As duas editoras que mais investem em ficção científica nacional juntam forças em um mesmo evento, com grandes descontos para os leitores. É amanhã, em São Paulo. Clique no convite para ampliar.
29.1.10
Torre de Vigia 14
Um depoimento do escritor e editor Gerson Lodi-Ribeiro sobre meu conto na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário já havia me deixado feliz quando feito ao vivo, aqui em São José, no dia 22 de janeiro. Agora, já que foi registrado em seu blog, fico ainda mais satisfeito e o copio para minha clipagem.
Sempre lembrando que o protagonista da noveleta "Cidade Phantástica", João Octavio Ribeiro, deve seu sobrenome a uma homenagem a este carioca (foto de Ivan Jerônimo).
Conversei com Romeu sobre seu recente interesse pelo subgênero steampunk e ele confirmou que começou a se interessar quando surgiu o convite para participar da antologia homônima editada pela Tarja. Além de ter participado dessa iniciativa, ele criou um blog sobre o assunto. Aproveitei o ensejo para elogiar seu trabalho na antologia, afirmando que era um dos três melhores, ao lado dos de autoria de Roberto de Sousa Causo e Antônio Luiz da Costa.
Sempre lembrando que o protagonista da noveleta "Cidade Phantástica", João Octavio Ribeiro, deve seu sobrenome a uma homenagem a este carioca (foto de Ivan Jerônimo).
Voo com escalas
Personalidade paradigmática da história nacional, símbolo tanto da criatividade pátria quanto de um certo desprezo pelo cultivo mais pragmático desta qualidade, Alberto Santos-Dumont (1873-1932) ainda não despertou nos ficcionistas brasileiros o interesse que sua figura mereceria. No dia 20 de janeiro, em uma comunidade do Orkut, um participante levantou a questão se já havia alguma história steampunk aproveitando o pioneiro da aviação como personagem. Logo, os demais participantes começaram a fazer uma lista de obras e de autores que imaginaram tal conceito: o romance Bilac vê estrelas, de Ruy Castro, que já foi resenhado no site da Loja São Paulo do Conselho Steampunk; e as noveletas “O plano de Robida: um voyage extraordinaire", de Roberto Causo, na coletânea Steampunk – Histórias de um passado extraordinário; e “Pais da aviação”, de Gerson Lodi-Ribeiro, na antologia 20 voltas ao redor do Sol. Entrei depois no debate para acrescentar mais duas obras à listagem, outro romance chamado O escritor, o aviador e o jornalista, do publicitário Aluízio Falcão Filho, que imagina uma amizade entre o brasileiro e o francês Jules Verne (1828-1905) e sobre o qual talvez eu fale em outra ocasião, e o romance interativo Conspiração Dumont que é o tema desta resenha.
Não sei se foi devido a tal tópico que acabei prestando atenção ao livro numa visita a uma banca de revistas ou se antes o produto realmente não estava naquelas prateleiras, apesar de ter sido produzido em 2007. O fato, porém, é que minha curiosidade foi despertada e como a obra estava a um preço bem convidativo – ao contrário de outros lançamentos da editora Devir – acabei a comprando e lendo. Ou melhor dizendo, jogando, pois um romance interativo, ou ainda, aventura solo como destaca a capa do livro, é um meio termo entre uma obra literária e um jogo de RPG, desses de tabuleiro. O leitor é convidado a interagir com o texto, escolhendo entre opções múltiplas as ações dos personagens principais - por vezes com a ajuda de um dado para decidir a sorte - e, com isso, alterando o andamento da trama. É exatamente essa a proposta dos autores Renato Silvestrini e Marcus Ferreira, com sua história base do investigador da Scotland Yard agindo na França para acompanhar um caso que já levou a morte um companheiro seu e que envolve espionagem industrial e sabotagem nas vésperas de Santos-Dumont empreender o voo de seu projeto mais ambicioso, o do mais pesado que o ar 14 Bis. Estamos no ano de 1906, em um rota que vai de Londres a Paris atraindo a atenção de personagens alemães e americanos.
O formato não chega a ser novidade, há várias obras que exploram tal interatividade possível que torna o leitor um jogador. Mas o sistema elaborado por Silvestrini, que estreou no gênero com a obra Na trilha do lobisomem, é mais eficiente que a maioria daqueles com os quais já travei contato desde os anos 80. Ele leva em conta o fator tempo decorrido na investigação e, de acordo com as escolhas feitas por nós, a história realmente evolui, sendo bem afetada pelas ações mais impulsivas ou mais refletidas. Dentro dos parâmetros possíveis, o roteiro pode variar entre uma ação quase típica de ficção hard boiled ou uma cadência mais detetivesca. Para garantir que a ambientação de época não saísse do rumo, o escritor chamou para o projeto alguém com formação em história, Marcus Ferreira, dividindo a autoria do romance interativo. Com isso, diminui bastante a chance de encontrarmos informações erradas, como me pareceu, a princípio que seria uma relacionada ao pintor Vincent Van Gogh (1853-1890), mas cuja explicação em uma das linhas possíveis do roteiro acaba sendo convincente. Um cuidado que se soma ao belo tratamento gráfico do produto, que tem uma capa muito boa e algumas fotos internas cedidas pelo Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Só faltou mais atenção à revisão e a uma elaboração mais bem resolvida do texto.
Todas as citadas possibilidades distintas de variação na trama impedem que a resenha seja muito detalhada. É impossível saber quais serão os rumos que um eventual jogador vai trilhar. Quais e quantos, pois apenas levando-se em conta o destino final da viagem, a dupla de autores proporciona 27 finais diferentes entre as 200 opções distintas. Ou melhor, o número final pode ser 200, mas na verdade são 199, em uma brincadeira com as manias de seu personagem título Conspiração Dumont pulou a opção número oito, exatamente como o mineiro fez antes deles, como lembra um aviso na página sete: “Santos-Dumont construiu seis balões e oito dirigíveis, todos apelidados com números, pulou o número 8 por ser supersticioso e achar que o ‘8’ dava azar. Achamos que seria bom respeitar a superstição dele e pular o número 8 nesse livro também”. Mesmo com tal ausência, sobra bastante material para o jogador se divertir com uma trama que pode não ser steampunk stricto sensu, mas envolve uma corrida tecnológica bastante interessante, um personagem ainda pouco explorado em nossa ficção e, a depender das escolhas feitas, ainda a possibilidade de interagir com personalidades históricas como os pintores Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Pablo Picasso (1881-1973) ou outra pioneira dos céus, Aída de Acosta (1884-1962).
Não sei se foi devido a tal tópico que acabei prestando atenção ao livro numa visita a uma banca de revistas ou se antes o produto realmente não estava naquelas prateleiras, apesar de ter sido produzido em 2007. O fato, porém, é que minha curiosidade foi despertada e como a obra estava a um preço bem convidativo – ao contrário de outros lançamentos da editora Devir – acabei a comprando e lendo. Ou melhor dizendo, jogando, pois um romance interativo, ou ainda, aventura solo como destaca a capa do livro, é um meio termo entre uma obra literária e um jogo de RPG, desses de tabuleiro. O leitor é convidado a interagir com o texto, escolhendo entre opções múltiplas as ações dos personagens principais - por vezes com a ajuda de um dado para decidir a sorte - e, com isso, alterando o andamento da trama. É exatamente essa a proposta dos autores Renato Silvestrini e Marcus Ferreira, com sua história base do investigador da Scotland Yard agindo na França para acompanhar um caso que já levou a morte um companheiro seu e que envolve espionagem industrial e sabotagem nas vésperas de Santos-Dumont empreender o voo de seu projeto mais ambicioso, o do mais pesado que o ar 14 Bis. Estamos no ano de 1906, em um rota que vai de Londres a Paris atraindo a atenção de personagens alemães e americanos.
O formato não chega a ser novidade, há várias obras que exploram tal interatividade possível que torna o leitor um jogador. Mas o sistema elaborado por Silvestrini, que estreou no gênero com a obra Na trilha do lobisomem, é mais eficiente que a maioria daqueles com os quais já travei contato desde os anos 80. Ele leva em conta o fator tempo decorrido na investigação e, de acordo com as escolhas feitas por nós, a história realmente evolui, sendo bem afetada pelas ações mais impulsivas ou mais refletidas. Dentro dos parâmetros possíveis, o roteiro pode variar entre uma ação quase típica de ficção hard boiled ou uma cadência mais detetivesca. Para garantir que a ambientação de época não saísse do rumo, o escritor chamou para o projeto alguém com formação em história, Marcus Ferreira, dividindo a autoria do romance interativo. Com isso, diminui bastante a chance de encontrarmos informações erradas, como me pareceu, a princípio que seria uma relacionada ao pintor Vincent Van Gogh (1853-1890), mas cuja explicação em uma das linhas possíveis do roteiro acaba sendo convincente. Um cuidado que se soma ao belo tratamento gráfico do produto, que tem uma capa muito boa e algumas fotos internas cedidas pelo Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Só faltou mais atenção à revisão e a uma elaboração mais bem resolvida do texto.
Todas as citadas possibilidades distintas de variação na trama impedem que a resenha seja muito detalhada. É impossível saber quais serão os rumos que um eventual jogador vai trilhar. Quais e quantos, pois apenas levando-se em conta o destino final da viagem, a dupla de autores proporciona 27 finais diferentes entre as 200 opções distintas. Ou melhor, o número final pode ser 200, mas na verdade são 199, em uma brincadeira com as manias de seu personagem título Conspiração Dumont pulou a opção número oito, exatamente como o mineiro fez antes deles, como lembra um aviso na página sete: “Santos-Dumont construiu seis balões e oito dirigíveis, todos apelidados com números, pulou o número 8 por ser supersticioso e achar que o ‘8’ dava azar. Achamos que seria bom respeitar a superstição dele e pular o número 8 nesse livro também”. Mesmo com tal ausência, sobra bastante material para o jogador se divertir com uma trama que pode não ser steampunk stricto sensu, mas envolve uma corrida tecnológica bastante interessante, um personagem ainda pouco explorado em nossa ficção e, a depender das escolhas feitas, ainda a possibilidade de interagir com personalidades históricas como os pintores Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Pablo Picasso (1881-1973) ou outra pioneira dos céus, Aída de Acosta (1884-1962).
27.1.10
Dragões do Império 2
Mais alguns detalhes do fardamento dos Dragões do Império, agora tomando como base a distinção que há entre as diferentes patentes dos militares. A referência usada foram informações visuais deste fórum.

Dragão do Império - Oficial
Dragão do Império - Graduado
Dragão do Império - Soldado
25.1.10
Dragões do Império
Para a noveleta "Cidade Phantástica" peguei emprestada da história brasileira uma força policial com um nome tão poético que parecia ser fictício: a Polícia dos Caminhos de Ferro. Foi assim que descrevi, em um dos primeiros posts deste blog, aquela instituição:
Na noveleta que dá continuação à primeira desventura de João Fumaça surge um novo aparato de segurança naquela versão mais industrializada do Brasil no século XIX. Desta vez, trata-se de um grupamento fictício, porém baseado em forças armadas que realmente existiram em nosso país. Segue um trecho no qual são citados os Dragões do Império:
De fato, Jean Baptiste Debret (1768-1848) viveu no Brasil entre os anos de 1816 e 1831, onde registou, com pinturas e desenhos, os principais momentos que levaram à Independência do país e os primeiros anos do reinado de D. Pedro I (1798-1834). Uma de suas primeiras contribuições para o imaginário nativo foi a recriação da farda do Primeiro Regimento de Cavalaria do Exército, criado em 1808, ainda pelo Príncipe Regente D. João VI (1767-1826). Após a Independência, a denominação mudou oficialmente para Imperial Guarda de Honra. A inspiração para o desenho do uniforme veio da Tropa de Cavalaria do império austríaco, na qual também predominava a cor branca. Aquela foi a forma do pintor homenagear o país de origem da Imperatriz Maria Leopoldina (1797-1826).
