17.3.10

Feliz Dia de São Patrício

Nem sei se vou ter tempo de tomar uma cerveja hoje (espero que sim), mas como tenho um capítulo de livro para terminar, uma conta de banco para encerrar, uma consulta médica para acompanhar e - se tudo der certo - dois filmes para ver no cinema depois de semanas sem aparecer em uma sala escura, vai ser difícil.

Para não deixar a data passar em branco, aqui em baixo vai mais um trecho da noveleta "Tridente de Cristo", uma vez que a maior parte da trama se passa neste dia, só que 142 anos atrás. A primeira parte publiquei aqui, no dia do aniversário deste blog. Um brinde a todos.




Catedral de São Patrício, centro do Rio de Janeiro. Dia 17 de março.

A escolha do santo a que foi dedicada a nova Catedral do Rio de Janeiro motivou algum debate nos meios religiosos, políticos e jornalísticos. Mas a decisão do Imperador de prestar uma distinção aos migrantes que vieram em massa ao Brasil – muitos deles depois de breve passagem pelos Estados Unidos – foi, como de costume, soberana. Sem oportunidades no Velho Continente, desiludidos com a república norte-americana, uma multidão de irlandeses passou a aportar diariamente no Brasil, para substituir, em troca de salários, o trabalho dos escravos negros, libertados no país em 1850, contribuindo assim para a construção da infraestrutra que serve de base para o Império dos Trópicos.

Ao contrário do que ocorreu com outros grupos de trabalhadores estrangeiros, como os chineses que jamais se integraram de fato à sociedade brasileira, os irlandeses em boa parte prosperaram na nova terra. Muitos se tornaram comerciantes, industriais, autoridades religiosas. Alguns enriqueceram. Caso notável do noivo desta noite, que mesmo nascido nos Estados Unidos, tem avós paternos ingleses, de Hampshire, e maternos irlandeses, de Dublin. J. Neil Gibson e muitos outros católicos de mesma origem tornaram-se benquistos pela família real brasileira e foram os principais financiadores de inúmeros projetos na capital do Império. Entre eles a mais nova igreja da chamada Cidade Fantástica.

Dessa forma, o padroeiro da Irlanda, quem, segundo o mito, expulsara as serpentes e o próprio diabo da ilha européia tinha, no exato dia que lhe era dedicado pelos católicos, um novo templo sendo inaugurado. Ademais, para desgosto dos carmelitas, o lugar ocuparia a função da Igreja de Nossa Senhora do Carmo como a Sede Episcopal da Diocese. Mais desgosto ainda causava entre outras congregações o porte deste novo templo, um verdadeiro monumento da arte gótica revestido em mármore de carrara branco. A mistura do rancor movido pelo pecado capital da inveja e os chamativos detalhes daquele estilo arquitetônico motivaram um apelido maldoso, quase herético, à nova igreja.

Como a fachada dela é marcada por duas torres laterais espigadas, com 100 metros de altura cada, e por uma entrada também pontiaguda, encimada por uma cruz da mesma cor do mármore das paredes, a pena da galhofa carioca intitulou sua Catedral como Tridente de Cristo. E há que se concordar: ela parece mesmo um enorme garfo de pedra brotado do solo, com os dentes destro e canhoto bem maiores que o do meio.

Como seria o esperado, tal acunha só é sussurrada à boca pequena ou, caso apareça por escrito, em pasquins anônimos. Atribuir a arma predileta do seu eterno inimigo ao filho de Deus já seria blasfêmia capaz de atrair a Ira Santa. Mas usar isso para desmerecer a ereção de um projeto supervisionado pessoalmente por Pedro de Alcântara é pedir por algo ainda mais medonho: a Ira Imperial. Isso porque Sua Majestade se empenhou na viabilização da ideia que deveria ter sido posta em prática no gigante do Norte, na cidade de Nova Iorque. Contudo, ela foi sucessivamente sendo adiada pela baixa presença de católicos por lá, pelo início da Guerra Civil, pelo desastre econômico do país e, por fim, pela migração do seu projetista, James Renwick Jr., ao Brasil.

