sinto pós-punk, tem dias que eu me sinto mais hard rock, tem dias que eu me sinto altamente contemporâneo, tem dias que eu estou nos anos 70. Tudo é estado de espírito. Em termos de atividades, estou desenvolvendo meu projeto de quadrinhos, que retomei e estou levando a sério. Escrevi alguns contos de ficção científica e estou com um deles na antologia Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, da editora Tarja, que saiu ano passado e se passa no universo da minha série de HQ. Leio muita não-ficção, acredito que a leitura da história e de livros jornalísticos são essenciais até para minha visão de ficção. O último que li foi o Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória. Procuro ler os jornais. Um homem não pode ficar longe do mundo em que vive. E se pensarmos bem, até os mangás são o que são por não ficarem longe do mundo em que seus leitores vivem, mesmo o mais fantasioso deles.


Phil Souza: Sua série de HQ? Você pode falar um pouco dela?
Alexandre Lancaster
: O nome dela é Expresso! – ele surgiu de um conceito que eu pensava quando tinha uns doze, treze anos de idade, e ficou adormecido, em parte por eu ter passado a ler quadrinhos Marvel/DC por um bom período da minha vida. Mas ele só foi tomar forma uns seis anos atrás mais ou menos. A história tem um protagonista brasileiro, Adriano, um garoto inventor que quer deixar uma marca no mundo – mas vai encontrar muitas pedras no caminho. É uma série steampunk, mas não quero fazer dela uma dessas "terras paralelas" – eu queria sugerir que aquele poderia ser realmente o nosso mundo, em nosso passado, apesar de suas máquinas fantásticas.


Phil Souza: Você é dono do roteiro e desenha também?
Alexandre Lancaster:
Sim.

Phil Souza: O Steampunk está sendo muito falado ultimamente. Esse subgênero sempre te atraiu?
Alexandre Lancaster
: Acho que eu sou um dos fãs de primeira hora do gênero. Ele tem um apelo meio nostálgico, dos filmes antigos que eu via quando era garoto, das adaptações para cinema do Jules Verne, e até um pouco dos velhos animes que passavam no SBT. Eu cheguei a ver o Sherlock Hound do Miyazaki em velhas fitas vhs há mais de dez anos e adorei. Eu pessoalmente tenho alguma reserva quanto a uma certa incorporação que o gótico fez no steampunk, mas não vou me amolar por isso.
Minha visão é luminosa, um pouco mais colorida. Não imagino o começo do Século XX em preto, branco e sépia.

Phil Souza: E quando veremos essa HQ nas bancas? Tem previsão?
Alexandre Lancaster: Espero que esse ano. Estou trabalhando nisso, faz parte de um projeto maior. Mas o primeiro conto ambientado na série está no livro da Tarja, e convido a todos para que dêem uma olhada no que vem sendo feito no cenário de ficção científica aqui no Brasil.

Torre de Vigia 20

A dica veio de Fernando Trevisan, via Twitter: na edição número 26 do longevo fanzine Scarium há um texto de Edgar Smaniotto abordando a cultura steamer. "Steampunk, naves de geração e seitas" é o nome do artigo que faz parte da seção "Observatório da ficção especulativa brasileira".

Aqui embaixo, segue a capa desta edição do zine e a relação dos demais textos presentes em suas páginas. A publicação pode ser adquirida aqui.



Editorial:
Como uma Fenix
Cartas

Artigos:
Steampunk, naves de gerações e seitas - Edgar Smaniotto
Hellboymania - Cesar Silva

Contos:
O Artista da Capa - Gabriel Boz
Kaori - Entrevista
Anuara Diva - John Dekowes
O Imortal - Celso Santos
Planeta Andarilho - Renato A. Azevedo
Um Sol para contemplar - Hugo Vera
Pássaro da Noite - Ana Cristina Rodrigues
A Capsula do Tempo - Luiz Fernando Riesemberg
Sonhar é Proíbido - Davi Melo
Granizo Púrpura em Céu de Diamantes - Gabriel boz
Guerra da Água - Miguel Carqueija
Capa Gabriel Boz.