Em nossa história alternativa, as duas forças ostentam o nome de Dragões já em 1866, algo que na realidade só veio a ocorrer oficialmente sete décadas depois, em 1936. Dragão é o soldado de cavalaria ligeira, em contraposição às tropas de cavalaria couraçada. Pode ser encarada como uma referência ao animal heráldico que adorna o capacete dos militares e que vem diretamente do brasão da Casa de Bragança, a Família Imperial brasileira. Na criação do fictício regimento dos Dragões do Império entrou ainda outra fonte: os Voluntários da Pátria. Foram os corpos de soldados criados em 1865 para ampliar a força do Exército e servir basicamente como frente de combate na Guerra do Paraguai (1864-1870). Neste mundo, tal conflito não ocorreu, contudo o Brasil e seus aliados (o Paraguai à frente) se encontram em outra zona de batalha no ano em que se passa a noveleta, 1868.
Quem for ler "Tridente de Cristo" deverá perceber ainda uma terceira referência na mistura que deu origem a esses dragões ficcionais; uma tropa bem mais contemporânea e bastante conhecida de nosso país. Dali veio a ideia de modificar a cor original do fardamento, como pode ser visto na pintura acima, de autoria de Debret com intervenção minha. Clicando na imagem, é possível perceber muitos detalhes do trabalho daquele artista francês.
Pode até parecer, mas essa força policial não é somente uma invenção para o universo ficcional de Cidade Phantástica. Polícia dos Caminhos de Ferro foi realmente o nome da primeira corporação de segurança especializada do Brasil, criada antes mesmo da inauguração de alguma estrada de ferro no país.
D. Pedro II fundou a instituição por força de um decreto régio em julho de 1852. Apenas dois anos depois, em abril de 1854, terminou a construção da ferrovia por onde circulou a locomotiva número um do Brasil, a Baroneza (conforme grafia da época), apelido recebido para homenagear a esposa do Barão de Mauá.
Na noveleta que dá continuação à primeira desventura de João Fumaça surge um novo aparato de segurança naquela versão mais industrializada do Brasil no século XIX. Desta vez, trata-se de um grupamento fictício, porém baseado em forças armadas que realmente existiram em nosso país. Segue um trecho no qual são citados os Dragões do Império:
Na noite de hoje, alguns de seus homens garantem a proteção da corte, trajando o uniforme de gala, idêntico ao dos Dragões da Independência, conforme foi criado pelo pintor francês Jean Baptiste Debret a pedido do pai do atual Imperador. A diferença marcante entre o fardamento das duas tropas de Dragões é que no dos mais antigos predomina a cor branca; no dos que se encontram perfilados do lado de fora da Catedral de São Patrício o preto contrasta com o vermelho dos detalhes da gola, dos punhos e da faixa da cintura, além do dourado dos capacetes. Acima desses, penachos coloridos sinalizam a patente de cada militar e fazem companhia às esculturas do animal mítico que empresta seu nome àqueles militares. Os sabres na cintura dos alferes são mero enfeite, o poder de fogo deles pode ser medido pelos fuzis mecanizados do tipo Guarany que portam: armas capazes de disparar as dezenas de balas de suas câmaras com um único apertar de gatilho.
De fato, Jean Baptiste Debret (1768-1848) viveu no Brasil entre os anos de 1816 e 1831, onde registou, com pinturas e desenhos, os principais momentos que levaram à Independência do país e os primeiros anos do reinado de D. Pedro I (1798-1834). Uma de suas primeiras contribuições para o imaginário nativo foi a recriação da farda do Primeiro Regimento de Cavalaria do Exército, criado em 1808, ainda pelo Príncipe Regente D. João VI (1767-1826). Após a Independência, a denominação mudou oficialmente para Imperial Guarda de Honra. A inspiração para o desenho do uniforme veio da Tropa de Cavalaria do império austríaco, na qual também predominava a cor branca. Aquela foi a forma do pintor homenagear o país de origem da Imperatriz Maria Leopoldina (1797-1826).Em nossa história alternativa, as duas forças ostentam o nome de Dragões já em 1866, algo que na realidade só veio a ocorrer oficialmente sete décadas depois, em 1936. Dragão é o soldado de cavalaria ligeira, em contraposição às tropas de cavalaria couraçada. Pode ser encarada como uma referência ao animal heráldico que adorna o capacete dos militares e que vem diretamente do brasão da Casa de Bragança, a Família Imperial brasileira. Na criação do fictício regimento dos Dragões do Império entrou ainda outra fonte: os Voluntários da Pátria. Foram os corpos de soldados criados em 1865 para ampliar a força do Exército e servir basicamente como frente de combate na Guerra do Paraguai (1864-1870). Neste mundo, tal conflito não ocorreu, contudo o Brasil e seus aliados (o Paraguai à frente) se encontram em outra zona de batalha no ano em que se passa a noveleta, 1868.
Quem for ler "Tridente de Cristo" deverá perceber ainda uma terceira referência na mistura que deu origem a esses dragões ficcionais; uma tropa bem mais contemporânea e bastante conhecida de nosso país. Dali veio a ideia de modificar a cor original do fardamento, como pode ser visto na pintura acima, de autoria de Debret com intervenção minha. Clicando na imagem, é possível perceber muitos detalhes do trabalho daquele artista francês.
22.1.10
O Peregrino vai ser publicado pela Draco
No último post de 2009, havia escrito que uma das atrações do Ano do Vapor seria o terceiro romance de Tibor Moricz, então ainda sem editora confirmada.
O escritor acaba de confirmar em seu blog que o livro vai ser mais uma aposta da editora Draco, a mesma da coletânea Vaporpunk e do romance O Baronato de Shoah, duas outras obras com elementos steampunk:
Em um texto anterior, Tibor Moricz já havia listado 16 outros lançamentos previstos pela editora 2010, um levantamento que, como podemos ver, ainda está sujeito a muitas novidades extras.
Um outro romance que também deve ser lançado no primeiro semestre do ano foi anunciado por seu autor neste post. Tibor Moricz ainda está negociando com as editoras, mas O Peregrino, terceiro livro solo a levar sua assinatura - do qual tive o prazer de ser um dos beta readers -, está praticamente garantido como uma das novidades do Ano do Vapor. A trama mistura FC e Fantasia em um cenário típico de faroeste. Quando o autor me pediu para dar uma definição da obra, arrisquei "bullets and sorcery".
O escritor acaba de confirmar em seu blog que o livro vai ser mais uma aposta da editora Draco, a mesma da coletânea Vaporpunk e do romance O Baronato de Shoah, duas outras obras com elementos steampunk:
Aguardei até que algumas negociações se resolvessem para anunciar a editora que publicará meu novo romance O Peregrino. Não acabou muito diferente do que eu já esperava, dentro de um exercício de adivinhação baseado em dados mais ou menos consistentes. A Editora Draco abraça mais um projeto para este ano e publicarei meu terceiro livro em 4 anos, com mais dois já engatilhados para breve.
O Peregrino nasceu de uma brincadeira que costumo fazer com bastante frequência. Começar a escrever sem uma ideia na cabeça. Digitando palavras seguidas, deixando-as completarem parágrafos. Um parágrafo após o outro até eu me dar conta de que algo bom está nascendo (ou me dar conta do contrário e jogar tudo fora).
Era pra ser um conto mas se transformou num romance ambientado no meio oeste americano, ano aproximado de 1870.
Começa com um homem despertando numa caverna. Seminu, cabeludo, barbudo, com unhas longas e retorcidas. Sem memória nenhuma do passado. Ao seu lado, um Colt45 reluzente como novo.
Ele sai em busca de respostas para a sua vida e acaba realizando uma longa peregrinação por três cidades – Downtown, Middletown e Uptown – numa procura contrafeita por crianças perdidas. Além delas, ele está atrás de si mesmo e de seu passado nebuloso.
Em um texto anterior, Tibor Moricz já havia listado 16 outros lançamentos previstos pela editora 2010, um levantamento que, como podemos ver, ainda está sujeito a muitas novidades extras.
19.1.10
Tridente de Cristo?
Entrevista com Jeff VanderMeer
Boa parte do interesse mundial para com o steampunk foi despertada por uma coletânea organizada por Ann e Jeff VanderMeer reunindo autores estrelados como Michael Chabon, Michael Moorcock e Paul DiFilippo. A dupla - na verdade o casal -, também responsável por uma muito elogiada e comentada antologia New Weird, foi fundamental para esta segunda onda internacional que se vê relacionada ao gênero.
Pesquisando um pouco, descobri que no dia 18 de outubro do ano passado o blog Capacitor Fantástico - dedicado a ficção científica, fantasia, terror, mistério e fantástico - publicou a tradução de uma entrevista de Jeff VanderMeer a respeito desse livro. Originalmente veiculada em inglês no Flames Rising, o material é muito interessante para quem gostaria de entender mais a recente popularidade da cultura steamer no Brasil e no mundo. Vale ainda como incentivo para que alguma editora brasileira - Conrad, Record, Aleph - se mobilize para viabilizar a versão em português da obra.
Vou citar abaixo a introdução à conversa de autoria Jeremy Jones, perfeita para o objetivo deste blog. O restante da matéria pode ser lido aqui.
Pesquisando um pouco, descobri que no dia 18 de outubro do ano passado o blog Capacitor Fantástico - dedicado a ficção científica, fantasia, terror, mistério e fantástico - publicou a tradução de uma entrevista de Jeff VanderMeer a respeito desse livro. Originalmente veiculada em inglês no Flames Rising, o material é muito interessante para quem gostaria de entender mais a recente popularidade da cultura steamer no Brasil e no mundo. Vale ainda como incentivo para que alguma editora brasileira - Conrad, Record, Aleph - se mobilize para viabilizar a versão em português da obra.
Vou citar abaixo a introdução à conversa de autoria Jeremy Jones, perfeita para o objetivo deste blog. O restante da matéria pode ser lido aqui.
Então, o que é "steampunk"?
"Algo cool, com uma linguagem elaborada. Ciência inventada - reinventada" disse James Blaylock, um pioneiro do steampunk e autor do livro Lord Kevlin's Machine.
"Steampunk (um sub-gênero da ficção científica) oferece em quantidade, aquilo que é mais visualmente excêntrico e aventureiro, sobre a época vitoriana e suas especulações científicas."
A antologia Steampunk editada por Ann e Jeff VanderMeer, faz barulho e cliques com engenhocas, dirigíveis e robôs a vapor de doze metros de altura.