16.3.10

The difference engine vai sair no Brasil 2

No dia 13 de janeiro escrevi por aqui:

Estava ainda ontem dizendo que o Ano do Vapor se devia tanto às novidades produzidas no Brasil quanto às que devem ser lançadas em versão nacional. Pois o editor da Aleph, acaba de confirmar esse vatícinio ao comunicar na maior comunidade em português dedicada à FC do Orkut que uma obra clássica e definidora do gênero, da qual falamos aqui desde o início do blog, vai chegar às nossas livrarias. Adriano Fromer Piazzi disse: "Com imenso prazer que comunico que iremos publicar, ainda este ano, um grande clássico Steampunk. THE DIFFERENCE ENGINE, de William Gibson e Bruce Sterling".

A editora confirma o lançamento para o segundo semestre deste ano, ainda estão ajustando o cronograma para poder informar uma data mais específica, e o nome da tradutora. A versão para o português desta obra que inaugurou o subgênero steampunk vai ficar por conta de Ludimila Hashimoto, a mesma responsável pelas elogiadas traduções de A voz do fogo, de Alan Moore, e de vários  romances da série Discworld, de Terry Pratchett.

15.3.10

Sobre "A Máquina"

O texto do post abaixo é a primeira ficção de outro autor que publico neste blog. Ele foi escrito por Leonardo Stockler e ganhou o terceiro lugar na categoria minicontos do Prêmio Braulio Tavares de 2008, concurso organizado por Ana Cristina Rodrigues, a mesma responsável pelo Prêmio Melhores do Ano. Consegui a autorização do autor depois de uma breve negociação pelo Orkut, um tanto dificultada pelo hábito recém-adquirido por aquele site de mandar meus scraps para a caixa de spam dos destinatários. Agradeço a intervenção do também escritor Marcelo Augusto Galvão nas negociações.

A Máquina

Por Leonardo Stockler



Convulsionando-se em engrenagens e ferrolhos, que disparavam estalos frenéticos, fazendo parecer desprender a camada de milhões de parafusos, ia desfilando pelo canavial aquela maçaroca sombria de mecanismos e aparelhagens. Marchava engolindo e digerindo os insetos e pequenos animais com os quais deparava em seu caminho amplamente circunscrito. Dentro de seu corpo, generosamente rebuscado de chaminés, e peças ainda manchadas de graxa quente, reinava uma fornalha infernal, onde iam morrer os restos dos animais que eram triturados pela galeria de brocas, cuja entrada situava-se na barriga da máquina, mirando o solo, que, através dos dispositivos ali instalados, sugava para dentro de si os bichinhos silvestres, em sua maioria insetos.

Pela popa da máquina as partes não aproveitadas pela fornalha eram defecadas violentamente esfarelando-se no vento, de modo que era impossível distingui-las após a ejeção. Sustentando toda a parafernália havia quatro patas muito bem articuladas compostas basicamente de ferro retorcido e alumínio.

O barulho era ensurdecedor e poluía desvairadamente o ambiente campestre, fazendo evacuar as populações da região, com justiça, embora qualquer tentativa de parar a máquina fosse vão esforço. Ia descendo austeramente a ribanceira, vez ou outra prescrevendo semicírculos aleatoriamente na plantação. Embora não fizesse jus à potência e natureza da máquina a vegetação ficava apenas parcialmente destroçada, porém nela permaneciam resquícios de escarros de fuligem e óleo do motor, sujeira que ali iria residir para sempre. Enquanto sujava deliberadamente a plantação, a máquina ia pigarreando, engasgando-se progressivamente com os alimentos de dura digestão e cuspindo vapor pelas chaminés.

Os destroços pereciam-se no caminho que havia sido percorrido. Eram escombros magnânimos de uma vilania temperada por essa indústria. Verdadeiramente não se podia considerar aquele objeto sinistro, que avançava sobre longas patas, uma máquina agrícola, ou, menos ainda, uma indústria. Não havia escondida em sua planta nenhuma esteira de produção ou manufatura. Não era imbuída de objetivos e também não iria parar jamais, pois a incineração dentro de seu esqueleto, que dispunha de alimentação eterna – o próprio capim e insetos - funcionava como um gerador de energia. Essa fortaleza móvel, rechaçada desesperadamente pelas gralhas ao longo de seu percurso, dominara tiranicamente toda a fazenda de seu dono.

De longe ele assistia a esse massacre, esboçando um sorriso largo no rosto, congratulando a si mesmo pela própria criação do monstro. As horas a fio na garagem martelando, desatarraxando e construindo com afeto essa criatura não haviam sido horas desperdiçadas afinal. Conservou-se mais um tempo contemplando o cenário apocalíptico e miserável, ornamentado vaidosamente pelo seu filho. Foi correndo até ele.

