15.1.10

Piquenique vitoriano em São Paulo

A Loja São Paulo do Conselho Steampunk está organizando um novo evento para os entusiastas da cultura steamer em plena Avenida Paulista.

O Conselho Steampunk mais uma vez tem a honra de convidar a todos os confrades e curiosos a respeito do gênero Steampunk para um evento especial. Um encontro no Masp seguido de um piquenique Vitoriano! O encontro terá inicio as 13:30 do dia 20 de fevereiro no vão livre do MASP e mais tarde terá continuidade do outro lado da avenida(em frente ao Masp) em um piquenique. (...)

O piquenique terá como cenário o parque Parque Tenente Siqueira Campos, mais conhecido como Parque Trianon ou Parque do Trianon, que foi inaugurado em abril de 1892 com a abertura da Avenida Paulista na cidade de São Paulo. Foi projetado pelo paisagista francês Paul Villon. O nome Trianon veio do fato de, naquele tempo, existir no local onde hoje se situa o Museu de Arte de São Paulo, em frente ao parque, um clube com o nome Trianon. O arquiteto Ramos de Azevedo desenvolveu o projeto de (1911-1914), na administração do Barão de Duprat, do chamado Belvedere Trianon, construído em 1916 e demolido em 1957 para dar lugar ao museu.

13.1.10

The difference engine vai sair no Brasil

Estava ainda ontem dizendo que o Ano do Vapor se devia tanto às novidades produzidas no Brasil quanto às que devem ser lançadas em versão nacional. Pois o editor da Aleph, acaba de confirmar esse vatícinio ao comunicar na maior comunidade em português dedicada à FC do Orkut que uma obra clássica e definidora do gênero, da qual falamos aqui desde o início do blog, vai chegar às nossas livrarias. Adriano Fromer Piazzi disse: "Com imenso prazer que comunico que iremos publicar, ainda este ano, um grande clássico Steampunk. THE DIFFERENCE ENGINE, de William Gibson e Bruce Sterling".
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No segundo post deste blog, no dia 17 de janeiro de 2009, escrevi sobre a obra:

Normalmente, um texto do tipo parte do pressuposto de algum ponto de divergência entre a nossa história e a do universo ficcional em questão. Um exemplo é o livro The difference engine, de 1990, escrito a quatro mãos pelos criadores do movimento cyberpunk Willian Gibson e Bruce Sterling. Na obra, a hipótese de partida é que o cientista e matemático inglês Charles Babbage (1791-1871) teria construído uma máquina (que chegou mesmo a projetar) : o primeiro computador do mundo, baseado apenas em peças mecânicas.

É esse livro tão importante para a parte literária da cultura steamer que logo vai ganhar versão em português com a qualidade de uma das melhores editoras a investir em ficção científica em nosso país. E quando isso vai ocorrer? Em 2010, o Ano do Vapor.

Ano do Vapor, o selo 5

Novas aquisições para a coleção de selos do Ano do Vapor. Todas as peças aqui são de autoria de Tatiana Ruiz, esposa do associado da Loja São Paulo do Conselho Steampunk, Cândido Ruiz.

12.1.10

A extraordinária Liga de Alan Moore

Este 2010 não está sendo o Ano do Vapor só por conta dos lançamentos previstos de livros e de quadrinhos steampunk nacionais. A agenda de obras estrangeiras do gênero que devem ganhar versões em nosso país também  é promissora. Já tivemos, logo nos primeiros dias do ano, o retorno da graphic novel Gotham by Gaslight e o novo filme inspirado em Sherlock Holmes, obras com fartos elementos steamers. Mas o melhor ainda está por vir, como podemos ler no blog Quadriteca de Gabriel Rocha:

O ano começa com uma boa notícia para os fãs de Alan Moore: a editora Devir vai finalmente lançar no Brasil The League of Extraordinary Gentlemen (Vol III): Century, a provável conclusão da saga da Liga Extraordinária. Mais uma vez a HQ vai contar com os desenhos de Kevin O'Neill.