70 páginas
Edição 26 - Vários Autores
Páginas: 70
Formato: 13,5 x 20 cm

Tecnologia viking

Tudo bem que você precisará ser bem liberal com o termo para considerar a nova animação da DreamWorks uma representante steampunk. Afinal, os protagonistas aqui são os vikings, aqueles guerreiros escandinavos que aterrorizaram parte da Europa um milênio antes da Era Vitoriana. Porém, boa parte do interesse daquele gênero está preservado no filme, com algumas invenções retrofuturistas em um estilo faça-você-mesmo de enjambração mecânica. Além disso, Como treinar seu dragão é uma ótima aventura, bem humorada e que explora de maneira muito eficiente os recursos 3d que devem se tornar um padrão irrevogável nas produções cinematográficas nos próximos anos, principalmente as voltadas para o público juvenil, como esta.

Basicamente temos uma vila chamada Berk, onde os tais guerreiros vivem há sete gerações enfrentando um problema bastante sério: ataques constantes de dragões. Uma verdadeira praga, o lugar é alvo das mais variadas espécies desses rápteis voadores. Soluço é o nome do filho do chefe daquele bando, um garoto magrelo e desajeitado que parece honrar mais uma outra vocação dos escandinavos que não tem a ver com os feitos heroicos. Lembrando que provavelmente o leitor tem ou já teve pelo menos um celular feito naquela região congelada do mundo, o rapaz é um precursor dos atuais engenheiros. Com uma de suas invenções - uma espécie de catapulta capaz de disparar uma rede - ele captura um dos mais misteriosos representantes daqueles inimigos.

Sim, porque não é apenas uma variedade de dragões que ataca o vilarejo; há uma infinidade de tipos - o mais interessante lembra um isqueiro orgânico, com suas duas cabeças, uma libera gás e outra provoca faíscas para causar o incêndio. No caso, o garoto alvejou, mesmo que ninguém acredite nele, um Fúria da Noite, animal nunca antes capturado ou abatido, capaz de disparar rajadas explosivas. Recusando-se a matar o bicho a sangue frio, o garoto aprende com esse dragão - Banguela é o nome que ele recebe - alguns truques que vão revolucionar uma guerra que já dura 200 anos. Para isso, ele vai precisar usar mais daquela mente analítica que os poucos músculos que tem.

 Há muito em comum entre esta animação e o megassucesso Avatar. O princípio básico das duas histórias é o mesmo, baseado na Jornada do Herói; os efeitos tridimensionais das imagens e várias sequências aéreas. São semelhanças e tanto. Porém, na obra destinada a um público mais jovem, tais elementos são mais bem resolvidos. Entre um filme assumidamente divertido e para todas as idades como este ou uma película supostamente séria e adulta como aquele filme de James Cameron, não teria dúvida sobre qual me faria voltar a por aqueles irritantes óculos para assistir a uma segunda rodada.

17.3.10

Feliz Dia de São Patrício

Nem sei se vou ter tempo de tomar uma cerveja hoje (espero que sim), mas como tenho um capítulo de livro para terminar, uma conta de banco para encerrar, uma consulta médica para acompanhar e - se tudo der certo - dois filmes para ver no cinema depois de semanas sem aparecer em uma sala escura, vai ser difícil.

Para não deixar a data passar em branco, aqui em baixo vai mais um trecho da noveleta "Tridente de Cristo", uma vez que a maior parte da trama se passa neste dia, só que 142 anos atrás. A primeira parte publiquei aqui, no dia do aniversário deste blog. Um brinde a todos.




Catedral de São Patrício, centro do Rio de Janeiro. Dia 17 de março.

A escolha do santo a que foi dedicada a nova Catedral do Rio de Janeiro motivou algum debate nos meios religiosos, políticos e jornalísticos. Mas a decisão do Imperador de prestar uma distinção aos migrantes que vieram em massa ao Brasil – muitos deles depois de breve passagem pelos Estados Unidos – foi, como de costume, soberana. Sem oportunidades no Velho Continente, desiludidos com a república norte-americana, uma multidão de irlandeses passou a aportar diariamente no Brasil, para substituir, em troca de salários, o trabalho dos escravos negros, libertados no país em 1850, contribuindo assim para a construção da infraestrutra que serve de base para o Império dos Trópicos.