Ao lado da máquina havia a entrada para um fosso de diâmetro largo o suficiente para um corpo humano adulto por ali passar confortavelmente. Aquele caminho ia desaguar, através de um tobogã mortal, na fornalha, o estômago da máquina. O cientista pôde observá-lo tão logo alcançou a máquina na corrida. Calculou o impulso necessário para lá dentro cair sem qualquer empecilho, tomou distância, flexionou as pernas, e mergulhou para sua morte, trucidando-se na engrenagem colossal que o engolia e o devorava despreocupadamente. A energia do corpo humano daria mais fôlego e ânimo para a máquina.

14.3.10

Passarinhos vaporosos

 Já havia falado da tira Os Passarinhos de Estevão Ribeiro por aqui, quando escrevi o que vai abaixo:

O símbolo do Twitter é um passarinho, certo? Então nada mais justo que uma tira que tenha se popularizado a partir daquela rede de microblogs, e se tornado em pouco tempo fenômeno na rede, seja protagonizada pelos mesmo animais emplumados. Os Passarinhos, criação do escritor, quadrinista e futuro telenovelista Estevão Ribeiro, são um exercício de metalinguagem com o mercado editorial brasileiro, uma vez que um dos piantes - o baixinho Hector - deseja se tornar um autor de sucesso.

Naquele post, comentei sobre estampas de camiseta com os personagens, uma delas sendo inspirada no subgênero steampunk. Pelo jeito, esse vai ser um estilo no qual o criador dos pássaros vai investir. No dia primeiro de março, ele postou o desenho abaixo, com gatos vestidos segundo a moda vitoriana: Agata Triste e Migalhas.



E neste domingo, Estevão Ribeiro mostrou a versão steamer de seu personagem o Grande Piador, dando uma indicação de que vem mais por aí neste universo a vapor.



No Universo SteamPunk dos Passarinhos, ele controla as engrenagens do lugar. Pelo relógio, Ele também pode ver o que acontece no seu mundo.

E antes que perguntem: Sim, tenho planos de fazer uma história sobre o Universo SteamPunk dos Passarinhos! Aguardem e até quarta!

12.3.10

Torre de Vigia 19

A lista da Locus comentada em um post anterior já repercutiu na mais nova iniciativa para dar visibilidade internacional à ficção científica brasileira. O Science Fiction Made in Brazil é um blog capitaneado por Ana Cristina Rodrigues que faz parte de uma série de diálogos mantidos pelo twitter com escritores e editores do Brasil e de outras fronteiras. O evento deve ser semanal e estreou hoje, em um chat com o editor americano David Rozansky.

Mas voltando ao blog, em sua segunda postagem, ele repercutiu a lista da Locus, reproduzindo os comentários de Fábio Fernandes aos três livros brasileiros escolhidos como sendo os destaques no panorama brasileiro de 2009 - a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, entre eles. Acrescentou dois comentários, primeiro que a única omissão importante na listagem é uma obra do próprio autor, o romance Os dias da peste, da mesma editora que a coletânea, a Tarja. O segundo, que estes quatro livros devem ser resenhados naquele espaço. Good news.

Tibor Moricz fala sobre O Peregrino

Cândido Ruiz entrevista o escritor Tibor Moricz sobre seu segundo romance, a ser lançado ainda este ano, O Peregrino. Com chamada no site da Loja São Paulo do Conselho Steampunk, a conversa foi publicada em seu blog O Nocturlábio, dedicado ao conto que o próprio confrade anda a escrever por estes dias. Abaixo, segue a abertura da entrevista, na qual sou citado, e a primeira pergunta e respectiva resposta da entrevista que pode ser lida aqui.



Tibor Moricz não é um autor estreante e seus romances já nos são conhecidos. O Autor de Fome e Síndrome de Cérebro desta vez nos presenteia com O Peregrino – “Um romance ambientado no meio oeste americano, ano aproximado de 1870. Um homem desperta numa caverna, seminu, cabeludo, barbudo, com unhas longas e retorcidas. Sem memória nenhuma do passado. Ao seu lado, um Colt45 reluzente como novo.” – Eis o nosso ponto de partida neste romance que foi batizado de forma extrovertida por Romeu Martins como “bullets and sorcery“. O autor me revelou alguns elementos deste romance em uma breve entrevista.