As treze histórias contidas nesta coleção são reforçadas por um prefácio, uma introdução e dois ensaios. Os editores não são novatos neste tipo de ficção. Ann VanderMeer é editora da Weird Tales e Jeff VanderMeer é vencedor do prêmio World Fantasy, autor de Shriek: bem como de uma coleção de histórias conectadas, situadas no mundo imaginário de Ambergris.
"Em Steampunk", escrevem os VanderMeers em seu prefácio, "nós tentamos fornecer uma mistura do tradicional e do idiossincrático, o novo e o velho, mantendo-se fiel à idéia de steampunk como uma diversão pseudo-vitoriana sombria. Você vai encontrar histórias sobre golens mecânicos, máquinas infernais, os personagens de Júlio Verne e é claro, dirigíveis."
A antologia resultante é tanto prazeirosa como um alívio, já que os VanderMeers encontraram uma maneira de reforçar o gênero sem sugerir (ou impor) um conjunto restrito de parâmetros.
"Steampunk", diz Magpie Killjoy, editor da SteamPunk Magazine, "é uma forma filosófica de reanalisar nossas interações com as máquinas. Para este fim, encontramos na era dos motores a vapor, as promessas, verdadeiras e falsas, que nos foram oferecidas por volta do século 19. Assim steampunk é uma estética, um gênero, uma subcultura, e uma filosofia que gira em torno deste entendimento. "
No coração do steampunk, como um ethos, diz Paul DiFilippo, autor dos romances Joe's Liver e Fuzzy Dice, existe o desejo de "voltar a uma época em que a tecnologia e o artesanal ainda não tinham sido separados, quando partes do nosso mundo permaneciam inexploradas, onde o heroísmo individual vinha antes de tudo, quando a linha entre o bem e o mal era clara, e você poderia vestir-se bem".
17.1.10
Post a story for Haiti: Devilish Comedy
Crossed Genres is running a ‘donate for Haiti’ campaign by having SF/F authors link free stories to their site. If you read the story below and like it, please consider making a donation to one of the charities listed on their site. "Devilish Comedy" is a sandalpunk/sword & sorcery piece (in Portuguese here)
By Romeu Martins
Translated by Ludimila Hashimoto
“Never more a eunuch of the Lord!”
That was said with such resolution, still inside the royal palace, it left no doubt as to the gravity of the moment. The warrior turned his back on his former commander, then ahead, next to the exit from the oppressive environment, turned and yelled again, now beating his broad chest with his right fist.
“From this day on I use power in my own name, do you hear me? In my name only.”
Back in the streets, there was no need for energetic demonstrations. For the discontent mob that awaited him, just a nod was enough. So it was done. From the hands of a servant who waited obsequiously the warrior took the ostentatious sword - the origin of so much disgrace and destruction evoked by the master he had just forsaken.
Armed again, he strode towards the stables of the kingdom. The group of followers limited themselves to watching him from afar. The rebellious soldier chose from among the stallions the one that was red in color, the most vigorous and unruly of all. When the horseman, owner of the animal, went over and tried to understand the situation, he heard the voice that cannot be disobeyed.
“I am taking thy horse as a symbol of my intents. But thou and thy brothers shall wait, for I am returning soon to put an end to the idleness that afflicts those who cannot stand the impositions of that despot. That will be the day when the war will satisfy the hunger and thirst with long overdue rewards postponed in the name of cowardice.”
The horseman showed no objection, on the contrary; he gave way to the rebel with a smile on his face, concealed only by his bushy beard. Then he headed home to give his three twins the news: the days of glory, so long announced, were coming without further delay.
Sword on his back, ride between his legs, the soldier left the reign followed by a legion of faithful warriors. Many others would have followed him, but the fear of offending and stirring up the wrath of the ruler of those domains did not allow such boldness. However, even the most innocent of the cherubs knew that the days would never be the same again. The seeds of uncertainty then sowed were soon to show its blossoms. The nights of the Great Bonfires would soon resume to producing many other victims.
The journey of the revolutionary who renounced the High Lands would be neither quick nor easy. Before achieving their goal they went past intervenient cities, located in the perpetually litigious nation, and between the two major powers at the time. Even though he was aware of the importance of discipline among the troops, the general of the rebellious force allowed his men to plunder the villages on their long passage. Pillage, drinking and women would improve the army’s vitality after long days under the rules that annoyed everyone. Rules which, in the end, were the main reason why they had decided to follow a new leader.
The temporary rest would be used by the warrior to send emissaries ahead to the final destination of the march, in order to advance the plans he had in mind and which had been shared with very few members of his infantry. He would also use the time to write and reread letters that spoke of promises of love tender as flower pouring honey, dark grapes, flowers and dance, bodies and pain, incense and scent.
In times like this, the veteran of so many bloody battles caught himself sighing like a mere poet in love.
As they finally arrived at the doorway of the Lower Reign an army had already been lined up there to surprise most of the legionaries. The local force exceeded by far the visiting contingent both in number and in power of weapons. A blow of only one of their archers would be enough to kill a thousand birds in midair. Besides, the defensive troops were way better positioned, at a high place of an inexpugnable cliff.
Having achieved such an edge on his opponents gave the sovereign courage to go on the campaign in person. Apparently predictable, though not at all expected. Not from a creature known for always operating behind the scenes and for avoiding, whenever possible, physical encounters. There he was ahead of his many generals, looking down on the newly comers. No doubt he would demand that they drop their weapons and take an oath of loyalty to him. They would certainly be ordered to pay him honors in order to be admitted into his realms.
However, before either of the commanders of the opposing forces uttered any words, a voice was heard coming from the fragile looking litter that had followed the defense troops of the Lower Reign. The voice belonged to the woman who had been the queen even before the present ruler arrived for he was the usurper who had killed her first husband, taken the bloody crown and herself as part of the booty.
“Bring Lucifer on a tray for me.”
Having gotten used to betraying, the Prince of Lies had not expected the blow. He did not even have time to attempt a reaction when the hands of those who – he believed – were his most faithful servants grabbed him and dragged him for cruelty and torture. Gripes tore the flesh which is not flesh and shed blood which is not blood. Countless vengeances eagerly desired were satisfied in those moments of rage.
It was Beelzebub the demon in charge of performing the details of the order pronounced from the litter. But the woman no longer sat in the luxuriously decorated object. Now that they did not have to worry about being seen together, the queen was next to her lover, mounted with him on the flesh-colored horse excited with the smell of blood coming from the severed head with wide open eyes and half-open mouth lying by its hooves. It is not known for certain who started the chant, but it was soon followed by thousands of voices of the angels and demons congregated there, so intensely that the claim was clearly heard by the inhabitants of the three reigns.
“Hail Gabriel, hail Persephone, the new Emperors of Hell! Guide us towards the final victory over God and Humanity!”
Devilish Comedy
By Romeu Martins
Translated by Ludimila Hashimoto
“Never more a eunuch of the Lord!”
That was said with such resolution, still inside the royal palace, it left no doubt as to the gravity of the moment. The warrior turned his back on his former commander, then ahead, next to the exit from the oppressive environment, turned and yelled again, now beating his broad chest with his right fist.
“From this day on I use power in my own name, do you hear me? In my name only.”
Back in the streets, there was no need for energetic demonstrations. For the discontent mob that awaited him, just a nod was enough. So it was done. From the hands of a servant who waited obsequiously the warrior took the ostentatious sword - the origin of so much disgrace and destruction evoked by the master he had just forsaken.
Armed again, he strode towards the stables of the kingdom. The group of followers limited themselves to watching him from afar. The rebellious soldier chose from among the stallions the one that was red in color, the most vigorous and unruly of all. When the horseman, owner of the animal, went over and tried to understand the situation, he heard the voice that cannot be disobeyed.
“I am taking thy horse as a symbol of my intents. But thou and thy brothers shall wait, for I am returning soon to put an end to the idleness that afflicts those who cannot stand the impositions of that despot. That will be the day when the war will satisfy the hunger and thirst with long overdue rewards postponed in the name of cowardice.”
The horseman showed no objection, on the contrary; he gave way to the rebel with a smile on his face, concealed only by his bushy beard. Then he headed home to give his three twins the news: the days of glory, so long announced, were coming without further delay.
Sword on his back, ride between his legs, the soldier left the reign followed by a legion of faithful warriors. Many others would have followed him, but the fear of offending and stirring up the wrath of the ruler of those domains did not allow such boldness. However, even the most innocent of the cherubs knew that the days would never be the same again. The seeds of uncertainty then sowed were soon to show its blossoms. The nights of the Great Bonfires would soon resume to producing many other victims.
The journey of the revolutionary who renounced the High Lands would be neither quick nor easy. Before achieving their goal they went past intervenient cities, located in the perpetually litigious nation, and between the two major powers at the time. Even though he was aware of the importance of discipline among the troops, the general of the rebellious force allowed his men to plunder the villages on their long passage. Pillage, drinking and women would improve the army’s vitality after long days under the rules that annoyed everyone. Rules which, in the end, were the main reason why they had decided to follow a new leader.
The temporary rest would be used by the warrior to send emissaries ahead to the final destination of the march, in order to advance the plans he had in mind and which had been shared with very few members of his infantry. He would also use the time to write and reread letters that spoke of promises of love tender as flower pouring honey, dark grapes, flowers and dance, bodies and pain, incense and scent.
In times like this, the veteran of so many bloody battles caught himself sighing like a mere poet in love.
As they finally arrived at the doorway of the Lower Reign an army had already been lined up there to surprise most of the legionaries. The local force exceeded by far the visiting contingent both in number and in power of weapons. A blow of only one of their archers would be enough to kill a thousand birds in midair. Besides, the defensive troops were way better positioned, at a high place of an inexpugnable cliff.
Having achieved such an edge on his opponents gave the sovereign courage to go on the campaign in person. Apparently predictable, though not at all expected. Not from a creature known for always operating behind the scenes and for avoiding, whenever possible, physical encounters. There he was ahead of his many generals, looking down on the newly comers. No doubt he would demand that they drop their weapons and take an oath of loyalty to him. They would certainly be ordered to pay him honors in order to be admitted into his realms.
However, before either of the commanders of the opposing forces uttered any words, a voice was heard coming from the fragile looking litter that had followed the defense troops of the Lower Reign. The voice belonged to the woman who had been the queen even before the present ruler arrived for he was the usurper who had killed her first husband, taken the bloody crown and herself as part of the booty.
“Bring Lucifer on a tray for me.”
Having gotten used to betraying, the Prince of Lies had not expected the blow. He did not even have time to attempt a reaction when the hands of those who – he believed – were his most faithful servants grabbed him and dragged him for cruelty and torture. Gripes tore the flesh which is not flesh and shed blood which is not blood. Countless vengeances eagerly desired were satisfied in those moments of rage.
It was Beelzebub the demon in charge of performing the details of the order pronounced from the litter. But the woman no longer sat in the luxuriously decorated object. Now that they did not have to worry about being seen together, the queen was next to her lover, mounted with him on the flesh-colored horse excited with the smell of blood coming from the severed head with wide open eyes and half-open mouth lying by its hooves. It is not known for certain who started the chant, but it was soon followed by thousands of voices of the angels and demons congregated there, so intensely that the claim was clearly heard by the inhabitants of the three reigns.