Para quem não sabe, a Liga Extraordinária é uma super-equipe recrutada pelo Império Britânico e formada por personagens da literatura vitoriana. Nos dois primeiros volumes, o grupo era composto por Allan Quatermain (das Minas do Rei Salomão), Wilhelmina Murray (de Drácula), Dr. Jekyll/Mr. Hyde (O Médico e o Monstro) e Capitão Nemo (20.000 Léguas Submarinas).

O terceiro volume se passa no decorrer do século XX e início do século XXI (leia mais aqui). Century está programada para ter três partes. Apenas a primeira delas já foi lançada lá fora. A segunda deve sair em abril/maio deste ano e a última só em 2011.

Quem nunca leu nada do super-grupo não precisa ficar boiando, porque a Panini prometeu republicar o primeiro volume da Liga por aqui. Agora só vai ficar faltando uma edição nacional da graphic novel The Black Dossier, que aborda formações anteriores da Liga, para que todo o material com os personagens tenha sido publicado no Brasil.

Para comemorar essa boa nova, resolvi compilar material que saiu no volume anterior a este que vai ser publicado agora no Brasil. O texto abaixo reune as referências ao Brasil e arredores no Almanaque do Novo Viajante, uma espécie de anexo constande no Volume II da Liga Extraordinária. Quem quiser se divertir caçando referências fique à vontade para compartilhar no espaço de comentários. Eu chamo a atenção, por exemplo, quanto a crueldade de Alan Moore para com o personagem principal de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe (1660-1731), cujo destino poderia ter sido muito diferente e prazeroso caso tivesse tido acesso a edições anteriores desse acalentado Almanaque.

Avançando para o norte, nas águas costeiras do Brasil, passamos pela imaculada e erudita ilha pagã de Eugea; a inóspita Nimatan, com seus requintados manicômios; a antiga colônia Romana de Oceana e a república idealista conhecida como Spensonia, fundada por um grupo de mais ingleses vítimas de naufrágio arrastados pelas ondas até esse lugar nos últimos anos do décimo oitavo século. Por fim, somente há poucas milhas marítimas, além de Spensonia, nós alcançamos outra ilha-república bem mais famosa, a aclamada ‘sociedade perfeita’ conhecida como Utopia, batizada pelo seu mais antigo regente, o Rei Utopos. Até sua lamentável decadência durante o final do século XVI e o início do século XVII, Utopia era reconhecida em todas as partes do mundo como o estado ideal que a humanidade poderia socialmente aspirar a ser um dia. Durante o começo do século XVI, Utopia foi governada pelo extraordinário gigante Gargantua, e foi, de fato, o local do nascimento do seu filho, de tamnaho bem similar, Pantagruel. As guerras com reinos vizinhos, no final do ano 1500, desestabilizaram Utopia de tal maneira que nesse período atual de nossa escrita (1931), o outrora perfeito país não passa da ruína lúgubre de uma ilha quase desabitada, com visitantes em potencial sendo desencorajados por um clima opressivo de melancolia que cerca os arrepiantes escombros derrotados de Utopia.

Passando pela Ilha do Macaco-Aranha, onde uma guerra entre duas tribos, em 1839, foi apaziguada por um doutor inglês visitante, a quem os nativos da ilha, desde então, têm se referido como “Rei Jong”, nós avançamos para o oeste, ao redor da Alta América do Sul, para alançarmos os mares das Índias Ocidentais. Aqui, encontramos a Ilha Venchurch com seus selvagens leões-marinhos carnívoros, e Fonseca, rodeada por uma névoa tão impenetrável que, frequentemente, achavam que a ilha se desvanecia magicamente. Aqui também fica a Ilha Oroonoko, onde o povo rubro-amarelo da ilha tratará algumas pessoas como mortas, caso elas não tenham aparecido para o jantar, e a Ilha de Ferdinand, livre de querelas, colonizada por escravos na metade do século XVIII. Contudo, muito mais interessante, são as duas ilhas separadas por, talvez, um quilômetro e meio de água e, no entanto, aparentemente, com cada uma se esquecendo da presença da outra. Uma é a ilha de Speranza, algumas vezes chamada de Ilha do Desespero, onde um tal de Rob Crusoé, até pouco tempo vivendo em York, passou muitos anos de solidão e sofrimento logo após o naufrágio do seu navio na região, durante os últimos dias de setembro de 1659. Ironicamente, a uma curta distância a nado de Speranza, situa-se uma ilha conhecida como Terraela, povoada por uma raça de adoráveis mulheres que geram suas filhas utilizando os métodos de partenogênese – o desenvolvimento do óvulo não fecundado, do qual resulta um indíviduo como os outros – e que, simplesmente, não vislumbram um homem desde o século IV d.C. Se, ao menos, o navegante encalhado tivesse adquirido alguma edição anterior desse Almanaque, seu isolamento poderia ter sido convenientemente aliviado (...)