1-Como o criador classifica sua obra? Nos conte um pouco mais a respeito deste universo que parece flertar com o Weird West e o Steampunk.

O Peregrino nasceu conto. Era pra ser um conto. Por tradição não elaboro antecipadamente as tramas de narrativas curtas. Deixo as palavras irem fluindo, juntando parágrafos. Às vezes não funciona e às vezes funciona bem demais, como nesse caso. Me dei conta de que tinha muito mais nas mãos do que um conto lá pela página 10. Foi aí que antevi toda a magnitude da história, toda a sua potencialidade. Mudei drasticamente de estratégia e comecei, então, um romance. Não pensei em gêneros nem em subgêneros enquanto escrevia. Deixei a coisa fluir, presa, porém, a um fio condutor tênue. Agora, pronto, vejo que tenho nas mãos uma obra que mistura fantasia e ficção científica. Reúne características de ambas. É um romance com características Steampunk, mas não foi escrito para ser assim. Não houve uma planificação neste sentido. Surgiu naturalmente.

Torre de Vigia 18 - A coletânea na Locus

Juro que não canso de me surpreender. Agora, a primeira coletânea brasileira steampunk acaba de surgir em uma nova lista internacional. Mas não é "mais uma" lista internacional. Por vários motivos. Primeiro, porque ela aparece no blog da Locus, uma das mais importantes revistas dedicadas à ficção científica em todo o mundo. Segundo, porque foi compilada por Jeff VanderMeer, escritor e organizador de coletâneas que se tornam referências obrigatórias no assunto. Terceiro, porque quem elaborou o segmento brasileiro da listagem - que contempla ainda o romance de História Alternativa Xochiquetzal - Uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro, e a trilogia hard Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife - é Fábio Fernandes, também uma referência nacional, e cada vez mais internacional, nesta e em outras áreas.

Neste link, você pode conferir "Um panorama internacional da Ficção Científica e da Fantasia em 2009". Abaixo, segue uma tradução do comentário de Fábio Fernandes sobre a coletânea brazuca:



Steampunk—Histórias de Um Passado Extraordinário, editada por Gianpaolo Celli (Tarja Editorial) Esta é a primeira antologia brasileira de Steampunk, com nove histórias que variam do weird à ficção alternativa (brasileira e estrangeira) igualmente apresentando personagens de Jules Verne e de Conan Doyle. Há também uma história minha lá, uma versão de um conto publicado anteriormente em inglês, em 2009. O steampunk está crescendo rapidamente como uma subcultura no Brasil, e esta antologia tem merecido muitas resenhas em diversos blogs e sites steamers.

8.3.10

Entrevista comigo

Meu caro Afonso Luiz Pereira edita um site de inestimável qualidade chamado Contos Fantásticos. Naquele espaço ele não apenas reúne um acervo de contos diversos, como também artigos e entrevistas com escritores dedicados à literatura de gênero nacional. Ele decidiu começar o mês de março me entrevistando, ora vejam. Nada menos que minha primeira entrevista sobre ficção científica, pela qual sou muito grato ao entrevistador pelo espaço e pelas palavras generosas no comentário. Como não poderia deixar de ser, em vários momentos o assunto da conversa foi o subgênero steampunk. Abaixo vão alguns dos trechos sobre este tema, a íntegra você pode ler aqui.

O escritor Fábio Fernandes, em entrevista concedida aqui mesmo para CONTOS FANTÁSTICOS, foi pontualmente didático ao explicar o significado do termo Steampunk, mas para não perdemos o foco das perguntas que farei a seguir, seria possível você falar alguma coisa sobre e, também, esclarecer este seu súbito “arrebatamento” por este subgênero da FC? 


Fábio Fernandes é um especialista do gênero, tanto escrevendo FC quanto escrevendo sobre FC. Não teria nada a acrescentar às informações que ele lhe deu sobre o subgênero steampunk e de como ele derivou do cyberpunk. Recomendo a quem leu reler o material e a quem não conhece dar uma conferida "aqui". Meu arrebatamento não chega a ser tão súbito. Eu me interesso pelo subgênero desde o final da década de 90, quando em tempos de paridade de nossa moeda com o dólar foi possível acompanhar o lançamento na Inglaterra e nos EUA, via Amazon, da série Liga Extraordinária, de Alan Moore. Aquilo me conquistou de imediato, sabe? Costumo dizer que, racionalmente falando, sei que outras obras do inglês são superiores, nem preciso citá-las, mas algo naquele projeto, naquela ambientação, na ideia de reutilizar personagens clássicos de autores como Jules Verne me conquistou de imediato. 