“Hail Gabriel, hail Persephone, the new Emperors of Hell! Guide us towards the final victory over God and Humanity!”
Um conto para ajudar - Espírito animal
Inspirado na iniciativa do site Crossed Genres, o FC e Afins começou uma roda de contos para auxiliar as vítimas do terremoto no Haiti.
Informações sobre onde e como doar aqui, além dos outros contos participantes.
Para participar desta corrente, e pedir a colaboração dos demais colegas, republico aqui um conto de 19 de novembro de 2008, no qual citei o país caribenho.
Por Romeu Martins
A primeira coisa que você nota quando finalmente o vê pela primeira vez são as botas brancas sujas de lama. Saltando do avião para a pista de pouso clandestina - em algum lugar entre o sul do Pará e o norte do Mato Grosso, ninguém perdeu tempo para lhe explicar os detalhes geográficos – o homem macula a brancura que usa dos pés à cabeça grisalha naquele chão irregular e enlameado.
Ainda a alguma distância você o ouve falar ao celular, em um modelo semelhante ao que lhe entregaram quando aceitou ser recrutado, semanas atrás. O trecho final da conversa chega a seus ouvidos sem a necessidade de muito esforço de sua parte:
- Sim, Mr. Ayak. Vai ser muito engraçado quando todos perceberem que venceu exatamente o nosso candidato. Muita gente vai se surpreender, com toda certeza. Mande um abraço a Mr. Akia.
O nervosismo bate. Você aperta ainda mais as mãos na expectativa de finalmente conhecer o homem por quem estava esperando há horas. Nervoso, tenta desviar o olho da figura que avança em sua direção e, só então, percebe o prefixo do jatinho que pousou poucos metros à sua frente. Você não é nem de longe um especialista no assunto, mas sempre notou que aviões no Brasil costumam ter a letra P iniciando o código de identificação pintado nas fuselagens. A mente divaga e vem a lembrança do avião que caiu com todos os integrantes de uma banda engraçadinha na metade dos anos 90, como era mesmo?, PT-LSD, sim, você se lembra claramente até das piadas que contou na época.
Porém, a aeronave que trouxe o homem que dá pernadas sobre poças de água para alcançá-lo não segue tal padrão. As letras no casco branco são azuis e não começam com P. Não, no lugar, duas outras letras que você tem percebido por todo o canto ultimamente, a ponto de quase o levar à obsessão com o tamanho e a insistência das coincidências. TC são as tais letras e depois do traço outras três: JCN. Passa pela sua cabeça se isso poderia ser um caso de personalização do prefixo, como algumas pessoas fazem com as placas do carro. Sobre o significado de TC você já tem várias pistas juntadas ao longo de meses de observação, de pesquisa e de entrevistas. E quanto às outras três letras? Seriam a iniciais do nome deste homem que se aproxima? Talvez, afinal a forma pela qual o identificaram é apenas um sobrenome, o mesmo que você balbucia enquanto ergue a mão para cumprimentá-lo.
- Sr. Neves? É um prazer finalmente conhecê-lo.
Ele retribui o gesto, apertando sua mão com mais força que seria o esperado para alguém com idade suficiente para ser seu avô. O sorriso parece genuíno.
- Ah, sim, o mais novo candidato a membro de nossa organização. Me disseram que você nos prestou bons serviços em um caso recente. Espero que tenha sido bem tratado enquanto esperava.
- Com certeza. Todos que me trouxeram até aqui foram muito cordiais, apesar de não poderem me dar tantas respostas quanto eu gostaria. Eles não sabiam me dizer exatamente quando o senhor voltaria de viagem, por exemplo.
- Ah, mas isso ninguém saberia dizer mesmo, rapaz. Estive muito ocupado com as atividades do Tulip Collectors, nos Estados Unidos, desde setembro.
- Colecionadores de tulipa? Não fazia a menor idéia que o senhor se interessava por botânica.
Ele dá uma gargalhada. Será que você falou alguma bobagem?
- Eu me interessar por flores? Isso é muito engraçado. O nome do grupo é uma homenagem a um caso que ocorreu há 400 anos, na Holanda. Foi a primeira crise especulativa registrada pela história da economia. Já ouviu falar?
- Não, pelo menos não que eu me lembre.
- Amsterdã era uma cidade rica nos anos de 1600, capital de um império que, no auge do período das navegações, consumia produtos vindos de toda parte do mundo. Um desses produtos chegava do oriente e virou mania entre os milionários holandeses. Sei que parece ficção, mas a verdade é que um único bulbo de tulipa chegou a valer o mesmo que 24 toneladas de trigo naquela época. Existe o relato, feito no século XIX, sobre um marinheiro bêbado que comeu um desses bulbos. Pensou que era uma cebola, pobre coitado. O homem ficou seis meses na prisão por isso.
- Mas é inacreditável. Como pode uma flor, mesmo sendo, sei lá, exótica , valer tanto dinheiro?
- Keynes chamou a isso, usando uma expressão emprestada de Descartes, de “Espírito animal”, a euforia que faz investidores partirem em busca do lucro. É uma característica positiva, mas quando assume ares de irracionalidade vira a versão do mercado financeiro para a febre do ouro. O resultado é que, quando alguém finalmente percebe o tamanho do buraco em que se meteu, o encanto se acaba e o efeito manada leva a uma crise generalizada. Foi assim com as tulipas holandesas do século XVII, com a crise de 1929, com o estouro da bolha da Internet...
- Ou com o mercado de quadrinhos dos anos 90!
Sua intervenção parece ter pegado o homem mais velho de surpresa.
- Quadrinhos?
- Hã, sim. Na década passada colecionadores de revistas de super-heróis, tipo Marvel e DC, sabe?, pareciam acreditar que qualquer gibi com o número 1 na capa iria valer uma fortuna em poucos anos, como aconteceu com a Action Comics, a revista em que surgiu o Super-Homem antes da II Guerra e que hoje está avaliada em uns... 800 mil dólares por exemplar bem conservado.
Você percebe pelo rosto de seu interlocutor que todos os nomes listados não fazem muito sentido para ele, então só acrescenta mais uma frase, em voz baixa, meio envergonhado:
– Mas logo aquilo mostrou ser um erro, quem comprou várias edições de um mesmo gibi dos X-Men ou do Batman, mesmo sem nunca ter tirado do plástico, percebeu que jogou dinheiro fora.
- Bem, neste caso eu sou inocente. Nunca me meti com o ramo dos quadrinhos, apesar de já ter feito serviços para a indústria de cinema dos Estados Unidos, tempos atrás. E agora, com a queda de Wall Street, eu e meus associados fizemos tanto dinheiro quanto havíamos feito com a queda do outro muro, o dos anos 80. Mas vamos entrar na base e tirar os pés deste atoleiro. Nunca vi terra pra chover tanto, é impossível se erguer um país civilizado com este clima.
Basta um aceno do homem para que as portas do complexo se abram. Durante todas as horas em que esteve esperando por seu anfitrião, não o deixaram entrar no local, protegido por uma camuflagem de selva que o torna virtualmente invisível do alto, seja de observadores em aviões seja dos olhos eletrônicos dos satélites. Você só pôde esperar em um alojamento comunitário, uma área residencial para a equipe permanente daquilo que Neves chamou de “a base”.
Não dá para dizer que impressiona muito as instalações por trás da alta e provavelmente pesada porta que se destranca à sua frente. As instalações lembram alguns laboratórios dos cursos de engenharia lá na sua antiga universidade. Um saguão amplo e uma série de escadas e passarelas de metal chumbadas em paredes de tijolo à vista são tudo o que você percebe. No chão de cimento pintado de branco vocês dois deixam pegadas de lama enquanto avançam para o interior do prédio, tão iluminado quanto uma fábrica, com iluminárias de lâmpadas fluorescentes, divididas de quatro em quatro. Poucas pessoas percorrem o lugar, algumas entram e saem pelas portas dos andares superiores. Mas todas as que notam a presença do senhor Neves, a seu lado, imediatamente trocam com ele algum cumprimento. O líder daquela equipe retribuí com simpatia, chamando boa parte dos homens e mulheres pelos respectivos nomes.
Você procura ansiosamente algo para dizer e com isso disfarçar o nervosismo com a situação. É quando nota uma placa de bronze parafusada em uma parede com aparência bem mais sólida e antiga que a do restante da base. Não dá para resistir a curiosidade em relação ao que está escrito e sua voz sai mais alta do que o planejado quando consegue ler o alto-relevo.
- TC, 1810, Príncipe Regente D. João VI...
- Surpreso com alguma coisa?
- Bem, desculpe se estou sendo indiscreto, mas não esperava uma citação tão antiga a..., bem, à nossa organização. E muito menos que ela estivesse relacionada com um antigo rei português.
Neves pára diante do retângulo metálico com certa reverência, mãos para trás, na postura de um acadêmico que estuda detalhes de alguma pintura clássica. Ele não tem pressa em falar.
- É verdade. Esta placa é um dos registros mais antigos da pré-história de nosso grupo. Ela representa o agradecimento de D. João a quem o salvou de um atentado planejado por Napoleão Bonaparte para matá-lo em solo brasileiro.
Sua cara de espanto é o suficiente para divertir o homem mais velho e o incentivar a continuar a história.
- É isso mesmo. Sei que você nunca leu sobre isso nos livros de história, mas quando a família real portuguesa conseguiu escapar do cerco francês, escoltada pelos navios ingleses, Napoleão secretamente decretou a morte de D. João e de Carlota Joaquina. Para executar a ordem, o imperador recrutou o serviço de agentes que imaginava serem leais a ele. Não contava que haveria um traidor no grupo.
- Um homem de nossa organização?
- Eu falei que esse caso dizia respeito à nossa pré-história. E essa história, como a outra que lhe contei, também diz respeito a uma flor. O fato é que umas das pessoas envolvidas na missão de matar os portugueses era diretamente ligado a um antigo inimigo dos republicanos que fizeram a revolução na França. Um homem que, disfarçando sua identidade, salvou muitos nobres da morte certa na guilhotina e que enfrentou Robespierre e seu bando de decapitadores. Este nosso amigo, assim que aportou no Brasil, conseguiu impedir os planos regicidas de Napoleão. Com isso, ganhou o reconhecimento da família real portuguesa e dos aliados ingleses e espanhóis. Aquele evento foi a origem de um pacto entre representantes dessas casas reais, cujos integrantes se faziam reconhecer por aquela sigla gravada na placa.
- T e C? – Você se arrisca a falar, quase para tirar o narrador de um transe.
- Isso, isso mesmo. Aquelas letras representavam expressões que faziam sentido na língua tanto dos aliados quanto na do inimigo de então. T e C significavam Três Coroas para os brasileiros e portugueses; Three Crowns, para os ingleses; Tres Coronas, para os espanhóis; e Trois Couronnes, para os franceses. Juntas, em selos, marcas d’água, brasões, sinetes, anéis e toda série de subterfúgios as duas letras abriam portas, serviam como senha e passe livre além de distinguir os membros de uma das mais secretas e poderosas sociedades internacionais que já existiram.