Ao contrário do que ocorreu com outros grupos de trabalhadores estrangeiros, como os chineses que jamais se integraram de fato à sociedade brasileira, os irlandeses em boa parte prosperaram na nova terra. Muitos se tornaram comerciantes, industriais, autoridades religiosas. Alguns enriqueceram. Caso notável do noivo desta noite, que mesmo nascido nos Estados Unidos, tem avós paternos ingleses, de Hampshire, e maternos irlandeses, de Dublin. J. Neil Gibson e muitos outros católicos de mesma origem tornaram-se benquistos pela família real brasileira e foram os principais financiadores de inúmeros projetos na capital do Império. Entre eles a mais nova igreja da chamada Cidade Fantástica.

Dessa forma, o padroeiro da Irlanda, quem, segundo o mito, expulsara as serpentes e o próprio diabo da ilha européia tinha, no exato dia que lhe era dedicado pelos católicos, um novo templo sendo inaugurado. Ademais, para desgosto dos carmelitas, o lugar ocuparia a função da Igreja de Nossa Senhora do Carmo como a Sede Episcopal da Diocese. Mais desgosto ainda causava entre outras congregações o porte deste novo templo, um verdadeiro monumento da arte gótica revestido em mármore de carrara branco. A mistura do rancor movido pelo pecado capital da inveja e os chamativos detalhes daquele estilo arquitetônico motivaram um apelido maldoso, quase herético, à nova igreja.

Como a fachada dela é marcada por duas torres laterais espigadas, com 100 metros de altura cada, e por uma entrada também pontiaguda, encimada por uma cruz da mesma cor do mármore das paredes, a pena da galhofa carioca intitulou sua Catedral como Tridente de Cristo. E há que se concordar: ela parece mesmo um enorme garfo de pedra brotado do solo, com os dentes destro e canhoto bem maiores que o do meio.

Como seria o esperado, tal acunha só é sussurrada à boca pequena ou, caso apareça por escrito, em pasquins anônimos. Atribuir a arma predileta do seu eterno inimigo ao filho de Deus já seria blasfêmia capaz de atrair a Ira Santa. Mas usar isso para desmerecer a ereção de um projeto supervisionado pessoalmente por Pedro de Alcântara é pedir por algo ainda mais medonho: a Ira Imperial. Isso porque Sua Majestade se empenhou na viabilização da ideia que deveria ter sido posta em prática no gigante do Norte, na cidade de Nova Iorque. Contudo, ela foi sucessivamente sendo adiada pela baixa presença de católicos por lá, pelo início da Guerra Civil, pelo desastre econômico do país e, por fim, pela migração do seu projetista, James Renwick Jr., ao Brasil.

16.3.10

The difference engine vai sair no Brasil 2

No dia 13 de janeiro escrevi por aqui:

Estava ainda ontem dizendo que o Ano do Vapor se devia tanto às novidades produzidas no Brasil quanto às que devem ser lançadas em versão nacional. Pois o editor da Aleph, acaba de confirmar esse vatícinio ao comunicar na maior comunidade em português dedicada à FC do Orkut que uma obra clássica e definidora do gênero, da qual falamos aqui desde o início do blog, vai chegar às nossas livrarias. Adriano Fromer Piazzi disse: "Com imenso prazer que comunico que iremos publicar, ainda este ano, um grande clássico Steampunk. THE DIFFERENCE ENGINE, de William Gibson e Bruce Sterling".

A editora confirma o lançamento para o segundo semestre deste ano, ainda estão ajustando o cronograma para poder informar uma data mais específica, e o nome da tradutora. A versão para o português desta obra que inaugurou o subgênero steampunk vai ficar por conta de Ludimila Hashimoto, a mesma responsável pelas elogiadas traduções de A voz do fogo, de Alan Moore, e de vários  romances da série Discworld, de Terry Pratchett.

