19.12.09

A fenda no copo de chá

Já comentei neste blog várias vezes – mas nunca o suficiente – sobre Jules Verne (1828-1905), um dos autores que mais influenciaram a noveleta homônima “Cidade Phantástica”. Mas o ano ia acabar sem que eu falasse sobre outro escritor fundamental: sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). O britânico se aventurou com sucesso em vários estilos de textos, entre eles a ficção científica criada por aquele francês já citado. Contudo, muito mais do que pela poesia, novelas históricas e obras de não-ficção que tenha escrito, ele se tornou conhecido em todo o mundo por uma criação que superou todas as outras e se tornou um dos personagens mais famosos da literatura, Sherlock Holmes. Ao todo foram 60 histórias protagonizadas pelo morador mais famoso de Baker Street que saíram da pena de Conan Doyle, entre elas, aquela da qual tomei emprestados dois dos coadjuvantes. Uma das medidas da popularidade do criador e da criatura é a quantidade e a qualidade das histórias que continuam a saga do detetive mesmo tanto tempo após a morte do escritor. Uma dessas obras acaba de ser lançada no Brasil com o selo da maior editora nacional, a Companhia das Letras, me dando oportunidade para reparar minha falta neste final de 2009.


A solução final é o nome do livro e quem o assina é Michael Chabon, escritor americano dono de uma das melhores e mais premiadas prosas da atualidade, traduzida para o português por Alexandre Barbosa de Souza. Com suas 112 páginas, não podemos chamá-lo de romance, está mais para uma novela. Foi publicada originalmente na Paris Review, em 2003 – sendo premiada como o melhor texto a sair naquela revista na ocasião – e depois organizada no formato de livro pela primeira vez no ano seguinte. Sherlock Holmes está presente nesta obra mesmo que o autor tenha decidido não chamá-lo pelo nome em momento algum, preferindo se referir a ele quase sempre como “o velho”. Os motivos para Chabon não se valer de uma grife tão mundialmente conhecida de modo explícito não são claros, mas a razão para o epíteto dado ao personagem é bem evidente. O protagonista que ele pede emprestado a Conan Doyle é visto nesta novela aos 89 anos, alquebrado, vivendo em uma localidade rural da Inglaterra, cultivando abelhas, enquanto o país e o mundo vivem os anos finais da II Guerra Mundial.

O detetive aposentado surge neste livro como símbolo de um tempo que já morreu, de uma era mais romântica e elegante, daquele período que costuma ser revisitado por obras steampunk. A versão de Chabon para o maior investigador da ficção me fez lembrar os versos de um poeta inglês, W. H. Auden (1907-1973), mais precisamente um trecho de “As I walked out one evening”: “And the crack in the tea-cup opens/ A lane to the land of the dead”. Na tradução de Cassiano Viana: “E a fenda no copo de chá escancara a travessa para a terra dos mortos”. Que copo de chá? A própria Inglaterra, ou ainda, o Império Britânico, que rachado, ou fendido, abriu passagem para os horrores do século XX, entre eles as suas duas guerras mundiais. Cada vez que Sherlock surge nesta novela com suas juntas estalantes, músculos doloridos e raciocínio mais lento, quase próximo do nosso normal, eu via nele a xícara de chá no caminho que leva à terra dos mortos.

Isso nem de longe quer dizer que Michael Chabon criou uma sátira como, entre tantos e tantos outros, o brasileiro Jô Soares em seu romance de estreia, O xangô de Baker Street, lançado pela mesma editora em 1995. O escritor americano fez em A solução final uma bela e emotiva homenagem àquele personagem, com sua prosa marcada pelos longos e detalhados apostos, dando uma dimensão humana palpável e ainda preservando a dignidade do grande detetive mesmo em seus últimos anos de uma vida solitária, longe das antigas glórias londrinas. O caso que o desperta da inatividade como investigador, depois de uma pausa de três décadas, é prosaico para quem já vivera tantas aventuras. Holmes é convocado pelo neto de um antigo colaborador a resolver um assassinato naquele vilarejo. Mas sua atenção é despertada mesmo pelo desaparecimento do papagaio de um garoto de nove anos e aparentemente mudo, pois se comunica apenas por rabiscos desconexos no papel. Já a ave é falante e entre os números e canções que profere, em alemão, talvez haja um mistério a mais. O nome do garoto é Linus Steinman; o do papagaio, Bruno, mas podem chamá-lo de McGuffin.