Ambos ficam devotando atenção àquela sigla centenária feita de metal. Não com menos ênfase que uma dupla de maçons dedicaria a um monumento com o G emoldurado pela régua e pelo compasso. Você mal pode acreditar que algo assim lhe foi contado com tamanha facilidade, não depois de semanas e semanas de mistérios, de tentativas dissimuladas para ganhar confiança que pareciam não dar em nada... Todo aquele trabalho estava sendo recompensado com uma conversa em tom casual revelando nada menos que duzentos anos da história secreta do seu país. E além!
Você se sente tirando a sorte grande. Tem medo de pôr tudo a perder se for muito intrometido, mas medo ainda maior é o de não arriscar. Continuar com as perguntas é sua obrigação.
- Quer dizer então que tudo começou como uma sociedade secreta monarquista?
O transe foi oficialmente interrompido. Neves tira os olhos da placa histórica e se volta para você, girando não o pescoço, mas todo o corpo. Cintura primeiro, calcanhares depois, ainda com as mãos cruzadas nas costas. Ele parece voltar a se dar conta de sua presença ali, mesmo que a expressão do rosto seja indecifrável.
- Desde o início os fundadores de nossa organização tiveram o objetivo claro de moldar a realidade de acordo com nossos interesses. Não somos nós quem devemos nos adaptar ao mundo, é ele que deve se curvar a nós. Se no primeiro momento era útil contar com a aliança de cabeças coroadas, mais tarde chegou a vez dos republicanos. Prova disso é que tanto Deodoro quanto Bolívar estiveram acompanhados nos seus momentos decisivos por agentes com o emblema TC . E assim foi ao longo das décadas, trabalhamos tanto com ditadores de direita quanto com revolucionários de esquerda; estamos ao lado de teocracias fundamentalistas e de estados ateus. Derrubamos mercados liberais do mesmo modo que arruinamos economias planificadas. No final, nossa vontade é o que conta.
É até difícil engolir em seco. A medida em que a voz dele ia se tornando mais firme e o tom se elevava, sua garganta parecia se contrair. O medo que você está sentindo deve ser tão visível ou tão sensível ao olfato de seu interlocutor que ele muda de atitude. Abandona o ar de sermão e se aproxima para dar um tapa em suas costas e voltar a guiá-lo na caminhada pelas instalações.
- Mas você está certo em sua observação. Foi nossa origem pró-monarquia que garantiu nosso futuro. D. João nomeou seu salvador como barão e concedeu muitas vantagens ao grupo que estava sendo criado naqueles dias. Entre elas, a posse de terras como o pedaço de selva em que está construída esta base. Ela começou como uma simples casamata e foi crescendo de acordo com nossas necessidades operacionais.
Neves aponta para funcionários carregando equipamentos de telecomunicação, partes de antenas de transmissão, centenas de metros de fios dourados, placas de circuito integrado. Mas ele o conduz por uma porta da ala antiga da base, longe da maior parte da agitação provocada pelo entra e sai dos técnicos.
- E deve ter sido uma coincidência e tanto vocês estarem instalados em um local com tantos acontecimentos históricos. Afinal, aqui perto fica aquela base militar onde tentaram desenvolver uma bomba atômica nacional, não é mesmo? Sem falar naquele acidente aéreo terrível...
Antes de completar a frase você se dá conta sozinho do tamanho de sua ingenuidade, algo só reforçado pelo som da risada de seu anfitrião.
- Ora, coincidência é o nome que pessoas desinformadas dão a nosso trabalho.
O local está bem mais escuro que o restante das instalações. Neves indica com um gesto que você deve continuar em frente enquanto ele se aproxima da parede oposta, onde estão localizados os interruptores. Mesmo na penumbra, pelo som de suas passadas, você percebe que a partir de certo trecho o chão não é mais de cimento. Só não consegue identificar exatamente o que seja.
- Estranho, essa parte aqui parece ser feita de um metal... mas não é de ferro, né?
Um ligeiro clique e as luzes se acendem.
- Não, não é de ferro...
Um novo som, mais seco e muito mais alto, e o chão a seus pés desaparece.
- ... é feito de chumbo, na verdade.
De chumbo ou de ferro, para sua própria e máxima surpresa, apesar dos anos de ócio improdutivo, você consegue se agarrar à borda do buraco que surge como um alçapão de desenho animado.
Mesmo com o impacto da barriga e dos joelhos contra as paredes metálicas, o desespero empresta forças suficientes para você não largar o apoio, isso às custas das unhas fincadas, arranhando ruidosamente o piso. Arfando e bufando, você tenta se manter a salvo e escalar a saída. Só que o revestimento das paredes é liso demais para seus pés conseguirem impulsioná-lo, a borracha do tênis patina, patina e não encontra aderência o suficiente. No outro extremo, os braços sozinhos não dão conta de puxar seu corpo para fora.
Neste momento, você parece brotar do chão, da altura do peito, com os braços esticados para frente e olhos esbugalhados de espanto.
Pouco a pouco, caminhando calmamente, Neves aparece em seu campo de visão. Ele se reclina um pouco para falar com você, como faria um adulto para conversar com uma criança pequena.
- Parabéns, não esperava que um bostinha feito você conseguisse evitar a queda, jornalista.
O esforço na luta contra a gravidade provoca um chiado em seus ouvidos, é como se sua cabeça tivesse se tornado um enorme balão que deixa o gás escapar por um furo microscópico. Mesmo assim, dá para ouvir claramente que aquele homem descobriu sua identidade.
- É, seu idiota, sabemos quem é você. Sabemos que você estava tentando escrever uma matéria sobre nós para aquela revistinha patética que publica seus, como é mesmo?, seus frilas. Sabe, foram vários os motivos para termos comprado nossa própria empresa de telefonia celular. Espalhar antenas por todo o Brasil foi um deles; garantir meios para que ninguém consiga grampear nossos aparelhos foi outro.
Neste momento ele se abaixa ainda mais e fala quase cuspindo diretamente em sua direção.
- Ninguém escuta nossas conversas sem nossa permissão, seu bos-ti-nha. E nós sempre – sempre – sabemos quem está tentando nos bisbilhotar.
Seus dedos começam a sangrar, as unhas parece que vão ser arrancadas pela tensão que são obrigadas a suportar. Entre suor e baba você consegue falar em um tom audível, mas não tão alto quanto os sons guturais que lhe escapam da boca e do nariz.
- Muita gente sabe que onde eu estou... se eu não voltar vão haver buscas...
A risada do outro lado é sonora.
- Você é mesmo um tolo, rapaz! O monomotor que o trouxe aqui - isso já está em todos os telejornais - sofreu um acidente e caiu no fundo do mar, com seu corpo e o do piloto. Vocês nunca serão encontrados, é claro. Neste momento, todos os arquivos de seu computador pessoal já estão conosco. Invadimos seu hotel, sua casa, o computador que você usa naquela redação... As pessoas que falaram com você, que deram entrevistas e passaram informações, serão procuradas. Você serviu direitinho para o que queríamos, jornalista. Foi nossa isca perfeita para nos mostrar elos fracos em nosso grupo.
A vontade é de largar tudo e se deixar cair. Só o instinto, na forma de um iceberg gelado na barriga e no de pêlos ouriçados na nuca, é que o impede de se entregar ao precipício.
- Mas depois de todo esse esforço, você merece ao menos a confirmação da história que veio buscar. Sim, o que você leu naquele documento militar confidencial que lhe entregaram estava certo, é tudo verdade. Havia mais um projeto secreto financiado com dinheiro das contas Delta durante a última ditadura. Não era só o exército que queria construir seu artefato nuclear; a marinha com o submarino atômico; e a aeronáutica com o míssil balístico. Existia um quarto projeto, coordenado por um grupo independente, o nosso grupo. Mas sabe qual era a diferença entre nós e eles, os militares?
Neste momento ele volta a se levantar, apenas mantém o olhar fixo em você e cutuca o polegar direito contra o próprio peito enquanto fala em voz mais alta.
- Nós tivemos o espírito animal que faltou àqueles incompetentes. Hoje, o resultado de nossa pesquisa está usando um capacete azul no Haiti.
Neves avalia durante alguns segundos o efeito que as palavras tiveram sobre você. Porém seu estado não é muito promissor para continuar a conversa. A dor, o cansaço e a gravidade vão vencer a luta a qualquer momento.
- Posso ajudá-lo em mais alguma coisa para a sua matéria, jornalista? Quem sabe quer mais alguma declaração minha ou uma foto para a capa da revista? Já sei, que tal uma imagem do futuro para você? Tome!
A última coisa que você vê é a bota enlameada vindo em sua direção. Ela esmaga seu nariz e o empurra em uma queda de dezenas de metros até o fundo de um túnel com uma inquietante fosforescência radioativa. O brilho tênue vai se apagando aos poucos diante de seus olhos.
Informações sobre onde e como doar aqui, além dos outros contos participantes.
Para participar desta corrente, e pedir a colaboração dos demais colegas, republico aqui um conto de 19 de novembro de 2008, no qual citei o país caribenho.
Espírito Animal
Abrindo um pouco dos arquivos do TC.Por Romeu Martins
A primeira coisa que você nota quando finalmente o vê pela primeira vez são as botas brancas sujas de lama. Saltando do avião para a pista de pouso clandestina - em algum lugar entre o sul do Pará e o norte do Mato Grosso, ninguém perdeu tempo para lhe explicar os detalhes geográficos – o homem macula a brancura que usa dos pés à cabeça grisalha naquele chão irregular e enlameado.
Ainda a alguma distância você o ouve falar ao celular, em um modelo semelhante ao que lhe entregaram quando aceitou ser recrutado, semanas atrás. O trecho final da conversa chega a seus ouvidos sem a necessidade de muito esforço de sua parte:
- Sim, Mr. Ayak. Vai ser muito engraçado quando todos perceberem que venceu exatamente o nosso candidato. Muita gente vai se surpreender, com toda certeza. Mande um abraço a Mr. Akia.
O nervosismo bate. Você aperta ainda mais as mãos na expectativa de finalmente conhecer o homem por quem estava esperando há horas. Nervoso, tenta desviar o olho da figura que avança em sua direção e, só então, percebe o prefixo do jatinho que pousou poucos metros à sua frente. Você não é nem de longe um especialista no assunto, mas sempre notou que aviões no Brasil costumam ter a letra P iniciando o código de identificação pintado nas fuselagens. A mente divaga e vem a lembrança do avião que caiu com todos os integrantes de uma banda engraçadinha na metade dos anos 90, como era mesmo?, PT-LSD, sim, você se lembra claramente até das piadas que contou na época.
Porém, a aeronave que trouxe o homem que dá pernadas sobre poças de água para alcançá-lo não segue tal padrão. As letras no casco branco são azuis e não começam com P. Não, no lugar, duas outras letras que você tem percebido por todo o canto ultimamente, a ponto de quase o levar à obsessão com o tamanho e a insistência das coincidências. TC são as tais letras e depois do traço outras três: JCN. Passa pela sua cabeça se isso poderia ser um caso de personalização do prefixo, como algumas pessoas fazem com as placas do carro. Sobre o significado de TC você já tem várias pistas juntadas ao longo de meses de observação, de pesquisa e de entrevistas. E quanto às outras três letras? Seriam a iniciais do nome deste homem que se aproxima? Talvez, afinal a forma pela qual o identificaram é apenas um sobrenome, o mesmo que você balbucia enquanto ergue a mão para cumprimentá-lo.