E mesmo nesse resumo que eu fiz sobre minha aproximação em relação aos escritores de FC nacionais, dá para perceber que o interesse vem de longe. Falei do primeiro livro recente que li, A mão que cria, que, como ressaltei naquela resenha, se tratava de uma obra com elementos steampunk, ao imaginar Verne eleito presidente da França e incentivador de uma corrida tecnológica no século XIX.  Já naquela época, em discussões no Orkut, propus várias sugestões que, dois anos depois, acabaria eu mesmo incorporando em uma noveleta quando me convidaram a escrever uma história desse subgênero para aquela que acabou sendo a primeira coletânea steampunk brasileira. Então, arrebatamento, sim, mas nem tão súbito assim, para quem me conhece. 

Em sendo, teoricamente, a Ficção Científica um tipo de literatura já altamente restritiva ao gosto popular dos leitores brasileiros, o Steampunk, sabidamente uma vertente diferenciada deste gênero, tem fôlego para fazer bonito no Brasil? 

Daí depende das expectativas em jogo. Diria que, a princípio sim, pois existem grupos organizados em todo o país, a partir de uma iniciativa chamada Conselho Steampunk que mantém unidades regionais chamadas de Lojas – a exemplo do que fazem os maçons – em diversos estados, do sul ao nordeste. É um grupo forte, unido, coeso, que contribui com vários eventos e produção cultural, seja em termos literários, de moda, de jogos, enfim. É um verdadeiro exemplo, o melhor que conheço, sem dúvida, de fãs de um gênero que alimentam uma verdadeira cultura, chamando a atenção dentro e fora do país.Além  disso, as editoras e os escritores estão apostando bastante nessa área, com alguns lançamentos agendados, uma segunda coletânea de contos, histórias em quadrinhos, romances, uma produção que procuro documentar em meu mais recente blog, que completou um ano em janeiro, o Cidade Phantástica.

laro que, além da produção nacional, ainda há material produzido no exterior chegando ao Brasil, como filmes, a exemplo do recente Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr., que ajuda a disseminar a estética entre mais e mais interessados. Este ano de 2010 vai ser bastante pródigo em lançamentos, tanto que, pegando emprestada uma expressão do cofundador do Conselho Steampunk, Bruno Accioly, estamos chamando de “O ano do vapor”.

Agora, se por fazer bonito você quer dizer resultado comercial, bem, aí fica difícil prever. No Brasil, literatura fantástica não costuma ser uma boa aplicação em termos financeiros. A única exceção que me ocorre é o vampirismo, como um subgênero da fantasia e do horror. Só o tempo dirá se o steampunk algum dia vai conseguir repetir o feito dos vampiros e produzir um escritor que viva disso. 

“Ouvi dizer” que a antologia Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, da qual você participa com um dos noves contos que compõem a obra, independente do retorno popular, recebeu críticas superpositivas de quem entende do assunto, até mesmo no exterior. A informação procede? 

Você ouviu bem. A repercussão que essa primeira coletânea nacional dedicada ao gênero alcançou desde que foi lançada, na metade de 2009, certamente surpreendeu a todos nós, aos nove autores, ao organizador, Gian Celli e a seu sócio Richard Diegues, da Tarja. Teria que fazer um levantamento para poder afirmar com certeza, mas esse deve ter sido o lançamento recente, da última década, de ficção científica brasileira, que alcançou o maior número de comentários de leitores e de críticos. E isso no Brasil e lá fora, sendo a maioria dessas avaliações positivas. A resenha que mais chamou a atenção foi a de um dos maiores especialistas em literatura fantástica, um americano que mantém uma média de leitura anual na casa dos 500 livros. Larry Nolen primeiro posicionou a obra, sem maiores comentários, entre as melhores que havia lido no ano de 2009 – entre as 500 e tantas que lei aquele ano, volto a reforçar. Pouco depois ele escreveu um texto extremamente atencioso e muito positivo sobre a coletânea em si e sobre o potencial da FC brasileira que, em minha opinião, caso o livro tenha uma segunda edição deveria vir com a tradução do artigo a título de apresentação ( link do artigo ). 