Ainda nesta seara dos nomes, vale lembrar o ótimo achado que é o título do livro. A solução final serve como citação dupla, dialogando tanto com uma das mais famosas histórias de Conan Doyle – “O problema final”, na qual o detetive enfrenta pela primeira vez seu nêmesis e acaba sendo dado como morto – quanto com o programa de extermínio de judeus desenvolvido pelos nazistas. A questão judaica, como de hábito, aparece como um dos temas desta novela, já que o pequeno Linus é um judeu alemão refugiado, adotado por uma família inglesa. O assunto é recorrente na obra de Michael Chabon, apareceu em seus romances mais consagrados, o vencedor do Pulitzer As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (judeus na indústria do entretenimento americana da época da recessão) e o ganhador do Hugo, principal honraria da FC mundial, Associação Judaica de Polícia (história alternativa em que Israel foi destruído e o grosso da população sobrevivente ocupa provisoriamente o território do Alasca).

Enfim, ao final da breve leitura deste livro alguns mistérios ainda persistem. Chabon não seguiu a cartilha dos autores de histórias de detetives que costumam entregar tudo pronto e esclarecido ao leitor até a última página. O maior dos mistérios que pode ser comentado aqui, sem comprometer o prazer dos leitores em desvendar, a trama é o porquê de manter o protagonista oculto pela alcunha de “o velho”. Curiosamente, é a segunda vez que isso ocorre com Sherlock Holmes nos últimos meses, nestes lançamentos no Brasil de autores que continuam a saga criada por Conan Doyle. Em 2008, foi a vez do inglês Neil Gaiman, em outra novela, publicada no livro Coisas frágeis, pela editora Conrad. Porém, as razões de “Um estudo em esmeralda”, que promovia a fusão do universo do detetive com o mundo criado pelo americano H. P. Lovecraft (1890-1947), em não citar nomes eram mais claras, ainda que o texto tenha sido preparado com tamanha sutileza que enganou os editores brasileiros nas chamadas que fizeram no livro, como podem perceber os leitores mais atentos daquela obra. Por ora, fico na expectativa do próximo escritor a se aventurar com o personagem, citando-o com todas as letras ou não.

17.12.09

Natal Fantástico na Tarja

A editora da primeira coletânea Steampunk nacional lançou uma oferta em seu site. São três dos livros mais comentados do momento com um desconto especial neste final de ano. Clique no banner abaixo para ampiá-lo.

Membros do Conselho Steampunk foram assaltados

Este blog tem o objetivo de falar sobre a parte cultural do movimento Steampunk no Brasil, mas não pode deixar de registrar uma coincidência lamentável que atingiu membros deste movimento em partes distintas do país. O empresário Bruno Accioly, co-fundador do Conselho Steampunk, e a música Joanna Oliveira, da loja gaúcha do grupo, foram recentemente assaltados a mão armada.

Accioly e a namorada foram rendidos na madrugada do dia 14 de dezembro, na porta de casa, no Rio de Janeiro. Um dos três assaltantes portava uma arma calibre 45 de pente duplo. Os criminosos levaram dinheiro e um iPhone do casal. Durante a madrugada, as vítimas ainda receberam ligações de um dos homens que acabara de assaltá-los. O motivo? Ele queria revender o celular para os verdadeiros donos.

E a gaúcha Joanna Oliveira, de Dois Irmãos, interior do Rio Grande do Sul, foi vítima de uma quadrilha na manhã do dia 16 de dezembro. Quatro homens armados invadiram seu local de trabalho, uma metalúrgica, onde oito funcionários foram ameaçados de morte. Os criminosos fugiram com dois mil quilos de bobinas de latão, um prejuízo estimado pela empresa em R$ 50 mil. Joanna nunca havia sido assaltada.

A todos deixo minha solidariedade e desejo força para superar esse problema que, infelizmente falando de modo literal, atinge nosso país de Norte a Sul.

Enciclopédia do Vapor

O editor da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Gianpaolo Celli, virou verbete da Steampedia. Mais uma iniciativa ligada ao Conselho Steampunk com o objetivo de difundir a cultura steamer no Brasil, este projeto oferece aos interessados uma ferramenta para criação de uma enciclopédia temática e colaborativa,  nos moldes da Wikipédia, unindo recursos de textos com outras possibilidades multimídia, como vídeos.

Esta é a descrição feita na página inicial:

Sejam bem vindos a SteamPedia, a Enciclopédia Brasileira SteamPunk. A missão desta ferramenta é aglutinar conhecimento do entusiasta acerca do panorama Brasileiro e Mundial do Século XIX. Nesta ferramenta vocês poderão escrever seus próprios artigos, perguntas, avaliar conteúdo, apontar conteúdo relacionado e muito mais!