- Sr. Neves? É um prazer finalmente conhecê-lo.
Ele retribui o gesto, apertando sua mão com mais força que seria o esperado para alguém com idade suficiente para ser seu avô. O sorriso parece genuíno.
- Ah, sim, o mais novo candidato a membro de nossa organização. Me disseram que você nos prestou bons serviços em um caso recente. Espero que tenha sido bem tratado enquanto esperava.
- Com certeza. Todos que me trouxeram até aqui foram muito cordiais, apesar de não poderem me dar tantas respostas quanto eu gostaria. Eles não sabiam me dizer exatamente quando o senhor voltaria de viagem, por exemplo.
- Ah, mas isso ninguém saberia dizer mesmo, rapaz. Estive muito ocupado com as atividades do Tulip Collectors, nos Estados Unidos, desde setembro.
- Colecionadores de tulipa? Não fazia a menor idéia que o senhor se interessava por botânica.
Ele dá uma gargalhada. Será que você falou alguma bobagem?
- Eu me interessar por flores? Isso é muito engraçado. O nome do grupo é uma homenagem a um caso que ocorreu há 400 anos, na Holanda. Foi a primeira crise especulativa registrada pela história da economia. Já ouviu falar?
- Não, pelo menos não que eu me lembre.
- Amsterdã era uma cidade rica nos anos de 1600, capital de um império que, no auge do período das navegações, consumia produtos vindos de toda parte do mundo. Um desses produtos chegava do oriente e virou mania entre os milionários holandeses. Sei que parece ficção, mas a verdade é que um único bulbo de tulipa chegou a valer o mesmo que 24 toneladas de trigo naquela época. Existe o relato, feito no século XIX, sobre um marinheiro bêbado que comeu um desses bulbos. Pensou que era uma cebola, pobre coitado. O homem ficou seis meses na prisão por isso.
- Mas é inacreditável. Como pode uma flor, mesmo sendo, sei lá, exótica , valer tanto dinheiro?
- Keynes chamou a isso, usando uma expressão emprestada de Descartes, de “Espírito animal”, a euforia que faz investidores partirem em busca do lucro. É uma característica positiva, mas quando assume ares de irracionalidade vira a versão do mercado financeiro para a febre do ouro. O resultado é que, quando alguém finalmente percebe o tamanho do buraco em que se meteu, o encanto se acaba e o efeito manada leva a uma crise generalizada. Foi assim com as tulipas holandesas do século XVII, com a crise de 1929, com o estouro da bolha da Internet...
- Ou com o mercado de quadrinhos dos anos 90!
Sua intervenção parece ter pegado o homem mais velho de surpresa.
- Quadrinhos?
- Hã, sim. Na década passada colecionadores de revistas de super-heróis, tipo Marvel e DC, sabe?, pareciam acreditar que qualquer gibi com o número 1 na capa iria valer uma fortuna em poucos anos, como aconteceu com a Action Comics, a revista em que surgiu o Super-Homem antes da II Guerra e que hoje está avaliada em uns... 800 mil dólares por exemplar bem conservado.
Você percebe pelo rosto de seu interlocutor que todos os nomes listados não fazem muito sentido para ele, então só acrescenta mais uma frase, em voz baixa, meio envergonhado:
– Mas logo aquilo mostrou ser um erro, quem comprou várias edições de um mesmo gibi dos X-Men ou do Batman, mesmo sem nunca ter tirado do plástico, percebeu que jogou dinheiro fora.
- Bem, neste caso eu sou inocente. Nunca me meti com o ramo dos quadrinhos, apesar de já ter feito serviços para a indústria de cinema dos Estados Unidos, tempos atrás. E agora, com a queda de Wall Street, eu e meus associados fizemos tanto dinheiro quanto havíamos feito com a queda do outro muro, o dos anos 80. Mas vamos entrar na base e tirar os pés deste atoleiro. Nunca vi terra pra chover tanto, é impossível se erguer um país civilizado com este clima.
Basta um aceno do homem para que as portas do complexo se abram. Durante todas as horas em que esteve esperando por seu anfitrião, não o deixaram entrar no local, protegido por uma camuflagem de selva que o torna virtualmente invisível do alto, seja de observadores em aviões seja dos olhos eletrônicos dos satélites. Você só pôde esperar em um alojamento comunitário, uma área residencial para a equipe permanente daquilo que Neves chamou de “a base”.
Não dá para dizer que impressiona muito as instalações por trás da alta e provavelmente pesada porta que se destranca à sua frente. As instalações lembram alguns laboratórios dos cursos de engenharia lá na sua antiga universidade. Um saguão amplo e uma série de escadas e passarelas de metal chumbadas em paredes de tijolo à vista são tudo o que você percebe. No chão de cimento pintado de branco vocês dois deixam pegadas de lama enquanto avançam para o interior do prédio, tão iluminado quanto uma fábrica, com iluminárias de lâmpadas fluorescentes, divididas de quatro em quatro. Poucas pessoas percorrem o lugar, algumas entram e saem pelas portas dos andares superiores. Mas todas as que notam a presença do senhor Neves, a seu lado, imediatamente trocam com ele algum cumprimento. O líder daquela equipe retribuí com simpatia, chamando boa parte dos homens e mulheres pelos respectivos nomes.
Você procura ansiosamente algo para dizer e com isso disfarçar o nervosismo com a situação. É quando nota uma placa de bronze parafusada em uma parede com aparência bem mais sólida e antiga que a do restante da base. Não dá para resistir a curiosidade em relação ao que está escrito e sua voz sai mais alta do que o planejado quando consegue ler o alto-relevo.
- TC, 1810, Príncipe Regente D. João VI...
- Surpreso com alguma coisa?
- Bem, desculpe se estou sendo indiscreto, mas não esperava uma citação tão antiga a..., bem, à nossa organização. E muito menos que ela estivesse relacionada com um antigo rei português.
Neves pára diante do retângulo metálico com certa reverência, mãos para trás, na postura de um acadêmico que estuda detalhes de alguma pintura clássica. Ele não tem pressa em falar.
- É verdade. Esta placa é um dos registros mais antigos da pré-história de nosso grupo. Ela representa o agradecimento de D. João a quem o salvou de um atentado planejado por Napoleão Bonaparte para matá-lo em solo brasileiro.
Sua cara de espanto é o suficiente para divertir o homem mais velho e o incentivar a continuar a história.
- É isso mesmo. Sei que você nunca leu sobre isso nos livros de história, mas quando a família real portuguesa conseguiu escapar do cerco francês, escoltada pelos navios ingleses, Napoleão secretamente decretou a morte de D. João e de Carlota Joaquina. Para executar a ordem, o imperador recrutou o serviço de agentes que imaginava serem leais a ele. Não contava que haveria um traidor no grupo.
- Um homem de nossa organização?
- Eu falei que esse caso dizia respeito à nossa pré-história. E essa história, como a outra que lhe contei, também diz respeito a uma flor. O fato é que umas das pessoas envolvidas na missão de matar os portugueses era diretamente ligado a um antigo inimigo dos republicanos que fizeram a revolução na França. Um homem que, disfarçando sua identidade, salvou muitos nobres da morte certa na guilhotina e que enfrentou Robespierre e seu bando de decapitadores. Este nosso amigo, assim que aportou no Brasil, conseguiu impedir os planos regicidas de Napoleão. Com isso, ganhou o reconhecimento da família real portuguesa e dos aliados ingleses e espanhóis. Aquele evento foi a origem de um pacto entre representantes dessas casas reais, cujos integrantes se faziam reconhecer por aquela sigla gravada na placa.
- T e C? – Você se arrisca a falar, quase para tirar o narrador de um transe.
- Isso, isso mesmo. Aquelas letras representavam expressões que faziam sentido na língua tanto dos aliados quanto na do inimigo de então. T e C significavam Três Coroas para os brasileiros e portugueses; Three Crowns, para os ingleses; Tres Coronas, para os espanhóis; e Trois Couronnes, para os franceses. Juntas, em selos, marcas d’água, brasões, sinetes, anéis e toda série de subterfúgios as duas letras abriam portas, serviam como senha e passe livre além de distinguir os membros de uma das mais secretas e poderosas sociedades internacionais que já existiram.
Ambos ficam devotando atenção àquela sigla centenária feita de metal. Não com menos ênfase que uma dupla de maçons dedicaria a um monumento com o G emoldurado pela régua e pelo compasso. Você mal pode acreditar que algo assim lhe foi contado com tamanha facilidade, não depois de semanas e semanas de mistérios, de tentativas dissimuladas para ganhar confiança que pareciam não dar em nada... Todo aquele trabalho estava sendo recompensado com uma conversa em tom casual revelando nada menos que duzentos anos da história secreta do seu país. E além!
Você se sente tirando a sorte grande. Tem medo de pôr tudo a perder se for muito intrometido, mas medo ainda maior é o de não arriscar. Continuar com as perguntas é sua obrigação.
- Quer dizer então que tudo começou como uma sociedade secreta monarquista?
O transe foi oficialmente interrompido. Neves tira os olhos da placa histórica e se volta para você, girando não o pescoço, mas todo o corpo. Cintura primeiro, calcanhares depois, ainda com as mãos cruzadas nas costas. Ele parece voltar a se dar conta de sua presença ali, mesmo que a expressão do rosto seja indecifrável.
- Desde o início os fundadores de nossa organização tiveram o objetivo claro de moldar a realidade de acordo com nossos interesses. Não somos nós quem devemos nos adaptar ao mundo, é ele que deve se curvar a nós. Se no primeiro momento era útil contar com a aliança de cabeças coroadas, mais tarde chegou a vez dos republicanos. Prova disso é que tanto Deodoro quanto Bolívar estiveram acompanhados nos seus momentos decisivos por agentes com o emblema TC . E assim foi ao longo das décadas, trabalhamos tanto com ditadores de direita quanto com revolucionários de esquerda; estamos ao lado de teocracias fundamentalistas e de estados ateus. Derrubamos mercados liberais do mesmo modo que arruinamos economias planificadas. No final, nossa vontade é o que conta.
É até difícil engolir em seco. A medida em que a voz dele ia se tornando mais firme e o tom se elevava, sua garganta parecia se contrair. O medo que você está sentindo deve ser tão visível ou tão sensível ao olfato de seu interlocutor que ele muda de atitude. Abandona o ar de sermão e se aproxima para dar um tapa em suas costas e voltar a guiá-lo na caminhada pelas instalações.
- Mas você está certo em sua observação. Foi nossa origem pró-monarquia que garantiu nosso futuro. D. João nomeou seu salvador como barão e concedeu muitas vantagens ao grupo que estava sendo criado naqueles dias. Entre elas, a posse de terras como o pedaço de selva em que está construída esta base. Ela começou como uma simples casamata e foi crescendo de acordo com nossas necessidades operacionais.
Neves aponta para funcionários carregando equipamentos de telecomunicação, partes de antenas de transmissão, centenas de metros de fios dourados, placas de circuito integrado. Mas ele o conduz por uma porta da ala antiga da base, longe da maior parte da agitação provocada pelo entra e sai dos técnicos.