E o impacto não parou por aí. No final de fevereiro deste ano ainda ficamos sabendo que uma versão em inglês do conto do já citado Fábio Fernandes, presente na obra com a noveleta “Breve história da Maquinidade”, vai surgir em uma nova coletânea, dessa vez um livro americano. Steampunk reloaded vai ser lançado ainda este ano pelo casal de editores Ann e Jeff VanderMeer, dando continuidade a outra coletânea compilada por eles. E este segundo volume vai vir com brazuca ao lado de trabalhos de escritores mundialmente conhecidos como William Gibson, ninguém menos que o homem que criou o subgênero steampunk ao lado de Bruce Sterling. Haverá ainda uma publicação virtual, ligada ao livro, que também terá a presença de outro conterrâneo nosso, Jacques Barcia, escritor e jornalista Pernambucano. O e-book trará uma tradução para o inglês da noveleta “Uma vida possível atrás das barricadas”, também publicada originalmente em Steampunk – Histórias de um passado extraordinária.

Arrisco a dizer que esta é uma das poucas, raras, raríssimas vezes que a produção nacional de ficção científica entrou em ressonância com aquilo que está sendo produzido e apreciado lá fora, nos grandes mercados consumidores e fornecedores de FC. Por isso há o interesse deles em saber o que é o tal Brazilian steampunk. E o melhor é que eles estão lendo e gostando daquilo que é feito aqui.            

6.3.10

O capitão e o camundongo

Não fosse esta nota do Universo HQ, certamente teria deixado passar em branco a edição deste mês de Mickey, da editora Abril, na qual o personagem símbolo de Walt Disney (1901-1966) se encontra com o personagem mais famoso de Jules Verne (1828 - 1905). Imagino que deveria fazer uns 25 anos desde que comprei pela última vez um gibi do camundongo. O jejum foi quebrado agora, quando o encontro no número 810, para conferir o que prometiam ser "a melhor aventura dos últimos 125 anos" com a participação do Capitão Nemo. Não posso dizer que gostei, mesmo levando em conta o público a que se destina a HQ e o preço reduzido da revista, R$ 2,95.

Pelo menos houve um avanço neste último quarto de século e já podemos saber o nome dos verdadeiros quadrinistas responsáveis pela história, pois, da última vez que eu tive uma dessas na mão, a assinatura de Walt Disney era a única visível nos créditos. "Mickey e o selo de Vladimir Zeta" foi produzida no país que chama aquele camundongo de Topolino pelo roteirista Francesco Artibani e pelo desenhista Giuseppe Dalla Santa. A premissa básica é interessante: em tempos atuais, uma expedição oceanográfica localiza no fundo do Oceano Atlântico restos de um naufrágio, entre eles, pedaços de madeira com o nome "Isère" e um selo gravado com uma letra que tanto poderia ser Z ou N, a depender de como se girasse o material. Mais notável que isso, havia ainda uma réplica da tocha da Estátua da Liberdade, feita totalmente em ouro.

Uma dupla de cientistas amiga de Mickey e Pateta, professor Zapotec e doutor Marlin, não só tem acesso à descoberta, como determina que as peças realmente são originárias - exatamente - do ano 1885 e, ainda por cima, conta com uma máquina do tempo à disposição para resolver o mistério. Desta forma, as autoridades científicas enviam para o passado os dois investigadores temporais, até o porto de Le Havre, de onde partiu o navio Isère rumo aos EUA com a estátua ainda desmontada, presente da nação europeia pelo primeiro centenário da independência do país americano. Alguns outros detalhes da trama podem ser adivinhados apenas se observando a capa, que revela mais do que o necessário: um personagem denunciando sua cara de vilão e parte do que obviamente é o submarino Nautilus.

O problema da história, como pode constatar quem for ler o gibi, é justamente na motivação do mistério do nem tão misterioso Vladimir Zeta, o homem por trás daquele selo que tanto pode ser um Z quanto um N. Sendo ele, na verdade, um personagem que se define pelo veículo pioneiro que criou, por que haveria de passar tanto trabalho, ter que confiar em tipos tão suspeitos, e embarcar uma carga clandestina, muito preciosa para ele, no navio mais visado e bem protegido daquele fim de século XIX? A coisa não se sustenta nem mesmo com a desculpa de ser uma história de detetive destinada a crianças. Faltou um bom trabalho de edição para exigir mais de Artibani. E o editor também poderia fazer Dalla Santa se esforçar mais com a reconstituição da época vitoriana.