Abaixo, um trecho do verbete sobre o editor da primeira coletânea steampunk brasileira:

Sua publicação dentro do gênero SteamPunk foi a primeira do Brasil e sua participação na mesa sobre o movimento junto ao escritor Fábio Fernandes e ao co-fundador do Conselho SteamPunk Bruno Accioly – na Fantasticon 2009 – III Simpósio de Literatura Fantástica – foram contribuições notáveis para a popularização do gênero no país.

A obra está presente na SteamPunkopedia e recebeu elogios internacionais de autores como Lavie Tidhar e Larry Nolan.

16.12.09

Larry Nolen agora também em português

Uma ótima notícia que acabo de saber: o crítico americano Larry Nolen brevemente vai poder ser lido também em português. Graças a um convite feito pelo blog lusitano Correio do Fantástico, alguns de seus textos vão sair na língua de Camões. Abaixo, reproduzo o post de Roberto Mendes que anunciou a boa nova:

Poucos são os adjectivos para caracterizar um dos melhores críticos literários que se debruça sobre a ficção científica. Todos os fãs de Ficção Científica já devem ter lido, pelo menos uma vez, uma crítica deste senhor. Apesar de Larry conseguir ler em português e em espanhol, é em Inglês que podem ser encontradas as suas visões sobre o género da fc, e as críticas a milhares de livros. Só em 2009 já leu mais de 500 livros, o que é impressionante. O seu primeiro artigo sobre ficção científica traduzido para português poderá ser lido na Dagon nºum, já em Janeiro. Mas não só na Dagon poderão encontrar novos textos do Larry, pois tenho o enorme prazer e orgulho em anunciar que este grande senhor da literatura fantástica aceitou o meu convite para fazer parte do Correio do Fantástico, bem como para participar no meu novo projecto na literatura fantástica, que anunciarei brevemente.

Mr. Nolen também anunciou a novidade em seu blog e se disse muito excitado com essa oportunidade de interagir com escritores, leitores e críticos espalhados pelo globo.

15.12.09

Cavalheiros do Inferno

Entre os leitores de ficção fantástica o caso mais rumoroso de suspeita de plágio envolve HQs e literatura: as semelhanças entre os jovens aprendizes de bruxos Tim Hunter e Harry Potter. O primeiro, órfão da Inglaterra, com visual magrelo, franjas, óculos e com uma coruja sempre no ombro, foi criado pelo inglês Neil Gaiman como protagonista da minissérie em quadrinhos Livros da Magia, de 1991, logo dando origem a uma série de gibis; o segundo, órfão da Inglaterra, com visual magrelo, franjas, óculos e com uma coruja sempre no ombro, foi criado pela escocesa J. K. Rowling como protagonista do romance Harry Potter e a Pedra Filosofal, de 1997, logo dando origem a uma série de livros e de filmes.

Um outro exemplar bem menos divulgado, mas que também desperta paixões entre os tais leitores de ficção fantástica, envolve o vetor inverso – da literatura para as HQs – porém ocorre no mesmo território britânico entre dois camaradas e conterrâneos do já citado Neil Gaiman: Kim Newman e sua trilogia de romances iniciada por Anno Dracula, de 1992; e Alan Moore e sua trilogia de minisséries em quadrinhos iniciada pelo primeiro volume de A Liga Extraordinária, de 1999. Os dois trabalhos envolvem matéria-prima idêntica: personagens criados por dezenas de outros autores, quase todos em domínio público, habitando um mesmo universo ficcional coeso sediado em uma Inglaterra vitoriana. Este texto não é para confirmar ou negar as suspeitas de plágio em si, mas para saudar a possibilidade de mais brasileiros chegarem às suas próprias conclusões, pois a Aleph acaba de editar a versão em portugês da única dessas obras citadas que ainda não havia sido lançada em nosso país.

Anno Dracula ganhou uma versão muito caprichada da editora paulista, 17 anos após ter sido publicado originalmente na Inglaterra (em outra resenha postada neste blog comentei como esse tipo de atraso infelizmente é comum em nosso mercado editorial). A tradução competente é de Susana Alexandria que, além de verter as palavras para o português, ainda compilou uma muito bem-vinda (mesmo que, como dificilmente deixaria de ser, incompleta) lista com 104 personagens históricos e fictícios retrabalhados pelo jornalista, crítico e escritor Kim Newman (foto ao lado). Como fica claro pelo título da obra, que parodia a expressão latina Anno Domini – “ano do Senhor”, a data que marca o nascimento de Jesus Cristo dividindo o Calendário em duas eras – a principal referência é a mais famosa criação do irlandês Bran Stoker (1847-1912), o romance símbolo do vampirismo, Drácula, de 1897.