- E deve ter sido uma coincidência e tanto vocês estarem instalados em um local com tantos acontecimentos históricos. Afinal, aqui perto fica aquela base militar onde tentaram desenvolver uma bomba atômica nacional, não é mesmo? Sem falar naquele acidente aéreo terrível...
Antes de completar a frase você se dá conta sozinho do tamanho de sua ingenuidade, algo só reforçado pelo som da risada de seu anfitrião.
- Ora, coincidência é o nome que pessoas desinformadas dão a nosso trabalho.
O local está bem mais escuro que o restante das instalações. Neves indica com um gesto que você deve continuar em frente enquanto ele se aproxima da parede oposta, onde estão localizados os interruptores. Mesmo na penumbra, pelo som de suas passadas, você percebe que a partir de certo trecho o chão não é mais de cimento. Só não consegue identificar exatamente o que seja.
- Estranho, essa parte aqui parece ser feita de um metal... mas não é de ferro, né?
Um ligeiro clique e as luzes se acendem.
- Não, não é de ferro...
Um novo som, mais seco e muito mais alto, e o chão a seus pés desaparece.
- ... é feito de chumbo, na verdade.
De chumbo ou de ferro, para sua própria e máxima surpresa, apesar dos anos de ócio improdutivo, você consegue se agarrar à borda do buraco que surge como um alçapão de desenho animado.
Mesmo com o impacto da barriga e dos joelhos contra as paredes metálicas, o desespero empresta forças suficientes para você não largar o apoio, isso às custas das unhas fincadas, arranhando ruidosamente o piso. Arfando e bufando, você tenta se manter a salvo e escalar a saída. Só que o revestimento das paredes é liso demais para seus pés conseguirem impulsioná-lo, a borracha do tênis patina, patina e não encontra aderência o suficiente. No outro extremo, os braços sozinhos não dão conta de puxar seu corpo para fora.
Neste momento, você parece brotar do chão, da altura do peito, com os braços esticados para frente e olhos esbugalhados de espanto.
Pouco a pouco, caminhando calmamente, Neves aparece em seu campo de visão. Ele se reclina um pouco para falar com você, como faria um adulto para conversar com uma criança pequena.
- Parabéns, não esperava que um bostinha feito você conseguisse evitar a queda, jornalista.
O esforço na luta contra a gravidade provoca um chiado em seus ouvidos, é como se sua cabeça tivesse se tornado um enorme balão que deixa o gás escapar por um furo microscópico. Mesmo assim, dá para ouvir claramente que aquele homem descobriu sua identidade.
- É, seu idiota, sabemos quem é você. Sabemos que você estava tentando escrever uma matéria sobre nós para aquela revistinha patética que publica seus, como é mesmo?, seus frilas. Sabe, foram vários os motivos para termos comprado nossa própria empresa de telefonia celular. Espalhar antenas por todo o Brasil foi um deles; garantir meios para que ninguém consiga grampear nossos aparelhos foi outro.
Neste momento ele se abaixa ainda mais e fala quase cuspindo diretamente em sua direção.
- Ninguém escuta nossas conversas sem nossa permissão, seu bos-ti-nha. E nós sempre – sempre – sabemos quem está tentando nos bisbilhotar.
Seus dedos começam a sangrar, as unhas parece que vão ser arrancadas pela tensão que são obrigadas a suportar. Entre suor e baba você consegue falar em um tom audível, mas não tão alto quanto os sons guturais que lhe escapam da boca e do nariz.
- Muita gente sabe que onde eu estou... se eu não voltar vão haver buscas...
A risada do outro lado é sonora.
- Você é mesmo um tolo, rapaz! O monomotor que o trouxe aqui - isso já está em todos os telejornais - sofreu um acidente e caiu no fundo do mar, com seu corpo e o do piloto. Vocês nunca serão encontrados, é claro. Neste momento, todos os arquivos de seu computador pessoal já estão conosco. Invadimos seu hotel, sua casa, o computador que você usa naquela redação... As pessoas que falaram com você, que deram entrevistas e passaram informações, serão procuradas. Você serviu direitinho para o que queríamos, jornalista. Foi nossa isca perfeita para nos mostrar elos fracos em nosso grupo.
A vontade é de largar tudo e se deixar cair. Só o instinto, na forma de um iceberg gelado na barriga e no de pêlos ouriçados na nuca, é que o impede de se entregar ao precipício.
- Mas depois de todo esse esforço, você merece ao menos a confirmação da história que veio buscar. Sim, o que você leu naquele documento militar confidencial que lhe entregaram estava certo, é tudo verdade. Havia mais um projeto secreto financiado com dinheiro das contas Delta durante a última ditadura. Não era só o exército que queria construir seu artefato nuclear; a marinha com o submarino atômico; e a aeronáutica com o míssil balístico. Existia um quarto projeto, coordenado por um grupo independente, o nosso grupo. Mas sabe qual era a diferença entre nós e eles, os militares?
Neste momento ele volta a se levantar, apenas mantém o olhar fixo em você e cutuca o polegar direito contra o próprio peito enquanto fala em voz mais alta.
- Nós tivemos o espírito animal que faltou àqueles incompetentes. Hoje, o resultado de nossa pesquisa está usando um capacete azul no Haiti.
Neves avalia durante alguns segundos o efeito que as palavras tiveram sobre você. Porém seu estado não é muito promissor para continuar a conversa. A dor, o cansaço e a gravidade vão vencer a luta a qualquer momento.
- Posso ajudá-lo em mais alguma coisa para a sua matéria, jornalista? Quem sabe quer mais alguma declaração minha ou uma foto para a capa da revista? Já sei, que tal uma imagem do futuro para você? Tome!
A última coisa que você vê é a bota enlameada vindo em sua direção. Ela esmaga seu nariz e o empurra em uma queda de dezenas de metros até o fundo de um túnel com uma inquietante fosforescência radioativa. O brilho tênue vai se apagando aos poucos diante de seus olhos.
Feliz aniversário, Envelheço na cidade
Este blog foi criado há um ano, no dia 17 de janeiro de 2009, data em que postei o início do texto que estava escrevendo para concorrer a uma vaga na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Para comemorar o ciclo, posto abaixo a continuação da noveleta "Cidade Phantástica" que escrevi para concorrer a outra vaga, em outra coletânea. Comentários são bem-vindos. Obrigado por um ano de leitura.
Largo da Carioca, na esquina das ruas do Necrotério com a do Padeiro. Início de fevereiro.
– Chegou uma carta, João. – Gritou a voz de mulher por trás da porta ainda trancada com a cancela, de cujo vão lateral se viu expelir um retângulo branco, como se fosse a língua de um paciente muito doente. – E, pelo amor de Santa Edwiges, não se esqueça do dia do vencimento do aluguel.
Havia um envelope dentro de outro. O primeiro bem simples, sujeito a se sujar e a ser amassado pelo trato não muito cuidadoso do serviço de Correios do Brasil, instituição que estava para completar meio século de existência dali a um par de anos, mas não era reconhecida pela fineza de seus funcionários. Tanto que, de início, nem permitiam o uso da efígie do Imperador para ornar os selos pátrios, com o receio de o vilipendiarem com carimbos e outras mundanices. Passada essa fase inicial, era a face imperial de Dom Pedro II, impressa em vermelho, a fitar como se fosse um irmão mais velho o homem que juntou do chão aquele intruso retangular. Estava endereçado a João Octavio Ribeiro, morador de um quarto alugado naquele casarão a meio caminho do necrotério do Hospital da Ordem Terceira da Penitência e de uma padaria famosa na região. Foi ele mesmo, um ainda jovem agente da Polícia dos Caminhos de Ferro, apesar dos cabelos e da barba acinzentadas nas vésperas dos trinta anos, quem abriu este primeiro e ordinário pedaço de papel antes de responder ao grito de sua senhoria. Ainda estava em roupas de baixo, ou seja, de cuecas cinza e camisa branca.
– Meus agradecimentos, dona Marta. E fique tranquila, assim que me for pago o soldo porei em dia minhas obrigações com a senhora. Tenha um bom dia.
Já o segundo envelope era coisa bem outra. Resistente, alvíssimo por natureza e sem máculas externas, como carimbos e selos. Ali, o nome grafado em uma caligrafia apurada e com o uso de uma poderosa tinta preta era João Fumaça. A alcunha que o agente da lei carregava desde que sua mãe lhe dera à luz em uma pequena cidade inglesa estando de carona em uma locomotiva a vapor. Os dotes de investigador do policial não chegaram a ser exigidos para descobrir quem lhe havia enviado a dupla de envelopes. Bastou desvendar as curvas, volteios e rococós do nome dos remetentes escrito com caligrafia ainda mais caprichada no papel da carta. Ou não propriamente carta, tratava-se, para ser o mais exato possível, de um convite.
O convite para o casamento do multimilionário americano J. Neil Gibson, Rei do Ouro, com a manauense Maria Pinto. João Fumaça conheceu os noivos dois anos antes, em uma aventura que quase custou a vida do trio ali mesmo, no Rio de Janeiro, a dita Cidade Fantástica, às margens da praia de Copacabana. Alguns ossos do policial ainda doíam nos raros meses mais frios do ano. Segurando os papeis, ele procurou se escorar em sua melhor cadeira – na verdade, a única disponível naquele quarto –, deu uma cuspida em direção à escarradeira e ganhou fôlego para continuar a leitura.
Relembrar os eventos de dois novembros atrás não lhe era fácil. Afinal, foram momentos de tensão que quase levaram o Império à guerra com as nações vizinhas. Por isso mesmo, o caso havia sido parcialmente encoberto, bem poucos detalhes chegaram ao público. Na verdade, só o que havia para ele se recordar daquela ocasião balançava em seu pescoço: uma medalha dourada, mas não de ouro, também com a imagem severa do Imperador. O agraciado sempre a usava, dia e noite, amarrada em uma fita com as cores verde e amarela. Mas o hábito de portar tal ornamento havia se tornado mecânico; com o decorrer dos dias, a medalha tornou-se tão parte dele quanto as cicatrizes espalhadas pelo corpo.
Valeu mesmo a pena tudo o que passou? Durante meses ele fez o possível para levar sua vida e não pensar nisso. Afinal, após tão pouco tempo, não estava seu país metido em um conflito com uma potência européia pelo controle econômico de uma ilha caribenha?
Pois relembrar agora seria inevitável. Não era nada comum que alguém de sua posição social fosse convidado para o evento que pararia a capital do Império. Todas as pessoas de importância na corte e entre o meio industrial certamente tomariam lugar na festividade que marcaria ainda a inauguração da nova Catedral do Rio de Janeiro. A corte e a indústria, simbolizadas por seus expoentes máximos, o Imperador Dom Pedro II e o recém-nomeado Conde de Mauá, padrinhos dos noivos como podia ler nos jornais, alguns dos quais espalhados pelo chão daquele quarto de solteiro.
E entre todos os nobres e empresários, estaria ele, o tal solteiro, o policial encarregado da segurança dos comboios a transportar a riqueza do país pelas estradas de ferro. João Fumaça. Uma gentileza talvez da jovem Maria, a mestiça de pai português e mãe índia que tanto o havia impressionado com sua coragem mesmo quando esteve com a cabeça na mira de armas. Ou poderia ser uma distinção do empresário americano, apesar de parecer frio e pragmático, típico aventureiro com a missão auto-imposta de se tornar milionário ainda jovem, ele lhe pareceu bem capaz do gesto por trás daquele convite.