O Brasil, todavia, é um reservatório para as maravilhas de procedência bem menos duvidosa. No seu litoral situado à sudoeste, logo após passarmos pela desventurada Nolândia, alcançamos Happiland, um território livre de discussões cívicas devido a um antigo monarca, que acabou impondo um limite sobre o montante de ouro que um rei poderia manter, legalmente, junto ao seu tesouro. Embora não seja, de forma alguma, um território opulento, Happiland tem durado mais tempo que a vizinha ilha república de Utopia, outrora sua superiora. Aglaura, ao norte de Happiland e a alguns quilômetros a oeste do Rio de Janeiro, quase parece ser, por qualquer razão, duas cidades ocupando o mesmo espaço. Uma é sem vida e descaracterizada, embora, de vez em quando, das suas ruas desbotadas seja possível ver de relance uma cidade diferente, rica em acepção, sendo que a importância dessa é, pesarosamente, inefável. Mais ao norte, junto à costa, chegamos a Watkinsland, com uma cidade abandonada no seu elevado platô e uma variedade rara de fauna, incluindo o desagradável hominídeo do tamanho de um homem e, geralmente, sobre dois pés, que tem sido citado como um ‘cão-rato’. Lemuel Gulliver, que estava ciente de Watkinsland, acreditava que esses cães-ratos fossem primos dos Yahoos, uma espécie igualmente nociva que ele havia encontrado na, não tão distante, ilha dos Houyhnhnms. Não muito longe de Watkinsland, a noroeste, fica Quivera, uma terra fértil em rubis que, inacreditavelmente, foi colonizada pelos galeses durante o ano de 1170.

No entanto, é o interior do Brasil que representa o centro de algumas das mais notáveis localidades da América do Sul. No profundo interior das florestas da Amazônia, por exemplo, supõe-se existir o remoto reino das selvas conhecido como Mu, bem provavelmente, o mesmo reino descrito pelo ilustre viajante do século XVIII, Cândido, e seu preceptor, o Dr. Pangloss, como a “Terra Fabulosa”. Em outras fontes de informações, Mu também é denominada como ‘Yu’ ou ‘Yu Atlanchi’, e é perto daqui que a mundialmente famosa ‘garota-pássaro’ Riolama, ou Rima, foi encontrada nos últimos anos do século XIX. A estátua de Riolama, feita por Jacob Epstein, encontra-se ao lado da versão , idealizada pelo mesmo artista, de Edward Hyde no antigo Serpentine Park, renomeado como Hyde Park, após os eventos do ano 1898.

O mais extraordinário dos lugares misteriosos do Brasil, que nós guardamos para o final, é a Terra do Bordo Branco, um platô localizado no estado do Amazonas, explorado, em 1912, pelo ocasional companheiro da Liga, George Challenger. Aqui, sobrevive um grande número de espécies que há muito tempo pensava-se estarem extintas, incluindo o tigre-dentes-de-sabre e muitos dinossauros. Uma raça de homens-macacos, compreensivelmente relacionada aos ‘cães-ratos’ ou aos Yahoos, outrora existiu no platô, antes de ser etnicamente expurgada por uma tribo indígena local chamada Accala, e alguns lugares próximos à Terra do Bordo Branco têm apresentado indícios de infestação por espécies que parecem ser pré-históricas na sua origem. A alguns poucos quilômetros descendo pelo rio Amazonas, a partir doplatô vulcânico, por exemplo, há um lago isolado conhecido pelas tribos indígenas da região como a Lagoa Negra, onde monstruosos anfíbios bípedes, aparentemente, têm sido avistados. Esses podem ser alguns, até esse momento, desconhecids atavismos siluriano, que vieram correnteza abaixo, da Terra do Bordo Branco, ou até poderiam ser treinadas vocalmente,encontradas na Ilha de Marsh, a grande distância no Pacífico.