E o mote do livro do século XX é justamente uma discrepância, um ponto de divergência, em relação ao da obra do século XIX. O conde da Transilvânia não só sobrevive a seus caçadores – a equipe liderada por Abraham Van Helsing –, ele também executa uma jogada de mestre ao ir à capital do Reino Unido, desposar a viúva rainha Vitória (1819-1901) e revelar a existência de seus irmãos de sangue nomeando vários deles para cargos de peso na gestão do Império Britânico em seu auge. Esta é a senha para o escritor se apropriar de uma legião de damas e cavalheiros vampiros, alguns de antes outros de depois de Drácula. Segue uma torrente inacreditável de citações e de apropriações de personagens, todos convivendo em relativa harmonia – ao menos literária – na prosa de Newman, apesar das diferenças de origens e de contextos históricos de tantas linhagens vampíricas distintas.

Os mortos-vivos usados na obra vêm de todas as partes, da literatura, do cinema, de seriados de TV. O escritor fez até mesmo uma autoapropriação, pois uma das protagonistas de Anno Dracula, a vampira Geneviève Dieudonné, surgiu antes no romance Drachenfels escrito por Newman com o pseudônimo Jack Yeovil (este sobrenome também é reutilizado para batizar uma personagem secundária). É Geneviève, uma anciã mais velha que o próprio ex-conde - atual príncipe consorte - Drácula em corpo de garota, que passa a investigar ao lado do humano – ou “quente”, como são chamados os não-vampiros no livro – Charles Beauregard o mistério que atravessa o livro: a série de assassinatos que remete aos realizados pelo misterioso Jack, o estripador. Curiosamente, este tema também foi explorado por Alan Moore em From Hell, outra minissérie em quadrinhos adaptada para o cinema. E, tanto no livro quanto na HQ, o mistério sobre quem mata é revelado logo de início para o leitor, cabendo à estrutura narrativa trabalhar com os efeitos dos crimes nos outros personagens e na sociedade em geral. Coisa que tanto o livro quanto os quadrinhos cumprem com perfeição, diga-se. A diferença é que em Anno Dracula o maníaco mata prostitutas vampiras com um objeto que vai lhe valer o apelido dado pelos jornais: Faca de Prata.

Vale ressaltar que ao longo das 376 páginas não são apenas vampiros alheios as criaturas tomadas de empréstimo. Na verdade, as semelhanças com a Liga Extraordinária surgem justamente pela coincidência entre os vários personagens utilizados em ambas as obras e até mesmo, vejam só, por uma ausência em particular. É notável que tanto Newman quanto Moore tenham optado por deixar de lado a criação mais famosa de Arthur Conan Doyle (1859-1930). Se o quadrinista situou sua série no período em que Sherlock Holmes foi dado como morto, o romancista optou por isolar o detetive em um campo de concentração, em Sussex Down, chamado Devil’s Dyke – e não na Torre de Londres, como informa o pósfácio. Aliás, descontando o lapso de informação, este texto, de autoria do escritor, designer e professor Octavio Aragão é outro ótimo acréscimo à edição nacional. Já o entrevistei para o Omelete, ocasião em que falamos rapidamente sobre Anno Dracula e como aquela obra o influenciou na criação de seu próprio livro, A mão que cria, no qual o autor brasileiro explora outra vertente de mortos-vivos: os zumbis. A Aleph não poderia ter escolhido pessoa mais adequada para apresentar o trabalho de Kim Newman e o gênero conhecido como ficção alternativa aos novos leitores.

Pela área de interesse deste blog, a questão que fica é se este lançamento faz parte do steampunk. Minha opinião é a de que não, faltam características retrofuturistas ao livro para que ele possa se enquadrar neste subgênero. Mas não é o que pensa, por exemplo, a jornalista Fernanda Correia, que entrevistou o inglês para a Livraria da Folha (matéria de onde tirei a foto que ilustra este post) e o definiu assim: “Newman segue em seu texto a estética steampunk, ramo da ficção científica que foca especialmente a era Vitoriana e que retrata a tecnologia mecânica a vapor altamente evoluída, misturando diversas referências”. De todo modo, tanto pela ambientação da época quanto pela qualidade da pesquisa histórica e literária do autor, não tenho dúvida de que Anno Dracula deve agradar bastante os apreciadores da cultura steamer.