15.3.10

Sobre "A Máquina"

O texto do post abaixo é a primeira ficção de outro autor que publico neste blog. Ele foi escrito por Leonardo Stockler e ganhou o terceiro lugar na categoria minicontos do Prêmio Braulio Tavares de 2008, concurso organizado por Ana Cristina Rodrigues, a mesma responsável pelo Prêmio Melhores do Ano. Consegui a autorização do autor depois de uma breve negociação pelo Orkut, um tanto dificultada pelo hábito recém-adquirido por aquele site de mandar meus scraps para a caixa de spam dos destinatários. Agradeço a intervenção do também escritor Marcelo Augusto Galvão nas negociações.

A Máquina

Por Leonardo Stockler



Convulsionando-se em engrenagens e ferrolhos, que disparavam estalos frenéticos, fazendo parecer desprender a camada de milhões de parafusos, ia desfilando pelo canavial aquela maçaroca sombria de mecanismos e aparelhagens. Marchava engolindo e digerindo os insetos e pequenos animais com os quais deparava em seu caminho amplamente circunscrito. Dentro de seu corpo, generosamente rebuscado de chaminés, e peças ainda manchadas de graxa quente, reinava uma fornalha infernal, onde iam morrer os restos dos animais que eram triturados pela galeria de brocas, cuja entrada situava-se na barriga da máquina, mirando o solo, que, através dos dispositivos ali instalados, sugava para dentro de si os bichinhos silvestres, em sua maioria insetos.

Pela popa da máquina as partes não aproveitadas pela fornalha eram defecadas violentamente esfarelando-se no vento, de modo que era impossível distingui-las após a ejeção. Sustentando toda a parafernália havia quatro patas muito bem articuladas compostas basicamente de ferro retorcido e alumínio.

O barulho era ensurdecedor e poluía desvairadamente o ambiente campestre, fazendo evacuar as populações da região, com justiça, embora qualquer tentativa de parar a máquina fosse vão esforço. Ia descendo austeramente a ribanceira, vez ou outra prescrevendo semicírculos aleatoriamente na plantação. Embora não fizesse jus à potência e natureza da máquina a vegetação ficava apenas parcialmente destroçada, porém nela permaneciam resquícios de escarros de fuligem e óleo do motor, sujeira que ali iria residir para sempre. Enquanto sujava deliberadamente a plantação, a máquina ia pigarreando, engasgando-se progressivamente com os alimentos de dura digestão e cuspindo vapor pelas chaminés.

Os destroços pereciam-se no caminho que havia sido percorrido. Eram escombros magnânimos de uma vilania temperada por essa indústria. Verdadeiramente não se podia considerar aquele objeto sinistro, que avançava sobre longas patas, uma máquina agrícola, ou, menos ainda, uma indústria. Não havia escondida em sua planta nenhuma esteira de produção ou manufatura. Não era imbuída de objetivos e também não iria parar jamais, pois a incineração dentro de seu esqueleto, que dispunha de alimentação eterna – o próprio capim e insetos - funcionava como um gerador de energia. Essa fortaleza móvel, rechaçada desesperadamente pelas gralhas ao longo de seu percurso, dominara tiranicamente toda a fazenda de seu dono.

De longe ele assistia a esse massacre, esboçando um sorriso largo no rosto, congratulando a si mesmo pela própria criação do monstro. As horas a fio na garagem martelando, desatarraxando e construindo com afeto essa criatura não haviam sido horas desperdiçadas afinal. Conservou-se mais um tempo contemplando o cenário apocalíptico e miserável, ornamentado vaidosamente pelo seu filho. Foi correndo até ele.

Ao lado da máquina havia a entrada para um fosso de diâmetro largo o suficiente para um corpo humano adulto por ali passar confortavelmente. Aquele caminho ia desaguar, através de um tobogã mortal, na fornalha, o estômago da máquina. O cientista pôde observá-lo tão logo alcançou a máquina na corrida. Calculou o impulso necessário para lá dentro cair sem qualquer empecilho, tomou distância, flexionou as pernas, e mergulhou para sua morte, trucidando-se na engrenagem colossal que o engolia e o devorava despreocupadamente. A energia do corpo humano daria mais fôlego e ânimo para a máquina.