11.1.10

Entrevista com Gerson Lodi-Ribeiro

Acabo de publicar no Overmundo uma conversa que tive com o escritor Gerson Lodi-Ribeiro, um dos inspiradores e homenageados na noveleta "Cidade Phantástica". Na entrevista, ele fala sobre uma das principais atrações do Ano do Vapor, a coletânea steamer que organizou com autores portugueses e brasileiros para a editora Draco. Abaixo, reproduzo este trecho e deixo o link para a leitura do material completo aqui.

Além de escritor você é também um editor e organizador de coletâneas memoráveis. Deve voltar a essa atividade ainda este ano, com uma antologia de textos inéditos chamada Vaporpunk. Poderia falar um pouco sobre esse trabalho, que também envolve HA, e sobre alguns outros projetos que, porventura, estejam em seus planos?

A Vaporpunk foi concebida como uma antologia steampunk luso-brasileira. Uma antologia de noveletas. Pois steampunk é um subgênero da H.A. e, se o conto é o formato da FC por excelência, a noveleta é o formato pelo qual a H.A. melhor se exprime. Para coordenar o trabalho editorial, mais duro à medida em que o editor decide atuar mais como editor de fato (intervindo de forma efetiva para melhorar os trabalhos submetidos), associei-me com um grande amigo, Luís Filipe Silva, que coincidentemente também é um dos maiores autores de ficção científica da língua portuguesa. Trabalhos e autores já estão praticamente fechados (conforme já divulgado pelo próprio entrevistador) e, se tudo correr conforme o planejado, a Vaporpunk sairá pela Draco este ano.

10.1.10

Novidade sobre os selos do Ano do Vapor

Mad Hatter, do blog Paradoxos, facilitou a vida de quem deseja aderir à corrente do Ano do Vapor e passar a usar os selos em suas páginas pessoais. Ele que é, segundo suas próprias palavras, "programador alucinado, escritor nas horas vagas e blogueiro por falta de grana para terapia" deixou à disposição dos interessados o código para adicionar com mais facilidade esses elementos em blogs e sites. Além disso, ele deu um acabamento especial, simulando picotes de selos de verdade.

Abaixo, instalei o código que faz alterar a figura entre os selos já criados até o momento.




2010 o Ano do Vapor

Torre de Vigia 13

O steampunk feito no Brasil volta a repercutir em Portugal. O blog Rascunhos de Cristina Alves anunciou novidades futuras de nossa terra, citando informações lidas por aqui, em seu post Expectativas literárias 2010, do dia 4 de janeiro.

No Brasil podemos esperar pela colectânea Vaporpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, com contos enquadrados no género Steampunk de autores brasileiros e portugueses. No blog Cidade Phantástica podem ler mais detalhes sobre o livro. Para além da colectânea, deverá ser lançado um outro livro de Steampunk pela Draco, da autoria de José Roberto Vieira, O Baronato de Shoah.

9.1.10

Thought-time

Um ator que vive simultaneamente, em duas franquias cinematográficas de sucesso, personagens cínicos e canalhas: um deles cercado de tecnologia avançada e outro um aventureiro do passado nem tão distante. Estou falando de Harrison Ford que deu vida na década de 80 tanto a Han Solo, o contrabandista de Star Wars, quanto a Indiana Jones, o arqueólogo da série com seu nome. Mas daqui a algum tempo, essa frase pode ser verdadeira também ao se falar de Robert Downey Jr., que já vai para o segundo filme do super-herói hi-tech, beberrão e mulherengo de Homem de Ferro e que acaba de interpretar um detetive vitoriano, excêntrico e misógino em Sherlock Holmes. Se tudo der certo, como merece a obra, este último também vai virar franquia de sucesso e seu intérprete será o Harrison Ford desta nova década. E ele merece, ainda mais que a obra.