Para encerrar – que este texto está me saindo maior que o planejado – vale lembrar: o editor da obra no Brasil, Adriano Fromer, reconheceu que a publicação deste livro se deu principalmente pela indicação dos fãs em um fórum do Orkut. Se essa não é uma demonstração cabal do poder das sugestões dos leitores o que seria? Então, fica a dica para os entusiastas da ficção fantástica em geral, da FC e do steampunk em particular: caso haja a mobilização de todos, mais obras podem ser lançadas em nosso país, diminuindo o déficit de publicações em português em nossas livrarias. Façam suas listas e entrem em contato com a Aleph e outras editoras brasileiras. A caldeira não está fervendo como nunca por aqui? Perfeito para mandar sinais de fumaça aos editores.

PS - Uma correção ao texto que me foi enviada por um colega da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Flávio Medeiros: "Tim Hunter foi criado pela escritora inglesa Diana Wynne Jones para a série de livros Os Contos de Crestormanci. Gaiman pediu licença à autora para se apropriar de Hunter para os Livros da Magia, cortesia que Rowling infelizmente não só omitiu, como nega até hoje". Valeu mesmo, Flávio. Desconhecia essa informação que leva a criação de Tim Hunter para o ano de 1982.

14.12.09

Entre os melhores do mundo 3

Larry Nolen enfrentou uma drástica intoxicação alimentar por esses dias, leu mais de 500 livros este ano e mesmo assim encontou tempo para ler, nos últimos quatro meses, três vezes cada um dos nove contos que constituíram a primeira coletânea steampunk lançada no Brasil. O resultado da dedicação deste crítico da ficção científica é uma excelente resenha, muito bem contextualizada, que ele acaba de publicar em seu blog sobre Steampunk - Histórias de um passado extraordinário.

Nolen começa seu texto analisando o fato de que o subgênero explodiu em popularidade na última década, criando suas versões alternativas para a Era do Vapor (1775-1914), inspirado igualmente por Jules Verne, H. G. Wells, Thomas Edson, na Era do Imperialismo, e, especula ele, talvez como uma reação à confusão e ao horror do século XX. "De qualquer forma, as contradições inerentes nas estruturas social e política daquela época dão um sentido de tensão, algumas das quais explodiram nos conflitos devastadores do século XX, quando a guerra mecanizada inspirou novos horrores nos campos de batalha da Europa, da África e da Ásia (e, em grau menor,  nos da América e da Austrália)", relembra o resenhista. "Foi uma época em que Marx e Engels deram uma voz e um sentido às frustrações das classes trabalhadoras industriais através do globo; foi um tempo em que a prática repugnante da escravidão dava seus últimos suspiros nos EUA e no Brasil".

Na visão dele, todos esses elementos se combinam para criar possibilidades narrativas sobre realizações históricas e científicas compartilhadas. Sepultando de vez a noção de que só é possível se escrever sobre o gênero dentro dos limites do antigo Império Britânico, Larry Nolen aponta: "Em muitos sentidos, steampunk é um dos primeiros subgêneros verdadeiramente 'internacionais' da ficção especulativa, seu apelo se espalhou rapidamente de um país a outro, sem que um único país ou língua domine a paisagem literária". Ele ainda completa: "é verdadeiramente um movimento internacional, ele se adapta para atender às necessidades dos cenários literários de cada país".

Feita a análise do gênero em seus aspectos globais, o autor passa a se deter ao lançamento da antologia brasileira. Nolen comenta que, com as releituras das noveletas do livro, acabou desvendando, na maioria delas, novas camadas de significado. Então, passa a comentar algumas das histórias presentes no livro, "Cidade Phantástica" entre elas. Confessa que, quando teve acesso ao livro, em agosto deste ano, temia que os autores da coletânea tivessem imitado estilos e maneirismos de escritores anglo-americanos no lugar de escrever algo original sobre o tema. A opinião desse resenhista, que leu boa parte - se não podemos ousar dizer que tudo - daquilo produzido nos últimos anos dentro do estilo, é uma grata surpresa: "os elementos que esses nove escritores ultizaram são, para mim, mais atraentes do que os que encontrei na maior parte da ficção de steampunk em inglês na década passada". Ele percebeu uma tendência dark na antologia, uma frustação de que o avanço tecnológico e a ascenção de alguns não estejam favorecendo a todos como poderia. Nolen usa a imagem de uma nuvem negra que paira em algumas das histórias, uma nuvem que ameaça trazer destruição e mudança ruinosa em sua passagem.