Um Mickey vivendo aventuras no século retrasado não é nem de longe algo inédito. Na verdade, havia mesmo uma série em que ele - ou pelo menos um personagem homônimo, talvez um antepassado - era o ajudante de uma paródia de Sherlock Holmes na Londres daqueles tempos. Com roteiros bem mais interessantes que o desta revista, desenhos detalhados e bem pesquisados e uma diagramação inventiva, valeria a pena se ver uma compilação das HQs com o personagem Sir Lock Holmes. Não o confunda com outra sátira da Disney chamada Berloque Gomes que se passava em tempos contemporâneos: Sir Lock (Sleuth, no original; Ser Lock ou Hulme, na Itália; Ser Lock, na Espanha) foi uma criação de Carl Fallberg e de Al Hubbard apenas para o mercado externo da Disney, com histórias que, até onde pesquisei, não foram publicadas nos EUA. Se a editora Abril lançasse uma edição especial com o personagem e seu ajudante eu compraria com muito mais gosto que fiz com este gibi agora.

1.3.10

Prêmios Melhores do Ano

Comentei a histórica cobertura que Ana Cristina Rodrigues fez do não menos histórico ano de 2009 na ficção fantástica nacional em três posts deste blog, o primeiro foi este; o segundo, este; e o terceiro, um especial steampunk, este. Acontece que aquela retrospectiva rendeu uma ideia ainda mais interessante à sua autora: ela aproveitou a exaustiva listagem para servir de ponto de partida para uma velha requisição dos leitores, escritores e editores de FC, Fantasia e Horror do país, a criação de um prêmio.

Prêmio Melhores do Ano é justamente o título do post que explica as regras do jogo, do qual destaco alguns trechos abaixo:

Usando a listagem da retrospectiva feita aqui, com as obras de autores brasileiros publicadas em 2009, resolvi instituir o Prêmio Melhores do Ano. A carência de prêmiações já foi apontada e discutida a exaustão na NetFC, porém ninguém tinha chamado a si a tarefa de organizar algo.

Com a listagem pronto, o grosso do trabalho já estava feito. Logo, porque não aproveitar?
Então, com vocês, senhoras e senhores, as regras do Prêmio Melhores do Ano!

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- A votação no Prêmio Melhores do Ano é aberta a qualquer um interessado em participar.
- O periodo de votação será de 1o de março a 20 de abril de 2010, sem prorrogações.
- Será permitido votar da seguinte forma:
— Nas comunidades criadas no Facebook, aoLimiar e Orkut para o Prêmio
— Nos tópicos criados nas comunidades ‘Ficção Científica’ e ‘Escritores de Fantasia’ para isso
— Nos posts no blog ‘FC e Afins’ destinadas a cada categoria
— Por email: fds.editora@gmail.com
- Cada votante poderá indicar até 3 obras/pessoas em cada categoria, a exceção da categoria de Contos (em que poderão ser indicado até 5 obras), nas categorias Não-ficção e Ezines (em que só poderá indicar uma obra) e só poderá votar uma vez.
– Votos poderão ser retificados até o final da votação.
– O votante deve se identificar de forma adequada.
– Não é obrigatório votar em todas as categorias.
– O votante poderá indicar menos que o limite máximo.
— Votos que excedam o limite serão anulados se não forem retificados até o final da votação

- Em cada categoria, só poderão ser indicadas as obras constantes das listagens publicados no blog ‘FC e Afins’, a exceção da categoria Contos. Nessa categoria, o voto será espontâneo, ou seja, o votante irá indicar livremente.

– O conto só poderá ser votado se tiver sido publicado em 2009 em alguma das mídias (livros, fanzines, ezines, ebooks e sites) presentes na listagem a exceção de contos fantásticos presentes na coletânea ‘Todas as Guerras’ e os contos brasileiros da coletânea ‘Rumo a Fantasia’, que serão indicados no tópico para a votação dos contos.