Quando anunciaram pela primeira vez esta nova adaptação do personagem de sir Arthur Conan Doyle  (1859-1930) não foram poucos o que acharam que estava tudo invertido. O atarracado Downey Jr. como Holmes e o galã Jude Law como Watson? Não seria o contrário, não? A intenção do diretor Guy Ritchie parecia ser essa mesma, a de subverter o mito, sair da tal zona de conforto e oferecer às novas gerações uma nova versão de um ícone. Paradoxal, a versão iconoclasta de um ícone. E deu certo. O protagonista entrega isso mesmo, um personagem que vive uma atmosfera de decadência, mas no sentido mais amplo do termo, pois vale lembrar que decadência é aquilo que se segue ao auge. Sherlock Holmes está no ápice de suas capacidades dedutivas e isso não é nada promissor em termos de futuro. O que se pode querer depois de se ter alcançado o máximo?

É este momento de crise o visto no recorte do filme, agravada ainda mais pela iminência do fim da parceria dos moradores do 221b de Baker Street. John Watson, médico e veterano de guerra, vai se casar o que acentua ainda mais o temperamento exótico de Holmes. Downey Jr. é certeiro ao dar esse ar de desesperada arrogância ao personagem. Se não fossem os novos chamados à ação que obrigam a dupla a continuar junta em mais um caso, a autodestruição do investigador do século XIX seria tão certa quanto a dos astros pop de nossos dias após terem conquistado tudo o que poderiam extrair de seu talento.

Mas para o bem da sanidade do detetive, e  o azar de Londres, ação não falta nos 128 minutos de filme. A história envolve conspirações, magia negra, ciência e tecnologia em uma mistura steampunk das melhores que o cinema já proporcionou. A trama é bastante intricada e confia no público ao evitar apresentações muito didáticas de seus personagens. Não se perde tempo explicando quem são Holmes e Watson, como eles se conheceram ou como travaram o primeiro contato com figuras como a antogonista, rival e algo mais do detetive Irene Adler (interpretada por Rachel McAdams). O texto oferece os detalhes básicos e convida a plateia a conhecer mais a partir do material que deu origem àquele universo. A noiva de Watson, por exemplo, faz referência a histórias de investigação que teria lido, citando explicitamente Edgar Allan Poe, e, em certo momento, esbarra no baú onde seu futuro marido guarda as anotações das dezenas de casos nos quais acompanhou as deduções do antigo colega.

Como cinema, Ritchie exibe suas características marcantes de obras anteriores, como Jogos, trapaças e dois canos fumegantes (1998) e Snatch - Porcos e diamantes (2000). A estilização da violência e os maneirismos visuais não agradam a todos, mas têm público cativo. Esse mundo não iria colidir com aquele criado por Conan Doyle sem soltar faíscas. Os mais puristas deverão estranhar muito; as vertentes acostumadas com as recriações da cultura steamer, por outro lado, talvez se sintam em casa. Para este segundo grupo, além das tecnologias deliciosamente retrofuturistas, o diretor ainda oferece um interessante olhar cinematográfico para os poderes de racionalização do grande detetive. Antes de partir para a violência explícita - seja agindo em campo ou numa luta de boxe movida a apostas - Holmes coreografa mentalmente cada golpe que vai dar, antecipando ações e reações. Se Matrix apresentou o já desgastado efeito do bullet-time, Sherlock Holmes surge com seu thought-time. É uma maneira de entrarmos na mente dessa genial criação vitoriana. O perigo é não conseguirmos sair mais de lá.

Ano do Vapor, o selo 4


E mais uma versão visual para o Ano do Vapor. Este selo é de autoria de Alexandre Lancaster Soares. Comentários, sugestões, já sabem, aqui e no Twitter.

8.1.10

Ano do Vapor, o selo 3

Muito empolgante a fervura do Ano do Vapor! Recebi mais uma sugestão de selo, este de autoria de Hugo Vera. O espaço de comentários e o Twitter estão abertos para as críticas e sugestões.

Ano do Vapor, o selo 2

Nova versão, agora com formato realmente de selo. O que acha o distinto público? Lembrando que este selo é de autoria de Matheus Quinan.