Mr. Nolen observa que isso não significa que as histórias sejam excessivamente didáticas, desprovidas de aventura e de divertimento. "Steampunk - Histórias de um passado extraordinário é uma das antologias mais tensas e mais agradáveis que li em 2009, em qualquer língua". Ele prevê que a ficção feita no Brasil como um todo, uma potência emergente na FC, e o trabalho de alguns dos escritores da obra em particular deverão desafiar algumas concepções anglocêntricas e influenciar o diálogo global sobre o steampunk e sobre a ficção científica. "Altamente recomendado para aqueles que podem ler em português", ele finaliza. "Vai figurar durante algumas semanas no posto dos meus Melhores de 2009".

11.12.09

Torre de Vigia 11

Mais uma lista de final de ano em que a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário aparece com destaque. Desta vez o responsável pela citação é Gabriel Lucas, do blog Factóide, que posicionou o livro como a quinta melhor obra de 2009 e ainda comentou brevemente a antologia:

Trata-se da primeira coletânea nacional de contos e histórias curtas de Steampunk, a versão ficcional e tecnologicamente deturpada da Era Vitoriana.

Por si só, trata-se de uma bela iniciativa, entretanto em vários momentos, o livro vai além, e alguns autores, como Antonio Luiz M. C. Costa e Roberto de Sousa Causo, buscam (e conseguem atingir) um ambiente Steampunk genuinamente nacional servindo de pano de fundo para ótimas histórias.

Entretanto, não há como deixar de notar a irregularidade abissal entre a qualidade dos contos, o que tirou um pouco o brilho da obra como um todo, mas que a não tornou menos essencial.

Steampunk feito no Brasil 3

A dica desta vez veio pelo Twitter de Ana Cristina Rodrigues: uma história envolvendo espionagem e elementos steampunk no início do período republicano brasileiro. Agente A5 - Segredos e justiça é um noveleta dividida em seis capítulos e que está disponível em pdf no site do escritor, designer gráfico e quadrinista Régis Rocha: o Afrodinamic Produções.

É desta forma que o autor descreve o site que hospeda essa e várias outras histórias:

AFRODINAMIC PRODUÇÕES é uma editora independente de revistas em quadrinhos e material informativo.

Com início de atividades em dezembro de 2005, abriga projetos que visam o desenvolvimento do quadrinho nacional. Artistas com suas visões particulares do mundo, interessados na divulgação de sua arte. Sabemos que dinheiro é importante e essencial, mas nem por isso exploraremos os leitores, que são o real motivo da existência de uma editora.

Aqui você encontrará o conteúdo integral de nossas publicações. Esperamos seus comentários, e-mails, críticas, elogios...afinal, é tudo feito para vocês, leitores.

AFRO, para relembrar as raízes no qual o Brasil foi forjado, com sangue, dor e glória.

DINAMIC, porque não estamos parados, mas em constante evolução e revolução.

PRODUÇÕES que vão além do papel e além da tela do monitor, esperando encontrar um lugar dentro de sua alma.

Humildemente fazendo valer seu espaço e oferecendo diversão e informação de qualidade em troca da sua atenção.

Karibu!

Régis Rocha

ps: Karibu! significa Bem Vindo, em swahili.

Quanto à noveleta, a trama conta a primeira missão da agente do Serviço de Inteligência da República Brasileira Aretha de Albuquerque Ferreira e Lima em sua volta ao país, uma versão bem mais avançada tecnologicamente que a da história oficial do início do século XX. Ela é descrita desta forma por um de seus comandantes:

A Agente A5 nasceu em 1872, filha de uma Dama da Corte do ex-imperador Dom Pedro com um suposto príncipe negro, ex-escravo dela. A menina nasceu mulata e com os cabelos levemente cobreados. Sua mãe não deixou que ela fosse dada a uma ama negra – o que geralmente acontece nessa ocasião – e ela foi criada nos salões da corte. Aos 16 anos ela solucionou sozinha o mistério que pelo departamento foi chamado de ”Desaparecimento da Jóia da Coroa do Imperador”, o que chamou a atenção do então Serviço da Inteligência Imperial, ingressando como Agente nível B8. Depois de solucionar o “Caso do Diamante Africano”, ela foi promovida a agente nível A7. Agora, depois de dois anos de treinamento na Inglaterra ela está voltando e assumindo o posto de agente A5...

10.12.09

A tecnologia na literatura fantástica



Dois autores presentes na coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Fábio Fernandes e Flávio Medeiros, convidam os leitores mineiros a comparecerem a um bate-papo com direito a lançamento de livro e sessão de autógrafos. O tema da conversa é Cyberpunk X Steampunk enfatizando a questão da tecnologia por trás desses dois subgêneros da ficção científica.