Aproveito a oportunidade para duas coisas. A primeira, parabenizar a incansável Ana Cristina por mais essa iniciativa para fomentar a literatura de gênero brasileira. E a segunda, lembrar aos leitores que, por tabela, estou participando de algumas categorias:

Melhor coletânea, com Steampunk - Histórias de um passado extraordinário e Paradigmas 1;

Site de contos, com o Terroristas da Conspiração;

Contos, com "A teoria na prática", "Cidade Phantástica" e "Amazônia underground";

Sites informativos e de resenhas, com Cidade Phantástica e Ponto de convergência;

Colunista, resenhista, comentarista.

Editor, organizador, com  o Terroristas da Conspiração.

Convescote vitoriano no UOL

Tinha noticiado o encontro promovido pela Loja São Paulo do Conselho Steampunk no último da 20 num post do dia 15 de fevereiro. Virou o mês, uma matéria no portal UOL fez a cobertura completa do encontro, com direito a vídeo da entrevista com alguns participantes e trilha sonora da banda The Fall num cover de "Victoria", dos sessentistas The Kinks.

A matéria e o vídeo são de autoria do repórter Rodrigo Bertolotto que podem ser acessados na íntegra aqui. Mas aqui embaixo vai a abertura da reportagem "Jovens de SP adotam estilo vitoriano e adoram tecnologia a vapor" que fez multiplicar o número de visitantes do site do Conselho Steampunk:

Nos dias atuais, tem muita gente projetando que o eterno país do futuro Brasil emergirá como uma potência do século 21. Mas, alguns brasileiros preferem imaginar que já habitam um império, só que do passado. Eles reverenciam uma Londres do século 19, acham que os mares são ingleses e que o sol nunca se põe nos vastos territórios da rainha Vitória.

E nem só verão tropical atrapalha os nossos vitorianos. “Não avisaram vocês que o Carnaval já acabou?”, faz troça um pândego que passa pela curiosa órbita de donzelas de espartilho e rapagões de fraque se dirigindo para um piquenique no parque Trianon, em plena avenida Paulista.

“O pessoal vive perguntando onde é a peça de teatro. Ou pede para tirar fotos junto”, resigna-se Eduardo Castellini, que também atende pela alcunha de Lord Fire. Ele e sua pequena assembleia adentram no bosque atlântico decorado à maneira europeia, deixando para trás o escarcéu de uma batucada de estudantes na calçada.  Ao lado de uma fonte de água, começam o festim.

Essa tribo urbana possui uma vantagem magnífica sobre as outras: a consideração e a estima dos pais pelo modo respeitável de seus hábitos. “Eu era gótica. Minha mãe torcia o nariz e falava que eu parecia um urubu. Descobri o estilo vitoriano, passei a usar corsets, vestidos longos e gargantilhas. Agora minha mãe adora”, folga em dizer Jéssica Nascimento, que dispõe ainda de trajes de milady, aviadora, lolita e governanta.
No tocante à moral vitoriana, Jéssica confessa que é impossível seguir à risca suas manias e seus pudores, mas conserva-se um cavalheirismo dentro do grêmio. “Tratamos as mulheres como damas. A Inglaterra vitoriana era uma época de mais respeito”, opina Lord Fire.

Esse ressurgimento nos últimos anos surgiu no estrangeiro e foi nomeado de steampunk. Decerto esses sujeitos garbosos são mais steam (vapor) do que punk.

27.2.10

Paraná entra para o Conselho

O Conselho Steampunk inaugura sua segunda loja do mês de fevereiro e a segunda a se localizar na Região Sul. Após, respectivamente, Paraíba e Rio Grande do Sul, é o Paraná que passa a ter uma representação regional para os entusiastas da cultura steamer. O post inaugural do site inaugurado no dia 26 de fevereiro foi escrito por Fernando Dekorski e trás a pergunta "Qual estilo SteamPunk combina com você?"




A moda SteamPunk é um braço do genêro SteamPunk que reproduz em vida real toda a variedade de roupas achadas na literatura do gênero. O que aconteceu foi que essa tendência cresceu e virou um fenomêno, inspirando vários entusiastas a fazer e montar sua própria roupa SteamPunk.

A maioria dessas roupas são inspiradas em certos personagens ou imagens da época Vitoriana ou da ficção SteamPunk, formando assim uma coleção de estilos que compartilham certos detalhes.

Este teste determina qual estilo combina mais com você, ou define qual melhor visual se adpta em você. Você é um Aristocrata, um Cientista, um Esplorador, um Oficial, um Cidadão, um Pirata do Ar ou um Maltrapilho?

Para ler mais e fazer o teste clique aqui.