Gotham à meia luz

Um clássico dos quadrinhos steampunk acaba de voltar às bancas brasileiras, vinte anos após seu lançamento original. Gotham by Gaslight – ou como ficou conhecida na encarnação nacional, primeiramente pela editora Abril, em 1990, mantida agora pela Panini, Gotham City 1889 – é a melhor oportunidade de se ver Batman e sua cidade natal em versões vitorianas. Este foi o álbum que inaugurou o selo Elseworlds da DC Comics, através do qual a editora transfere seus mais consagrados personagens para cenários alternativos, sejam eles históricos ou retirados de outras obras ficcionais. Em ocasiões anteriores, resenhei dois títulos desse projeto, conhecido como Túnel do Tempo por aqui, nos quais o Homem-Morcego e Super-Homem viviam aventuras durante o período da Guerra Civil americana (1861-1865). Agora, como parte das comemorações do septuagenário de Batman, que já comentei em outro blog, a Panini lança um encadernado reunindo esta versão à luz de gás e uma outra, ambientada na década de 60, chamada Pulp Fiction, numa única edição.



Mas o assunto aqui é steampunk, vamos deixar o morcego sessentista de lado e nos focar no que interessa. Até porque, neste álbum inaugural, mais do que em qualquer outro lançado por aquele selo, tudo conspirou tão favoravelmente para seu sucesso que não devem ter sido poucos os leitores a preferir aquela ambientação alternativa à oficial. A trama em si é muito simples, bem mais do que se poderia esperar de uma história de investigação. A bem da verdade, Brian Augustyn não nos oferece exatamente um desafio se formos encarar sua história como um exemplar de whodunit – aquele estilo consagrado por Agatha Christie (1890-1976) –, mas ele conduz bem a narrativa para garantir surpresas até o final, se não quanto ao “quem fez”, pelo menos ao “por que fez”. E olhe que o sujeito por trás do tal quem é ninguém menos que o serial killer mais célebre de todos os tempos, o mito que praticamente define o termo no imaginário popular: Jack, o Estripador. Passada sua temporada de assassinatos impunes na Inglaterra, o maníaco ataca em outro local, ao cruzar o Atlântico em direção à América. A partir de julho de 1889, ele começa a dividir as manchetes dos jornais Gotham City Gazette e The Gotham Guardiam com uma estranha aparição que se veste com máscara, capa e um enorme morcego desenhado no peito.

Nós, os leitores da HQ, sabemos que são duas criaturas noturnas distintas, o assassino que apunhala prostitutas nas ruas mal-iluminadas e o vigilante que patrulha a cidade do topo dos prédios. Porém, para os leitores dos jornais, para os repórteres, para a polícia, para a população assustada não é nada fácil fazer tal distinção. Com isso, não demora nem três meses para as autoridades prenderem a pessoa errada; o homem que, de dentro de uma cela no Asilo Arkham, deve tentar se sair bem onde duas forças policiais falharam anteriormente. A corrida é contra o tempo, pois a sentença foi dada e o enforcamento de Bruce Wayne já está marcado.

Contudo, se o roteiro é mesmo tão simples – apesar de guardar detalhes saborosos para quem conhece a mitologia do personagem criado por Bob Kane, como a discreta versão para um suposto Coringa e o ainda mais discreto Harvey Dent – o grande trunfo desta graphic novel é mesmo sua parte visual. Gotham by Gaslight foi o cartão de visitas definitivo para um grande artista dos quadrinhos, um esteta da narrativa gráfica como poucos, Mike Mignola. Então aos 26 anos, este californiano havia surgido para os quadrinhos no início daquela década na concorrente da DC, a Marvel, por onde publicou trabalhos nas revistas do Demolidor e da Tropa Alfa. Nada que merecesse chamar muita atenção. Foi mesmo na casa das duas letras que saíram suas primeiras obras com a marca autoral. Ano antes de sua empreitada vitoriana, o rapaz desenhou uma minissérie em quatro capítulos chamada Odisséia Cósmica. Batman fazia uma ponta, mas a saga era estrelada pelos personagens que Jack Kirby (1917-1994) criara para aquela editora décadas antes.