O lançamento é do romance Os dias da peste, de Fábio Fernandes, editado pela Tarja. Abaixo, segue uma apresentação do livro:

A cada segundo nos tornamos mais dependentes da tecnologia. Hoje ela ainda necessita de nossa interação para seguir seu desenvolvimento.

Mas cada vez menos essa afirmativa é exata. Haverá um ponto de mudança. Um avanço natural. A História Humana nos ensinou isso em séculos de progresso tecnológico. E a história da evolução digital vem sendo escrita entre o hoje e o amanhã.

Atualmente convergimos para o ponto onde a tecnologia se tornou tão comum em nosso cotidiano que não a percebemos mais. Celulares, palmtops, realidade virtual, tablets, implantes, wireless, videogames e nano máquinas já são corriqueiros. Somos atendidos por máquinas, nos comunicamos através delas, permitimos que digitalizem nossas vidas em arquivos... Conversamos com elas. O tempo em que será impossível nos separarmos dos computadores está cada vez mais imediato.

E se um dia fosse necessário nos afastarmos de todo conforto tecnológico que nos cerca? Se precisássemos nos desconectar de toda a praticidade da evolução digital? Caso a sua vida, como você a conhece hoje, dependa de um total afastamento da informação, o que você faria? Se estivéssemos vivendo Os Dias da Peste moderna? Será que conseguiríamos puxar a tomada?

E a sessão de autógrafos será dupla, no romance cyber e na coletânea steam. O evento ocorre na livraria Café com Letras, de Belo Horizonte, no dia 12 de de dezembro, das 10h30 às 13h30.

9.12.09

Steampunk feito no Brasil 2

Já falei algumas vezes neste blog no projeto de José Roberto Vieira - o romance steampunk chamado Baronato de Shoah -, a primeira delas no dia 7 de junho. Agora, o escritor preparou uma novidade para seus leitores um aperitivo para o prato principal. Pelos próximos meses, ele pretende publicar capítulos de um romance virtual chamado A canção do silêncio que serve de prelúdio se passando uma década antes da história do Baronato. A primeira parte já está disponível no site Recanto das Letras de onde pode ser baixada gratuitamente. Trata-se de uma obra que se aproxima do subgênero steampunk não pela vertente da FC, mas sim pela da Fantasia, como a trilogia Fronteiras do universo, de Philip Pullman.

Abaixo, um trecho deste capítulo inicial.

Carros passavam lentamente, exalando névoa de seus escapamentos. Aleantrus conhecia muito bem aquela substância, era a Nebeldumpf – a Névoa do Vapor – o combustível usado em toda tecnologia de Nordara, seu reino.

Isso por que, há anos, os humanos descobriram formas de converter esta matéria da natureza e utilizá-la em seu maquinário, avançando tecnologicamente de maneira surreal. Havia carros, barcos, monomotores, caravelas voadores, uma infinidade de veículos movidos à Névoa que facilitavam a vida das pessoas no reino.

A Nebeldumpf era produzida nas montanhas, num complicado processo de refinamento que poucos entendiam. Por fazer parte do exército, Aleantrus já tinha visto grande parte desta tecnologia, por isso, não se impressionava mais. Ele passou entre dois carros dourados, estacionados em frente a uma casa e continuou descendo a rua, até virar a esquina e se deparar com a praça principal.

Entre os melhores do mundo 2

A título de curiosidade, um flagrante do setor de literatura estrangeira da estante de Larry Nolen, destacado do blog dele por um dos autores da coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, Antonio Luiz M. C. Costa.


Podemos ver que  a antologia brasileira está em boa companhia (é o décimo-segundo livro, da direita pra esquerda) : José Saramago, Luís de Camões, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoa, Gabriel García Márquez, Jorge Amado. Notem também que o americano parece ter uma coleção de diversas edições do livro favorito das misses, O pequeno príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry. Citando o filme Quanto mais quente, melhor, do grande Billy Wilder, "nobody is perfect".

Entre os melhores do mundo

Esta me surpreendeu de verdade! Eu já havia falado do trabalho de um dos maiores - provavelmente O maior - resenhistas de ficcão científica do mundo neste blog. Foi no dia 21 de setembro, quando abri desta forma um post sobre ele:

Uma apreciação internacional da primeira coletânea dedicada ao gênero steampunk do Brasil. O infatigável Larry Nolen, leitor compulsivo e responsável por um dos blogs mais completos de resenhas e comentários sobre literatura especulativa do planeta, o Of Blog of the Fallen, dedicou parte de sua concorrida agenda do mês de setembro a Steampunk - Histórias de um passado extraordinário. Mesmo não sendo um especialista na língua portuguesa, ele usou seus conhecimentos de espanhol para vencer as nove histórias do livro. No espaço dos comentários, Mr. Nolen promete voltar à obra até o final do ano, quando deve elaborar sua lista de edições lançadas no mundo não-anglófono.