Fosse por um, fosse por outro, fosse por ambos, agora estava o agente da lei na obrigação de atender ao chamado do papel que ainda segurava. Faltava cerca de um mês. Ele que já penava para se manter em dia com o aluguel tinha agora nova preocupação, materializada à sua frente no momento em que se levantou para abrir as portas do único outro móvel daquele cômodo, além da cadeira; de uma mesa de cabeceira, onde jazia uma Bíblia e sua arma automatizada; e da cama ainda por fazer: o guarda-roupas.
– E agora, com que roupa eu vou? – A pergunta parecia ingênua diante da resposta prática. Umas minguadas peças invariavelmente cinzentas e puídas de calças e paletós; dois pares de sapatos e um de botas.
Outro dia, outro lugar.
O erro do jovem com o uniforme preto foi não ter usado sua arma de fogo quando teve a chance, por medo de atingir o equipamento precioso à sua frente. Por culpa dessa hesitação, o homem que manuseava a pá morreu com o pescoço quebrado. Disposto a enfrentar o invasor, o uniformizado saca da espada na cintura e prepara um golpe que – ele sabe, de acordo com seu treinamento militar – deve ser fulminante, tendo como alvo a cabeça do oponente. Em sua defesa, o assassino ergue o antebraço e, para surpresa do espadachim, a lâmina que deveria cortar o obstáculo com facilidade fica presa, imobilizada. Maior surpresa é constatar que não há sangue saindo do corte, nem gritos de dor de quem recebeu o ferimento. Antes de poder fazer algo além de tentar puxar novamente sua arma, o soldado de negro, agora de guarda aberta, recebe um único soco daquele braço que deveria ter sido decepado. Forte o suficiente para esmagar a mandíbula e o jogar contra uma parede de tijolos aparentes. O som do impacto é úmido. Calmamente, o invasor retira com a mão canhota a espada ainda fixada no braço direito, caminha a passos lentos de encontro ao soldado e, diante dele, se ajoelha para terminar o serviço. De modo bastante profissional, rompe a garganta do rapaz de um lado a outro, cuidando para não sujar o traje negro. Pronto. Agora é hora de começar os preparativos para uma vingança há muito ansiada.
Tridente de Cristo
Largo da Carioca, na esquina das ruas do Necrotério com a do Padeiro. Início de fevereiro.
– Chegou uma carta, João. – Gritou a voz de mulher por trás da porta ainda trancada com a cancela, de cujo vão lateral se viu expelir um retângulo branco, como se fosse a língua de um paciente muito doente. – E, pelo amor de Santa Edwiges, não se esqueça do dia do vencimento do aluguel.
Havia um envelope dentro de outro. O primeiro bem simples, sujeito a se sujar e a ser amassado pelo trato não muito cuidadoso do serviço de Correios do Brasil, instituição que estava para completar meio século de existência dali a um par de anos, mas não era reconhecida pela fineza de seus funcionários. Tanto que, de início, nem permitiam o uso da efígie do Imperador para ornar os selos pátrios, com o receio de o vilipendiarem com carimbos e outras mundanices. Passada essa fase inicial, era a face imperial de Dom Pedro II, impressa em vermelho, a fitar como se fosse um irmão mais velho o homem que juntou do chão aquele intruso retangular. Estava endereçado a João Octavio Ribeiro, morador de um quarto alugado naquele casarão a meio caminho do necrotério do Hospital da Ordem Terceira da Penitência e de uma padaria famosa na região. Foi ele mesmo, um ainda jovem agente da Polícia dos Caminhos de Ferro, apesar dos cabelos e da barba acinzentadas nas vésperas dos trinta anos, quem abriu este primeiro e ordinário pedaço de papel antes de responder ao grito de sua senhoria. Ainda estava em roupas de baixo, ou seja, de cuecas cinza e camisa branca.
– Meus agradecimentos, dona Marta. E fique tranquila, assim que me for pago o soldo porei em dia minhas obrigações com a senhora. Tenha um bom dia.
Já o segundo envelope era coisa bem outra. Resistente, alvíssimo por natureza e sem máculas externas, como carimbos e selos. Ali, o nome grafado em uma caligrafia apurada e com o uso de uma poderosa tinta preta era João Fumaça. A alcunha que o agente da lei carregava desde que sua mãe lhe dera à luz em uma pequena cidade inglesa estando de carona em uma locomotiva a vapor. Os dotes de investigador do policial não chegaram a ser exigidos para descobrir quem lhe havia enviado a dupla de envelopes. Bastou desvendar as curvas, volteios e rococós do nome dos remetentes escrito com caligrafia ainda mais caprichada no papel da carta. Ou não propriamente carta, tratava-se, para ser o mais exato possível, de um convite.
O convite para o casamento do multimilionário americano J. Neil Gibson, Rei do Ouro, com a manauense Maria Pinto. João Fumaça conheceu os noivos dois anos antes, em uma aventura que quase custou a vida do trio ali mesmo, no Rio de Janeiro, a dita Cidade Fantástica, às margens da praia de Copacabana. Alguns ossos do policial ainda doíam nos raros meses mais frios do ano. Segurando os papeis, ele procurou se escorar em sua melhor cadeira – na verdade, a única disponível naquele quarto –, deu uma cuspida em direção à escarradeira e ganhou fôlego para continuar a leitura.
Relembrar os eventos de dois novembros atrás não lhe era fácil. Afinal, foram momentos de tensão que quase levaram o Império à guerra com as nações vizinhas. Por isso mesmo, o caso havia sido parcialmente encoberto, bem poucos detalhes chegaram ao público. Na verdade, só o que havia para ele se recordar daquela ocasião balançava em seu pescoço: uma medalha dourada, mas não de ouro, também com a imagem severa do Imperador. O agraciado sempre a usava, dia e noite, amarrada em uma fita com as cores verde e amarela. Mas o hábito de portar tal ornamento havia se tornado mecânico; com o decorrer dos dias, a medalha tornou-se tão parte dele quanto as cicatrizes espalhadas pelo corpo.
Valeu mesmo a pena tudo o que passou? Durante meses ele fez o possível para levar sua vida e não pensar nisso. Afinal, após tão pouco tempo, não estava seu país metido em um conflito com uma potência européia pelo controle econômico de uma ilha caribenha?
Pois relembrar agora seria inevitável. Não era nada comum que alguém de sua posição social fosse convidado para o evento que pararia a capital do Império. Todas as pessoas de importância na corte e entre o meio industrial certamente tomariam lugar na festividade que marcaria ainda a inauguração da nova Catedral do Rio de Janeiro. A corte e a indústria, simbolizadas por seus expoentes máximos, o Imperador Dom Pedro II e o recém-nomeado Conde de Mauá, padrinhos dos noivos como podia ler nos jornais, alguns dos quais espalhados pelo chão daquele quarto de solteiro.
E entre todos os nobres e empresários, estaria ele, o tal solteiro, o policial encarregado da segurança dos comboios a transportar a riqueza do país pelas estradas de ferro. João Fumaça. Uma gentileza talvez da jovem Maria, a mestiça de pai português e mãe índia que tanto o havia impressionado com sua coragem mesmo quando esteve com a cabeça na mira de armas. Ou poderia ser uma distinção do empresário americano, apesar de parecer frio e pragmático, típico aventureiro com a missão auto-imposta de se tornar milionário ainda jovem, ele lhe pareceu bem capaz do gesto por trás daquele convite.
Fosse por um, fosse por outro, fosse por ambos, agora estava o agente da lei na obrigação de atender ao chamado do papel que ainda segurava. Faltava cerca de um mês. Ele que já penava para se manter em dia com o aluguel tinha agora nova preocupação, materializada à sua frente no momento em que se levantou para abrir as portas do único outro móvel daquele cômodo, além da cadeira; de uma mesa de cabeceira, onde jazia uma Bíblia e sua arma automatizada; e da cama ainda por fazer: o guarda-roupas.
– E agora, com que roupa eu vou? – A pergunta parecia ingênua diante da resposta prática. Umas minguadas peças invariavelmente cinzentas e puídas de calças e paletós; dois pares de sapatos e um de botas.
Outro dia, outro lugar.
O erro do jovem com o uniforme preto foi não ter usado sua arma de fogo quando teve a chance, por medo de atingir o equipamento precioso à sua frente. Por culpa dessa hesitação, o homem que manuseava a pá morreu com o pescoço quebrado. Disposto a enfrentar o invasor, o uniformizado saca da espada na cintura e prepara um golpe que – ele sabe, de acordo com seu treinamento militar – deve ser fulminante, tendo como alvo a cabeça do oponente. Em sua defesa, o assassino ergue o antebraço e, para surpresa do espadachim, a lâmina que deveria cortar o obstáculo com facilidade fica presa, imobilizada. Maior surpresa é constatar que não há sangue saindo do corte, nem gritos de dor de quem recebeu o ferimento. Antes de poder fazer algo além de tentar puxar novamente sua arma, o soldado de negro, agora de guarda aberta, recebe um único soco daquele braço que deveria ter sido decepado. Forte o suficiente para esmagar a mandíbula e o jogar contra uma parede de tijolos aparentes. O som do impacto é úmido. Calmamente, o invasor retira com a mão canhota a espada ainda fixada no braço direito, caminha a passos lentos de encontro ao soldado e, diante dele, se ajoelha para terminar o serviço. De modo bastante profissional, rompe a garganta do rapaz de um lado a outro, cuidando para não sujar o traje negro. Pronto. Agora é hora de começar os preparativos para uma vingança há muito ansiada.
15.1.10
Agenda Steampunk
Uma dica de Bruno Accioly, um dos fundadores do Conselho Steampunk, nos comentários do post anterior: através da Agenda Steampunk todos os aficionados podem se informar a respeito de eventos ligados ao gênero. Neste site, é possível ainda baixar o código para a instalação do recurso visto a seguir.
Piquenique vitoriano em São Paulo
A Loja São Paulo do Conselho Steampunk está organizando um novo evento para os entusiastas da cultura steamer em plena Avenida Paulista.
O Conselho Steampunk mais uma vez tem a honra de convidar a todos os confrades e curiosos a respeito do gênero Steampunk para um evento especial. Um encontro no Masp seguido de um piquenique Vitoriano! O encontro terá inicio as 13:30 do dia 20 de fevereiro no vão livre do MASP e mais tarde terá continuidade do outro lado da avenida(em frente ao Masp) em um piquenique. (...)
O piquenique terá como cenário o parque Parque Tenente Siqueira Campos, mais conhecido como Parque Trianon ou Parque do Trianon, que foi inaugurado em abril de 1892 com a abertura da Avenida Paulista na cidade de São Paulo. Foi projetado pelo paisagista francês Paul Villon. O nome Trianon veio do fato de, naquele tempo, existir no local onde hoje se situa o Museu de Arte de São Paulo, em frente ao parque, um clube com o nome Trianon. O arquiteto Ramos de Azevedo desenvolveu o projeto de (1911-1914), na administração do Barão de Duprat, do chamado Belvedere Trianon, construído em 1916 e demolido em 1957 para dar lugar ao museu.
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