Talvez influenciado por essa lenda dos quadrinhos, Mignola começou a adotar ali as características que seriam aprimoradas no álbum de estreia do selo Elseworlds. O desenhista comum de meados dos anos 80, deu origem, no final daquela década, a um artista com traço marcante, sólido, conciso, minimalista. Tão minimalista que imaginar um painel seu subtraído de uma única linha é imaginar um desenho incompleto. Não sobra nada, não há gordura para se queimar. Se o estilo começou a aparecer em Odisséia Cósmica, foi em Gotham by Gaslight que ele ganhou definitvamente crítica e púbico, passando a se desenvolver ainda mais na criação do personagem a que tem se dedicado nos últimos anos, Hellboy (que já foi levado ao cinema por duas vezes, sendo a última delas em um filme com tratamento bastante inspirado na estética steampunk). Hoje, a arte de Mignola dispensa assinatura, um leitor habitual do gênero reconhece sua composição sóbria, a estilizacão dos personagens, a arquitetura urbana bem delineada, o traço firme e sem meios tons que cria uma atmosfera entre o suspense e o horror seja lá onde ela aparecer. Tanto que foi usada até para apresentar ao mercado internacional o fumetto Dylan Dog, ilustrando capas de álbuns que foram publicadas no Brasil, pela Conrad. Seria fácil dizer que seu estilo é único e inimitável, mas a verdade é que desde a primeira vez que o percebi, passada aquela fase nada chamativa de Tropa Alfa, eu o comparo com um quadrinista nacional, mas isso fica para uma próxima resenha.

Todas essas informações visuais aparecem naquele álbum desde sua capa passando por cada um dos quadros de suas pouco mais de 50 páginas. Bruce Wayne, Batman e sua cidade gótica estão tão à vontade naquele contexto do século XIX que é de se duvidar mesmo se o melhor para eles não seria manter a ambientação de época, dispensando o período contemporâneo. Raras vezes as versões que passaram a ser apresentadas então regularmente dele e de outros heróis no selo Elseworlds mostraram uma combinação tão adequada ao espírito do tempo retratado. O Nosferatu, como ele chega a ser chamado em uma festa de alta sociedade em certo momento, parece mesmo ter surgido para viver no oitocentos.



A arte climática de Mike Mignola ganhou um reforço formidável com a finalização de P. Craig Russel e, principalmente, com a paleta de cores de David Hornung. Basta voltarmos a comparação àquela minissérie que antecedeu este álbum, a Odisséia Cósmica, com suas cores primárias e berrantes, para constatar o quanto os tons frios e soturnos caem melhor àquele estilo econômico de desenho. A história já abre com duas páginas de um cinza-azulado emulando um sonho – que Bruce Wayne, completando seus anos de treinamento, narra ainda em Viena para um dos seus mestres, Sigmund Freud (1856-1939), ainda jovem, degustando seus indefectíveis charutos. Bem mais à frente, quando surge a necessidade de se usar o recurso do flashback, as cores se aproximam do sépia, amarronzadas, amareladas como uma memória esvanecida. A rigor, uma cor quente só é utilizada com destaque para demarcar certo momento dramático: o vermelho vivo que pinta o quadrinho no qual uma pistola é disparada em um ponto crucial da história. Para evitar exageros, em tão contida HQ, o painel dispensa onomatopéias.

Um trabalho de sutilezas que faz o clássico. Mesmo o título original, dispensado no Brasil em todas as oportunidades nas quais a obra ganhou tradução local, evoca muito usando pouco. Gaslight diz mais sobre aquele álbum que apenas a forma de iluminação adotada pela nascente metrópole de Gotham City de 1889. O termo se refere a uma vertente literária pertencente às origens da cultura steampunk. Vale citar um artigo do Conselho Steampunk, de sua série “Seguindo a trilha do vapor”, no qual o confrade Karl analisou o estilo:

Falando sobre variedades do fantástico (puxando assunto através da última frase de um artigo anterior, que descarado heim Karl!), outro elemento, antes uma categoria separada, mas hoje incorporada na vertente steampunk, são os chamados Gaslight Romances (literalmente traduzindo: Romances à Luz de Gás. Sim, eu sei, é estranho…), histórias que se ambientam em uma versão romantizada, enevoada (quero dizer, bem mais enevoada), da Londres do século XIX, mas com enfoque em vários nostálgicos ícones do fim desse século e do início do século XX. Uma combinação de ficção sobrenatural, romance policial, e fantasia histórica, colocando em um mesmo cenário figuras como Jack o Estripador, Sherlock Holmes, Dr. Jekyll & Sr. Hyde, Auguste Dupin, Dracula (o do livro, não o de verdade), Hercule Poirot, Erik O Fantasma da Ópera, Miss Marple, e até mesmo Tarzan.