Bem, passados menos de três meses e com praticamente 500 obras lidas por ele este ano, Larry Nolen publicou em sua página uma lista com os 51 livros que ele considerou como sendo os melhores lançados em 2009. Entre todo o material selecionado, quase tudo tem copyright americano, com poucas exceções de livros do Reino Unido e do...  Brasil. Sim, entre os exemplares da lista está lá a coletânea Steampunk - Histórias de um passado extraordinário!

Esta é ou não é uma excelente notícia para a literatura nacional, acima de tudo, e para a de gênero em particular?

Deixo a resposta com vocês e reproduzo aqui a lista de Mr. Nolen e, mais uma vez, a capa da coletânea que está entre as melhores obras de FC e Fantasia do mundo.

Jeff Lemire, The Nobody (graphic novel)

Jonathan Rosenberg, Goats:  Infinite Typewriters (graphic novel)

Peter Straub (ed.), American Fantastic Tales (two volume reprint anthology)

Gail Carringer, Soulless (debut novel)

Kristin Cashore, Fire (YA)

Dave Eggers, The Wild Things (YAish?)

Jeff VanderMeer, Finch (fantasy); Booklife (non-fiction)

Otsuichi, ZOO (translated fiction; collection)

Caitlín R. Kiernan, A is for Alien (collection); The Red Tree (fantasy)

David Mazzucchelli, Asterios Polyp (graphic novel)

Kazuo Ishiguro, Nocturnes (collection)

Zoran Živković, Impossible Stories II (collection); The Bridge (novella)

Nick Tapalansky and Alex Eckman-Lawn, Awakening:  Volume I (graphic novel)

Dave Eggers, Zeitoun (non-fiction)

Gianpaolo Celli, Steampunk:  Histórias de um Passado Extraordinário (foreign language fiction; anthology)

David Anthony Durham, The Other Lands (fantasy)

Lavie Tidhar, The Apex Book of World SF (translated fiction; anthology)

Julio Cortázar, Papeles inesperados (foreign language fiction; collection; non-fiction; criticism)

David Petersen, Mouse Guard:  Winter 1152 (graphic novel)

Jesse Bullington, The Sad Tale of the Brothers Grossbart (debut novel; fantasy)

Robert Holdstock, Avilion (fantasy)

Dean Francis Alfar and Nikki Alfar, Philippine Speculative Fiction IV (anthology)

Daniel Abraham, The Price of Spring (fantasy)

Issui Ogawa, The Lord of the Sands of Time (translated fiction)

Terrence Holt, In the Valley of the Kings (collection)

Lev Grossman, The Magicians (fantasy)

Sang Pak, Wait Until Twilight (debut novel)

Ildefonso Falcones, La mano de Fátima (historical novel; foreign language fiction)

Laura Restrepo, Demasiados héroes (foreign language fiction)

Rafael Ábalos, Grimpow y la bruja de la estirpe (foreign language fiction; YA)

Brian Evenson, Fugue State (collection); Last Days (fantasy)

Thomas Pynchon, Inherent Vice (mystery/everything else under the sun)

J.R.R. Tolkien, The Legend of Sigurd and Gudrún (epic poetry)

Bradford Morrow (ed.); Conjunctions 52:  Betwixt the Between; Conjunctions 53:  Hybrid Histories (magazine/anthology)

Tamar Yellin, Tales of the Ten Lost Tribes (collection)

Tobias Buckell, Tides from the New Worlds (collection)

Peter Beagle, We Never Talk About My Brother (collection)

Jonathan Littell, The Kindly Ones (semi-historical novel; translated fiction)

Yuri Andrukhovych, The Moscoviad (translated fiction)

Sarah Monette, Corambis (fantasy)

Mark Newton, Nights of Villjamur (debut novel)

Nick Gevers and Jay Lake (eds.), Other Earths (anthology)

Patrick Ness, The Ask and the Answer (YA)

Kay Kenyon, City Without End (SF)

Dan Simmons, Drood (horror; historical novel)

Ann and Jeff VanderMeer (eds.), Best American Fantasy 2 (anthology)

Jonathan Strahan (ed.), Eclipse Three (anthology)

James Morrow, Shambling Towards Hiroshima (novella)

Felix Gilman, Gears of the City (fantasy)

Peter Brett, The Warded Man (fantasy)

Richard Morgan, The Steel Remains (fantasy)