Com exceção de alguns trabalhos franceses, essa categorização não é mais usada, mas seus elementos passaram a fazer parte do gênero steampunk sem distinções, o que convenhamos, é mais prático do que ficar sub-categorizando cada elemento, e depois sub-categorizar a sub-categoria, e assim por diante.

Tanto concordo que acho possível classificar este álbum como sendo steampunk, mesmo não havendo nenhuma tecnologia retrofuturista nele – o toque anacrônico surge apenas no deslocamento do protagonista, criado originalmente nos anos 30 do século XX para viver uma aventura como se fosse um nativo do XIX. Contudo, é preciso lembrar, que essa história ganhou uma continuação direta, também do selo Elseworlds, dois anos depois de sua publicação. Batman: Master of the future é, ela sim, uma obra steamer de fato, ao mesmo tempo que é, infelizmente, bem inferior ao trabalho pioneiro. Novamente no roteiro, Brian Augustyn faz o alter ego de Bruce Wayne enfrentar nos céus de Gotham – agora bem mais ensolarada – um pastiche de Robur, o Nemo dos céus, criação de Jules Verne (1828-1905). Jamais vou entender o porquê de ele não ter usado o personagem original, já em domínio público àquela altura... Francês como Verne, Alexandre LeRoi é um curioso caso de extremismo ludita: ele ataca Gotham por criticar o apego das pessoas à tecnologia e usa para isso um dirigível e um robô altamente tecnológicos. Os desenhos ficaram a cargo de Eduardo Barreto, artista competente mas que não é Mike Mignola. Nem é de se estranhar muito que a Panini tenha optado por outra história que não essa para elaborar o encadernado recém-lançado. Mas nos Estados Unidos, Gotham by Gaslight e Batman: Master of the future foram compiladas em uma edição com o título Batman: Gotham by Gaslight.


Além dessa sequela, a graphic novel voltou a ser citada pela DC Comics em 2007, desta vez na cronologia oficial da editora, durante os eventos de uma de suas sagas periódicas envolvendo vários personagens. Foi em Countdown - Contagem Regressiva, no Brasil - em que aquele mundo vitoriano acabou sendo absorvido pela continuidade geral da companhia, recebendo a alcunha de Terra-19. Fica a curiosidade de se saber que a história em questão foi, novamente, uma volta de Augustyn à sua mais famosa criação, desta vez ilustrada por um brasileiro, Greg Tocchini. De modo geral, Countdown foi um justo fracasso de crítica e de público, abrindo uma crise criativa na DC, e essa HQ em particular não é digna de nota. Uma inspiração bem mais interessante surgiu de forma não-oficial e também foi pauta de matéria do Conselho Steampunk: baseado naquela versão anacrônica de Batman, o escultor conhecido como Sillof criou a Justice League by Gaslight, uma série de brinquedos articulados – as action figures – personalizados por ele . Ver suas recriações steampunk para Super-Homem, Mulher Maravilha & cia. (senti a falta do Coringa, ali) ajuda a entender onde foi parar a criatividade que tanto faltou a Brian Augustyn ao tratar daquele pequeno clássico que criou, vinte anos atrás, em parceria com Mike Mignola.

7.1.10

Ano do Vapor, o selo


Lancei no Twitter uma sugestão ligada ao meu último post do ano passado. Naquela oportunidade, relembrei uma expressão que havia lido em uma matéria no Conselho Steampunk definindo o, agora presente, 2010 como sendo "o Ano do Vapor". Minha sugestão foi a de que alguém, com mais habilidade gráfica que eu, fizesse um selo ou uma logomarca para dar registro visual àquela expressão.

E não é que a mensagem no telegráfo sem fio deu resultado? Acabo de receber uma contribuição de Matheus Quinan dando forma àquela ideia. O resultado pode ser visto acima. O que os leitores acharam? Gostaram? Alguma sugestão? Eu e, estou certo, Matheus estamos ansiosos para ler vossas opiniões.